quinta-feira, 13 de abril de 2017

A pimenta


Picou-me a língua e em seguida seguiu seu rumo, universo digestivo adentro, afoita, parecendo que veio a estar ali em completo acaso, não parando sequer para perguntar se era bem vinda, se foi mordida, se foi espetada, se foi fatiada, se foi engolida inteira. Assim se transforma um tempero que parece ter vida própria tal a sua galhardia e petulância. Este condimento com múltiplas metamorfoses - da panela e da semântica – se remete a ser muitas coisas, além de salpicar a saliva de muitos, além de ter uma cor berrante e um formato célebre que vilipendia e debocha da metáfora.

Linda, vibrante e atrevida, vem sempre fantasiada de pote de mágoa maldoso para temperar uma comida, e, quem não souber o que aquela peça especifica tem de ardor, pode errar a dose e deste jeito bem singular arruinar os segredos da mesa farta, colocar em fogo a boca de muitos ou fazer regurgitar quem com ela não tem intimidade. Ela é assim, intempestiva ao chegar, alarmante ao se mostrar e fatal ao paladar de quem não lhe teme, melhor dizendo, quem não lhe conhece a fundo.

Ela fica bem em qualquer circunstância, espetada em um garfo pronta para o abate, largadas languidamente em uma tábua se oferecendo com paixão aos seus consumidores, se jogando junto a outros ingredientes, mas sempre querendo liderar a disputa do paladar, ser a estrela dos comes e bebes, ser a lembrança – com certeza! – em todas as línguas e ser motivo de lágrimas vertidas por sua conta e risco, além - é claro – da sede que acomete seu admirador.

Mas, quem não lhe conhece direito, não adere aos seus ardis apimentados, não suporta seu cheiro na comida, não aguenta sua interferência entre outras especiarias, saca seu desempenho com outra serventia. Talvez a cor vermelha ative o cérebro para instâncias mais quentes fora da mesa de jantar, o ardor que transita em sua textura sugere alguma mudança, e por fim, a sua fama em apimentar sentimentos, sensações, comportamentos e o que mais de infernal houver, ali está ela com uma personalidade dupla, pronta para ser.

terça-feira, 11 de abril de 2017

A dança


A saia rodada inspirava uma dança qualquer, um rodopiar desconexo, sem música, um vai e vem de passadas que, por demais gastas de arrastar chinelas, se descalçaram e agora viraram apenas pés nus, aproveitando qualquer chão, deixando entrever muito pouco do movimento que ajeita os pensamentos de liberdade, de colocar em polvorosa o corpo e tudo o mais que lhe habita.

No compasso, um ritmo silencioso e transparente que se entrega à natureza clamando para que venha fazer parte desta cena fortuita e cheia de mistérios, de enlaces bem costurados, de olhares fechados, de vestes roçagantes e peito aberto. No descampado, se realizam todas as cadências de uma terra solitária, sem o arroubo de carmines, com um céu em conluio com o alvoroço dos ventos e cores lúgubres que acolhem a dançarina que se arremete e chama para si a maestria da natureza a lhe fazer companhia.

A fronte se esconde desatenta do entorno e apenas a lógica do movimento acelera o tempo que se prevê casual na transparência da roda da saia de múltiplas camadas, antecedendo um levíssimo modo de baile.

A natureza, cheia de personalidade agreste, emoldura a cena, meneando com finura os tules, os brocados, os laços de fita agitando demais o figurino, que sutil conspira para jazer em roda velada a cabeleira, que encobre o rosto silente que ali se encontra apenas para se transformar em acompanhante do modelito franjado que lhe espreme a cintura.

É nesta hora que a dança interna acontece. As ideias rodopiam e se acumulam uma sobre a outra em delicadas camadas de assunto, tendo como moldura o cenário que exibe uma palheta de cores criada para não distrair.

segunda-feira, 10 de abril de 2017




Seria bom pensar que este tempo que anda mais organizado e para muitos, silencioso, que o corpo se voltasse a práticas menos densas, com uma ginga suave que balance os minutos sem sofreguidão, que pareça que as horas sagradas do dia se estabeleçam com perfeição engatilhando os segundos que passam com as tarefas que se tem pela frente. Tudo em um ritmo abençoado de recolhimento, como manda a cartilha divina.

