quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Uns e outros


Tantos se apresentam e tão poucos deixam lembranças memoráveis ou dignas que no nosso despertar de todo dia podemos sentir como se um suave perfume estivesse habitado nossa alma durante o sono e neste momento, ao abrir os olhos para o mundo a leveza de quem soube ser boa companhia nos acompanha.

São como fios leves de seda pura onde alguns deles estão um pouco rasgados ou desfiados, não por desleixo, mas sim por haver tido deste jeito tanta aferição do tema que como se fosse uma metáfora ele aparenta esta compostura. No lugar do vazio da alma se aconchega tantos pensamentos recorrentes que se entrincheiraram como uma ponte às avessas só para ter mais graça, para poder rir depois do desavisado argumento que em nada se parece com discórdia mas sim parecências.

Em outros casos pode parecer que foi o acaso que uniu as conversas e assim havia sempre aquele salteado de assuntos, ora versando para dificuldades variadas, ora lembrando fatos, e sempre com muito apego pela risada repentina, pelo desdobre de mudar o assunto sem serventia, do olho no olho, do cuidado extremo em tirar proveito do momento, do encontro. Nenhuma tentativa vã de destruir o pensamento que se eleva igual ao ventinho que sobra da costa, balançando cortinas, dando motivo para que as flores soltem seus perfumes e assim vai terminando a ocasião deixando um sabor de palavras que varreram da mente por alguns breves minutos momentos esquerdos colocando em contraponto uma conversa curadora.

Em certas ocasiões é o silêncio que grita dando ordens para que se faça com ele a dança dos gestos, que o acompanhe em um olhar alongado para todas as paisagens que passam aceleradas quando emudece o pensamento. Na abundância não sonora todos os sentidos são aguçados perpassando apenas sensações e deste silêncio orquestrado por tantos, por um ou dois fica um sugestivo alvitre do precioso alarme. E então se apresenta valente quem de certa forma sempre esteve ali fazendo segredo de tudo, ocupando os vazios sem alarde, conjugando todos os versos juntos e deste jeito assim, bem sutil, se vai como chegou. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Assuntos


Já fazia um tempo que o assunto não aparecia, talvez porque o próprio esteja cansado de si mesmo e não quer andar por ai carregado de contextos requentados, parecendo sempre querer ter uma sobrevida naquele canto da memória. Em boa hora isso sucede porque acabou de certa forma aquele jeito de guardar tudo para ver depois e assim vem o pingado de reflexões empoeiradas e recorrentes que se enredam como novelo de lã em patas de gato.

O enfado então tomou conta daquele momento tão crucial onde a única verdade que se apresentava era a retirada dos imprestáveis capítulos rejeitados daquela cadeia. Parecia muito fácil, assim de pronto, mas ledo engano, alcançar excessos calcinados pelo tempo e rotos de tanta espera não se oferecia como uma opção mais fácil. Mas o dito assunto resolvera que seria naquele dia que tudo teria de ter um ponto final. A descoberta deste recanto repleto de histórias não vividas, mal contadas e até inventadas era tarefa para experimentar o fio da navalha exercendo seu poderio implacável.

O cuidado agora era para se precaver de não ressuscitar nenhum conto entrelaçado, que muito bem poderia estar ali disfarçado para renascer na hora mais imprópria. Olhando agora com sangue nos olhos para as possibilidades nefastas de mexer neste vespeiro e ver em restauro os aborrecidos, era uma variante a ser considerada.

A moleira forrada de coisas antigas, irrecuperáveis por terem seu destino acertado com tanta antecedência talvez tenha sido varrida da memória recente por puro capricho amoroso, por ter focado em outra coisa, por embotamento das emoções, por paralisar ao evento acontecido e agora pode não resistir ao frescor do vento, as gotas da chuva, o ar da primavera, o cheiro do mar e interpreta de outra forma este passado morto vivo.

Com muito jeito a navalha mutante de fio intenso resolve mudar de lado e ao invés de cortar na raiz aqueles casos todos, se anima em fazer justamente o contrário. Com leveza e pontaria certeira vai desembaraçando os nós das historias, desenovelando cada assunto, separando o que é de amor, o que é de briga o que é de descaso o que é de injustiça o que é de tragédia.

