Hoje tomei uma decisão baseada
nos meus ouvidos, que despertaram moucos, e não foi por não querer ouvir o que
acontece lá fora: foi por não haver simplesmente nenhum som na atmosfera, a não
ser um chiado como se fosse de rádio antigo, até porque o meu, estava
desligado. Eu sou uma adoradora de
coisas que não acontecem porque minha mente metafórica já vai entrando na
corrida progressiva da invenção, somente parando quando acionado o guarda-chuva
de palavras que se fecha com a fita crepe.
A acústica ausente me empurrou
até a faixa de areia do mar que brilhava ao sol da manhã, reluzindo os sinuosos
caminhos de moradores, de dentro e fora da areia. Todos eles se movimentavam em
prol da subsistência sistêmica das espécies vizinhas, formando um mapa
intrincado de trajetos que se cruzam, atravessam, vão juntos ou se afastam. Não
demora, a primeira onda vem aguar o primoroso desenho. Não tem importância:
amanhã eles fazem outro.
Comecei a perceber que a beira
do mar ressoava o rumor da rua, isto é: quase nada a borbulhar. Segui em frente
sem muito me alterar achando muito bom que apenas o som dos meus pés nus se fizesse
ouvir - e, mesmo assim, com uma cadência especulativa, e não de velocidade. A costa
é selvagem e misteriosa porque o alto muro de areia fina é volúvel e gosta de
dançar valsa com o vento.
O oceano, ao avançar contra os
cômoros, cavou uma entrada que findava em um casebre rústico, com telhado de
zinco e uma pequena antena que emitia delicados raios de luz, como se pulsasse
dentro de um corpo - uma máquina, um aparelho qualquer que precisasse de
propulsão.
Aproximei-me com o coração
acelerado porque lembrei do esquisitismo do alvorecer e empurrei levemente a
portinhola do local que mansamente se abriu. A cena me cativou, mais do que me surpreendeu,
porque em frente a um janelão com olhos para o mar havia todo um aparato
tecnológico monitorado por uma moça de cabelo azul profundo, olhos azuis, com
um braço mecânico, pescoço de metal, conchas raras, caneca de café e algas.
Virou-se sorrindo no momento exato em que intensa luz pulsou do seu peito,
proferindo a frase: Eu sou “Verônica.”

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