terça-feira, 2 de junho de 2026

Coração de Luz

 


Hoje tomei uma decisão baseada nos meus ouvidos, que despertaram moucos, e não foi por não querer ouvir o que acontece lá fora: foi por não haver simplesmente nenhum som na atmosfera, a não ser um chiado como se fosse de rádio antigo, até porque o meu, estava desligado.  Eu sou uma adoradora de coisas que não acontecem porque minha mente metafórica já vai entrando na corrida progressiva da invenção, somente parando quando acionado o guarda-chuva de palavras que se fecha com a fita crepe.

A acústica ausente me empurrou até a faixa de areia do mar que brilhava ao sol da manhã, reluzindo os sinuosos caminhos de moradores, de dentro e fora da areia. Todos eles se movimentavam em prol da subsistência sistêmica das espécies vizinhas, formando um mapa intrincado de trajetos que se cruzam, atravessam, vão juntos ou se afastam. Não demora, a primeira onda vem aguar o primoroso desenho. Não tem importância: amanhã eles fazem outro.

Comecei a perceber que a beira do mar ressoava o rumor da rua, isto é: quase nada a borbulhar. Segui em frente sem muito me alterar achando muito bom que apenas o som dos meus pés nus se fizesse ouvir - e, mesmo assim, com uma cadência especulativa, e não de velocidade. A costa é selvagem e misteriosa porque o alto muro de areia fina é volúvel e gosta de dançar valsa com o vento.

O oceano, ao avançar contra os cômoros, cavou uma entrada que findava em um casebre rústico, com telhado de zinco e uma pequena antena que emitia delicados raios de luz, como se pulsasse dentro de um corpo - uma máquina, um aparelho qualquer que precisasse de propulsão.

Aproximei-me com o coração acelerado porque lembrei do esquisitismo do alvorecer e empurrei levemente a portinhola do local que mansamente se abriu.  A cena me cativou, mais do que me surpreendeu, porque em frente a um janelão com olhos para o mar havia todo um aparato tecnológico monitorado por uma moça de cabelo azul profundo, olhos azuis, com um braço mecânico, pescoço de metal, conchas raras, caneca de café e algas. Virou-se sorrindo no momento exato em que intensa luz pulsou do seu peito, proferindo a frase:  Eu sou “Verônica.”

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