A noite escura chegou muito rápido e veio acompanhada por trovões que não deram trégua à vila, que busca bem cedo o descanso merecido da lida da pesca. As redes já estavam enfileiradas para prosseguir no resgate do alimento de todos: os barcos limpos balançavam fortemente frente à ventania, os caniços se dobravam com intensidade, parecendo querer deitar-se na areia revolta tal o laçasso do salitre que se juntara ao vento. Vanisa se preparava para dormir e sabia que ainda era muito cedo, porém, o negrume lá fora a amedrontou. Cheia de ansiedade e vazio no peito, entregou-se.
O sol ia alto quando ela e a
vila se recuperaram dos estrondos da noite, correndo todos para suas tarefas.
Foi quando ela avistou Lucas, o pescador mais antigo da aldeia, sentado de
frente para o mar, com uma agulha de osso costurando passivamente uma das redes.
Ao chegar ao seu lado, deu-se conta de que ele sequer havia percebido sua
presença. Volta e meia, ele estendia sua vista ao mar, que se encontrava em ondas
altíssimas e ventos contrários, encrespando o azul profundo do oceano.
Vanisa sentou-se ao lado do
marujo sem dizer uma só palavra porque dentro dela os pensamentos se
aglomeravam como se o cenário a autorizasse a agir em sua memória retroativa. Cautelosa,
sentia que algumas impressões estavam aflorando; achou melhor puxar conversa. Com
a voz trêmula e muito baixa, ela perguntou: o que acontece em um dia com tempo
tão bravio que até a natureza do entorno se retrai, parecendo aguardar que algo
aconteça ou, pacientemente, assiste seu término. O pescador, calmamente,
virou-se, esboçou um sorriso marcado pelo sol e sal, e disse - Aqui estou
respeitando o tempo dos mares, que retém os segredos das profundezas.

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