O mundo clareava todo dia diferente,
com pincéis diversos, tantos quantos fossem os tons do universo à disposição.
Assim a vida nascia com cenário desigual ao de ontem, e alternativo no amanhã:
foi com este sopro que Vanisa acordou, não somente abrindo os olhos, mas
enxergando uma mudança no ambiente caseiro, com destaque para uma quentura rara
e receptiva a sua presença. Esta impressão abraçou a moça de modo tão real que
sentiu em seu corpo uma sólida vibração.
Ainda deitada, esticou o
corpo, pregou os olhos no teto levando a mão ao peito e sentindo seu coração
batendo forte. Ao sentar-se na cama ainda morna do sono reparador, percebeu a
sala iluminada, com a cor da lua e o brilho das estrelas. Lá fora, o oceano se
agrandava em suas primeiras ondas e brincalhão, respingava espuma branca no
alpendre, na tentativa vã de chamar a moradora para dentro das águas uma vez
que assim a conduzira, a esta aldeia.
Levantou-se, vestiu sua roupa
mais rústica e ainda leve, deixou seus pés descalços porque ardiam como fogo ao
se arrastar no assoalho limpo e áspero.
Parecia existir um raio oriundo da base do chalé que fluía em pequenas fisgadas
de torpor.
Resolveu checar como estava o
povoado nesta manhã que - para ela - parecia no mínimo surpreendente e ao abrir
a pesada porta, encontrou na soleira um vaso com uma delicada folhagem da qual
não reconhecia a origem, até porque sua estrada até este lugar havia sido por
via marítima. Tomou nas mãos a oferta - por enquanto anônima – que se
encontrava enrolada com capricho em um pano de linho rústico e resistente.
Depositou-o sobre a mesa de jardim, desfez o pacote ansiosa por descobrir quem
formulou o recado com tanto capricho e mistério.
Ao estender o pedaço de pano
no tablado de jardinagem ela encontrou uma singela proposta, que encheu seus
olhos de lágrimas como se fosse um bálsamo. Neste instante compreendeu que a
quentura do seu corpo no alvorecer se originou do movimento espiritual secreto
dos aldeões.
O bilhete havia sido escrito por
mãos calejadas que empregaram tinta com a qual os trabalhadores do ancoradouro
ilustram seus barcos, os remos, as velas, o casco, a âncora. Em letras com
desenho incerto a oferta seguiu tão bucólica, quanto o lugar: “Entregamos à
forasteira o atestado de posse da vida em solo que se move. O Guanandi será a
forja das raízes que por debaixo da terra marcarão a fronteira da sua chegada.”

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