quarta-feira, 10 de junho de 2026

O Ponto Final Não Bordado

 


Esta noite eu sonhei com a minha caixa de costuras no tempo de menina-moça me trazendo, tanto as lembranças de imagem quanto as de percepção olfativa e sentimental. O sono logo se fez leve e tenho a convicção de que esta foi a minha chance de aproveitar um momento de fuga do tempo de hoje. Meu despertar aconteceu ao aspirar o delicado perfume do estojo de bordado, confeccionado com as flores secas trançadas, em suave palha aromática. O colorido infantil dava o tom ingênuo da arte de uma era extinta.

Com esta sensação física moldando o meu despertar, ao pular da cama me dirigi a um baú, existente no canto mais escuro do sótão, porque eu imaginava que provavelmente ali a teria depositado. Lembro bem do dia em que me foi concedido caminhar de salto alto, usar uma saia justa e um blazer. Na mesma época fui autorizada a desfazer os cachos do meu longo cabelo infantil. Este dia foi o marco para guardar a caixinha de costura que incluía o bastidor, as linhas, as agulhas, os botões coloridos e pequenas tesouras. Minha mocidade de cores suaves e lindos bordados foi substituída por tecidos austeros, sem o desenho em ponto agulha de suaves borboletas com linha de seda rosa.

Desembaracei com cuidado o pacote em que eu havia embrulhado o tesouro do meu tempo de menina. Linhas de muitos matizes enrolados em grandes e pequenos carretéis estavam organizados no gracioso compartimento que recendia a almíscar, tornando a lembrança ainda mais vívida.

Sentei-me no alpendre com a peça nos joelhos, retirando as delicadas peças ornadas, que um dia estiquei nos bastidores.  Fiquei curiosa por rever os pedaços de linho que na minha inocência preparei, sem haver um desenho programado. Meus olhos inocentes passeavam pelo jardim, ondulando nas flores, borboletas e rouxinóis, imaginando que um ou todos iriam ser retratados nas toalhas da casa. E assim se fez em mim a arte de desenhar com o fio na agulha retratos da natureza; em ponto cruz, ponto atrás, ponto cheio e bordado livre: mas nunca com O Ponto Final.

 

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