E com novas cores e roupagens tem-se de volta um velho amor que na verdade é novo, brigas antigas se descolam como brisa, enganos renascem com sinceras desculpas, desencontros restauram possibilidades, os filhos retornam, os mortos perdoam, os amigos acordam, os familiares se reaproximam, o sono termina e a vida continua.

sábado, 15 de outubro de 2016

Leitores


Sempre vem dar uma espiada e com muxoxo tão peculiar vai dando sua narrativa que em nada se parece com uma opinião, vem sempre com muitas letras, com uma verve literária que faz corar e invejar letras tão rebuscadas, com frases tão encadeadas que tiram o fôlego da leitura, fará na compreensão. 

Aguardar a visita ilustre faz parte do ritual que imprime na folha branca a primeira letra o primeiro pensamento a primeira frase, que ainda nem destino acertado tem. A ansiedade aguarda em sentinela para que então tudo seja mais ou menos aprovado, mais ou menos refeito ou quem sabe até, mais ou menos aceito.

Interessante seria vislumbrar a companhia na interferência dos dizeres letrados, como se assim o texto fosse tocado como uma sinfonia, com vários acordes entre tantos que para se ter uma lauda uníssona, muita releitura haveria de trazer em tantos vieses, tantas outras palavras e, claro, tantos outros significados.

Baixando o sarrafo nas ideias, com uma verve lírica, contumaz e rebuscada, confunde as palavras tornando a intervenção quase que como um novo escrito, com outro nome e sobrenome, com uma altura inestimável, como uma querida companhia e a sobriedade vaza em todos os pontos alinhavados pela opinião tão bem acolhida, diga-se de passagem. Não se sente falta do que não se tem, mas neste caso, parece que o corrido de palavras ressuscita em novos ares o que já foi exposto e, deste jeito, agora, pertence a ninguém.

Em outro canto e na continuidade do trabalho de sarrafear o texto apresentado, o leitor conquistado arranca o que mais lhe parece ser proposto a si e rasga um pedaço do conjunto de vocábulos com uma intenção egoísta. Este jeito de surripiar pensamentos escritos oferece uma oportunidade para que as mesmas palavras se tornem outras travestidas com um novo sentido ou encarnadas em uma alma nova.

Ao iniciar a conjugação dos verbos é que a história vai sendo contada, vai aparecendo. Todo dia nasce um fiapo de flor, de raiz, de inço e deste jeito é a faina da escrita. Vai fluindo da ponta dos dedos, muitas vezes sem sentido atingindo quem de fato pensa.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Mantra


É só me chamar que eu vou, parece que é um mantra, com um jeito tão intenso que parece acoplado na ossada, inserido na derme, imerso na goela, como se conjugasse todos os verbos desde sempre. Não era uma ilusão, era uma verdade até que chegou o momento em que estranhamente o decujo não soava mais os ouvidos com tanta intimidade.  Naquele dia alguma coisa estava diferente, e, de certa forma, não se escutava ao fundo aquele diz que me diz de todo instante, quebrando deste jeito impulsivo o som da ordem.

E assim nasceu o dia em que o mantra enraizado se iluminou sozinho e foi buscar em outras paragens o sujeito de sua vida, a sua concha ensimesmada, o seu pó de flor que espirra macio em todas as direções.  Assim chega um novo alvorecer onde todos os chamados são diferentes dando opções de vida, de poder pegar e largar, de não escolher, de deixar tudo, mas tudo para depois, de ouvir o som e a voz do vazio.

Na ausência do bate estaca monocórdio aconteceu o improvável, uma vez que em sendo liberto das amarras, os pulsos da mente ainda se contorcem na procura de desamarrar os nós, o ouvido se espicha notadamente como se faltasse algum acorde para o concerto daquela hora e os pés se posicionam na marcha que some na medida em que avança.

O caminho é diferente, não por ser novo, mas por ter sido escolhido justamente por não ter serventia aparente, por haver em seu trilho as mesmas coisas de sempre, porém, vistas da esquina em frente, com uma iluminação densa, com as nuances imperceptíveis aos olhares ligeiros e a interessante alternativa de poder escolher.


