quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Finalizando o Dia

 


Eu estou aqui pensando que este é o último dia do ano e estou catando algum argumento para que esta data seja distinta de tantas outras e acabei pensando que na verdade este dia não é diferente de todos os outros que se apresentaram a mim e que me obrigaram a passar sem querer, por querer ou mesmo sem não querer porque quando o dia nasce o primeiro movimento é atávico de levantar e ir, simplesmente.

Para alguns o final se estabelece como um grand finale, a apoteose de dias em que o sol nasceu e se pôs e foram assistidos com lupa microscópica e fazendo - ou tentando fazer - correções a cada respirada de parágrafo, deixando assim todos os fatos intervalados com rara precisão. No final tudo parece ter sido azeitado e o fôlego, apesar de dar sinais de fraqueza, ainda existe. Apenas mais uns poucos passos e por agora tudo termina na demonstração de um mero número.

Após todos estes pensamentos virem à tona para mim, talvez um tanto confusos, continuo a não encontrar o que o faz diferente porque, neste ano em particular acabei organizando várias coisas em malas diversas a começar pela mania de olhar para trás e tentar corajosamente consertar um tempo determinado o que se mostrou impossível, assim, saquei do fundo do armário todos estes argumentos, empilhei com critério por data, afivelei e o descartei neste tempo de hoje que por pura solidariedade o recebeu e o guardou em um lugar especial em que não terei acesso.

O mais que apareceu, como pequenas perdas que fazem parte do repertório da vida foram liberadas e mantidas em minúsculas maletas para que se eu necessitar de algum socorro emocional, as acesse. Por enquanto foi isso que eu encontrei dentro de mim neste ano que termina. Apenas mais um.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Comboio da Dor

 


Invadiram o meu corpo de uma forma tão radical que fui forçada a me evadir dele com rapidez sem nem sequer fazer uma maleta portando o essencial como por exemplo a minha alma, meu pensamento, meu espirito, meus neurônios e ao mais invisível que eu tivesse alcance, ficando tudo à mercê da dor que entrou carne adentro, navegou pelas veias, estremeceu a ossada, sacudiu os músculos.

Tudo estava se desconectando de mim como se houvessem resolvido que ora em diante não haveria um todo e sim apenas pedaços e que cada um deles teria vida própria não havendo chance de se reunir e decidir qual a missão que lhes foi concedida em conjunto assim que eu me formei como gente.

Deste modo intempestivo o esqueleto se negou a continuar enredado com os ligamentos, articulações, veias que, por ingenuidade, o deixaram só, desarticulado e sem ação oportunizando que o caos da dor se proliferasse iniciando a corrida do bota fora quando o sangue se manifestou revoltado deixando-se contaminar e espalhando por suas veias o veneno que lhe impuseram. Seguindo o mesmo caminho os músculos murcharam perdendo sua vitalidade e força, as articulações travaram impedindo o movimento e o coração batia devagar, pé ante pé, parecendo temer que por um motivo alheio a si parasse de bater.

Eu olhava o caos instalado paralisada não podendo naquele momento interferir e neste momento ouvi um cochicho da minha mente que me segredou que já estava na hora de voltar ao estado original, porque este corpo desencontrado precisava da minha força espiritual para estancar o trem que corria na velocidade da luz. Tracionei o pensamento revertendo o Comboio da Dor.

sábado, 27 de dezembro de 2025

No Bico do Sapato

 


Hoje despertei com uma ideia firme na minha cabeça que eu, sinceramente, não sei de onde ela surgiu. Quem sabe este tic-tac do relógio de parede tenha alertado que estamos perto do fim e que terminou a contagem numérica dos dias zerando a contagem anterior e reiniciando a nova que interessantemente vem com a mesma grafia e significado, porém eu acredito que ele próprio, para cada um aparece, demonstra e soa diferente, afinal, um dia somos um, outro distinto.

Tenho caderno, lápis, caneta, borracha, teclado, dedos e tela que forma um conjunto de ferramentas para que eu faça de todos os dias de agora em diante em diante o passo a passo da minha vida, escalando a contagem que nunca anda para trás, não escolhe ninguém, é rígida em seu significado e o que está representado ali.

Também decidi que vou seguir o mantra dos números que a cada representação possui a verdade e assim vou seguir em frente nesta carreira numérica sem faltar nem um dia, sem corrigir nada, sem achar que o que aparece no calendário não combina comigo, seja o numeral, a lua, o vento ou o sol.

