terça-feira, 29 de abril de 2025

Contrato

 


Então estamos combinados que neste papel escreveremos as cláusulas de nossas vidas, entrelaçadas em linhas e costuradas uma a uma nas letras do alfabeto.

Ele reza que por aqui terei a luz do sol a iluminar minhas ventas, a brisa do mar como alimento e por este motivo não posso desejar nada mais. Neste papel está confiado que vou estar de acordo com os meus sonhos e que os mesmos poderão pairar lúgubres ou não sob minha cabeça. Nos dedos, agilidade contumaz para descrever todas as nuances que minha imaginação possa captar.

Uma simples folha de papel me parecendo, neste momento, muito alegre, vem me afirmar que de agora em diante é este o lugar secreto que me toca no mundo e por estes espaços irei perambular minhas próximas noites insones.

Ele dita as ordens de agora para sempre, onde ficarei obediente ao trato e fiel ao meu desejo de liberdade e bem próxima dos milagres da natureza , assanhada em muitos brilhos, cinzenta em mau humor e violenta quando resolve dar um recado. Ventos fortes irão soprar por aqui e eu os verei bem de perto. Com a alma nas alturas.

domingo, 27 de abril de 2025

Rádio Escuta

 


Encontrei este rádio antigo no sótão, guardado entre velharias abandonadas, cheio de pó, e ao me deparar com o que procurava firmei a intenção de instalar um Rádio Escuta e, por este motivo, me joguei de corpo e alma no sótão e lhe dei vida, respeitando seu formato e composição antiga na emissão valvulada, com design e dial funcionando com muita personalidade, inundando na tardinha o ambiente com o chiado das notícias de toda parte do mundo, recheadas de mistério, causando um frisson na sala enfumaçada pelo palheiro da vizinhança.

Nasceu em mim a esperança de resgatar a acústica que se perdeu por aí, que subiu nas antenas de morros desconhecidos e com muita probabilidade tenha sido abafada pelo vento de todos os quadrantes se engalfinhando no ar e fazendo moucos meus ouvidos.

Quem sabe este cenário lúdico e carinhoso me estimule a monitorar todos os sons do entorno, de dentro e de fora da casa, passando com singeleza pelo meu ensimesmado bate-papo bate-pronto que vai ao ar todo santo dia tendo como interlocutor as paredes. Haverá certamente um labirinto de ruídos que confunde pelo simples motivo de vir, muitas vezes, entrecortado, dificultando a compreensão e a interpretação.

Este lugar escolhido por Deus e a mim entregue reúne em seu espírito todo o estrondo que perambula por aqui, entrando sorrateiramente por debaixo da porta, pelas frestas da veneziana, misturando tudo em uma parafernália sonora que se embola dia a dia. O Rádio Escuta recebeu a nobre missão de decodificar a mensagem para esta casa.

domingo, 20 de abril de 2025

Como sempre

 


Como sempre abro os olhos e dou de cara com a vida, esta daí que por vezes se escamoteia parecendo me puxar para trás, em outra ocasião se esconde me fazendo sentir estonteada, sem rumo e com um sentimento de estar fora dela, em seguida quando bato na porta dizendo sem rodeios que hoje estou com muita coragem, que não tenho dor nenhuma, meu espirito está leve e ela pode dispor de mim para o que vier, ela manda dizer que não está, e, por último e não menos importante ao me confrontar repentinamente  em alguma esquina, ela finge não me conhecer.

Decidi que não me importarei se algo ou alguém está à minha espreita ao abrir meus olhos para o mundo. Nada de vislumbrar paisagens idílicas, passarinho no fio de luz, quero-quero grasnando sem rodeios, cachorro abandonado uivando de tristeza, nada de orvalho na grama, nada de maré alta ou baixa, ventos uivantes ou calmos. Não disso irá compor o dia que se inicia. Este me parece ser o recado dado.

Existe a simplicidade de um despertar que retira mansamente a veste da noite em que nos abrigamos e que protege corpo e espírito e com esta concordância nossos olhos se abrem ao mundo: sem as franjas do pensamento, das alegorias, da impertinência e da audácia de perseguir a dádiva da Vida.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

A Paixão de Cristo

 


O momento final da Paixão de Cristo começa bem antes para os que tem fé e vivem com os olhos voltados à liturgia da religião e que possui nos lábios desde o seu acordar o pensamento de agradecimento e oração a quem criou o céu e a terra. Nestes dias a alma repercute a cada dia, a cada passo o sofrimento do Filho de Deus em sua caminhada para salvar a humanidade naquele tempo  remoto.

Na oração se acompanha o difícil caminho do Salvador que resplandecente arrebanha devotos que o seguem fielmente com os olhos sempre voltados para o que acontece no entorno, desde milagres, convertimento, sermões memoráveis e propagação da sua palavra entre os povos.

A trilha ressequida da terra de então recebeu durante a peregrinação camadas de lágrimas de arrependimento, de confissão de pecados, de solidariedade, de aprendizado, ensinamento para os seus fiéis seguidores que espalharam aos quatro ventos a Palavra de Deus Pai que em sua infinita bondade o enviou para nos salvar.