Agora sem rumo, caçando o improviso, o cenário se agiganta com força e se espalha dando asas a todas as preces sussurradas com fervor durante os dias e noites que se avizinham tão celebradas. O som é variado porque vem sem sugestão, o passe é livre, os nós jazem esquecidas pela inatividade, o alcance, outrora soberbo emudece para sempre e assim os passos acompanham a voz desafinada que ensaia outras Arias.

domingo, 9 de outubro de 2016

O fim


O fim surgiu assim meio que abusado, com cara de arrogante, mas, de tão determinado não meteu medo não, porque dele se farta em muitos e o excesso somente defende quem dele precisa partilhar, assim como os olhares altivos e as conversas enfastiadas estão dominadas, portanto, nenhum deles dará o ar da graça de ora em diante.

Surge então ele travestido de herói e acatar a serventia vira premência, sugar sua entourage para que sirva de todas as formas não é mais uma sugestão, mas uma ordem, apreciar sua presença neste tapete vermelho improvisado foi apenas uma das delicadezas e recepcionar o pretenso algoz se tornou a melhor forma de enxergar o que não se pôde ver até agora.

Se dúvidas houve sobre sua validade, elas assim se esfumaram no ar secreto que arrebanhava os melhores ventos, os mais desconhecidos pólens, os mais quentes raios de sol e as gotas mais prateadas que a lua nos pudesse ceder em todas as suas fases. Assim ele se adornava para encantar a tudo, porque já não era sem tempo que ele prometia vir para ficar. Suas sombras ladeavam todos os pormenores, invadiam a sutileza de dias mais calmos, se aconchegavam no day by day e na afoiteza do agora.

Afinal, ele era reconhecido por ser sempre uma perspectiva, um ângulo inseguro, um aparente terminal, um resoluto finalizador e de tanto em tanto nem tão bom parecia ser, mas isso, somente para quem não lhe desejava com tanto ardor. Achegar-se a ele de tão pronto foi como se a calma viesse bater na porta e ela, mesmo aferrolhada se abriu de par em par, acatou o fato inconteste que assim o determina e se instala finalmente, sem muito assuntar o entorno, sem muito duvidar das intenções e sem, obviamente, questionar a decisão.

Agora sim, todos os dias serão hoje, o mesmo sol será sempre diferente, cada noite servirá para acalentar os sonhos e apenas eles, os caminhos estão abertos para ir e vir, a mente despojada sem amarras, os assuntos com propósitos sem serventia, porém sedutores, um somatório de letras enfileiradas formando um encerramento feliz, privilégios de não fazer nada fazendo tudo, conversar pouco dizendo muito. Assim é o fim.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A rede


Olhei de longe o artefato e resolvi me aproximar, ele parecia estar ali justamente para que o enxergasse e jazia assim, no chão, em área bem extensa a bem da verdade e assim, aberto e espalhado com tanto primor me fez levar o olhar em volta para me certificar de quem estava por trás daquela instalação. Não vi ninguém, mas estranhei que o que poderia parecer lúdico de maneira nenhuma se aproximava disso. Não me importei e segui ali por perto.

Como não havia nenhum movimento no entorno, resolvi levantar uma ponta do que me parecia ser uma rede e me surpreendi porque a mesma levantou em toda sua extensão e flanou no ar, com sua teia rendada em fios fortes de corda, em magníficos losangos que pareciam tão simétricos que duvidei que fossem trançados por mãos humanas.

Surpresa, decidi puxar esta ponta e caminhar um pouco arrastando toda aquela extensão e qual não foi minha surpresa quando ela veio comigo, leve como uma pluma, porém, de tempos em tempos baixava até o chão e recolhia algo, com muita suavidade e delicadeza. E assim vinha fazendo este movimento constante. Como eu estava na ponta não conseguia perceber o que era. Somente que a rede continuava inflada, obedecia meu comando e agregava algo em suas entranhas tão bem delineadas.

Comecei a me sentir tão leve quanto a trama, mas também muito curiosa para saber o que ela enredava em seus fios nesta caminhada forçada que eu a levei a executar. E assim, estanquei a passada e ela me imitou se acomodando no solo. De certo modo agora ela tinha um aspecto diferente do inicio da jornada, já não estava transparente e impecável em seu trançado, e, por entre os fios harmoniosamente enredados eu percebia algumas sombras que assim de longe não se mostravam por inteiro.

Fui obrigada a me aproximar e desta feita deitar o olhar com apuro sobre o que eu havia arrastado sem querer, nesta caminhada de uma manhã com sol entre nuvens, inquieta e morna.

