quarta-feira, 7 de setembro de 2011

150 litros de lembranças


Debrucei-me suavemente sobre aquela montanha de papel instalada sobre os meus pés a pedir socorro. Este amontoado sobrevivente amarelado e velho, encerrado em gavetas jamais abertas por um tempo demasiado, suplicavam por um destino glorioso.

Nem lembro como vieram parar ali aqueles álbuns com fotos, recortes, fitas, flores secas, bilhetinhos e cartas que se sobrepunham na minha frente formando uma trincheira. Incomodada com a visão do entulho inútil, me armei de uma tesoura e iniciei a seleção.

Pelo chão foram se espalhando em mil pedacinhos uma boa parte da minha vida, a começar quando eu nem dentes tinha, seguindo adiante em quadros repetitivos. No bafão sinistro da tarefa vou picotando fotos e mais fotos, instalando na sala uma névoa que rescindia a tempos passados. Pensando bem, eu ouvia risadas, choradeiras, música, alegria e tristeza e muita conversa. Eram os fantasmas libertos, cheios de coragem, tomando outro rumo neste dia histórico.

Me surpreendi com a velocidade por mim impressa na seleção da papelada: o que fica e o que vai para corte. O afã era resumir uma vida em apenas um álbum e o grande desafio seria guardar em gavetinhas da memória o que resolvi tirar do mundo físico. Tive o cuidado de colocar na gaveta do esquecimento todas as injúrias, as traições e a mal querência com que me acertaram. Um nicho de neurônios mortos chamado “para sempre”.

Agora, ao meu lado 150 litros de papel picado com a sina acertada.

Na minha mesa, tal qual tela touch screen, ávida e célere, vou montando a seleção da Linha da Vida. Ficou o relevante. A vida passa rápido.

sábado, 6 de agosto de 2011

Pedreiro




Deve haver um veio de demolidor muito forte na personalidade de um pedreiro pois o decujo está sempre juntando suas armas pesadas, cobertas de cimento e tinta e de tão usadas se adivinha um caminho pregresso de muitas paredes derrubadas.

É assim, armado, que o cara entra na vida de quem quer arrumar seu refúgio. Estranhamente, ficamos animados e começa uma operação tolerância zero para os pertences. Estes, sob a nova égide do oleiro, são peças que atrapalham e com seu olhar enviesado vai chutando para todo o canto o que lhe aparece no caminho.

Melhor vazar a traquitana então.

E, quando os espaços estão nus se cobrem de uma certa tristeza pois afinal se foi quem lhe dava utilidade de existir. Mas, não tem jeito, com este maluco dentro de casa só se pode esperar depredação. Então percebi, certamente tarde demais, que o pior em uma obra não é a sujeira que se faz acontecer mas sim a espera do fim do suplício.

Mas, engraçado, a cada dia uma nova idéia surge, mais um prego ali, um furo acolá, empareda um buraco, abre outro e lá se vão os dias em uma contagem absurda de quem vai fazendo sem pensar antes.

Tal como a vida da gente quando vamos juntando os caquinhos de acordo com quem está demolindo na frente.

Acho que terei que procurar um amassa barro da alma
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sábado, 16 de julho de 2011

Reforma 1







Ela veio devagar, como quem não quer nada, e em completo silêncio invadiu a minha seara. Pensei que não tinha mais jeito mesmo e a deixei entrar.

A cozinha se revelou o primeiro lugar a ser arrebentado porque de certa forma eu gostaria muito de vê-la vazia. Seus canos engordurados como veias doentes deviam se mostrar antes de desaparecem nas hábeis mãos do consertador de paredes.

Mas foi ao ver o espaço sumir e se transformar em entulho que percebi que junto àqueles canos se foi algo de mim. Uma percepção que eu mesma estava impregnada de um sebo rançoso que neste momento se esvaiu nas novas valas abertas e limpas.

