sábado, 24 de abril de 2010

Realidade




A realidade me chama a toda hora mas nem toda hora quero vê-la, sequer conversar.

São muitos os assuntos e ela me puxa as orelhas desta vez e é sentindo o bafão na nuca dos fatos em revista, que me lanço no alfabeto.

Tomara que ele me ajude a exorcizar esta missão de letras compostas que poderão me maldizer por aí.

São histórias acenadas por tantos como eu metidos a confinar em verbos suas opiniões. Não será diferente comigo e então, vamos lá ver o que estas mulheres estão me assoprando sem parar.

Mulheres limitadas em um só ideal e este parece, terá de ser para sempre. Ou quase. Não são poucas as que vejo sem um horizonte diferente do seu par não conseguindo se enxergar sozinha sem o distinto. E este, ai meu deus, pode ser qualquer um. Melhor que seja, pois assim não precisará pensar em fugir, nem vislumbrar novas cenas, acontecimentos inesperados, contornos jamais vistos.

Preferível ser um “imediato” em prontidão buscando alhures todas as desculpas que consolidam sua frágil confiança, servindo apenas para responder a si mesmas. Um ofuscamento em dupla pode solapar uma vida. Ou muitas.

Sem liberdade de ser única. Ser de si para si.

As mulheres são as tais para levar um conjunto no arresto, mesmo que não pareça de imediato que este seja o ideal. Não tem porem, o gênero feminino é da luta do grupo, é da ânsia do ter todos em um, mesmo que o apinhado não seja dos mais ditosos. Não importa se é bom ou ruim. É o que elas têm. E isso basta.

Muitas mulheres são famintas do alimento que as empobrece
.


Salto alto



Não vivemos sem dor e eu acredito que as dores são do bem.

Mais não seja....

A dor pode ser bacana se estiver concentrada num procedimento de beleza. Depois disso estarei bela em forma ou sei lá o quê mais. Tudo se faz pela dor do belo.

Também o treino dos músculos como se fossemos trabalhar no porto carregando navios, nos deixa acabadas, é uma dor bem quista. Previne doenças, te deixa forte e ágil.

Uma guria.

Na cabeleira, a chapinha fervente te pela o couro cabeludo, mas depois da dor, madeixas lisas esvoaçantes são o desvario das hordas femininas escravas da moda.

Nos pés, saltos altíssimos equilibram o corpo mas não o cérebro, que aliás não consegue ponderar nada naquelas alturas. Bom, nem é preciso do pensamento uma vez que nesta hora a figura é que conta. Também não preciso das falas, apenas das panturilhas malhadas e dos dentes impecáveis clareados a laser. Imagem é tudo!

No corpicho a roupa mais apertada. O jeans deverá servir somente se a dita fechar o zíper deitada. Deste jeito está ótimo. Se não, tá fora. Vale uma legging maldita demonstrando a todos as curvas nem sempre bacanas das moças. E lá vamos nós assistir o desfile que não nos apetece.

A dor traz felicidade. Pois não é?


domingo, 18 de abril de 2010

Palavras





Inócuas, muitas vezes, mas sempre tão o tom. A nuance de todas ditas ensombrece ou ilumina nossa intenção ao proferi-las. O som do vocábulo nos impulsiona a buscar na inteligência significados, para explicar, esclarecer ou contar alguma coisa.

Uma questão de sobrevivência abrir o verbo e largar em tantas direções. Lá se vão aos gorgulhos bafejar o ouvido de alguém ou ferir os olhos aflitos que conferem um texto. Próximos ou distantes o alvo da nossa expressão será atingido. Podem ser letrinhas primorosamente digitadas ou falas arrancadas de lábios amorosos ou raivosos, todas tem destino certo.
Comunicar é a nossa intenção.

Mas, as palavras se confundem no meio das emoções que podem ser desencontradas, inadequadas para o momento ou simplesmente, sem valor a quem vá ouvir ou ler. Podem ser difíceis de serem entendidas, e nossa intenção vira conversa de louco, um dizendo uma coisa e outro entendendo outra.

Um vai e vem de emoções e letras que se desencontram e saltam em todas as direções como dardos ferinos. Ferimentos de palavras são incuráveis. Você disse.


Cegueira




Ficamos cegos de raiva ou de amor. Extremos da visão e do afeto que nos impossibilita enxergarmos o que está em frente.Não é prerrogativa de uns e outros.
É de todo mundo.

Levantamos a cabeça para olhar o que nos passa na frente e só vemos o que se passa em nossa alma. O alheio continuará escondido uma vez que no excesso vemos a nós mesmos.

Esta ausência de entender vai arrastando corações ao abismo. Ao fundo do nada, sem esperança de retorno.

