Um despertar diferente me leva a crer que
fiquei com cem anos da noite para o dia, percebo o pensamento, outrora ligeiro,
parado, nada dentro da cabeça, todos os nervos embaçados numa farra desordenada
e alegre de neurônios em férias. Sensação estranha e boa porque parece haver
terminado o tempo de pensar e o agora ensina a flutuar. Nem sei meu nome. Meus
ossos são gravetos arqueados e doloridos e as passadas leves demonstra que é
bom não ter vigor. Vigor cansa.
Meu dia de cem anos começa sem tarefas a cumprir, sem
pesos a carregar, sem novidades a lembrar e o mundo deste jeito parece só meu e
de tanto viver, nada devo a ninguém. De mansinho um ou outro lembrete da vida
começa a se derramar e não vem de dentro de mim e sim do lado externo, de uma
folha de papel jogada no chão ao qual tropeço e fico parecendo um embrulho roto
arrastando a vida que ficou para trás.
O mundo, vazio de futuro, parece comigo, uma velha cansada cuja alma jaz ao lado prostada e cinza suplicante para voltar
ao corpo, entretanto, o tempo não parou como eu pressentia porque eu queria
apreciar o nada, desejava enxergar o velho, precisava me avistar e somente
consigo ver o caminho trilhado com tantos afazeres empilhados e aprumados que
me custa crer que aquela fui eu, jovem ocupada, tarefeira pois na lembrança não
havia o que me segurasse. E a viagem de volta continua, agora bem rápido, como
velho anda célere para trás.
Com avidez, a mente abre todas as gavetas e a
realidade transborda de dentro delas tal qual lingerie de seda macia, colorida
e jovem e, de repente, lembrei que o intervalo de cem anos vai acabar, como o
dia.

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