E para minha surpresa comecei a enxergar que esta cobertura tênue que eu puxava vinha atraindo para suas linhas tantas e quantas desconsiderações da vida, como aquele distrato, aquela conversa sem sentido na boca da noite, aquele encontro surreal, aquela abordagem sem pé nem cabeça, aquela reunião desconsiderada depois e muitas outras pequenas desventuras se uniam enfarpeladas. Dei-me conta que apenas em um momento de calma difusa e desencontrada, muitos senões se enredam entre si e mansamente se diluem no propósito.

domingo, 2 de outubro de 2016

A chave


Parecia invenção, mas era fato, e dava para perceber agora, e somente agora, que as possibilidades se aventavam se mostrando como uma chave escolhida a dedo, entre tantas outras e com certeza esta única irá abrir todas e tantas cancelas mesmo que não seja esta a vontade. Com este convencimento se vai ao encontro do que aparentava com tanto simbolismo ser apenas uma sugestão.

Ledo engano pensar que o caminho de descoberta estaria destrancado, e assim, tanta travanca quase liquefez a motivação. Mas, a imagem de uma clave em mãos vale a determinação de tentar todas as fechaduras que surgem pela frente e assim quem sabe, encontrar o quê.

O primeiro ferrolho que se deixou abrir tinha um jeito um pouco mais antigo, rangeu ao ser tocado, soltou farpelas enferrujadas, trancou um pouco mais, enfim, destravou. As cenas eram muito semelhantes ao ferrolho transgredido com uma disposição acirrada de forjar a ferro e fogo o que fosse na desarrumação a falta de prurido era inconteste e certo jeito calhorda de modo geral imperava.

O segundo portilho era diferente do anterior uma vez que ele se apresentava untado, fácil de destravar, com um aporte de engenhocas azeitadas e limpas. Ali dentro o cenário era iluminado, com muitas máscaras bem dispostas que apenas por detalhe também não levavam a nenhuma resposta. Frias, não tinham nenhuma quentura nem colorido e estavam ali aparentemente como um recado para sair às carreiras.   

O terceiro ponto da chave era uma manopla, pouco estruturada e de uma simplicidade rústica tão ingênua que ao menor toque de virada o segredo se abria. A partir dali, era estar em um portal muito diferente dos outros, um cenário onde havia apenas uma luz difusa que permeava pelos cantos vazios exalando um perfume que envolvia o ar rarefeito, criado para alertar, para suspender a respiração, cerrar os olhos e sentir. E é assim que aparecem as respostas, em uma página em branco, uma cancha vazia, uma ausência, um suspiro. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Vestígio


Não pensei muito naquele dia porque eu tinha urgência, muita coisa me esperava após o bater de portas que hoje percebi que vieram muito silentes, quase imperceptíveis, e então deste jeito e assim, as janelas, as frestas, os buracos, os vãos, se mostraram a mim travestidos de novas oportunidades parecendo ali, naquela hora, que zombavam de mim por ter sido tão cega.

Eles se apresentaram como pontos de luz difusa, uma claridade que nunca havia visto, com reflexos parecendo cristais que se dirigiam a tantos nortes que me deu uma quentura na alma, que eu tenho certeza, somente oportunidades genuínas poderão te remeter.

Ser cega, às vezes, somente se parece com não ter a noção exata de quem está em frente. Parece tão fácil conhecer o que está ali, mas basta um ponto para que o castelo de cartas desmorone, e assim, a intenção sempre camuflada apenas confere a linha dura que estava sendo imposta e desta forma se consolida uma arte que não é o direito, mas sim o avesso.

Então, pensei que eu poderia agora pensar dentro de um espaço com aberturas que me fizesse crescer, que me desse oportunidade de saber mais e melhor, de olhar e ver sempre outra coisa, não me entrevar ou me deixar comandar por inúmeros. Vou libertar-me de falsas frinchas que pretensamente apontam para um todo, mas inequivocamente estão com os dardos apontados em outra direção.

Olhar com mais vagar todo o dia a mesma paisagem e ver diferente. Ter na cabeça o propósito de enxergar tudo, mesmo sem avistar o norte, costurar tanto o lado avesso que ele pareça direito, esmurrar o vento na diversão, acreditar que sempre é para valer e então, de agora em diante vou passar sem deixar vestígio que não combine comigo.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Closet


Circulei com audácia por entre panos dobrados e achincalhados porque era naquele monte enredado, colorido, arrevesado, que eu deveria me ater naquele momento, e enxergar a tarefa apontada para mim como uma garrucha prestes a detonar. A primeira coisa que eu me determinei a fazer foi espalhar pelos arredores do cômodo - pequeno - as peças que assim, neste formato, perderam de fato seu brilho, seu estilo, seu glamour e assim relegadas ao chão, algumas foram pisoteadas sem dó nem piedade. Havia uma certa pressa em organizar, em colocar os pontos nos is, em separar o joio do trigo e triunfar no final do jogo jogado pela vida que se atrevia a encarar de fato a mudança.

