quinta-feira, 25 de junho de 2026

Fiquei Velha

 


Acordei me estranhando de certo modo e quando abri os olhes percebi: fiquei velha. Assim, me decidi a lembrar daquele tempo: que bom que a época era outra e por mais que pareça ter ficado parada, a vida andou rápido demais, quase num piscar de olhos. A figura da moça se transformou em uma mulher parecida comigo, porém com mais idade. Muito mais. A trajetória fica com aquela nomenclatura que eu gosto muito de usar: não sei se é bom, não sei se é ruim. Pronto, está posta a pergunta não respondida.

Vale lembrar que tudo era diferente, que eu tinha boas pernas, ria muito, também me enfurecia e cuidava de mim na correria. Dormia e acordava quase no mesmo tempo, dando a impressão de que era o mundo que parava, ao invés de ser eu a dormir. A rotina era como uma britadeira estragada que ninguém conseguia desligar, e assim, eu passava de um lado para o outro, arrombando os afazeres e, vez ou outra, para amainar o barulho, flutuava nas horas chegando, deste modo, mais depressa. O destino era sempre para lugar nenhum, porque quando se chegava lá, já estava marcado o outro ponto de ir, de tal modo que a vida me chamava e eu respondia: é só me chamar que eu vou.

Tanto me buscaram no labirinto existencial, que no último momento, a estrada se delineou sem curvas. Agora já estou aqui, percorrendo os escaninhos das rugas do meu rosto que mapearam a nova rotina de mim. Os sulcos profundos preservam a antiga moça, os pequenos desvãos na pele sugerem o que não importa, as linhas tênues suavizam o todo e os traços mais longos demonstram que por ali eu posso seguir com a alma lavada.

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