O inverno acompanha o mundo
das sensações que afloram com a força contrastante do ar gélido, que penetra
com rompantes em qualquer fresta, rejeitando o fogo na lareira, o café quente e
o caldeirão de sopa. Não é bem assim no interno do corpo e da alma. Enquanto o
corpo desprende os gostos sensoriais atávicos ao frio da estação, a alma padece
confrontando elementos antigos que, volta e meia, surgem do pontilhado
espiritual.
As entranhas se manifestam
subjetivamente, acomodando na primeira fila a lembrança das tantas coisas que,
no decorrer do tempo, foram deixadas para trás, muitas vezes, sem sabermos a
razão. Aparentemente, a estação congelou
aqueles pedações de felicidade que apareciam sem demonstrar o motivo; de
repente, surgiu à nossa frente uma experiência isolada de uma quentura de onde
menos se esperava. São os lembretes que aquecem a trajetória do que ainda está
por vir.
Enfileirados no corredor da antessala
do íntimo, estão estacionados os pedaços de gelo que aprisionaram as contrariedades
do mundo. Como se fosse uma ilusão, ao receberem a aragem cálida do coração que
pulsa combatendo a friaca, o grupo paralisado vai perdendo a força e se desfaz.
Está aberto um caminho morno para acontecimentos de anseio e emoção.
As quatro estações são motivos
para se encontrar e usufruir dos temperos da vida. Os ares frios convidam à mesa e lá se vão alguns
preferindo o que lhe forra as vísceras. De outro lado permanece o de sempre: meu
paladar nasce do tempero na ponta dos dedos.

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