Para cumprir esta missão vou andar morro acima que servirá para chutar todas as datas que me fizeram infeliz, alvejar de forma pontuda a rotina que me escraviza, a letra que queima o papel a cada vez que eu penso nela, a luz que foge no momento em que se ilumina minha inspiração, a campainha que toca na hora do sono profundo. Despertei para uma nova caminhada que será no Bico do Sapato.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Árvore da Vida

 


Vou montar a minha arvore de Natal na beira do mar em um local elevado para ser visto por todos em frente as águas que deverão estar lambendo as areias carregadas da magia que possui esta data. Ao invés de enfeites natalinos tradicionais vou buscar na fauna e flora marinha os adereços que podem representar a “Árvore da Vida” no ambiente que emana tanta energia divina, luz do céu e benção de Deus.

Eu vou levar um grande pinheiro que nunca perde a seiva verde que corre na sua raiz, tronco e folhas demonstrando que existe um símbolo de majestade, resiliência e coragem no enfrentamento das intempéries mais drásticas que assola a perenidade do seu símbolo e no chão em que vive. Estará ali fincado na areia fina dos cômoros, um chão que espelha o cenário que abriga a manjedoura do Menino Jesus.

Este espaço inusitado que a minha verve de fábula me segredou vai contribuir para que a natureza marítima convoque os personagens que irão participar de maneira diferente do transbordamento da emoção e a onda de esperança que inundará os confins da terra no dia do nascimento de Jesus.

Na medida em que eu avançava na beira do mar para encontrar o lugar perfeito para o pinheiro reluzente em seus galhos cheios de vida da terra, fui me deparando com os atores da nova encenação de Natal que vieram comigo se instalar no entorno da raiz da árvore. Assim chegaram os siris, as tatuíras, os caracóis, as mães d’agua, as algas e todo tipo de planta marinha que enredou seu corpo entre todos harmonizando a cena inédita, criando uma árvore de Natal irreal que teve sua iluminação vinda da crista da onda onde se reuniu um cardume de peixe-lanterna. O sonho acompanha a realidade.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Moça danada

 


Fui inventar de olhar para trás e não deu nem tempo de me arrepender porque lá estava eu imersa na fumaça que empana as lembranças e assim, de costas para o agora e de frente para o que não existe mais, passei meu dia. Tenho a impressão que deve ter sido um tipo de acordo entre a vida e a morte que, em conluio, resolveu me testar e ver até onde eu aguentaria reviver o que não podia mais ser consertado, o que não devia ter acontecido, o que passou em branco e mais tantas palavras que não foram ouvidas e outras tantas deixadas fora do contexto assim como conversas importantes que sequer foram celebradas.

Confesso que não estou achando de muita serventia essa viagem forçada que anda me enchendo os olhos de lágrimas, que laceia meu corpo porque o esforço de repassar deixa minha ossada tensa e encrespada, sem falar na alma, que nesta hora resolve dar uma de corajosa e anda para trás com tanta galhardia que até parece que vai viver de novo.

Não vou dizer que parecia um filme passando porque a sensação era a mesma de trilhar uma picada que ia se mostrando aos poucos, com eventos acontecendo em tempo real e eu ali assistindo a tudo como se eu mesma fosse uma grande angular ou um caleidoscópio de acontecimentos. Espertamente tratei de selecionar o que eu queria ver e deste jeito fui enganando a torcida que queria a todo o pano me ver em desespero, colocar-me de modo que a minha vontade fosse não mais retornar, que me pusesse em guarda lá atrás e minha vida para frente não tivesse mais sentido, como se o tempo em perspectiva fosse tão exíguo – e, pensando bem, o é – que o passado seria meu principal algoz e minha prisão.

É assim mesmo que funcionam as lembranças, elas emergem do fundo do nosso coração e se postam em frente ao tempo presente desafiando o nosso desejo de fazer consertos nos retratos fundidos a ferro e fogo na nossa vida pregressa. Acordei do delírio fantasmagórico e corri para o mar. Um banho de descarrego nesta hora foi o que bastou para limpar o que veio à tona por puro acaso da vida, esta moça danada que volta e meia dá uma sacudida para verificar se estamos atentos.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Solstício de verão

 


O ar mudou de cara e agora surge na ventana com alarido e parecendo que alguma coisa importante está ocorrendo em seu nascedouro, ficando claro que cada quadrante quer ter uma performance mais airosa possível sabendo que anda entrando por todos os buracos da nossa terra aquela estação em que tudo é para mais, nada vem para menos. É nesta inauguração da nova Estação Verão que os filhos do clima trocam os pés pelas mãos, acordam antes da hora, sopram para o lado errado, queimam o que deveria sombrear deixando secar pingo d’agua.