De certa maneira continuei viajando num sonho de ausência. Do que havia por ali, nada fazia mais sentido e deixei a tralha tomar seu rumo. Acho até que se foram sozinhas porque de mim não agüentavam mais nada.

Quebrei as paredes e deixei a luz – antes rara - entrar com força e transformei o meu ninho antigo em um lugar de refeições, que por ora está vazio, aguardando o meu novo gosto de arrumar. Ele também se foi e agora posso andar por aí pensando e procurando o que eu gostaria de ter, qual a minha cor preferida e está sendo divertido não ter um gosto definido para compor uma casa.

Segui em frente derrubando tudo, me desfazendo e doando.

Também meu espírito tomou outro rumo. Sem culpa de esvaziar minha vida prática sem saber como reerguê-la, sem medo de liberar o que já me serviu.

Agora apenas a liberdade de ser eu mesma. Uma que ficou nem sei onde

domingo, 10 de abril de 2011

Assuntos






Cheia de assunto vergo minhas falas com sofreguidão apenas encontrando um eco ao longe, desinteressado e ausente do conteúdo a que me proponho, me parecendo com nitidez, que minha cabeça esbraveja solitária.

Houve um tempo, que até parece outra vida, onde as palavras eram o mote principal de encontros, e a ira e a audácia caminhavam em cabeçadas uníssonas, sempre se fazendo acompanhar pela risada espontânea, pela ironia inteligente, pela graça de propor e pela alegria de simplesmente estar.

Nunca desisto de procurar uma chance de enxergar nas caraminholas insistentes, aquele achaque que me bafeja a testa e que me faz, airada, pensar

Talvez tudo tenha se perdido nas areias da praia iluminadas pelo sol de outono, que agora recolhe ávida todo o brilho da natureza para si, uma vez que cansada de ser espezinhada e agredida por todo o tipo de pisante. Vai ver que os cascudos do mar, novos moradores, e as aves mais gordas estejam me ouvindo e pedindo silêncio ao meu interior barulhento.

Pode não parecer à primeira vista, mas desconfio que a insegurança e o medo eternizam o motivo do esconde-esconde, tais como os caranguejos que voltam para a beira do mar tranqüilos, pois chegou a hora de vagar para o lado e para trás. Mesmo.


domingo, 3 de abril de 2011

Fuga




Eu jurava que todos estavam ali, ao alcance da minha vista, mas quando dei por mim, as hipóteses, os argumentos e minhas certezas se adonaram de si e sumiram. Ficou em mim uma certa vergonha por ter andado invasiva e sonhadora ao pensar assuntos.

Na minha conversalhada eu lembro bem de não ter perguntado nada, que me veio tudo de pronto, com as afirmativas se alinhando ao meu pensamento então sóbrio, tenso e incluso.

Muitos dos eventos foram se acumulando no decorrer do período sem que eu pudesse detê-los, talvez porque eu mesma não o quisesse ou porque me sentisse curiosa e animada. Dar um destino ao que me passa pela frente sem que eu peça. A sutileza aparente do celerado demonstra que não preciso procurar para acontecer.

E me vem à memória encontros estranhos, declarações suspeitas, intenções não declaradas. Mas o que mais me entorta a mente é a fuga. A saída da intenção do não ocorrido, a fala suspensa, o olhar que entrega a alma.

A animação não cessa mesmo depois de eu haver desistido. O silêncio se instala, a presença se evapora e a saudade persiste.
Os novos caminhos advém, sem culpa ou vergonha de existir, simplesmente
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domingo, 20 de março de 2011

Coma





Deitado na maca com seu corpo em mil pedaços facetados tinha apenas a pele guerreira lhe ajuntando como se fosse ela, neste momento, o único elo de esperança. A morte, bafiando a nuca do coitado estirado com os sentidos já amornados ouviu a recusa de seu convite, por ora.