No entrevero do dia, um olhar para dentro de si, buscando enxergar o que ninguém vê e, talvez, nem o próprio dono da alma que após a virada de chave na vida, anda molenga, um pouco sem serventia aparente, curtindo o estágio de ensimesmar-se para depois da experiência projetar ao mundo estórias pouco contadas, frases sem efeito e com resultado difícil desalentando quem busca o entendimento por si só.

Aquietar o pensamento se torna tarefa hercúlea porque, aparentemente, ele se encontra com a mudez do tempo presente e, mancomunados se enlaçam e se calam. Ninguém pode ouvir o que não está sendo dito, e assim a função de elevar apenas o pensamento ao infinito acontece de maneira lúdica trazendo para o ambiente apenas a oração, que se desprende do íntimo, tornando-se uma substância em si.

Entende-se este tempo, que termina logo ali, como um período de natureza purificadora onde o simbolismo se movimenta através da reza, do fechar de olhos, da percepção da magia, da fumaça etérea, do significado de recolher-se em contemplação aspirando essências milagrosas. Um gesto simplório de apequenar-se frente ao tamanho da história dos mundos e da fé.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Prisão


Os grilhões são imperceptíveis a olho nu e quiçá se lhe fincar uma visão mais inquisidora, uma busca com mais detalhe desta que pode ser apenas uma sensação e que, independente do olhar que se faz refém de si mesmo, ou das circunstâncias, sente na pele o furor dos grilhões, das algemas, aldravas, pregos e parafusos que parecem reais, mas na verdade simulam com maestria os sentimentos. Os aprisionados nas masmorras da vida sangram em seus cárceres privados mesmo que em desaviso, mesmo que não possuam a percepção de haver sucumbido ao chamado de tantos, e muitos, neste mundo de população com perfil de algoz.

Os calabouços de uma existência estão todas por ai, soltas e com certo chamariz para quem se aprouver de instar em tantas esferas que não lhe apetecem de fato, mas que, por tantos motivos, lhe sugerem que este é o melhor caminho. Cegamente se trilha então, os modos de vida aparentes que são tão ordinários a todos que fica difícil mesmo não acreditar que existem outros modos perfeitos de se levar a vida.

Não brota em nenhum momento à cachola entreverada de assuntos, seja qual for que existe, sim, uma aldrava que tem em si o desempenho de ser alvissareira, de ter em sua montagem um segredo de liberdade, uma maneira sutil de permitir que assim que aprouver ao prisioneiro, conquistará sua liberdade.

E então quem sabe voltar um pouco àquelas ideias de ter um arbítrio para os próximos passos, uma atitude que se confunda com certa essência de ser em si, um desejo de se tornar alguém que de fato exista para os outros e não este fantasma que paira solitário na vida, refém de um passado e que de certa forma se conceba no limbo da duvida.

E se desse para compreender que seria possível tornar-se um motivo ao invés de ser apenas um pulo, uma ponte, um qualquer, que sirva de investida para que tantos outros se instalem em algum espaço, ou em outro lado, ou outro viés. Murmúrios de um xilindró que não possui de enlaça, muro, cerca ou qualquer tipo de impedimento para andar na vida em frente.

sexta-feira, 31 de março de 2017

A concha acústica


Ninguém na beira do mar neste dia, em meio de semana outonal, neste lugar ermo, porém cheio de movimento e assim a caminhada se anuncia em uma pista deserta, límpida. Ela, com seus segredos, suprem o peito do vazio que somente a natureza pode proporcionar e, acreditem, alimentar, assim como um vácuo que se auto preenche, porque muda a cada minuto de feição. Portanto, a paisagem que em um momento surge diante dos olhos calada, reaparece em seguida em grande prontidão.

E foi deste jeito animoso em uma borda litorânea - que pouco a pouco retoma sua rotina e permite que apenas bichos ocupem o patamar das ondas - que ela se jogou aos meus pés, intacta, linda, úmida de sal marinho com um colorido esmaecido em sépia que confere as suas rastejadas no fundo do mar, perfeita em todo o seu desenho e sublime como obra da natureza que é regida pelo universo maior. Veio mansamente embalada pelas ondas encrespadas e profundas em espuma e assim, lindamente, se depôs ao rés da areia, disposta ao mundo.