O primeiro a erguer a bandeira da luz intensa se chama Astro Rei Sol que adentra pela madrugada já ardente,  alardeando que o dia vai esquentar a mufa de humanos amigos, desumanos inimigos, animais e plantas e, além disso, ao invés de refrescar as águas do mar, do rio, do açude, do córrego, do lago e lagoa se delicia quando mil corpos ansiosos  procuram sua ardente luz para mudar o tom da pele e ele, nesta situação, não se importa com a maldição jogada sobre si, todas as manhãs, seguindo firme no destino esfogueado que o clima lhe concedeu.

O resultado desta pequena revolução de hoje é demonstrado na chegada do dia mais longo do ano que será recepcionado pelos alegres vespertinos declarando que além da elevação do patamar climático existe a intenção de realizar tudo no modo mais atropelado e superlativo que houver porque, afinal, o brilho do dia somente se aplacará bem mais tarde.

Na sequência deste desempenho superlativo a noite chega mansamente acomodando a desordem apenas como uma tentativa fracassada, uma vez que o período de uma noite abençoada será menor e, bem cedo, tudo recomeça.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Hoje acordei com cem anos

 


Um despertar diferente me leva a crer que fiquei com cem anos da noite para o dia, percebo o pensamento, outrora ligeiro, parado, nada dentro da cabeça, todos os nervos embaçados numa farra desordenada e alegre de neurônios em férias. Sensação estranha e boa porque parece haver terminado o tempo de pensar e o agora ensina a flutuar. Nem sei meu nome. Meus ossos são gravetos arqueados e doloridos e as passadas leves demonstra que é bom não ter vigor. Vigor cansa.

Meu dia de cem anos começa sem tarefas a cumprir, sem pesos a carregar, sem novidades a lembrar e o mundo deste jeito parece só meu e de tanto viver, nada devo a ninguém. De mansinho um ou outro lembrete da vida começa a se derramar e não vem de dentro de mim e sim do lado externo, de uma folha de papel jogada no chão ao qual tropeço e fico parecendo um embrulho roto arrastando a vida que ficou para trás.

O mundo, vazio de futuro, parece comigo, uma velha cansada cuja alma jaz ao  lado prostada e cinza suplicante para voltar ao corpo, entretanto, o tempo não parou como eu pressentia porque eu queria apreciar o nada, desejava enxergar o velho, precisava me avistar e somente consigo ver o caminho trilhado com tantos afazeres empilhados e aprumados que me custa crer que aquela fui eu, jovem ocupada, tarefeira pois na lembrança não havia o que me segurasse. E a viagem de volta continua, agora bem rápido, como velho anda célere para trás.

Com avidez, a mente abre todas as gavetas e a realidade transborda de dentro delas tal qual lingerie de seda macia, colorida e jovem e, de repente, lembrei que o intervalo de cem anos vai acabar, como o dia.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Mar aberto

 


Já na madrugada comecei a perceber que o mar estava diferente parecendo aguardar que eu fosse até ele e desfiasse minha fala e – quem sabe – enfrentar uma atitude mais radical neste novo dia que se insinua e dá as caras.  Ao seguir até bem perto de suas ondas ele pareceu estar aberto para mim me incentivando a me aventurar com ele em mar aberto. Para isso baixou os flaps das ondas, amornou a temperatura, tirou o vento da crista de sua espuma, clareou bem o fundo, retirou os frequentes declives preparando o caminho para que eu alcançasse o mistério de suas águas, hoje.

Ansiosa, mas preparada, me dei conta que havia chegado o tempo em que a praia havia se aberto a mim o que me levou a entrar em suas águas com firmeza, preparando meu corpo para esta dança tão aguardada todos os anos. Iniciei o deslize imaginando o que cada braçada poderia significar uma vez que eu o conheço e sei que sua profundeza é rica em detalhes e surpresas, afinal vou interagir com a vida marinha.

Eu já tinha lançado a rota que autorizava o nado sincronizado do meu corpo que estalava mansamente buscando a magia de alternar a respiração e o movimento como se fosse um só, singrando por entre as ondas, ora mornas e em outro momento geladas marcando a trajetória e avisando que por ali existe mudança sutil, improvável e inesperada.

Cada braçada cobria um trecho ínfimo da grandiosidade do oceano e a cada braçada eu enxergava o fundo do mar que se exibia me mostrando os cardumes coloridos, as algas flutuantes, as faíscas da luz do sol acompanhando meu nado, a estrela do mar, os corais, as conchas de madrepérola entremeadas pelo jardim interno deste mar abençoado.

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Leituras de mim - 140.000

 


Prestigio dos leitores em novo texto “Leituras de mim – 140.000” Leiam com bons olhos em http://cronicasdaverarenner.blogspot.com “...dia 17 de dezembro de 2025, está registrado que 140.000 olhos desconhecidos lamberam a minha letra, teimosa, triste, presunçosa, alegre, percebida, despercebida....”

