sábado, 27 de dezembro de 2014

O banco


O desafio desta época é ver aquele banco de praça lotado, destoando do ambiente normal do ano, onde o que mais tem vida são as ondas do mar, a cachorrada de rua engalfinhada, a areia correndo solta com ventos do norte e as garças perdidas pelo lado de cá, provavelmente aliviadas da superpopulação que impera em tempos de calor.

Eu o tenho sempre na mira e ouço todas as suas histórias com olho no olho quando ele está vazio, uma vez que nossa fala é a única por estes lados. Ele não pranteia a falta de companhia, não se irrita com os passarinhos pousando em si nem com os galhos de árvores que lhe vem por cima. Não se sente inútil por ficar tanto tempo sem que ninguém ali se sente para o descanso, não se verga quando o vento bate forte e não se importa quando a chuva vem lhe açoitar. Passa seu tempo sempre como novo. Inabalável.

Temos muito em comum eu e ele, a começar o gosto pelo silêncio, pelo desejo de solidão imponderável, pelo acolhimento de todas as falas mesmo as mais rudes não conseguindo de nenhum modo revidar e pela situação contumaz de se fincar no mesmo lugar. Não gostamos de partir, porém há sempre àquela hora em que ele, quer apodrecer e desistir de estar ali à mercê de tudo e de todos, e eu, agonizo a todo o momento porque o trem da minha partida não me fornece a data, nem o horário e local.

Porém, nem tudo é defeito. Ambos gostamos de ouvir conversas, as mais interessantes, as mais vulgares, as mais inteligentes e as mais burras. Mesmo não metendo o bedelho no assunto ouvido temos a certeza que esta pauta nos alimentará por alguns dias.

E é chegada a hora dele, do banco, ela sempre vem, quando a mais variada das criaturas vem se assentar em seu dorso e destrambelhar seus assuntos. A fauna humana se estabelece quando começa a esquentar e a sucessão de causos compartilhados em cima dele o deixa em lastimável estado de confusão.

É através dele que a fofoca toma corpo, o comentário maldoso em relação à vizinhança tem vida própria, a erva amarga e o gole etílico trocam figurinhas, a mulher de um alfineta a do outro, o homem ignorante agride quem não conhece a mulher sem escrúpulos inventa e maldiz.

Fico olhando de longe meu amigo banco sempre tão bem intencionado. Assim como ele muitos dentre nós, só que em muitas ocasiões só nos resta ser o observatório da vida em movimento.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Salvar


Encontrei tantos recados enfileirados que me causou estranheza naquele momento não ter o que dizer. De mim sumiram todas as ideias, todas as frases e as centenas de palavras que povoam mais a minha mente do que as largo no papel, se revoltaram e não me deram o ar da graça. Graça esta que se expande quando encontro motivos para me jogar ao desconhecido, para bater no ar afoitamente, para me deter e examinar detidamente o que aparece e lavrar conteúdos, muitas vezes insólitos, negros de significado sendo alguns travestidos  de dardos venenosos. Como erro sempre a mira, não causa dano.

E então me encontrei no vazio, um vácuo procurado, um lugar planejado para estar, mas, em lá chegando me dei conta que havia uma conta insana pendente que eu devia pagar. Todas as frases feitas estavam a postos me desafiando a me espelhar nelas, dizendo com desenvoltura para baixar a crista e não persuadir ninguém do contrário, não denunciar as marmotas oblíquas que sem querer percebia, não dispensar nenhuma palavra para fomentar o que sinto, pelo menos naquele momento, não me ater a momentos sem fim e não analisar a replica criando condições de errar a mão.

A missão era árdua porque me pedia que não tivesse opinião, que falseasse a hora, que ocultasse abertamente e que não viesse a público mostrar uma verdade que não serve para todos. Senti que fui proibida de ser, barrada da fala dúbia, execrada da sinceridade, difamada por ser do contra naquele momento pelo menos.