A organização não primou pelos materiais, mas sim pelo significado, e ahhhhh significar é tudo o que se mais quer, o desejo de se apresentar frente ao outro com relevância, a audácia de ser importante entre outros mais e, claro, o ponto alto é ser indispensável. Caindo em mim, fragorosamente, dei-me a perceber que os tantos amontoados se configuravam apenas como panos, por estarem assim espalhados no chão, dando um viés de sem serventia aparente, desqualificados e sem propósito. A constatação me fez sentir que este era o momento em que o espaço pedia passagem aos berros e eu ali, com os braços estirados ao lado do meu corpo, relutava em conhecer a verdade.

E assim, um pouco desatinada e sem saber como cumprir com a tarefa, me joguei furiosamente ao acumulado de vestes que compunham meu figurino desde alguns anos, a bem da verdade. Então foi bem bom lembrar quando a minha fome de variação se extinguiu, se escafedeu, foi pro saco e entrou triunfal a resolução da hora que constava em ter o manequim conservado para que para sempre pudesse vestir todos aqueles trapos.

Para grande alivio fui intercalando o arremate do acervo com sorrisos de despedida para algumas peças que já se acumulavam em montículos com destino certo. Agora, não preciso mais me perguntar com que roupa eu vou, mas sim decidir qual modelito eu “carrego bem.”

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Logo mais


De certo que ali não havia muito movimento naquela hora, porém, de qualquer modo, era isso o que me atraia, talvez. Em contrapartida com os movimentos da vida urbana, assistir os andamentos do pacato lugar, era sempre uma aventura, que eu não cansava de usufruir. Fosse de longe ou de perto, ali estavam os meus olhos descobrindo os novos formatos que saltavam à vista mais acurada, mas só daqueles que se embrenham no mundo interior com tempo firme ou avesso. São tempos em que se assobiam trilhas de uma nova estação, de mudança na natureza e assim também o meu dial reverso para outras antenas.

Mas não foi com esta intenção que passei a escutar o derramo, me ative por considerar algo que me chamou a atenção e fiquei imaginando que não seria prudente sublevar meus pensamentos. E então vieram a mim como se fosse um show de várias orquestras, o som estridente de suspeitas conversas dos asas de telha que por ali se revolteavam. E ensurdeci ao ouvir toda aquela gralha, apurei os ouvidos e passei a entender a grande charanga de todas as espécies que se alternavam em bandos por entre os muros, os galhos, as telhas, os postes e os fios de luz que constavam do meu quadrado. Pequeno, na verdade.

Continuei amoitada agora com os olhos em riste me dirigindo às garças silentes que se abandavam para os lados de cá do mar se arriscando e voando baixo no riacho. Pareceu-me que brincavam ou faziam estripulias longe do seu natural espaço que ruge sem cessar. Elas são donas da beira da água junto com outros vários pássaros que passam o dia na maior calma, mas com a aterrorizante sina de abicar sua comida, farta por ora, porque ali também impera a ordem do dia: todo mundo trabalhando para seu sustento, eu inclusive.

Na outra ponta as enigmáticas conchas se postam por ali desprovidas de quem deram a luz, jazem descarnadas, recortadas pelas pedras e areias do mar, quebradas por redes de pescadores, de tarrafas brincalhonas que arrastam para este canto seco, dando assim um fim ao seu roteiro. Algumas estão fatiadas, outras permanecem inteiras ou apartadas de sua metade. Mesma confusão da vida delas que não depende de seus próprios pés para selar seu destino, mas sim com o mar na sua supremacia natural.