Termo em destaque “Nobre Senhor da Vida”

Leituras de Mim – 140.000

Abri os olhos de modo arregalado o que me surpreendeu porque todo dia eu necessito que minhas pálpebras se abram, se fechem e se liguem lentamente algumas vezes para que eu possa tomar pé de onde estou. Vai que houve uma chamada urgente do Nobre Senhor da Vida que, de uma hora para outra, resolveu me receber do mesmo modo em que me pus no descanso, talvez para se divertir com o meu assombro, meu agradecimento e minha reza de redenção ao fato.

O despertar diferente me colocou de pé muito rapidamente com um sentido de urgência que, aparentemente, estava manipulando o meu pensamento e que me empurrava de maneira esquisita para o teclado, este meu amigo de todas as horas que aceita que eu o maltrate praticamente todos os dias, errando no verbo, acertando na pontuação, derramando sobre ele minha vida sem pedir licença, escorregando letras nos recados que ninguém entende, dilacerando o meu coração sem apontar o algoz, encontrando significado no nada que me foi apontado, discorrendo sobre estórias absurdas inventadas apenas para me proteger, me despindo em público com a intenção que o que retirei de mim possa servir em outra pessoa.

Enredada nesta conjuntura cheguei no aparato criado para que meus textos fossem ali colocados e compartilhados com quem se interessasse na leitura de uma escritora passada em anos, desconhecida, e que resolveu, a partir desta decisão traçar o seu destino dali para frente.

Olhando para trás – sempre o passado como régua – percebo que a conquista foi longe porque hoje, dia 17 de dezembro de 2025, está registrado que 140.000 olhos desconhecidos lamberam a minha letra, teimosa, triste, presunçosa, alegre, percebida, despercebida, debochada, entendida e não compreendida. Neste texto expresso o meu agradecimento e honra pelo prestigio da leitura, do comentário, de novos amigos, de amigos antigos e de milhares de desconhecidos que fizeram esta soma engrandecer meu espirito. Que Deus os abençoe. Amém.

 

 

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Renovação dos votos

 


Guardei com muito cuidado os votos que criei para mim e, somente isso, para que eu pudesse sempre que fosse necessário lhes dar uma espiada para constatar se ainda eram válidos neste tempo que parece correr em alguns momentos, em outros dá uma pinta de estancar, frear, dar um tempo nele mesmo, talvez cansado, perdido ou ignorado. 

Desta feita ao observar com bastante cuidado, descobrindo-os da capa preta que lhes assentei por pura brincadeira de esconde-esconde de promessas, ou mesmo, para não insistir de, a todo o momento, bater os olhos nas minhas próprias regras, me deparei com surpresa que elas estavam desacomodadas com algumas prioridades igualadas, outras relegadas a segundo plano e outras bem acima do que eu chamaria de importante o que me pôs a pensar motivos ou motivo. 

Deixei os votos desalinhados desabafarem comigo sua alternância esperando que dali viesse a resposta que eu almejava encontrar, afinal, me dediquei muito na formulação dos mesmos em determinado período e não me lembro de haver esquecido de algum, mesmo que eu não lhe pusesse os olhos todos os dias e mesmo que, ao abrir minha janela para o mar, eu compreendesse o que viria primeiro, porém, confesso haver ignorado muitas ocasiões para onde as setas me apontavam e, ruidosamente, rumava ao outro lado, me divertindo bastante. 

Continuei na espera de algum sinal que viesse de dentro de mim, que me gritasse que agora os votos se rebelaram entre si e fizeram o trocadilho da importância por si mesmo, não se dando conta que era comigo que deveriam falar primeiro, com a autora deste nascedouro de intenções. 

Depois de um tempo olhando para esta escala desarrumada resolvi apenas pensar e analisar com cuidado o que havia acontecido e se eu por ventura havia me enganado na ordem do dia, digamos assim. Com atenção e cuidado fui trazendo um por um para perto de mim e arregalei os olhos ao perceber que no momento em que os inscrevi no mural da vida pulei por cima de verdades que jamais mudariam ou trocariam de lugar em sua forma de ser e por este motivo banal a realidade se acomodou novamente. 

domingo, 14 de dezembro de 2025

Me enganei

 


Não sei porque ando pensando nos caminhos últimos que engendrei por aqui e senti que existe algo que não foi exatamente como eu imaginava, como se na caminhada na beira do mar em um dia ensolarado eu tenha me deparado com um mar furioso aparentando calmaria, uma terra fofa traindo meus pés cansados, tatuíras enormes rasgando os meus dedos, múltiplas conchas quebradas e pontiagudas atrapalhando o andar que deveria ser lento e agradável e, na mira, siris que deixaram sua carcaça em terra firme. Com este sentido de contrariedade eu encontrei naquele cantinho secreto de boas lembranças um desacerto que, aparentemente, eu não havia me dado conta.

