domingo, 7 de junho de 2026

Vanisa e o Bilhete no Ancoradouro

 


O mundo clareava todo dia diferente, com pincéis diversos, tantos quantos fossem os tons do universo à disposição. Assim a vida nascia com cenário desigual ao de ontem, e alternativo no amanhã: foi com este sopro que Vanisa acordou, não somente abrindo os olhos, mas enxergando uma mudança no ambiente caseiro, com destaque para uma quentura rara e receptiva a sua presença. Esta impressão abraçou a moça de modo tão real que sentiu em seu corpo uma sólida vibração.

Ainda deitada, esticou o corpo, pregou os olhos no teto levando a mão ao peito e sentindo seu coração batendo forte. Ao sentar-se na cama ainda morna do sono reparador, percebeu a sala iluminada, com a cor da lua e o brilho das estrelas. Lá fora, o oceano se agrandava em suas primeiras ondas e brincalhão, respingava espuma branca no alpendre, na tentativa vã de chamar a moradora para dentro das águas uma vez que assim a conduzira, a esta aldeia.

Levantou-se, vestiu sua roupa mais rústica e ainda leve, deixou seus pés descalços porque ardiam como fogo ao se arrastar no assoalho limpo e   áspero. Parecia existir um raio oriundo da base do chalé que fluía em pequenas fisgadas de torpor.

Resolveu checar como estava o povoado nesta manhã que - para ela - parecia no mínimo surpreendente e ao abrir a pesada porta, encontrou na soleira um vaso com uma delicada folhagem da qual não reconhecia a origem, até porque sua estrada até este lugar havia sido por via marítima. Tomou nas mãos a oferta - por enquanto anônima – que se encontrava enrolada com capricho em um pano de linho rústico e resistente. Depositou-o sobre a mesa de jardim, desfez o pacote ansiosa por descobrir quem formulou o recado com tanto capricho e mistério.

Ao estender o pedaço de pano no tablado de jardinagem ela encontrou uma singela proposta, que encheu seus olhos de lágrimas como se fosse um bálsamo. Neste instante compreendeu que a quentura do seu corpo no alvorecer se originou do movimento espiritual secreto dos aldeões.

O bilhete havia sido escrito por mãos calejadas que empregaram tinta com a qual os trabalhadores do ancoradouro ilustram seus barcos, os remos, as velas, o casco, a âncora. Em letras com desenho incerto a oferta seguiu tão bucólica, quanto o lugar: “Entregamos à forasteira o atestado de posse da vida em solo que se move. O Guanandi será a forja das raízes que por debaixo da terra marcarão a fronteira da sua chegada.”

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