De pronto, sua beleza emociona e não se tem olhar suficiente para esquadrinhar cada linha que compõe sua estrutura aparentemente frágil, desenhada com toda a certeza para quem tiver a graça de recolhê-la nestas paragens mais habitadas e assim, possa ter a experiência de escutar em seu côncavo todos os seus segredos.

Fico assim, talvez um pouco sonhadora, pensando no que eu gostaria de ouvir dela que vem de viagem, que abriu o seu ser liberando a vida que lhe habitava e que agora se encontra sozinha a vagar por ai, talvez um pouco perdida porque o seu intimo se foi e um espaço se abre em seu interior, com um fundo de uma joia de madrepérola. Surge ali diante dos meus olhos, sem porosidade alguma, um berço escorregadio, brilhante e refratário a tristezas.

O design que a qualifica a usufruir o status de obra de arte em que a mão humana sequer depôs seus dedos, oferece a serventia de se utilizar o artefato como um meio para ouvir todas as algazarras do oceano ao se afastar um pouco dele. Um jeito mágico de carregar os rumorosos ataques do mar, quem sabe captar algumas vozes remotas, algum pedido de perdão pela ausência, uma solicitação de mais cuidado, um alô atemporal, um pedido de socorro. Agora, esvaziada, a concha acústica nascida nas profundezas do mar se joga na praia a procura de outra história.


quarta-feira, 29 de março de 2017

A isca


Uma isca tem muitos perfis, mas se engana quem tem em seu primeiro pensamento aquele bichinho de beira de praia pendurado meio vivo meio morto em um anzol, sendo sacrificado para ser engolido por seu predador, que em outra instância se torna alimento. Mas de cara com a realidade e um olhar mais profundo verifica-se que todos somos minhocas, de certo modo, variando apenas quem empunha a carretilha. Este sim, o verdadeiro predador.

As potencialidades que se encontram enfileiradas na prateleira do mercado são chamariz de alta performance, com uma exposição sem precedentes e, assim, conforme intenções de quem lhe avista poderá se tornar uma isca em potencial, sem a menor consciência do que ocorre por detrás dos panos.

E assim, como não quer nada, vão aparecendo solicitações muito atrativas, que podem possibilitar ao incauto um engordamento das burras, para ficar no patamar mais baixo, ou, quem sabe, a outra ilusão chamada prestígio, este um verdadeiro elixir para quem de outras opiniões vive. Pode também parecer que a solicitação venha intencionada para fazer daquela pesca metafórica seu algoz, seu trunfo, frente à obrigatoriedade de escolha em um jogo de cartas marcadas.

Mas não para por ai o achaque das carretilhas mercadológicas que, em não se satisfazendo com o que se apresenta de verdadeiro, cria algumas arapucas, para que o foco em questão seja seduzido por uma proposta que aparece com perna de anão, sem muito dizer, mas muito a ensejar. Verdadeiros corredores de exímios garimpeiros de talentos focado em fazer um chamariz para quem é de tempos de outra vida, menos atentos, mais simplórios, menos avisados ou porque não dizer, cegos ao anzol sorrateiro que lhe é lançado.

A vida dos devoradores de iscas humanas que se arvoram com carretilhas engatilhadas no mundo real segue com audácia na busca da escolha imperfeita entre muitos. Uns, mais prevenidos, se esquivam da linha lançada com eximia precisão no mar de habilidades escapando assim da pesca predatória que não lê nas entrelinhas as vantagens de se acercar de talentos reais. O leilão acaba.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Outono


Acho que ele chegou de repente, mesmo sendo esperado por muitos, anunciado por outros tantos. A friagem nos pés se anunciou há tempos, nas caminhadas na beira do mar provando a textura da areia que viceja sem resíduos por um longo percurso, onde os pássaros voltaram a frequentar porque na temporada, fogem como o Diabo da Cruz e lá se vão para locais mais calmos e aprazíveis. A bicharada da terra ainda anda ressabiada e oculta, talvez aguardando a certeza de que o calor e a invasão estão mesmo em uma distância de dez meses, contando de agora até a roda do vale tudo começar a girar.