A partir desta sensibilidade apontada com tanta propriedade me debrucei sobre este sentido - ou falta dele - exposto a mim em um dia comum, parando para pensar onde foi que atravessei o samba da vida, em que momento eu tropecei no dia que por aqui sempre se apresenta cerimonioso e cordato e eu, certamente, sigo o seu ritmo, evitando quando ele sai do prumo, lhe acompanhar.

Muitas vezes decido sair do roteiro como forma de arejar meu pensar que muitas vezes se condensa em um mesmo assunto sem que eu possa o tirar dali me deixando confusa na aceitação dos fatos que a todo momento perambulam pelo tempo. Para remediar, toco fogo na ideia, apago e jogo as cinzas no mar, porém, aparentemente, o imperceptível se agrandou e me traiu.

Neste dia insólito de pensamentos resolvi parar para encontrar o espinho que fere minha alma, mas o que encontrei foi um rastro confuso que misturava inúmeras possibilidades de desacordo que me seguiram por entre tantas outras maiores, melhores, menores e piores. Decidi deixa-las constando na minha cartilha como apenas um sobressalto.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Mundo fisico



Acordei animada, acredito que embalada por muitos sonhos bons que me deixaram de certo modo pairando fora da realidade, fora de contexto, fora da vida que por aqui não anda, mas corre no modo “fast”, passando como nuvem ligeira depois da tempestade e muito condescendente com a paisagem e o jogo de luz e sombra que busca sempre pintar o dia. Percebi que era chegada a hora de juntar o que eu havia espalhado pela casa sem saber direito onde guardar e ao começar a tarefa me dei conta que não estavam bagunçando nem atrapalhando o espaço, uma vez que não pertenciam ao mundo físico. 

Surpresa e atrapalhada, me enchei de coragem e paciência e comecei a rodar pelos cômodos e fui encontrando em cada um deles algumas considerações soltas. 

No quarto de dormir encontrei na prateleira uma pilha de livros dispostos por prioridade para serem apanhados na leitura, mas visivelmente amarelados pelo tempo e com um pó brilhante e fino a lhe conceder certa aura de mistério disposta inteligentemente pelo tempo para, talvez, me chamar à atenção. Corri e refiz o meu descaso colocando aleatoriamente nova arrumação, sem prioridade, para que o acaso me pegue de surpresa e me provoque. 

A sala me surpreendeu mais ainda porque ali enxerguei nitidamente risos antigos estacionados pelos cantos, cantorias e música alegre dentro de caixas de coleção, passos de dança marcados no tapete, luz do sol brincando de se esconder e a luz da lua prateando os móveis que abrigavam as alegorias que estavam esquecidas, mas que aguardavam ansiosas o toque de mágica do correr do tempo em outro ritmo para se encherem de vida e som. 

A cozinha se encontrava repleta de sabores e aromas enfileirados aguardando a sua vez de se libertarem na produção de manjares caprichados que se estendessem aquela mesa de jantar. 

Por fim, a vista para o mar foi o recanto da casa que mais me surpreendeu nesta intenção de trazer de volta as emoções da morada porque ali encontrei sorriso aberto e olhos arregalados que se surpreendem todo dia com o nascer do sol, com o casamento do dia com a noite e com a surpresa diária dos milagres da natureza que se perfilam sem jamais repetirem seu encanto.

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A outra parte

 


Hoje eu decidi  sair pelo mundo com a minha outra parte, esta que não possui contorno definido, que anda olhando para os lados como algo ou alguém a perseguisse, que esfuma a silhueta para não atrair olhares, que desfila por aí sem que ninguém perceba, que a voz é tão inaudível que o entorno desiste de  qualquer interlocução, esta que, vez ou outra, resolve olhar por cima, que decide calar por não ter assunto, esta outra parte minha que se configura como uma sombra diáfana, esta sim a melhor parte e parece-me que talvez eu nem consiga voltar a ser eu. Ou não queira.

Ao imaginar minha figura esmaecida frequentando lugares disfarçada de incógnita talvez se revele algum segredo de mim e de outros que jamais estaria sendo percebido se eu não tivesse encarado esta outra, tão pobre de presença.

E assim segui na aventura para examinar com cuidado o que eu encontraria ao frequentar minha rotina sem o olhar de sempre, quem será que eu vou encontrar de diferente ou, melhor dizendo, vou enxergar de outra forma, quem sabe. Que palavras proferidas ao vento eu conseguirei me interessar ao invés de joga-las fora sem prestar atenção a quem as remete em frente, que significado passou por mim sem que eu me desse conta, quantas presenças que não fazem sentido para mim eu tive que enfrentar e, por fim, como fui percebida pela vizinhança.  