Seu olhar de azul celeste se agrandou, apertou, movimentou-se no entorno e lentamente seus cílios se sobrecarregaram tanto que ele foi obrigado a seguir o pedido do corpo, quentinho do trauma. Cerrou os olhos e se foi.

Não sem antes dar uma espiada na vida que lhe queria passar a perna e se aperceber que talvez fosse melhor negociar.

É nesta hora do coma que a matéria e scangalhada do pobre se abre às mil parafernálias médicas terrenas. Tanto osso quebrado, tanto desvio do esqueleto, tanto sangue para drenar. Os músculos, outrora fortes se deixam ficar derreados porque seu bravoso dono não está ali para lhes dar alma e treino forte para se fortalecerem.Todo o bucho assim se comporta, sem coração batendo pelo seu sangue quente e ousado, estômago e afins na carência do alimento que seu dono aguerrido costumava lhes servir. Todos lhe sentindo a falta, ora veja. Todos em compasso de espera do indivíduo que agora está sob o comando de máquinas, fios, cabos, sinais em telas, seringas, agulhas, plaquetas de aço, porcas e parafusos. Uma vida por mil cabos.

Não acaba aí a vida em suspense do herói. É neste momento que começa a negociação e seu espírito é buscado e conduzido pela equipe mais perfeita do Universo. Começa o tratamento, propriamente dito.

O corpo desfeito como uma carcaça vislumbra um sopro de vida neste lugar onde gravitam os socorristas que estimulam a brasa de vida que persiste no espírito deste homem. Assim lhe são feitas muitas perguntas, deste modo lhe são dadas muitas opções e também muito tempo para pensar. Ele se sente bem cercado de cuidados de todos os níveis passando de sala em sala, de hospital em hospital com vários profissionais que, juntos, ajustavam sua vida. Negociavam com ele. Que oportunidade! A tarefa agora estava quase cumprida, e sua cura dependia de querer viver.

Não só de existir em si, mas de conhecer quais seus propósitos reais neste lugar chamado Terra, de sua utilidade para sua família, amigos, filhos e humanidade de uma maneira geral. Abdicar de seus sonhos buscando outros em seu lugar. Escolher outra perspectiva porque lhe sobra muito tempo. Adiantar planos antigos e colocá-los em prática. Visualizar que existem outros caminhos fora os já trilhados. A decisão era sua. Ficar ou comparecer ao Juizo Final. Abriu os olhos.


domingo, 6 de março de 2011

Céus e terras




Com passadas cadenciadas, olhar afundado ao chão, seguia sempre do mesmo jeito, todos os dias, contorcendo seus pés nas areias macias, em alguns momentos, em outros lisa e dura como pedra. Aliviava todo o corpo tenso ao tocar este chão, diferente a cada dia enquanto o espírito nublava e arejava.

A cabeça pendia de um lado e outro, vagarosa, acompanhando o vagar insuspeito do pensamento. Os ombros fortes se negavam a seguir o ritmo do olhar se deixando ficar firmes mas parecendo inconsoláveis. Assim toda a massa física se comportava.

Seguia lento no pé ante pé, absorto, e não via nada do que acontecia ao redor. Tão inexpugnável que poderia acontecer o que fosse, que do fundo da beira da praia aquele olhar não levantava.

A visão descarada se projetava como um ímã nas profundezas do solo como se ali estivesse o seu vôo, calculado milimetricamente como tão bem fazia entre nuvens. Seu corpo no costume do vôo solo, ouvindo o silêncio azul dos céus, brincando de esconde-esconde com nuvens em polvorosa querendo se esvair em águas, absorto em sofisticação tecnológica e comandos determinantes que resolviam todos os seus caminhos.

Agora, são tatuíras que passeiam em sua frente e mariscos lhe ferem os pés. Magnetizado cada vez mais pela superfície praiana, adentra por entre caranguejos, galopa no dorso de cavalos marinhos, nada em cardumes, descansa no casco da tartaruga gigante. Se esconde de si mesmo nas algas e corais e foge das mães-d’água. Um exílio projetado que parece não ter fim.