Agora, faz parte da turma do “Ano Todo” a massa que nem bem acordou rola as chinelas até a beira do mar, não importando a distância que os separa pois o importante é enxergar no oceano, os prenúncios para o dia, sentir no rosto as vergastadas do nordestão ou o vento gelado do sul porque por aqui  é quase sempre um ou outro. Na volta, a passada na padaria e entre bocejos chega ao fim a primeira garrafa de mate e com ele a companhia é sempre farta e a conversa também. Mesmo assim o tempo vai correndo nos ponteiros de maneira equilibrada e real, com ninguém dando salto mortal para chegar em lugar algum, porque tudo agora já está assentado na sua devida cancha. O tempo aqui anda no ritmo dele próprio, bem como tem de ser.

O silêncio se refestela na cidade e presenteia os ouvidos agradando a todos que sorriem cinicamente ao constatar a alforria do ritmo desequilibrado. Agora fica fácil dar asas à imaginação para qualquer trabalho que se for executar, porque com as horas marcadas precisamente é possível retirar da cachola muitas novas ideias, abrir espaço para as impagáveis conversas consigo próprio, mesmo as mais tolas. Estas são o oxigênio para os diálogos elaborados que deverão nascer no decorrer da semana.

Os jardins, que por alguns meses estarão órfãos dos seus donos, sentirão a leveza das duas estações que fazem fila para serem eleitas as melhores do ano no quesito Morador de Praia.


sábado, 25 de março de 2017

Forja


Tudo começa com o antigo, com o tempo remoto dando as caras nesta atividade que tem como premissa muitas atenuantes, todas também limadas no ocorrido, qualidade rara em tempos em que materiais e sua produção final já nascem com hora certa de descarte, com uma sina fatídica de nem bem chegar ao destino e tudo o que lhe deve prender se afrouxa, se desfaz, se esfarela, se decompõe e o lixo fica sendo o principal destino.

A fundição já nasce imortal pelo motivo simplório de ter em seu cerne a missão de se ajuntar com tantos outros materiais, que formarão a alquimia escolhida a dedo pelo artista, ratificando assim a liga de juramento para que, agora, a partir da cabeça pensante que emerge do calor do fogo, se crie a peça resistente a todo tipo de ataque. Sua destruição não tem no horizonte uma data, mas sim um renascimento, porque na sua perdição por qualquer motivo  poderá voltar ao forno, à bigorna e então renascer com outro formato, outra precisão, outro contrato de vida. Se isto não ocorrer, deverá vagar pelos campos da vida de certo modo sem dono, ralando suas formas, mas jamais desistindo de ser.

A criação de um item dá seu primeiro sinal de vida em um molde que decide para o quê servirá o objeto e assim vem com uma descrição de sua serventia que somente o seu criador a conhecerá. Na labuta de tornar realidade o que imaginou se junte à fundição todos os fiapos de sonhos do seu mentor, se entrelacem suas dúvidas, seus medos e sua urgente expectativa para ver sua obra finalizada e entregue ao mercado, ou quem sabe a algum dono já destinado.

Não vale aqui falar da surra que as ligas sofrem para se tornarem peças importantes, objetos que irão incorporar todo o tipo de personalidade valendo ressaltar que nenhuma terá seu surgimento como sendo descartável, ou de menor sentido, ou ainda sem ter em si impressa uma alma, um santo, uma autoridade, um líder, uma feição. Os artefatos nascem com a liberdade de forma já impressa e o acabamento e a precisão dá luz aos seus maiores dons.

Assim as ligas de metais diferentes se unem através de um artesão que entende da alquimia do ferro, do fogo, da forja, do modelo e da liberdade de entrar em ação tantas marteladas quantas forem necessárias para que nasça desta resistência uma peça longeva, repleta de ferrolhos, aldravas, pregos e cravos que virão assim fortalecer o que a efemeridade tenta impedir.

quinta-feira, 23 de março de 2017

São Jorge


Nasceu predestinado a ser guerreiro e por este motivo caiu em sua graça quem necessitava ter um arrimo de confiança na vida, quem precisava ter um rol farto de orações encadeadas para o tempo de aperto, de desespero, de posição assertiva frente ao perigo, fosse qual fosse. O seu fã-clube foi aumentando à medida que o mundo se perdeu em si mesmo, se repartiu em guerras, se acomodou em outras tantas esferas, se retraiu em alguns aspectos e se apoderou de tantos outros credos e usurpou tantos outros pontos.

