domingo, 21 de junho de 2026

A Rede de Pescar Retorna com Vanisa

 


O anoitecer começava a dar as caras. Vanisa estava no jardim recolhendo as ferramentas que havia arrebanhado para cuidar do guanandi, que já florescia lindamente. As verduras da pequena horta se mostravam plenas de brotação, ansiosas para alimentar os moradores do povoado. Neste momento, ela percebeu uma quentura na aragem da noite pairando sobre o chalé. Talvez fosse o sentimento de gratidão que a invadiu ao analisar o lugar que a resgatou, deu morada e comida. Toda noite ela orava pelo pequeno e laborioso povo e entendia: faria o que pudesse para retribuir a graça.

Enquanto pensava sobre este assunto, dirigiu-se ao forno de barro onde os pescados estavam limpos e enfileirados, prontos para a secagem com sal e que seriam armazenados e distribuídos na vila. Ela havia tomado a si a tarefa, primeiramente, para aprender a lidar com o resultado das idas e vindas das embarcações e, em segundo lugar, promover a sua interação nos costumes do povoado.

Acontecia, neste momento, a preparação dos veleiros para a manhã seguinte. Este era o período de congraçamento dos marinheiros que normalmente celebravam a boa pesca do dia, já ansiosos pela próxima. Era uma época em que numerosas espécies singravam a superfície do oceano cumprindo a missão da cadeia alimentar do planeta. No entardecer e apagar das luzes acontecia a mágica da navegação; o marujo conhecedor dos ventos e marés rabiscava seu mapa de localização dos cardumes; o restante se dedicava à limpeza e arrumação de velas, mastros proa e popa. As mulheres, os idosos e as crianças aguardavam a tarefa ser concluída, oferecendo canecas fumegantes de sopa de peixe.

O espirito de Vanisa a cada dia se renovava em coragem, sem que ela soubesse a causa. Imaginou que podiam ser os últimos acontecimentos que estavam calibrando a sua transição, a partir do cristalino das águas no “Aconteceu no Fim do Mundo”. Desceu correndo ao encontro dos marujos pedindo que a levassem rumo às ondas. Os marinheiros desconfiaram da oferta inusitada, mas como a consideravam misteriosa, aceitaram. 

Trajada com um longo vestido de algodão branco e nos ombros o xale de renda oferecido pelas aldeãs, ela acomodou-se na proa que já navegava célere no topo das marolas transparentes do oceano. Com um sorriso infantil escutou o frêmito das nadadeiras e o som habitual do Peixe-Vermelho e Peixe-Canário, que acompanhados pelo eco das bolhas cantantes criaram o acorde que saudava a Princesa.  A comoção tomou conta dos pescadores que assistiam à cena de saudação à mística Vanisa. Com cuidado recolheram a rede de pesca, vazia.

 

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