domingo, 28 de junho de 2026

Os Dois Mundos de Vanisa

 


A noite escura chegou muito rápido e veio acompanhada por trovões que não deram trégua à vila, que busca bem cedo o descanso merecido da lida da pesca. As redes já estavam enfileiradas para prosseguir no resgate do alimento de todos: os barcos limpos balançavam fortemente frente à ventania, os caniços se dobravam com intensidade, parecendo querer deitar-se na areia revolta tal o laçasso do salitre que se juntara ao vento. Vanisa se preparava para dormir e sabia que ainda era muito cedo, porém, o negrume lá fora a amedrontou. Cheia de ansiedade e vazio no peito, entregou-se.

O sol ia alto quando ela e a vila se recuperaram dos estrondos da noite, correndo todos para suas tarefas. Foi quando ela avistou Lucas, o pescador mais antigo da aldeia, sentado de frente para o mar, com uma agulha de osso costurando passivamente uma das redes. Ao chegar ao seu lado, deu-se conta de que ele sequer havia percebido sua presença. Volta e meia, ele estendia sua vista ao mar, que se encontrava em ondas altíssimas e ventos contrários, encrespando o azul profundo do oceano.

Vanisa sentou-se ao lado do marujo sem dizer uma só palavra porque dentro dela os pensamentos se aglomeravam como se o cenário a autorizasse a agir em sua memória retroativa. Cautelosa, sentia que algumas impressões estavam aflorando; achou melhor puxar conversa. Com a voz trêmula e muito baixa, ela perguntou: o que acontece em um dia com tempo tão bravio que até a natureza do entorno se retrai, parecendo aguardar que algo aconteça ou, pacientemente, assiste seu término. O pescador, calmamente, virou-se, esboçou um sorriso marcado pelo sol e sal, e disse - Aqui estou respeitando o tempo dos mares, que retém os segredos das profundezas.

Como se estivesse sido fulminada por um fragmento de memória ela lembrou vivamente de quando navegava em águas sem fim, embalada por um som grave e profundo vindo do fundo da terra: foi assim que chegou até ela o segredo do silêncio das coisas que não existem mais. Lentamente, apossou-se de uma agulha de osso e, carinhosamente, sem nada falar, começou a imitar o marujo...

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