O anoitecer começava a dar as
caras. Vanisa estava no jardim recolhendo as ferramentas que havia arrebanhado
para cuidar do guanandi, que já florescia lindamente. As verduras da pequena
horta se mostravam plenas de brotação, ansiosas para alimentar os moradores do
povoado. Neste momento, ela percebeu uma quentura na aragem da noite pairando
sobre o chalé. Talvez fosse o sentimento de gratidão que a invadiu ao analisar
o lugar que a resgatou, deu morada e comida. Toda noite ela orava pelo pequeno
e laborioso povo e entendia: faria o que pudesse para retribuir a graça.
Enquanto pensava sobre este
assunto, dirigiu-se ao forno de barro onde os pescados estavam limpos e
enfileirados, prontos para a secagem com sal e que seriam armazenados e
distribuídos na vila. Ela havia tomado a si a tarefa, primeiramente, para
aprender a lidar com o resultado das idas e vindas das embarcações e, em
segundo lugar, promover a sua interação nos costumes do povoado.
Acontecia, neste momento, a
preparação dos veleiros para a manhã seguinte. Este era o período de
congraçamento dos marinheiros que normalmente celebravam a boa pesca do dia, já
ansiosos pela próxima. Era uma época em que numerosas espécies singravam a
superfície do oceano cumprindo a missão da cadeia alimentar do planeta. No
entardecer e apagar das luzes acontecia a mágica da navegação; o marujo
conhecedor dos ventos e marés rabiscava seu mapa de localização dos cardumes; o
restante se dedicava à limpeza e arrumação de velas, mastros proa e popa. As
mulheres, os idosos e as crianças aguardavam a tarefa ser concluída, oferecendo
canecas fumegantes de sopa de peixe.
O espirito de Vanisa a cada
dia se renovava em coragem, sem que ela soubesse a causa. Imaginou que podiam
ser os últimos acontecimentos que estavam calibrando a sua transição, a partir do
cristalino das águas no “Aconteceu no Fim do Mundo”. Desceu correndo ao
encontro dos marujos pedindo que a levassem rumo às ondas. Os marinheiros
desconfiaram da oferta inusitada, mas como a consideravam misteriosa, aceitaram.
Trajada com um longo vestido de
algodão branco e nos ombros o xale de renda oferecido pelas aldeãs, ela
acomodou-se na proa que já navegava célere no topo das marolas transparentes do
oceano. Com um sorriso infantil escutou o frêmito das nadadeiras e o som habitual
do Peixe-Vermelho e Peixe-Canário, que acompanhados pelo eco das bolhas cantantes
criaram o acorde que saudava a Princesa. A comoção tomou conta dos pescadores que
assistiam à cena de saudação à mística Vanisa. Com cuidado recolheram a rede de
pesca, vazia.

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