A corrente de insanidades me parecia volumosa demais para poder dar conta, porém ali estava o desafio e como não sou de me acovardar com ventos contrários resolvi ir ao chão. Do fundo do poço fui subindo pé ante pé, pisando com determinação em cada momento que ali havia se instalado pelo clima e no final, lá estava eu a bordejar a mentira de todos.

Assim surgi de dentro para fora, com a minha verdade em lemas assoprados e verdadeiros. Foi neste momento que eu acordei para a necessidade de enfrentar os demônios da causa inglória, da felicidade alardeada, da ocultação do sentir da verdade e da proibição de ser você ou outra ou até, pasmem, plenamente. 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Folgada


Não percebi que a pergunta poderia ter uma investigação torpe, muito não a minha cara, porém muito sim a cara do perguntador. Que raio de análise me propuseram a fazer ao pedir para relatar se eu tinha como modo de vida ou sobrevivência esta palavra.

Apenas uma palavra com tantos aspectos e nuances e tenho uma vaga lembrança que me veio à mente, imediatamente, o tempo. Quero folga para ter tempo. Um tantinho para nada fazer, outro naco para fazer tudo e não sobrar nada para depois, sabedoria para fazer passar o dito sem que se perceba, inteligência para fazê-lo parar quando é preciso. É necessário ser íntima das horas para estar afiada e com presença de espírito para responder o que é merecido, apesar de quem não merece uma resposta dessas é quem pergunta.

Fui caminhando com muito cuidado pela minha mente, identificando às vezes o quanto ainda faltava para ter uma clareza de como se vive em folga sem que isso pareça preguiça, sem que remeta ao ócio do mal e sem que eu possa responder àquela pergunta da malvadeza com a resposta esperada.

Ruminei ardidamente o tema, visitei meus dias, minhas horas, meus minutos e segundos e não entendi aonde esta desocupação poderia estar, uma vez que ela me parecia sempre enredada. Havia na minha linha do tempo um enlace de assuntos, tarefas, companhias, humores, descasos e uma variedade absurda de incoerências. Todos engalfinhados uns aos outros com o objetivo proposto de que eu os fizesse se deslindar. Caminhavam lado a lado muito mais que amistosos, o riso e o choro, a destemperança, a piada, o sim e o não, o ridículo e o ponderado, o amigo e o inimigo.

No rumo em busca de respostas vasculhei o passado, mas retornei ligeiro quando ele me disse que estava perdido, que dali não tinha como se ativar nada e que apenas a experiência tinha valor, portanto, para meu dilema de rebate, ele não era válido. Voltei então à palavra arremessada com tanto mau gosto e nonsense, e dei uma olhada no futuro que me disse não estar disponível, obviamente.

Cheguei à conclusão que não havia espaço nenhum para revidar e neste exato momento o tempo desocupado passou voando por mim, sorriu e levou para longe a palavra que o indiscreto queria ouvir.

sábado, 1 de novembro de 2014

Voz


Os três amigos, O Prédio, A Menina e O Rio,  estavam encostados na barranca assistindo a tentativa de demolição do Prédio. O mais cínico de todos, O Rio, marolava satisfeito e vez ou outra jogava sua água barrenta nos operários que, estavam ali suando a camiseta, para derrubar o “combalido” prédio. Na conversa entre os três ele ameaçava inundar aquele maquinário e traga-los para as profundezas do seu leito. Mas era só conversa, estavam todos mais atentos ao destino que se cumpria, muito mais doloroso para quem se exauria na tarefa do que eles próprios.

Sereno, O Prédio se via ainda pela metade e divertia-se com a dificuldade em derrubá-lo, estavam todos tão pequenos ao seu redor parecendo querer domar um gigante, logo ele, sim, um gigante por dentro, por ter sido referência industrial por tantos anos, por ter sido objeto de desejo de muitos que queriam trabalhar ali e também por ter levado o nome da sua cidade para muitos cantos do mundo.

