domingo, 15 de março de 2026

Conversa Mole

 


O sol não somente se levantou hoje em frente ao me quadrante que, predestinado pelo senhor do clima, resolveu andar com pés de fogo em todo lugar. Não abriu sua janela mansamente como é  de costume, mas escancarou sua luz de forma intempestiva. Sem sequer olhar para os lados estancou em minha frente vociferando junto aos meus ouvidos abalados pela vida e pelo tempo, rasgando o céu com letras incandescentes para me avisar que hoje não terei chance de elucubrar segredos soturnos atuais, de ontem e de amanhã como tanto me comprazo em elucidar. O Astro Rei fincou pé avisando que a partir de agora até o fim do dia somente letras cursivas e malemolentes haverão de surgir.

Assustada resolvi conferir a veracidade desta ação tão inusitada pois percebi o esfogueamento do mar que em sua linha do horizonte passava de uma linha reta para um traço trêmulo de massa liquida. A paisagem se prostrava em prece para que não houvesse um enfraquecimento das forças do renascer diário, variando o horário aqui e ali, talvez para dar uma dinamicidade no caminho da existência de cada um.

Ao sentir a ameaça de um derretimento das minhas ideias, histórias e fabulas que deitei ao longo do tempo no acervo variado de escrita, corri para o lugar em que estão empilhadas com uma determinada organização que, a bem da verdade, as vezes se invertem, tomam-se de vida própria só para me provocar o sentimento de esquecer e, assim me fazer virar tudo do avesso. Elas estavam no lugar, porém seu conteúdo estava misturado com letras muito enevoadas e sem sentido, semelhantes a um mar preguiçoso quando se esparrama e derrete na areia fofa levando para si esta conversa mole.

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