Finalmente, ergue o olhar e diz: Oi !


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Proteção



Tenho mais paixão pelas palavras do que pela escrita, com acessos contínuos de trazê-las à berlinda, usando-as para me deliciar com seus significados, retorcendo um pouco e surpreendendo do tanto que podem mudar nosso pensamento e atitudes. Portas e janelas se abrem ao novo, inusitado, diferente.

A portabilidade é uma dessas novas palavras da moda. De repente temos o direito adquirido de levar a outro protetor tudo o que recebemos por anos a fio de facilidades e de apego mútuo por aquela senha gravada na nossa mente e de todos os que queremos bem. O passaporte do contato.

Por ele nos conectamos com o mundo, negociamos desarrufos, matamos com força de sabre a saudade e chegamos, em segundos, aonde queremos estar. Do outro lado do nosso fiel servidor sempre tem alguém ou “aquele” alguém que de pronto atende o chamado. Uma ligação desesperada, outra morrendo de amor, ou, muito engraçada. Vazar as palavras desta forma se torna imprescindível para se estar junto, apesar de que as falas ao vivo, com todos os seus tons, sobre-tons e surpresas estejam tão fora de moda.

Depois de tanta conversação e fidelidade inescapável nos códigos adquiridos surge outro protetor que nos oferece a mesma coisa conservando o mesmo número. O poder da sedução moderna joga pesado, e, um pouco sem pensar, nos atiramos nos braços do distinto que nos promete tudo e muito mais. Relegamos sem medo nosso futuro das comunicações a este mundo hightech que se apresenta cheio de promessas de mais simplicidade, mais interatividade, mais e mais. Tantas juras. Vou fazer a portabilidade do amor no meu coração.


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Castelo de Cartas



Uma a uma as cartas foram sendo jogadas, indecisas algumas, apostadas com vigor outras e tímidas também. Porém, em sua maioria, a sorte pendia para os apostadores agressivos que jogavam suas fichas com sofreguidão e a desordem de quem não respeita as regras, quaisquer que sejam elas.

Foram sendo colocados muitos reis e um nadinha de súditos, parecendo a todos que o coringa estava submerso neste baralho estranho, onde apenas as cartas autoritárias tinham vez.

A jogatina era pesada, com apostas determinantes a qualquer preço, sem pensar, sem olhar o semblante do outro jogador, sem a astúcia das cartas na mesa assim como as do centro e nas mãos dos parceiros.

Me chamou a atenção as rainhas de muito baixo escalão que seguiam orgulhosas sem ao lado olhar, construindo seus castelos a partir da destruição de palácios, atravancando a operação pelo bel prazer do orgulho e da prepotência. Altivas, o valor das cartas careciam de inteligência e a soberba imperava e seguia incólume, encostando sempre no líder da mesa – o Ás de Ouros – que apesar da fama de herói era o mais pobre coitado do carteado.

Todos os reis agrupados mais se degladiavam e se concediam glórias entre si, do que propriamente jogavam suas cartas com habilidade e presteza. Assim era impossível entrever a situação no tabuleiro que também abrigava excelentes jogadas com personalidades talentosas. Ocultas. Enfim o jogo chega ao fim.
O Coringa surge apenas para capar o Ás de Ouros.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Marionete



O cabo ligado em cordas disfarçadas de seda movia todos os seus membros, acionando braços e pernas sem vida de si, mas outorgada a outrem como se fosse um ímã. A sensação de ser um títere, cuja personalidade se foi há muito, ou talvez nunca tenha se estabelecido, foi relevante para que a dança de marionete se fundasse.

Em um levante de dedos todos os comandos em alta com a cabeça se agitando e sendo obrigada a enxergar a demanda do autor. A situação se movimentou em muitos e certa fraqueza assolou o articulista que começou a derrear comandos, deixando o marionete por sua própria conta. Acovardou-se, o pobre, na batida ligeira de todos enredados. Fugiu.