As marretadas já doíam na  cabeça da Menina que acompanhava os dois na via crusis que estava sendo esta empreitada. Não podia deixar de comentar a ironia que levou a este fim e tantas ameaças de que o Prédio iria cair, matar pessoas, uma vergonha estar ali, esquelético, mas de pé. A resposta veio rápida, porque o Prédio resolveu ficar erguido por mais tempo e assim agitar a memória e não se ver diminuído em sua importância somente porque iria virar seixo no chão.

A Menina, O Prédio e O Rio estavam encantados com o futuro que se avizinhava, pois haveria apenas escombros de um ícone histórico, tão empedernido que em hipótese alguma se deixaria abalar por lhe tirarem a vida de pedra. Já se vê quase como um amontoado de entulho no chão o que não invalida absolutamente sua memória. Muito pelo contrário.

O olhar dos três se voltou então para a cidade, a nova morada do Prédio e da Menina acompanhados de longe pelo Rio que, em sendo muito traquina, volta e meia se faz transbordar e invade a cidade para um passeio.

A combinação entre eles é que agora teriam uma missão, talvez até mais pesada do que simplesmente montar guarda no Prédio vilipendiado por muitos. Era chegado o grande momento de se engalanarem e fazerem uma completa varredura nos acervos culturais da cidade e buscar entre tantos alfarrábios pedaços do Frigorifico que nasceu ali, se desenvolveu e ajudou muitas pessoas em sua experiência e crescimento profissional. Sairão às ruas, aqueles dois, revisitando para trás cada passo dado, cada foto tirada, cada evento ocorrido, juntando todas as peças criando um grande caleidoscópio que se chamará trajetória.

Engana-se quem quis ver O Prédio sumir da face da terra. É neste momento que a luta será urdida porque O Prédio terá Voz.


domingo, 26 de outubro de 2014

No chão


O dia ia alto quando A Menina foi expulsa do Prédio uma vez que iniciariam sua derrubada naquele mesmo dia, um pouco tonta e cansada de tantos avisos e desistências, sequer lembrou naquela hora que havia chegado o Dia. Era tarde, o Prédio já estava a postos para cair em pé. O Rio corria manso, na espreita de acolher qualquer cascalho que sobrasse e assim o desejava, para poder guardar no fundo do seu leito e continuar conversando com seu amigo, ou melhor, com o pedaço do seu amigo e, desta feita, resolveu ficar ali, quieto, olhando sem fazer rumor.

Agora o destino emocionante se cumpre após tantos e tantos anos e fica parecendo que a sustentação do Prédio foi feita apenas da memória de quem fez parte da história inesquecivel de uma indústria que por muitos anos foi referência na região, no Brasil e no Mundo. Assim foi a caminhada no mesmo lugar do Prédio, com muitos dizendo que era uma vergonha ali estar ainda de pé, conforme a Menina ouviu de uns e outros, até de quem foi seu amigo e também de outrem que sequer conhecia. Então, a luta nos últimos tempos não era somente no balança, mas não cai, mas na pauta da polêmica, o non sense do pseudo amigo e o despudor do desconhecido. A Menina depois do desabafo resolveu deixar para lá uma vez que estava dado o recado.

Foi com muita aflição que O Rio e A Menina acompanharam o quebra-quebra tendo ao lado O Prédio#Memória, que muito orgulhoso de si e de sua história olhava para a destruição do parque industrial. Muito inspirado falou por alguns minutos com seus amigos, alertando que neste país com dimensões continentais o patrimônio é derrubado em cada esquina como se a história não tivesse vez no mundo de hoje. Não só de hoje, mas de há muito e assim vai ao chão o que conta o passado para erguer nada em seu lugar ou na sequência.

A Menina, recomposta do bafão da derrubada observa com cuidado a demolição e agora se vê muito assustada porque ao invés de ouvir o som das pedras rolando escuta em alto e bom som os diálogos das funcionárias da salsicharia trocando receita, dos carregadores empurrando os grandes carros e descendo o elevador, falando de futebol e de mais uma vitória do Renner, do bater das maquinas de escrever no imenso escritório que reverberava a saúde da empresa. Do Sr. Gaspar chegando sempre muito cedo, sentiu em sua pele o gelo da sala de computadores que naquela época ocupava muitos metros quadrados e agora, sem nenhuma surpresa parecia ouvir o toc-toc dos tamancos holandeses do Julio Alfredo ressoando nos andares da fábrica e também viu a si própria secretariando as reuniões da CIPA.


