terça-feira, 23 de junho de 2026

O Caos de Verônica

 


Verônica já havia se ambientado ao espaço que encontrou - e invadiu – para fugir do descarte violento a que foi submetida por mãos desconhecidas. Suas conexões, ao que parece, não estavam funcionando e apenas suas mãos e pernas seguiam em um ritmo razoável. Com paciência e observação entendeu que é através do fio de luz que pulsava dentro do peito de metal que consegue agitar braços e pernas e, talvez, manter uma nesga de raciocínio: nada parecido com o processamento lógico pertinente a uma máquina que estava na linha de montagem.

Lembrou, vagamente, que no dia em que conseguiu montar os equipamentos descartados o sensor de proximidade avisou que algo estava por perto. Virou-se dentro do instinto mecânico de interface e esboçou o cumprimento programado, o que ocasionou a evasão do intruso. O inesperado do acontecido acionou um sentimento de companhia, que a fez considerar que o lugar em que resolveu pousar o caos de si era habitado.

Pensou em catar as folhas soltas do “Manual de Verônica” que estavam espalhadas na pequena sala: algumas rotas, outras amassadas e demais parcialmente queimadas. Sem ter muita noção do motivo, conjeturou que estava farta de se alucinar entre fios, cabos, energia, fibra, metal, sensores e plaquetas. Se até então ela conseguira ter um mínimo de razão e noção do que estava ao seu redor, poderia dispensar minimamente os ditames do maquinário.

Animada com a decisão de se afastar o mais que pudesse de sua estrutura desarranjada, imaginou haver outra maneira de fazer funcionar esta maquina arrepiada de componentes. Ainda estonteada – inclusive pelos pensamentos voláteis – supôs que o solitário e tênue fio de luz condutor - agora fazendo parte de si – a levaria com segurança a descer os degraus da habitação. Com esta atitude lhe será permitido explorar o ambiente que ela já havia captado ser de à beira-mar, de areias finas e claras e uma estepe rodeando a choupana de telhado de zinco.

Lembrou que a câmera de visão apenas transmitia profundidade, luz e forma, portanto, a paisagem à sua frente tinha um mapeamento e modulação de matiz cinzento. Seguiu firme colocando os pés no chão e iniciando a caminhada mambembe, ao redor do pequeno casebre. Segurava-se na cerca que envolvia o terreno, focando com detalhe o contraste da paisagem e a distância. Ao retornar, no primeiro degrau, deparou-se com o que parecia ser o trapo de um revestimento sintético. Surpresa, apanhou o retalho reparando que se tratava de um tipo de vestimenta que a estranha visita havia perdido. Divertida, colocou a peça de pano no pescoço de metal e entrou na sala. Ao erguer os olhos Verônica vislumbrou a janela com fundo de mar verde profundo.

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