E seguimos desvairados pela ausência de convicção e coragem de ver o que vem do outro.

Blindados para olhar o novo, lambidos pelo passado ruidoso desmoronando no presente. Justo agora.


domingo, 4 de abril de 2010

Solidão entre tantos






Em grupos, amarrados entre si em um grande fardo, eles vão seguindo a vida. Parece que não podem viver sem estar juntos, mesmo que este amontoamento provoque uma fenda em si, um sofrimento, uma melancolia. Não saber para onde ir, de tanto andar para o mesmo lugar e com o mesmo eco, perdendo o pensamento próprio, a coragem e todas as oportunidades.

Assim é.

A solidão avassaladora de quem está sempre reunido em tantos. E de tanta conversa ao redor, sequer poder ouvir a si mesmo ou a voz sábia do isolamento que chama angustiada e premente de uma atenção.

Ficar só é fundamental para ver-se a si e, principalmente, aos outros.

A solidão animada e contente faz a farra na vida de quem a sabe conduzir. Os diálogos internos são intensos e proveitosos assim como toda companhia vem e passa, deixando um rastro de ensinamentos e muitas idéias a serem pensadas.

Criar laços profundos e perceptivos com nossa essência faz o caminho de quem pensa, um destino construído.

domingo, 21 de março de 2010

O 5s da vida





O programa 5s é famoso no meio empresarial, mas acho até que anda meio cafona. Pelo menos parece, porque é dado como certo que todos temos que ter hoje em dia um senso comum de total organização e se não for assim o descarte é garantido. Carta fora do baralho.


Ando aplicando estas regrinhas de ouro, que remexem todas as entranhas. De mim para mim e do resto. Do restolho.

Sigo pensando em tudo o que não presta mais e ainda está aqui por perto. Um amor, um objeto, um amigo, uma situação. Todos empoleirados na minha aura, se amontoando na minha volta e pesando a lombar. Parei e decidi o que é inútil. Joguei fora com vontade porque este caminho liberado irá trazer novas e boas coisas.

Ordenei com veemência meus pensamentos e lancei um mantra na cachola que vai liquidando com os ditos inúteis, estéreis e infelizes. Nada de miolo mole, vagando aforismos para lá e cá. Focada, me apresento.

Expurguei as fantasias que sei, estavam fadadas ao fracasso. Limpa, sem peso morto, vou discernir melhor minhas opções. Mente cristalina, enxergando o fundo me conduz ao meu melhor.

Alimento meu corpo assim como minha mente. Só com ingredientes que me darão força para correr. Sigo em harmonia ensaiando passos de dança enquanto a vida toda flui.

Organizar e liberar, um segredo

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Parafusos soltos



Parafusos largados, perdidos na beira da estrada como se inúteis sempre fossem, são a surpresa do ciclista do asfalto.Topar com os metais que outrora tiveram serventia para formar alguma engrenagem importante, faz pensar. Eles são de vários tamanhos e enferrujados, alguns solitários, outros acompanhados de porcas enroscadas na sua estrutura. Feitos um para o outro.

Pode ter sido um elemento importante na segurança dos freios do carro e vou imaginando como esse veículo irá se comportar sem aquele suporte. Será que ficará como nós, que às vezes desenfreados tomamos decisões alopradas com falta de senso de comedimento que deveria nortear nossas atitudes? Aproveitamos que algo está errado na engrenagem e seguimos em frente patrolando tudo. Ao invés de fazer stop em cada esquina, seguimos em roleta russa da vida. Às vezes, é bem bom.

E se o parafuso for do tanque de gasolina e agora todo o combustível se foi e brecamos em qualquer capão? Penso que esta ferragem perdida é semelhante ao nosso estado de espírito ao nos sentirmos esvaziados de sentimentos em nossa alma, perdida e cansada de tantas tentativas. Ficar desprovida dos anseios, por um tempo, fará com que a renovação das emoções se transforme em outra aventura. Esvaziar-se, trará a cura, certamente.

Se o artefato participou da estrutura de prender os faróis na direção correta, já podemos prever que estas luzes não irão iluminar o caminho. Como o ser humano, que anda às escuras para aprender a se orientar, pois não há garantia de se conhecer todos as passagens. A luz irá se fazendo na opção da feitura do nosso destino. Luzes fabricadas pelo nosso desejo de chegar.

E se o objeto que agora jaz abandonado sofrendo dos ventos e fumaças de estradas intermináveis, era quem prendia o ar condicionado do veículo? Poderemos supor que agora vai circular sofrendo de todos os calores da natureza e de sua própria mente e corpo. Implacável e infernal, seguir a rota sem refrigeração.