No final do passeio surpreendente que eu criei voltei a casa esbaforida para poder envergar o meu contorno diário que existe desde de antes chegar aqui, de olhar com simpatia o meu espirito agitado, proferir a conversa de sempre, mas com propriedade, de olhar olho no olho todos os que cruzam o meu caminho, levantar a voz sempre que necessário, encarnar com avidez o meu espirito cheio de assunto. O passeio inédito ajustou os flaps e aqui estou eu sem a outra parte.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Quem convida

 


Eu tenho uma agenda onde marco os meus compromissos com a vida real, com meu espirito e muitas vezes abro a página especial de registro para ter um tempo para ouvir o meu coração, este, o verdadeiro norte para qualquer compromisso. Pensando nisso me deparei com esta janela da sala de estudos que possui uma cortina de seda antiga e transparente que recebe a luz difusa do final de tarde e a leve brisa, uma característica de mudança de estação. Me aproximei para conferir o que dali se descortinava e percebi que ali surgia um convite irrecusável da paisagem naquele momento.

No primeiro instante apreciei ponto por ponto este lugar que estava, com muita graça, se oferecendo a mim, talvez para apenas olhar ou, quem sabe, saltar janela afora e perseguir as dicas de passeio que ali se descortinava com uma sutileza natural e importante, parecendo não querer espalhar para o mundo a riqueza de detalhes do lugar.

Assim, à primeira vista, senti que o convite continha o desafio de descobrir o que eu poderia experenciar, saltando para este quadro natural e lúdico com tanta riqueza de detalhes para percorrer.

Desarmei meu raciocínio lógico e migrei para o terreno emotivo que mora em mim e me dá força para executar qualquer tarefa arriscada sem possibilidade de erro e assim pulei o peitoril e me vi no campo aberto que descortinava o lugar tão pacato que me deu receio de causar qualquer ruído que atrapalhasse.

Com os pés no chão e a cabeça nas nuvens calculei que o mais correto seria não pular nenhuma etapa que a paisagem me oferecia e galguei os primeiros passos pela trilha forjada por outros personagens entre eles uma provável, carroça, uma parelha de bois, uma charrete, um trator e tantos outros veículos com origem rural. O desenho do caminho serpenteava por entre o gramado agreste, seguindo até a margem do rio adentrando a mata fechada, lugar perfeito para ouvir o que dizia meu coração.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

O destino na mira

 


Está chegando o final do ano e eu estou aqui parada frente ao espelho indagando o que aconteceu comigo uma vez que estou com a vista embaçada e não sei direito se o oceano mareou meu olhar, se os sons do rugidor aqui em frente lacrou meu tímpano porque o verão está chegando e, por parceria dos sentidos, talvez a galera sensível resolveu nas minhas costas aderir a este modo de revolta o que me deixou confusa justo no final da caminhada por tantas trilhas, desvios, pedregulhos e tantas palavras lançadas no ar e muitas outras criadas como flechas em direção ao alvo. Um alvo sempre oculto.

Neste momento de expansão de todas as coisas decidi que eu faria uma análise da caminhada pelo simples fato de estar sempre a me perguntar quem ou onde estou, o que aparece logo ali, se o nascer do dia vai conversar comigo ou vai me ignorar. A interrogação precede meu acordar muito mais do que o temor, este companheiro de noites assombradas.

Mirei um pouco mais o grande espelho na esperança que ele reflita o que restou de mim depois deste período, se dá para enxergar os pedaços do meu coração que se espalharam em ritmo acelerado na enseada, se ali atrás do meu corpo ainda está a criança que eu fui, se em meio a bruma posso perceber a minha evolução, se de fato existi, se não sou eu mesma um personagem das minhas fábulas. Por fim, cansada e abatida pelo incógnito percebi que sou de tudo um pouco e doravante vou mirar no grande espelho da vida que jamais falseará meu destino.

domingo, 7 de dezembro de 2025

As dores de um e de outros

 


Arruma-se com perfeição na beira do mar, amontoando-se com aprumo incrível que se percebe com espanto certa linearidade na composição desarrumada. Assim dispostas de modo meio torto direito, permanecem em harmonia de cores e formas contrariando a estética comum de arrumação. A disposição é perfeita em seu encaixe junto às areias e as águas do mar, deixando à mostra o arranjo perspicaz e sutil, pois enquanto umas se fecham em si mesmas, outras se expõem em escancaro e outras mais não se dão conta por completo do prumo a tomar. Fica um recado a céu aberto e acabo imaginando que bom seria que nossos sentimentos tivessem esta autonomia.