Seria de bom tom começar pela sua armadura, que para os dias de hoje surge com uma imponência metafórica que tem em sua essência todos os componentes necessários para vestir a mente que se ajusta a novos tempos, a outras quimeras, a outros estados de espírito, a agressões em paragens inimagináveis e delírios sobre o mal e o bem. As armas do santo, aparentemente, perderam valor em sua forma física, porém, na contrapartida, a defesa migrou para cabeças pensantes, articuladas no seu viés, determinadas em sua compostura e certeiras em seu diagnóstico. 

As armas empunhadas pelo Santo se travestem para os comuns de hoje em dia como uma voz, que transforma o artefato de briga medieval em força da oração para a defesa que insistente se insere na vida cotidiana. Se não mais há dragões a matar, estes se travestiram de grandes questões humanitárias a considerar uma defesa contundente.

A corrida não é menos importante e talvez seja mais acirrada uma vez que não se trata de animais que defendem cavernas e que estão à espreita, mas sim, mentes que se aguçam na busca de fazer o mal, de se imiscuir no campo dos bons semeando as farpas da dor, do infortúnio e do descaso. A morte aqui não é considerada uma vez que ela, por ser a única certeza, não possui porta voz.

A todos os orantes que se devotam ao Santo como única alternativa para seus males, que se regozijem porque certamente São Jorge, grande mito, escuta e acolhe quem lhe brada por socorro. Amém.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Âncoras


Ficar de cara com estes dois instrumentos que reza a lenda servem para segurar a vida no fundo de aquíferos, uns mais poderosos outros menos, não tem outra serventia a não ser voltar atrás para pensar nos tantos mares navegados e grandezas em que as âncoras foram lançadas, e por ali ficaram enterradas, sem a menor chance de serem içadas para seguir a navegação da vida, cruzar águas doces, salobras, salgadas, tormentosas ou calmas, quem vai saber.

Trazê-las à tona estabelece uma interlocução no tombadilho da rotina e assim urge raspar com impertinência sua cracas. Limar suas partes podres, alisar a textura que aparece desregrada e que somente existiu para lhe suportar, para segurar seus caminhos em um canto escolhido ou não. Talvez haja vida grudada ali e sequer insuspeita, sendo um pouco difícil livrar-se desta história que ficou submersa e calada, mas andando a par e par.

Encostadas no muro de pedra se encontram cruzadas levemente uma na outra, com as correntes lhe enlaçando com aparente leviandade, deixando escorrer por entre as pedras uma ferrugem, que sem ter muito para onde ir, se grudou ali, deixando o local com um toque visceral, uma vez que ressurgiu das profundezas. De repente, parece que também ali se assentam há um tempinho, pelo menos o suficiente, para derramar algumas de suas tantas seivas acumuladas.

Pode ser até que neste período tenha absorvido através das correntes fatos que aconteceram na vida da superfície e que submergiram até a base, talvez por não suportar a realidade ou por não ter mais saída para o sofrimento e a angústia. Quem sabe o peso das âncoras começou a ser sentido não como um arrimo que é seu objetivo, mas como uma força que obriga a estagnação, que prende os passos, que desvirtua os desejos de seguir em frente, de renovar o cais, de atracar em outros portos ao invés de se ater a um jeito somente de viver.

Aparentemente, estes artefatos, que servem para estabilizar, desistiram e emergiram após verificar que os acontecimentos no convés escorregavam por sobre as amarras, acabando com as chances de vislumbre de um destino pensado.

sábado, 18 de março de 2017

Duas


Pensei por um momento haver ressurgido de algum lugar em que houvera sido escondida, porque defrontei no espelho duas, que, contrastadas, seriam de certa forma ambivalentes, como se ali não houvesse uma divisão que não se possa entender quais seriam. O certo é que com um olhar atravessado, disforme e límpido, surge certa dualidade do foco que se perde na paisagem longínqua, que se estica procurando nada, que reflete o pensamento desperdiçado, que se contradiz em tantos rostos na busca incessante do seu próprio e definitivo.