Este componente, no entanto, não afeta mentes alertas que divagam prazerosamente por entre as situações da vida. Sempre condicionadas em apreciar a brisa, mesmo no sufoco, vêem saída. Almas aquietadas vão fazendo o seu caminho com seus próprios ares.


domingo, 21 de fevereiro de 2010

Homens off




A galera masculina “off” é pra lá de inusitada, pois, pensam eles que já mataram o seu leão da vida.

Este cara é o avesso das mulheres do mesmo naipe que tem na liberdade e independência seu fundamento. Estar em sintonia com o universo, acalmar-se dentro do seu tempo, não é tarefa para esta turba.

Por ter encerrado as conquistas exigidas pela sociedade, orgulhoso traz na coleira esposa e filhos e uma vidinha enquadrada no dia a dia bem tradicional com familião no arresto. Preconceituoso e conservador, homens “off” tem vesgos olhos para a galera libertária.

Completos, os “off” seguem a vida sem olhar muito no entorno. A vida anda em ritmo ditado pela rotina imposta de sábados dedicados ao futebolzinho e cervejada com amigos. Esta agenda, é precedida de uma segunda feira de canastra, uma quarta de jantar de negócios e na sexta, ora, na sexta um happy hour com os colegas do escritório.

Sobrou o domingo que já começa com chimarrão em algum parque da cidade. Necessário levar os filhos na indiada. Na mira, almoço de familião providenciado pelas esposas, boas donas de casa, com barriga na pia e olhos para os quitutes que serão o deleite do macho, mas, também alvo de críticas, pois há que se controlar o peso. Enfim, com este homem não se tem saída.

Final de domingo, é claro, futebol na TV, Faustão e cerveja.

Dorme no sofá. Ninguém é de ferro.

Bom, pode haver exceções......


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Códigos


Passei minha infância na Praia de Torres, de onde tenho as mais gratas lembranças de família, de mar e de criança. Minha casa de hoje na praia rescende a cheiros de outrora e também de acontecimentos que em todo momento me fazem voltar tão para trás que fico pensando em que vida me encontro.

Acho que em outra vida, já.

Muitas vezes tonteio tal a força da lembrança e vai daí que me lembrei dos códigos.

Em Torres, tínhamos uma casa de frente para o mar com varandão e a maresia acompanhava meu nariz em todas as cenas.

Os códigos começaram quando algumas crianças passavam de bicicleta pela nossa calçada e eram atingidas pela água de nossas “bixiguinhas” travessas. Claro que pararam as corridas por ali e a partir deste tempo nossas correrias na quadra era de todas juntas. Código aceito, turminha formada para o resto da vida.

Minha mãe nos deixava ir ao mar de tardezinha e estabeleceu um código: ao pendurar uma toalha branca na varanda, tínhamos que voltar. Eu, magrelinha, nem havia entrado no mar já me via louca de frio e de olho na toalha para poder retornar. Engraçado, para mim, estar refugiada, alguém me chamar, voltar para meu canto já era fundamental.

Liberdade vigiada, diríamos hoje. Até hoje eu a pratico de mim para mim.

Mas os códigos continuaram também acontecendo, mais não seja por ser dada a delírios e inspirações tomando gosto pela surpresa, pela aventura, para o desafio de me deixar ir destemperada, para depois voltar.

Pois é um código moderno, o SMS, quem vive me surpreendendo. Apenas um “plin” e sempre lá está uma mensagem curta e significativa que me faz voar para algum lado. No pensamento, na resposta criativa ou numa viagem, me jogo do “plin” para um caminho divertido e lúdico que reforça minha tendência de arriscar.

O e-mail acompanha de fato estas viradas, no susto e na expectativa de receber aquele aviso, aquele pensamento, aquele “alô” do distante que aproxima tanto, criando laços reais na confissão dos mais diversos sentimentos. A caixa reveladora de tudo. Dos mistérios às mais irrelevantes conversas.

E de surpresa em surpresa, aqui na minha praia de agora, uma vizinha me joga um código tão meu conhecido ao me dizer que em breve, após estar instalada em sua casa, colocará uma toalha azul na varanda, avisando que ela já está a minha espera, para uma conversa, um chimarrão. Só poderia acontecer comigo esta alegria de reviver, mais uma vez, um código infantil.

Presto muita atenção no detalhe.

São códigos imperdíveis!


domingo, 24 de janeiro de 2010

Natureza




Ele sempre surge dentre o verde. Parece que nasceu por ali, que forjou sua vida entre o sol, a chuva, flores e folhas, tendo-as em sua composição. O ambiente natural lhe cai muito bem porque é desta simplicidade da natureza que sua alma foi feita.

