segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Comboio da Dor

 


Invadiram o meu corpo de uma forma tão radical que fui forçada a me evadir dele com rapidez sem nem sequer fazer uma maleta portando o essencial como por exemplo a minha alma, meu pensamento, meu espirito, meus neurônios e ao mais invisível que eu tivesse alcance, ficando tudo à mercê da dor que entrou carne adentro, navegou pelas veias, estremeceu a ossada, sacudiu os músculos.

Tudo estava se desconectando de mim como se houvessem resolvido que ora em diante não haveria um todo e sim apenas pedaços e que cada um deles teria vida própria não havendo chance de se reunir e decidir qual a missão que lhes foi concedida em conjunto assim que eu me formei como gente.

Deste modo intempestivo o esqueleto se negou a continuar enredado com os ligamentos, articulações, veias que, por ingenuidade, o deixaram só, desarticulado e sem ação oportunizando que o caos da dor se proliferasse iniciando a corrida do bota fora quando o sangue se manifestou revoltado deixando-se contaminar e espalhando por suas veias o veneno que lhe impuseram. Seguindo o mesmo caminho os músculos murcharam perdendo sua vitalidade e força, as articulações travaram impedindo o movimento e o coração batia devagar, pé ante pé, parecendo temer que por um motivo alheio a si parasse de bater.

Eu olhava o caos instalado paralisada não podendo naquele momento interferir e neste momento ouvi um cochicho da minha mente que me segredou que já estava na hora de voltar ao estado original, porque este corpo desencontrado precisava da minha força espiritual para estancar o trem que corria na velocidade da luz. Tracionei o pensamento revertendo o Comboio da Dor.

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