De um modo estranho, o casebre
estava iluminado com um matiz azulado como se fosse um brilho se sobrepondo ao
oceano, este sim, nesta manhã, refletindo sua cor profunda em todos os lados. O
brilho beirava a crista das ondas que ponteavam a calmaria evidente da natureza
representando o frio do inverno. Verônica estava há um bom tempo encostada no
parapeito da janela deslumbrada com a visão inusitada que estava tendo das
águas.
Resolveu descer até a beira do
mar, mesmo que seus algoritmos tivessem a atitude contrária, pressionando-a
para mantê-la presa no cubículo recém arranjado. Desde o momento em que
percebeu o ponto de luz em seu peito, deu-se conta de que havia ali, dentro da
cabana, alguns parafusos soltos no chão e muitos rolaram por entre as frestas
do assoalho. Era nítida a impressão da Cyborg de que alguns deles tomaram a
decisão de se soltar, ou, o que era mais difícil: quando ela desligou o sistema
de atuadores da imitação humana, provavelmente a mão desmecanizada realizou o
trabalho. Ao religar o sistema ele voltou a funcionar, mas sem os componentes
de conexão. A esta altura ela não se importava mais em procurar a razão: pouco
a pouco recebia sinais de autonomia e liberdade.
Verônica deu meia volta
repentinamente, chacoalhando a análise do processador que ficara inoperante:
ela sai porta afora correndo até o mar. Ao chegar, surpreendeu-se ao perceber a
profundidade com que avistou um grupo igual ao da intrusa, dia desses, em seu
casebre. O fato trouxe a ela um esclarecimento: são seres humanos. Deteve-se, considerando
que, neste momento, não devia chamar a atenção: apenas observar o cenário. Felizmente
sua presença não foi notada permitindo que sua câmera ocular vagasse com nitidez
entre os componentes.
Os pescadores estavam dentro
do mar gelado enquanto as mulheres destrincharam o alimento: a fogueira
improvisada lançava fortes labaredas enquanto um panelão de ferro, borbulha
ossos e vísceras. Os idosos reuniam as crianças em volta da quentura da lenha
em brasa: sentadas em pequenas banquetas, suspiravam e sorriam com o enredo de
histórias do mar. Verônica, ao observar a cena viu com clareza que em volta do
grupo existe um vínculo afetivo. Não importa que os cabelos sejam raros e
brancos, que homens e mulheres tenham as mãos queimadas de sal e sol. É o
reconhecimento da fragilidade humana que a deixa paralisada. Sem poder verter lágrimas
biológicas aceita que o sistema experimente lentidão, seu braço mecânico fique
pesado e seus passos tardios.

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