A vista que ora se impõe é certeira, porque tem o filtro da vida liquida a transparência do vidro, material frágil que constitui dureza e transparência que fragiliza e multiplica a imagem de maneira desconcertante, fazendo com que a figura role pelo mundo sem nenhum avatar que o proteja dos demais e muito menos de si mesmo.

A cada anoitecer, esta face transmite figuras irreverentes que sugerem cores várias, que se perfuma de irreais fragrâncias, que se embroma junto à noite como se fosse uma ilusão derradeira, que busca socorro na escuridão do céu, nos incensos, nos lábios fechados porque graça não encontra ou vai ver que o riso se foi para não voltar. Ali existe o olhar preciso que amortece a tristeza da alma, que sugere redenção ao noturno circundante, que agradece o afloramento de múltiplas escolhas não deixando duvidas que este retrovisor acuse uma variedade de opções para espelhar-se. Seguir os ritos da imagem deixa entrever que de certa forma tudo faz parte de uma quimera, de um modo de renascer diferente, quem sabe seja apenas retrato do que é, do que se propõe, de se alternar em tantas ou tão poucas.

A realidade se acomoda em um patamar inalcançável para assim se esvair nas imagens que ora são fluídas e que transcendem a própria alma com este olhar duplo, envidraçado que ora denuncia, ora rende. Fica de pronto sob suspeição de transmudar como o retrato de um intimo. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Gaúcho praieiro


A costa bordeja por tantos lugares quantos a geografia lhe assoma, não sem antes ter lhe marcado como sendo uma faixa tão extensa que os olhos não alcançam em nenhum ponto. Quase sempre amanhece brumosa demonstrando certa preguiça em acordar para o mundo que às vezes está mais populoso e em outras, deserto. Mas ao mar não lhe traz a menor preocupação se vai ser um dia repleto de banhistas, cuida, isso, sim, de brincar com suas águas que estão à mercê dos ventos e vai daí que revolve suas profundidades ao seu bel prazer fazendo história a cada amanhecer. E o povo então vai lidando com as águas turvas, as nem tanto, as raras cristalinas, as mães d’água nas também raras águas mais quentes.

E é de praxe em suas beiradas baixar o olho em suas ondas parecendo a cor do chocolate preto e branco com sua crista em espuma alva e seu dorso escuro, disfarçando na brincadeira para quem pensa em se banhar e se vê surpreendido. É esta população que se joga às cegas no veraneio sem perceber nenhum detalhe que torna esta costa tão única, tão surpreendente e zombeteira.

E assim a gauchada começa a trilhar desde cedo do dia as calçadas dos vilarejos praianos do sul do Brasil, arrastando suas havaianas, puxando seus mequetrefes, levando no ombro a indefectível sacola térmica com a “ceva”, a criançada, os idosos, a cachorrada, o lanche, a toalha e o chimarrão. Ah, o amargo que dança em todas as bocas, que ferve a cabeça embaixo do sol serve para demonstrar o quanto este povo é guerreiro. Este quadro compõe o veranista gaúcho que, diga-se de passagem, responde muito bem a todos os desafios deste litoral norte.

E então se acomodam a bancada familiar à beira do mar, que por coincidência no dia de hoje refletem em suas areias uma fuligem que se foram ao mar após grande incêndio nas matas da redondeza. E não para por ai as inusitadas situações que o esmerado veranista aprende a usufruir como, por exemplo, o vento nordestão que arranca as cangas, os guarda-sóis, a erva do chimarrão, o chapéu da velharada, mas de certo não tira a paciência do dito cujo. O mar? ora, maravilhoso, mesmo modorrento, cheirando a algas, revoltoso, buraquento, gelado, com águas-vivas, com sinal de morte se entrar. Nada, mas nada mesmo o impedirá de sentar-se às margens deste indomável oceano sulista e aproveitar.

O Avesso de Vanisa

  O dia amanheceu quente, com um sol quase a pino já na madrugada, acordando tudo o que a natureza deu vida. O morno do dia deixou os aldeõe...