sexta-feira, 5 de junho de 2026

O Mundo de Fora e o de Dentro

 


Vou passear do lado de fora do mundo que tantas e tantas vezes desdenho, porque sempre me empenho em fugir de suas armadilhas a cada vez que coloco meus pés no asfalto. Em caso de força maior, entro pela porta dos fundos, pois acredito que ali ficam os decididos, os renegados, os sem importância e os não bonitos da vitrine. Dia destes recebi do meu planeta um sopro de maresia empenhado em me convidar a pular o muro e andar por outras vias.

Logo acedi ao convite, porque deste lado não se faz desfeita, e corri a buscar no fundo do armário aquela botina que guardei, ainda com o lustro impecável. De tempos em tempos a retiro para matar a saudade de uma era de concreto armado. Rumei pela trilha de chão e logo alcancei a pavimentação que fumegava no sol do meio dia. O meu pensamento andava vago, se esforçando para focar no lado de fora da minha vida que - neste momento - deixaria para trás: meus pés descalços, cabelo ao vento, o mar me espreitando e toda a natureza selvagem que sempre se faz íntima.

Iniciei o passeio propriamente dito em calçadas de cidade onde meus passos andam errantes seguindo um fluxo onde se mistura um pouco de tudo, estonteando-me levemente. Resolvi me distrair apreciando as vitrines e uma após outra, elas me mostraram a sutileza de nada necessitar, mesmo sabendo que no lado de fora é aonde tudo se tem.

Já estava desanimada porque havia tido a impressão que eu poderia – ou deveria – ter uma surpresa nesta incumbência. Resolvi sentar-me por instantes: meus pés doíam apertados no calçado de antanho, me sentia descabelada por um vento desorganizado vindo de polos opostos e o meu espírito começava a dar mostra de exaustão, ao se esforçar para o que parecia ser inútil.

Meus olhos ambulavam preguiçosos pelo entorno repleto de distrações, quando percebi uma luz muita intensa vindo de uma das vitrines da rua. Parecia me chamar. Ao chegar bem perto, me deparei com uma placa de madeira com os dizeres “Fui Ver o Mar”. Arrebanhei a peça e tomei o rumo do chão batido. A placa eu a fixei no hall como um aviso: ao entrar, vou ver o mar: e ao sair da mesma forma.

 

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