Eu gostaria de acomodar as minhas dores da alma - que não são poucas – de maneira que não houvesse cronologia porque assim elas não viriam me assombrar com determinada ordenação. Se estão misturadas fica mais difícil encontra-las e iniciar aquele rosário de lamentações de “ai ai ai meu Deus porque”. Desorganizados os eventos que minha alma carimbou me sinto mais volúvel e frívola deixando-os para trás. Afinal, vai dar muito trabalho analisar a cronologia desta traquitana.

Passado este assunto com jeito lúgubre de análise do espírito acabo não podendo me furtar das minhas dores do corpo, corpo esse que Deus me entregou para que dele cuidasse porque ele é o templo da minha alma. Porém, parece que fui surpreendida no meio do caminho - ou talvez um pouco além da várzea - pela intermitência do tempo, sujeito encanzinado em denegrir nossa imagem. Ele, o espelho e as fotografias de esqueleto andam sempre as voltas um com o outro apontando para uma progressão aritmética que me dá a impressão de que não compareci àquela aula. Este assunto vai andando de lado porque não há como se livrar do dito.

Por fim elas aparecem bem ao pé das ondas, ficam ali para serem respingadas de sol e água do mar, deixam-se levar por uma e outra maré que as mudou de lugar ou deixou-as de baixo para cima por puro capricho. As alegrias são assim, mudam de status e de lugar sem o menor constrangimento fazendo com leveza um intervalo.

sábado, 6 de dezembro de 2025

A friagem

 


Eu estava pensando que o calor estava ali fora, se esbaldando nas ruas, afugentando os velhinhos, colorindo as praias, destacando a alegria da estação como sendo uma válvula de escape para todos os males. O fato é que por aqui passou uma certa friagem, um arrepio na espinha que encolheu meu corpo como se ele quisesse se abrigar de algo que não me faria boa companhia. Era um frio envolvente e que mesmo sem querer me levou a uma xicara de café e uma pilha de velhos livros meus companheiros de vida.

Me acomodei para ter a impressão de que andava tudo certo, que eu apenas estava com saudades do tempo da friaca que, apesar de açoitar meus ossos, me fornecia um preguiçoso conforto no dia a dia já que me segurava para dentro de casa, aquecia meu corpo na lareira e meu coração acabava seguindo o mesmo ritmo.

Com este pensamento na rota da alma passei a mão no primeiro personagem da pilha que eu havia separado para folhear sem compromisso talvez até com um certo enfado porque eu poderia perceber frases contadas e recontadas parecendo um café passado e repassado. Deixei de lado esta faísca de mau humor e segui o rumo do segundo escolhido como tentativa de recordar o que provavelmente já esqueci, talvez ali haverá um lembrete importante de que outrora eu tenha passado batido no meu entendimento por estar olhando para o outro lado sem me importar com o que se passava frente a mim.

E foi neste ponto em que me detive a pensar melhor, alçar o terceiro tomo mais velho e desgastado do que os outros demonstrando claramente que este vento gelado veio despertar meu espirito para os temas importantes e recorrentes ocultos de mim pelo destino e que carece retomar.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Custo a crer

 


Andava por aí com meus olhos em suave conluio com o campo externo da casa uma vez que os ventos do norte amainaram sua fúria, talvez por cansaço de ter que devastar o que passa pela frente executando as ordens do humor da atmosfera, esta velha sempre cheia de novas ideias e armadilhas para todos. Aproveitei a folga e decidi que talvez fosse este o momento de sentar ao sol e passar os olhos no que se passa na caixa de ressonância que prefiro andar ao largo e que eu evito sempre que posso. Porém, pelo dia calmo que aquietava meu coração, achei que apenas por hoje eu poderia abrir mão desta teimosia de dar as costas para as mil inutilidades que perambulam por aí. Me sentia forte o suficiente para descartar o que viesse me ferir intencionalmente ou não, mesmo em dúvida.

E assim me fui lomba abaixo lomba acima da palavra atravessando o que os caminhos do mundo haviam decidido espalhar, conseguindo com êxito andar pelas beiradas, evitar subidas íngremes, chutar com determinação as pedras pontudas que estavam no meio do caminho, pegar um atalho por um matagal desconhecido, me esconder de conversas, tirar uma soneca na sombra de uma arvore bem antiga e deste modo bem disfarçado fui andando por aí.