E assim, um por um, foi acontecendo o esvaziamento do Prédio em queda livre e a onda branca da cabeça aos pés invadiu a Rua Ramiro Barcelos rumo ao coração de todos que fizeram parte da história e que tem amor ao trabalho.

sábado, 18 de outubro de 2014

No fundo


Como sempre acontece, o despreparo é bola cheia no encalço da testa desatenta e que está na vista certeira dos múltiplos talentos que por serem tão focados em seus objetivos praticamente não caminham com e entre os outros, mas sim, planam sobre tudo num jogo absurdo de encaminhar como sugerem seus desejos e tudo no entorno.

E é assim que se rouba a dignidade de poder pensar um tantinho, dar um breake na vida, cruzar os braços e decidir o não que grita com toda sua força, mas por incrível que pareça não consegue fazer-se ouvir. E assim a bola passa a rolar em campo minado e no arresto de todas as resistências que por ventura um dia por ali se cruzaram aparecendo do nada aquela teia urdida com um primor absurdo que enreda e prioriza o único caminho vislumbrado.

No tempo, então resoluto das decisões, cai por terra aquele andar firme, a maneira natural de negociar o que se apresenta, se esconde de maneira infame e vil a certeza do correto, se enche de duvida e névoa seca os pensamentos e assim se gruda a intenção forjada com precocidade, o pensamento arguto, a não discussão do teor desmedido que embala o normal, exacerba o desimportante e descontrola a razão.

E agora a trilha já foi formatada no gosto, a presa não vê outra saída além de seguir ao molde do sugerido mesmo com luzes piscantes no falso decoro e com aquela desconfiança leve que o caminho tomado não tinha volta e ao olhar para trás percebe que as migalhas de pão para retornar no caminho descrito não haviam sido lembradas. Era ir ou ir.

Sem poder escapar do algoz, é imperativo emplacar fervor na chegada, ousar ao máximo o resultado, defender o propósito com audácia, ser tão incomodamente assertivo que de tão firme o final terá mais peso que o inicio, quebrando as regras do outro e multiplicando o talento na resposta dada, concretizando um final de sucesso sequer imaginado. Na verdade, não foi necessário todo este empenho, uma vez que a presa possuía mais talentos inerentes a si do que o algoz.


O arrocho mal feito terminou após o desafio do pedido invertido de valores e verdade muito bem acompanhado pela argumentação capciosa e de promessas com inequívoco sabor de ilusão e de comprometimento às avessas que teve seu final coroado pela completa ignorância do resultado assim como uma lição do imponderável.

sábado, 11 de outubro de 2014

O de si


Tudo começa quando todos sentam, mas nem sempre o que vem dali pode ser útil ou aprazível porque a verborreia se abanca cedo, quando todos os elogios e a menção aos seus feitos são ditados um sobre o outro dando um chilique e apequenando quem não tem este costume e muito menos este talento, digamos assim.

A saraivada entre orelhas versa sempre sobre o umbigo do decujo que está se mostrando com um pula-pula sem conseguir, entretanto, sair do seu próprio circulo virtuoso com o objetivo de aparentar sua importância. O sou isso, sou aquilo é presenteado com uma cavaqueira onde a citação de pessoas importantes e lugares famosos atingem o seu momento mais incrédulo ao serem entremeadas em cínico tom casual onde todos estes adjetivos apregoados são considerados qualidades imprescindíveis para sua imagem pública. A fartura da chatice me faz entrar em total transe, paralisando meu raciocínio, me jogando no poço sem fundo do non sense.

