sexta-feira, 26 de junho de 2026

O Paladar da Alma

 


O inverno acompanha o mundo das sensações que afloram com a força contrastante do ar gélido, que penetra com rompantes em qualquer fresta, rejeitando o fogo na lareira, o café quente e o caldeirão de sopa. Não é bem assim no interno do corpo e da alma. Enquanto o corpo desprende os gostos sensoriais atávicos ao frio da estação, a alma padece confrontando elementos antigos que, volta e meia, surgem do pontilhado espiritual.

As entranhas se manifestam subjetivamente, acomodando na primeira fila a lembrança das tantas coisas que, no decorrer do tempo, foram deixadas para trás, muitas vezes, sem sabermos a razão.  Aparentemente, a estação congelou aqueles pedações de felicidade que apareciam sem demonstrar o motivo; de repente, surgiu à nossa frente uma experiência isolada de uma quentura de onde menos se esperava. São os lembretes que aquecem a trajetória do que ainda está por vir.

Enfileirados no corredor da antessala do íntimo, estão estacionados os pedaços de gelo que aprisionaram as contrariedades do mundo. Como se fosse uma ilusão, ao receberem a aragem cálida do coração que pulsa combatendo a friaca, o grupo paralisado vai perdendo a força e se desfaz. Está aberto um caminho morno para acontecimentos de anseio e emoção.

As quatro estações são motivos para se encontrar e usufruir dos temperos da vida.  Os ares frios convidam à mesa e lá se vão alguns preferindo o que lhe forra as vísceras. De outro lado permanece o de sempre: meu paladar nasce do tempero na ponta dos dedos.

 

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