Em determinado ponto deste momento em que me estruturei para não pensar muito sobre coisa alguma me deu a impressão de sentir meus olhos afetados por elementos desconhecidos da rotina, dando a clara impressão que eu estava sofrendo um ataque que até então não fazia parte dos meus cadernos de escrita, das letras o qual sou afeiçoada, da feição de fantasmas e personagens inventados que sempre posso utilizar para rabiscar e manchar de colorido meus inventos e, foi assim neste dia de calma no olhar que descobri que pode ocorrer um minuto alheio se tornar o espinho no curso do bem.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O banco da praia

 


O desafio desta época é ver aquele banco de praça lotado destoando do ambiente normal do resto do ano, onde o que mais tem vida são as ondas do mar, a cachorrada de rua engalfinhada, a areia correndo solta com ventos do norte e as garças perdidas para o lado de cá provavelmente aliviadas da superpopulação que impera em tempos de calor. 

Eu o tenho sempre na mira e ouço todas as suas histórias com olho no olho quando ele está vazio, uma vez que nossa fala é a única por estes lados. Ele não pranteia a falta de companhia, não se irrita com os passarinhos pousando em si nem nos galhos de árvores que lhe vem por cima. Não se sente inútil por ficar tanto tempo sem que ninguém se assente para o descanso, não se verga quando o vento bate forte e não se importa quando a chuva vem lhe açoitar. Passa seu tempo sempre como novo. Inabalável.

Temos muito em comum eu e ele, a começar o gosto pelo silencio, pelo desejo de solidão imponderável, pelo acolhimento de todas as falas mesmo as mais rudes, não conseguindo de nenhum modo revidar, e, também, pela situação contumaz de se fincar no mesmo lugar. Não gostamos de partir, porém há sempre àquela hora em que ele, quer apodrecer e desistir, ali, à mercê de tudo e de todos e eu, agonizo a todo o momento porque o trem da minha partida não me fornece a data, nem horário e local. 

Porém, nem tudo é defeito. Ambos gostamos de ouvir conversas, as mais interessantes, as mais vulgares, as mais inteligentes e as mais burras. Mesmo não metendo o bedelho no assunto ouvido temos a certeza que esta pauta nos alimentará por alguns dias. 

E é chegada a hora dele, do banco, ela sempre vem, quando a variedade de criaturas vem se assentar em seu dorso e destrambelhar seus assuntos. A fauna humana se estabelece quando o clima começa a esquentar e a sucessão de causos compartilhados em cima dele o deixa em lastimável estado de confusão. 

É através dele que a conversa variada toma corpo, se assoma ao tempo recortes das vidas de uns e outros, a erva amarga rola entremeada por pingos etílicos, alfinetadas sem intenção e figurinhas são trocadas sem a menor serventia porque são tempos etéreos. 

Então fico olhando de longe meu amigo banco sempre tão bem intencionado e assim como ele muitos de nós, só que na maior parte do tempo só nos resta ser o observatório da vida em movimento.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Caos reinante

 


Encontrei uma casa abandonada cercada de mato agreste e mesmo assim ainda possuía sua beleza pois, dentre o caos vegetativo reinante, sobreviviam delicadas flores do campo totalmente desconhecidas da botânica popular que ali estavam vicejando em agradável conluio com seus pares que, desde sua origem cresceram para enredar aquele campo que por um motivo inimaginável foi abandonado ou, por força da circunstância, sentiu que já era momento de se tornar ruína, mas não sem antes escrever sua história ou permitir que outros a inventem.

Esta leitura eu fiz ao entrar naquele quintal desfeito pelo tempo e por este motivo decidi passar por uma porta lateral que estava tão escangalhada como o antigo jardim da propriedade. Com apenas um empurrão a abertura de madeira muito antiga cedeu, exibindo sem pudor os ingredientes de uma construção que havia perdido sua cor, sua personalidade e o motivo pelo qual alguém a desenhou.

O lugar estava em péssimas condições de conservação, parecendo que o ambiente, um ou outro móvel, a escada, a janela, o assoalho, a aldrava e o peitoril resolveram se deteriorar ao mesmo tempo dando a impressão que todos os que participaram da vida antiga da velha casa decidiram terminar a vida útil juntos.

Na janela principal que estendia sua vista em um grande terraço estava deposto um caderno, tão maltratado como o imóvel, porém, continuava firme, com sua capa mofada, páginas úmidas e enroscadas uma na outra, algumas partes coladas e outras ainda pareciam ter sido rasgadas do tomo original.

Impelida para a imaginação ao visualizar este quadro de grande expressão histórica familiar, percebi o diário deposto considerando que tenha sido a propósito para que a vizinhança e caminhantes aleatórios tivessem a curiosidade de examinar as marcas deixadas no relato original. Como todo caos não se explica vou reviver a vida deste lugar com outro contorno.

 

 

Alegoria

  Encontrei aquele rolo no meio dos meus guardados, aqueles que vieram de longe aportar por aqui para todo o sempre exatamente como determin...