Então tem aquele cara que não tem rumo de conversa que não seja o seu quintal enervando o público que deseja escapulir dali e bufa, pede licença, mas não consegue se subtrair do incômodo que soa pegajoso como doença ruim. Normalmente a voz acompanha o ânimo do estúpido arrebentando os tímpanos da companheirada. Urge uma providência, mas nem sempre é fácil se desapegar daquele idílio forjado, parecendo querer se infiltrar para dentro das cabeças mais pensantes que, infelizmente, neste momento ficam totalmente sem comando e à mercê da situação.

Existem aqueles que roubam do passado o que gostariam de ter sido e então carregam como um fardo precioso pela vida afora o ocorrido que não houve. Assim se faz o presente, costurado com linhas invisíveis ao olhar pregando cada peça remendada de outrora. Assim, nesta triste lembrança são retificadas uma a uma as situações que acabam se posicionando como um grande e aborrecido retalho de acontecimentos em que o novo não tem espaço, ou pior, quando chega se faz velho.


E a corriola vai desde a madama que perdeu a beleza há muito, mas sustenta a pose e a coroa de rainha até aquele senhor que anda com sua máscara ligada ao tubo de oxigênio de algum poderoso e é neste exato momento que abordo a vida, desesperada, e peço para dar uma encostadinha no meio fio porque quero descer.

sábado, 27 de setembro de 2014

Distância


Mais por costume do que por vontade própria a distância faz esquecer um pouco de tudo ou de tudo um pouco, não havendo mais nenhuma sanha, não lembrando fosse o que fosse se espichando o despudor em deslembrar. Fica para trás o tormento insistente da mente descontrolada, da emoção que finca pé e a todo o momento vem ofertar a imprecisão e o descaso.

O vazio se instala soberano e não aparece nem em sonhos os desejos antagônicos, os suspiros profundos, os olhares apaixonados e muito menos os seus sujeitos. E assim vai seguindo de cabeça feita e do avesso buscando novos feitos para contrapor o deletado, preenchendo o que ficou em branco pesquisando no entorno novas histórias, reescrevendo o passado.

As cartas na mesa estão sem naipe e não significam nenhum traçado futurístico, não anunciam o novo amor aguardado, não mostram o caminho das pedras nem apontam para o tesouro perdido.

As duas pontas se afastam tanto que parece impossível reatar ou reaver qualquer coisa e então, desta feita, acontece o encurtamento das distâncias destituídas do seu maior poder: o esquecimento. Os segredos guardados aparecem com lucidez e nova serventia, se revelando aos poucos fazendo todo o sentido. Com este pano de fundo serpenteado de surpresas a orquestra ensaiada se refaz com seus instrumentos no lustro e afinados na proposta de manter em alta o tempo perdido.

No atraso da vida perdem-se detalhes, escondem-se minúcias, esquecem-se situações ou jogam-se fora impulsivamente tantas histórias que agora precisam ser recontadas e trazidas à tona com o olhar do novo.


E assim foram restauradas todas as falas, os olhares se cruzaram tantas e tantas vezes que se acostumaram rapidamente com a linguagem muda do dito não dito, todos os sorrisos se arrevesaram em gargalhadas preenchendo os instantes com muita sonoridade e assim a rota foi retomada, desta vez com ares de para sempre.

domingo, 14 de setembro de 2014

Ofensas



Não presto atenção em tudo e por isso mesmo vive caindo no meu colo o que não pressuponho que aconteça. Então num desses desvarios de pensar, de ler e de escrever enxerguei nitidamente o quanto pode ser curiosa à falta de tato e por que não dizer – de educação – do anônimo. E falo em desconhecido para mim, não que a pessoa se esconda. Em tempos reais e de conexão vale tudo, larga-se palavras e ofensas ao vento como se elas não fossem chegar ao destinatário.

Os arautos que sineteiam nos caminhos ainda tortuosos da comunicação moderna infestam nosso cotidiano agridem nossas origens, nossa família e nosso passado, como se deles fossem. Não existe trava na língua, amor à ponderação, respeito ao próximo. Tudo vai na lata.

Penso no direito de julgar ao próximo sem que ao menos lhe seja permitido ter um encontro com olho no olho para poder sentir a frieza ou o acaloramento da discussão ou das falas em uma simples conversa.