Atirado ao solo, sem as amarras que lhe montavam a carcaça e livre dos cabos que lhe concediam o movimento autorizado, recuperou sozinho sua identidade roubada, por um período, com seu próprio consentimento, diga-se a verdade.
Um pouco resvalado e ainda com a sensação da linha de força a lhe enlaçar, lá se foi o marionete. Em direção a si mesmo, por enquanto.


sábado, 22 de janeiro de 2011

Fase



O lugar era exíguo, diferente do que meus braços e minha cabeça espaçosos estavam acostumados. Mas, não foi difícil me adaptar, colocando ao meu redor tudo de que necessito.

Existindo de certa forma um pouco fora do chão e muito indo a ele catar as coisas que se soltam no meu quadrado. Coisas tão pequenas e de tão grande significado para que se complete a operação, seja do trabalho do lazer ou do sonho.

Na contrapartida do apertado espaço físico, a imensidão da natureza a me desafiar todo dia com oceanos profundamente revoltos muitas vezes, ventos fustigantes e céu enfarruscado. Quando passa a fúria, nem parece a mesma natureza, com águas calmas, um nadinha de vento e um calorzinho que mais aquece a alma do que o corpo.

Foi então que eu percebi que o meu coração está num compasso que não acompanha o momento. Bate devagar. Mais se arrasta inaudível. Apertado, pequeno, não anda dando conta do entorno.

Não tem se comovido com as perspectivas.
Não tem se agrandado nas conversas tão aguardadas.
Não tem batido forte emocionado.
Não tem tido paciência com o amor, seja de quem ou qual for.
Não tem sem expandido fora do cercado.
Não tem tido nenhuma função relevante.

Coração na mão.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Solitários



Na primeira vez me chamou a atenção um pé de sapato solitário perdido na beira do mar. Era de homem, e devia estar no fundo do oceano algum tempo, a confirmar seu aspecto, e me dei em conta de pensar em mil achados para o perdido. Jazia entre areias, mariscos mortos e tatuíras idem. Era um pé de sapato de couro preto com grossa sola borrachuda.

Poderia ter sido de algum macho marinheiro ou pirata de atanhos que talvez o tenha atirado em uma briga na cabeça de outro combatente. De pronto, me pareceu ouvir as passadas fortes do homem autoritário que se fazia atender através de seus passos pesados que o calçado abrutalhado lhe conferiu. O sapato, por incrível que pareça, não estava rôto, estava revestido uniformemente de uma camada de musgo marinho, ainda verde, com uma visão cabeluda, levemente sinistra.

Talvez tenha escapado do pé de seu dono em uma farra etílica, numa briga do macharedo por um rabo de saia, ou jogado ao mar pela mulher traída que o surpreendeu agarrado em outra cintura. Pode ter ocorrido em uma tempestade de alto mar e o sapato se desgarrou de seu corpo. Ou o corpo se esvaneceu restando apenas o heróico calçado.

Solitário na beira da praia veio dar o seu recado a quem o visse.

Da segunda vez foram os pedais que me alertaram na beira da estrada para um sapato feminino caído no asfalto. Um salto alto, bico fino, preto e com laço dourado. Novo ainda. Sapato delicado deve ter tido sua última noite calçando a senhorita fogosa e faceira que em passos de dança comemorou a noitada. Depois, rodou em doce passeio na Barra Forte do amado, a quem enlaçava delicadamente a cintura para se equilibrar. As duas pernas para o mesmo lado como convém a uma dama, e scarpin brilhando ao luar. Não foi percebido o desgarrar-se do acessório que por ali ficou pela sua própria conta, brilhando mais tarde, à luz do sol.

Dois pés perdidos no mundo. Macho e fêmea que nunca se encontrarão.

Desencontros relativos.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...