Passo acelerado, cabeça baixa, pensamentos cerrados no que está por vir em seguida. Sempre tem vento a balançar seus cabelos brancos e a brisa forte também o faz franzir o nariz, característica tão peculiar desde sempre em sua feição. Os olhos vão ao longe e voltam ao chão, na espreita ansiosa.

Na boca, um esgar nervoso. E na mente uma interlocução adoidada de si para si, falta-lhe o ar e sufoca-lhe a garganta.

Na fantasia, a emoção de mais um encontro em que muitas e tantas palavras serão ditas e tantos pensamentos saltearão. Ele sabe, porém, que após dizê-las nem em mil anos serão todas faladas. E compreendidas.

No atropelo, tenta pensar direito no que lhe vai no coração volteando argumentos e revelações que transbordam atrapalhadas, desconexas, e em meio a tanto esforço recomeça a pensação. É preciso chegar logo. O resgate desta loucura está próximo e a redenção virá.

As passadas são curtas e rápidas com olhar focado no caminho.

Levanta os olhos ao chegar.

E então, a mente relaxa, o sangue começa a fluir normalmente, o coração se acalma, as mãos param de tremer.

Sorrindo, ele a abraça.


sábado, 9 de janeiro de 2010

Arrivals



É sempre a mesma coisa ao chegar. O ar, denso, pesado de sal e maresia parecem querer te avisar que é chegada a hora do tempo bom. É o momento para dar asas à imaginação, deixar rolar a vida e docemente esquecer tudo.

Tudo mesmo. O bom e o ruim, porque com a mente vazia, enxergamos o que está na nossa frente. As cores diferentes da paisagem, o desconhecido a desfilar insistentemente te provocando como a te avisar que agora vai. Vai andar o tempo certo das coisas. A cadência e o calor são teus sócios na empreitada.

Assim é a chegada diante do mar. Inquieto na espera de lamber todos os pés e molhar todos os corpos. Ardentes ou não. Cansados ou cheios de energia.

A combinação do ar e do clima são drogas pra lá de sedutoras para deixar qualquer um feliz no encontro de si e da natureza. E por dentro de nós não encontramos nada, somente o vazio da chegada e a espera de surpresas.

Afinal, recomeçar exige preparação e abandono do antigo.

As coisas podem acontecer a partir de um dia de sol, ou de chuva, pois todo dia de folga é dia de celebrar.

Talvez alguma conversa sem a menor importância e sentido bafeje teu silêncio voluntário, contaminando as idéias que estão sensatamente a descansar.

As palavras adormecem no regaço do cérebro porque o paraíso solicita

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Socorro sem palavras




Reunir-se em muitos, às vezes, é surreal porque a situação pode trazer em seu bojo armadilhas da linguagem e da atitude que parecem impossíveis de acontecer. Mas acontecem. Bagagens reunidas no absurdo geram interlocução nem sempre claras.

Tudo pode acontecer no paralelo da comunicação de quem não tem coragem de enfrentar a realidade e vai se esquivando dos adventos e arrancadas das nossas relações fraternas e de amor.

A palavra em alta voz fere como dardos se assim o quisermos. E calam tão fundo que jamais vamos esquecer da “imagem” falada. Da palavra dita por acaso com toda intenção de ofender, com todo cuidado de bafejar a falta de educação espalhando a maledicência.

A palavra, sublime, tem dois lados. Famigerado o que as utiliza para o sinistro.

A palavra escrita fere a fogo quem dela não souber se servir. No conjunto então...Ai meu Deus. Nos diálogos a compreensão não é prova concreta de entendimento comum. Cada um entende os fonemas de uma forma e a expectativa da grafia é maravilhosa por tantos estilos e formas de expressão existentes. Despejar a ira ou o amor em frases alonga teu prazer ou tua fúria. Relatar a realidade – sonho e fantasia - é uma arapuca que quase todos nos metemos. Praticamente todos os dias.

A palavra não vista quase sempre abriga a mágoa, e, o destino da mesma, é ferir o outro. Parecer supérflua e vacilante, levemente indiferente, a atitude se consolida através da rejeição programada milimetricamente. Tão definitivas e inaudíveis que põe em choque a quem se referem. Quase sempre conquistam seu objetivo que é demonstrar desprezo.

Mas, preste atenção: ninguém destrói quem tem sensibilidade para perceber, esquecer e perdoar. De repente, fico pensando que em tantas palavras, fiquei eu com saudade do tempo que não vivi: “o sinal de fumaça” dos índios...Chamativo, silencioso, atencioso, objetivo e muito esclarecedor. Socorro sem palavras.


O Avesso de Vanisa

  O dia amanheceu quente, com um sol quase a pino já na madrugada, acordando tudo o que a natureza deu vida. O morno do dia deixou os aldeõe...