Os diálogos ingênuos deram lugar a grandes discussões de grupos que reunidos estão virtualmente muitas vezes falando sozinho, contando de si para si, se arvorando como o dono da verdade desrespeitando a opinião pública, conforme o caso. Chegou a hora dos sem dono, do desserviço de jogar todas as ideias em solos desconhecidos sem se preocupar se o pátio fica grudado ao seu. Caia onde caia a ofensa grassa.

A relevância e a verdade estão descartadas uma vez que neste momento, a opinião individualizada se tornou tão passional que a razão nem mesmo importa. Importa vomitar a ofensa, agredir quem não se conhece, tornar público o ditado sem fundamento ou razão de ser.

Levantar hipóteses não faz mais sentido nestas horas de tantas veredas enredadas, tantas ideias plantadas, tantos pensamentos cruzados. Bom saber, entretanto, que o que está selado, está feito.

domingo, 7 de setembro de 2014

Virtual



Antigamente vivíamos entre portas e janelas muito bem cuidadas, os moradores se esmeravam na pintura da entrada, instalavam campainhas que tinham a tarefa de avisar o residente que havia um visitante e assim também proporcionavam a ele momentos de deleite ou de emoção ao levantar a mão para tocar um sino, um din-don, uma imitação de cigarra – para os mais surdos – ou uma pesada argola lembrando os tempos mais antigos, na verdade, quando não existiam tais engenhocas.

O umbral da residência recebia muita atenção e importância porque muitas vezes um de seus vasos de flores era o escolhido para “esconder” a chave da casa porque não havia perigo algum em deixá-la ali para que seus usuários em seu vai e volta o fizessem com naturalidade. O capacho fazia parte do acordo de facilidade para entrar e sempre era um personagem de destaque no alpendre e uma opção libertária de esconderijo.

As janelas eram muito privilegiadas, porque mostravam o externo para quem estava dentro, com incumbência de trazer as imagens do que acontecia na rua, no jardim, no trânsito em frente à casa, no céu, nas nuvens e no ar. Eram elas que davam o recado todo dia e serviam com fidelidade absoluta. Através delas os humores vespertinos se alteravam porque a programação poderia mudar conforme fosse a noticia que entrava através destes grandes olhos. Cortinas eram instaladas, algumas para vetar a luz do sol que em determinados dias não era bem vindo ou simplesmente para fazer uma bruma entre a realidade e o sonho, se por acaso ali vivessem poetas, escritores, artistas ou apenas pessoas mais sensíveis. Como uma moldura da vida, as floreiras davam o acabamento perfeito a estas janelas que em seu parapeito recebiam cotovelos curiosos perscrutando a rua, sorrisos com a chegada de parentes e vez ou outra muito choro por quem dali se afastava para sempre.

Impossível não pensar em nossas atuais portas que perderam sentido e encanto, uma vez que a virtualidade das relações extinguiu as campainhas que perderam seu propósito. Ninguém mais se anuncia e todos entram sem permissão em todos os lares através do mundo virtual e assim as aberturas, além de não terem trancas não encarnam o romantismo de uma visita inesperada, do amor retornando, da vizinha trazendo uma prenda ou da chegada surpreendente de um filho que se foi há tempos.


As janelas de hoje são as que mais sofrem, porque restam fechadas com black-out para que a luminosidade não atrapalhe a interatividade desenfreada compartilhada entre tantos aparelhos de alta definição. As flores, ora, flores murcham por falta de atenção e o capacho se desfia sozinho.

sábado, 6 de setembro de 2014

Mentira


De tempos em tempos sou envolvida pela mentira, engraçado, porque se tem uma coisa que não faço é mentir. E não é por gosto não, não minto porque tenho medo, porque se antevejo deixar alguém na mão dando uma desculpa inexistente tenho a certeza que serei descoberta e fico paranoica em relação à criatura e ao fato, e então desisto. Melhor pagar o mico de não estar a fim de qualquer coisa sugerida, do que falsear as intenções que vem a você com o mote de fazer parte do mundo aludido do outro.  Como carregar a falsidade será o tema da sua vida se cair nesta armadilha.