Uma inquietação passou por mim, leve como a traição, fugaz no propósito, porém clara na finalidade. Antevi que a sombra da praia não virá mais das nuvens benditas que brincam o dia inteiro entre sombrear e acalorar, mas sim de coloridos quarda sóis enredados um no outro, a gritaria da natureza será substituída pela corneta do sorveteiro vibrando para aturdir, o imenso vazio será tomado pelos corpos em volume excêntrico nas areias, os pássaros sumirão em bandos, as garças correrão a se esconder, as conchas milagrosamente se enterrarão rapidamente antes de serem pisoteadas, a bicharada inquilina do quebra mar se afundará de medo. Então percebi: o verão vai chegar.

domingo, 25 de setembro de 2016

Uma brecha


As circunstâncias estavam muito favoráveis e talvez fosse necessário mudar o rumo do que até agora foi feito, apesar de que sempre que se engata a marcha, impossível desacelerar, depois de sempre sorrir, impossível chorar, depois de gastar-se em atenção constante, emudecer parece trágico, depois de sempre relevar, subir o tom é ficar sem voz, depois de nunca se melindrar, ajustar as razões parece agressão. E as desculpas para lá de esfarrapadas iam sepultando as intenções de mudança.

Mas era por ali que o começar aconteceria, uma vez que tantos fatos se apresentassem com uma verve indecorosa que era impossível não lhe dar atenção. E foi nesse caminho de observação que o tudo ou nada se oferecia e não havia meio termo porque o tempo passara, e tudo já estava desarrumado como sendo um aviso para o desembarque.

Assim também se tornara inválido trocar de lugar os fatos porque enviesados já estavam, em alguns o foco se apagara e em outros a luz constava exuberante, talvez porque aqueles continham uma história mais virulenta, mais aguerrida em consolidar-se. Pelos lados, ocasiões de somenos importância que jaziam na espreita coroados pela luz difusa deste breve resvalo na impotência.


Parece estranho tentar reverter ditas verdades, mas a premência está fixada na limpeza de tudo o que ainda se mantem de pé, os lances que não fazem sentido, que não favorecem que não acrescentam que não trazem alegria. O pano da faxina conduz a mão ao invés de ser o contrário, porque de tudo estar tão claro agora os acontecimentos se descolam daquela via, se extraviam estonteados por não terem mais propósito, se jogam desmilinguidos por não terem significação na exorbitância e no desatino. Tudo vai sendo relegado ao efêmero que capricha na depuração e agora restam insólitas palavras soltas, frases sem nexo, sofreres sem propósito, desgostos desativados. Uma brecha para não ser mais preenchida.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Linha cruzada


Um alô! simplório abre uma porta radiofônica e muitas vezes entra uma linha cruzada sinistra e deste jeito se estabelece uma conversa de loucos como tantas por aí, se entrelaçando misteriosas e desconexas para o não convidado, que busca entender aquele diálogo que surge no meio de um dia em que a intenção era buscar uma conversa alhures com alguém, que inclusive já aguardava a ligação. Mas o destino foi mais forte e levou para longe o propósito.

Emudecer de curiosidade e ficar ouvindo o que os outros falam como se fosse premente estar ali, coloca na vista uma onda magnética de indiscrição e medo. Sem nem respirar, o intruso engole as estórias alheias e os mexericos obviamente incompreensíveis para quem está de fora. Telefonemas anônimos eram comuns e a paixão platônica surgia através do timbre de voz e assim se derretiam as fronteiras do cuidado e arrombava os contos absurdos fazendo reféns do fio condutor da conversa alheia.

A baliza de intersecção de conversas evoluiu com a destreza e descaramento inominável tornando desconhecidos, alvo e pontaria, unidos e separados, ativos e reféns, que negligenciam o propósito da troca, que escarnecem da realidade se formando uma massa crítica para o que vier. Sem acordo, sem proposta e com a única bandeira de si.

Por onde anda a verve que reúne uns tantos em torno de vários e que, para que haja entendimento, cada um tem a sua vez de se posicionar, de falar com as mãos, de vociferar com os olhos, de pensar em segredo, de respeitar sem se imiscuir, de gingar o corpo todo fornecendo assim a teatralidade do conchavo, refrescando as ideias, alegrando o convívio, articulando novos temas.

Em nenhuma praça os encontros misturam o apoteótico da razão com a vivacidade do discutir, do dilacerar argumentos com tanta abundância que os posiciona em mergulhos profundos de oportunidades. Várias leituras para tantos temas. 

O Avesso de Vanisa

  O dia amanheceu quente, com um sol quase a pino já na madrugada, acordando tudo o que a natureza deu vida. O morno do dia deixou os aldeõe...