Hoje eu decidi sair pelo mundo com a minha outra parte, esta
que não possui contorno definido, que anda olhando para os lados como algo ou
alguém a perseguisse, que esfuma a silhueta para não atrair olhares, que desfila
por aí sem que ninguém perceba, que a voz é tão inaudível que o entorno desiste
de qualquer interlocução, esta que, vez
ou outra, resolve olhar por cima, que decide calar por não ter assunto, esta
outra parte minha que se configura como uma sombra diáfana, esta sim a melhor
parte e parece-me que talvez eu nem consiga voltar a ser eu. Ou não queira.
Ao imaginar minha figura
esmaecida frequentando lugares disfarçada de incógnita talvez se revele algum
segredo de mim e de outros que jamais estaria sendo percebido se eu não tivesse
encarado esta outra, tão pobre de presença.
E assim segui na aventura para
examinar com cuidado o que eu encontraria ao frequentar minha rotina sem o
olhar de sempre, quem será que eu vou encontrar de diferente ou, melhor dizendo,
vou enxergar de outra forma, quem sabe. Que palavras proferidas ao vento eu
conseguirei me interessar ao invés de joga-las fora sem prestar atenção a quem
as remete em frente, que significado passou por mim sem que eu me desse conta,
quantas presenças que não fazem sentido para mim eu tive que enfrentar e, por
fim, como fui percebida pela vizinhança.
No final do passeio
surpreendente que eu criei voltei a casa esbaforida para poder envergar o meu
contorno diário que existe desde de antes chegar aqui, de olhar com simpatia o
meu espirito agitado, proferir a conversa de sempre, mas com propriedade, de
olhar olho no olho todos os que cruzam o meu caminho, levantar a voz sempre que
necessário, encarnar com avidez o meu espirito cheio de assunto. O passeio
inédito ajustou os flaps e aqui estou eu sem a outra parte.

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