Percebo que em muitos casos a mentira faz parte do dia a dia, ela existe e está ali na agenda diária de compromissos, tipo, uma reunião desajustada, uma mentira, um passeio previsto esquecido, outra mentira, um encontro desmarcado, mais uma mentira. A sequência se torna uma teia que enreda o real da vida e a falta de coragem de ser autentico. Seria bom tomar uma chuveirada de lealdade todas as manhãs e distribuir como se fosse o pão da vida, os acontecimentos que tem fundamento, que chegam recheados de argumentos interessantes mesmo que as noticias ruins grasse, o idílio previsto não aconteça, o amor não tenha mais conserto, o negócio esteja falido e o interesse tomou Doril. Todos estes temas pedem sensibilidade que somente a clareza de atitudes pode prover.

Quando sou desafiada a dar uma espiada na vida lá fora e sem querer tomo o caminho errado, a mentira me pega no contrapé e compreendo que a calúnia vai se apresentar no momento em que está sendo gestada, parecendo um sino tocando no fundo, mas bem no fundo da minha cabeça. Talvez eu a reconheça a partir do convite que veio em tom de voz e se a empreitada desonesta vem por escrito faz a minha intimidade com as letras esquadrinhar a cadência inequívoca da desculpa que vai me atingir a seguir.

Sempre fico surpresa ao perceber que saltar fora dos trilhos sem querer traz uma nova forma de ver e entender as pessoas que coexistem entre tantos personagens criados particularmente e cada um com esmero invejável.

Prefiro pensar que são eles – os mentirosos - que dão brilho à caminhada, oxigenam o coração por conta do susto e da surpresa, trazem mais cuidado ao se avistar com todos e definitivamente trazem uma alegria enorme na aferição da nossa intuição.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O anônimo


O dia estava luminoso e a expectativa brilhava assim como tem de ser quando se está prestes a lançar a alma ao vento, ela, sempre partida em mil pedaços, mas rearranjadas em um único volume, seguida de página em página e finalmente as letras, ora brincalhonas, ora mordazes que iam dando vida aos pensamentos sempre desconcertantes. Este todo complicado resultou na escancara do de tudo um pouco.

Ela já estava sentada aonde deveria entregar e assinar sua vida contada na metáfora, mostrar a trajetória infame de querer alinhar sempre o imponderável, a mania de estar sempre se repetindo, a impulsividade de escrever sobre o que vê, o que sente e o que imagina, conquistando desta maneira inimigos e fãs. Alguns, tão sinistros, ao se identificarem com algum dos textos cortaram as relações para sempre com a autora sobre o argumento de que a mesma roubava suas vidas. Vai saber.

A pilha de livros ficava à sua esquerda e projetavam sombras muito determinadas que se refletiam por debaixo da mesa, mais precisamente em seus pés. Achou que parecia um mau agouro voltar-se para baixo, mas pensou também que esta não era a hora de ficar elucubrando estórias, era chegada a hora de se entregar aos outros, sem pressa.

A mesa ao lado replicava os tons e sobretons nas taças de cristal que receberiam o espumante com a incumbência de deixar o ambiente no enlevo do sussurro aconchegante e ao mesmo tempo gerar um alarido sem muito sentido, um diz que diz sem nexo com sorrisos destemperados e cumprimentos entre tantos demonstrando um convescote sem noção.

Ela não tirava os olhos do fundo do corredor e mesmo parecendo um presságio suas mãos acariciavam a mesa lustrada, mas sua alma sangrava aterrorizada e em alguns momentos pensava que talvez fosse melhor fugir, tocar fogo em tudo e destruir todos os seus pensamentos que resolveram ter vida própria e se assentar no papel.


Era esta a situação quando se posicionou ao seu lado um anônimo ilustre, gomalina na cabeleira, elegante, bem vestido, bonito, óculos escuros, gabardine preta clássica que lhe estendeu a mão com um sorriso cínico profetizando: acorde.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...