Jesus Cristo chega ao final do caminho duramente percorrido pontilhado de traição, com seu destino selado, pregado na cruz, com a carne dilacerada banhada em sangue deixando entrever seu olhar de amor e ternura infinita. E então, no terceiro dia após sua morte, vestido com brancas vestes e com todas as suas feridas cicatrizadas, ele rasga a atmosfera e sobe para se sentar a direita de Deus Pai. Aleluia.

 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Falatório

 


Quase sempre é lá em cima, além dos olhos, da nuca, dos muros, das nuvens quando sobe em escalada vertiginosa todo o falatório real e imaginário, recente ou antigo, que atravessa os satélites como um risco, parecendo que aquelas palavras tem de atingir seu alvo de qualquer modo. O vento forte do passado anda cruzando o céu e com este vai não volta se enreda em mil consoantes, esquecendo, ou deixando para trás de propósito, as vogais com a clara intenção de desestabilizar o que ruge em todos os cantos.

Não é necessário adensar o propósito, que pelo volume se esfarela dentro de si e faz chover em mil pedaços frases de variado naipe, alinhavando como se fosse um truque antigo a realidade e o falso.

Assim se move o tempo de hoje, onde muitos morrem de saudades do tempo antigo, mas, sem ousar relatar que o par e passo era reverenciado por velhos e moços, que a cautela e o caldo de galinha era oferecido em todas as contendas e o deixa pra lá vinha com a oferta de um abraço bem apertado, tapinha nas costas, sorriso de orelha a orelha cobrindo uma face sempre sincera.

Tempo este em que os carros se misturavam com as carroças, cavaleiros tiravam o chapéu para as senhoras e senhoritas, as bicicletas circulavam em alegre arruaça, motocicletas no ziguezague da fumaça junto aos pedestres que andavam com cuidado e atenção para não perder a hora nem o passo. Agora  se diz e se faz tarde demais.

domingo, 13 de abril de 2025

Sem palavras

 


Quando fico sem palavras é porque algo de cima vem me assoprar com sofreguidão me fazendo voltar o pensamento para o que anda acontecendo de verdade, e não de mentira, aqui nos meus dias de letras. Primeiro vem a enxurrada de missivas à cabeça que me empurram com certa impertinência para o primeiro lápis e caderno que estiver dando sopa pela casa. São muitos, todos coloridos, com ponta impecável e em estado de alerta.

A seguir o fluxo e refluxo dos bilhetes no desencontro me assaltam com certa frequência fazendo estancar as ideias, talvez para que elas, por si próprias, se organizem, pois muitas nascem do caos e teimam em queimar a largada. São fujonas e etéreas em sua maioria me fazendo correr na anotação no final da página, antecipando o que vai ocorrer no entremeio de parágrafos.

A palavra dita pode tomar rumos, pegar um vento costeiro de norte a sul, bandear-se para outra interpretação, esconder-se atrás de novas palavras, embaralhar o alfabeto, confundir o interlocutor e no fim e ao cabo evaporar-se como folhas ao vento.

Tenho a convicção que por detrás do surto inspirador existe a premência de um agradecimento e no meu pensamento somente palavras grafadas possuem este poder por serem eternas e não apenas a conjugação de verbos.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Fio desencapado

 


Estava tudo igual com a pasmaceira dos dias passando, o sol nascia e descia com variação de tempo conforme a estação, o mar com sua mutação incansável sempre à mercê dos senhores do destino como a lua e o vento, estes, incansáveis no trabalho de agitar a maré, brincar com o clima, zombar de quem necessita da parceria. Neste cabedal de água salgada indomável o balé é coordenado pelo planeta.

A natureza estava dando o seu recado, sem dúvida o mais fiel possível. Porém aos meus olhos havia algo diferente, que não combinava com esta mesmice dos dias. De alguma forma aquele mar ali estava bem desigual em sua essência e neste momento suas ondas estouravam desencontradas num amontoado nunca visto e com um som ensurdecedor.

 A partir desta observação surgiram outras, demonstrando que algo havia mudado, as cores do dia estavam espetaculares, o verde das árvores reluzia, os pássaros se aglomeravam frente a janela com a conversa mais estridente que o tom monocórdio costumeiro. As flores brotavam de todos os canteiros fosse ela de cultivar ou selvagem, enviando um recado que a terra fértil do lugar se encontra na superfície de uma calçada, na beira do valão, no cômoro, entre as pedras do caminho, cumprindo a sina de brotar sem hesitar.

A impressão era de que todas as cores da vida haviam se renovado de um momento para outro. Alguém lembrou com sabedoria que, vez ou outra, nos sentimos como dentro de um fio sem abertura, sem luz, sem saída. Mas neste dia o modo de fio desencapado vigorou no assombro de refazer o destino.

sábado, 5 de abril de 2025

Letras em tempo

 


Hoje com esta pasmaceira peculiar dos dias amenos de outono onde nem o vento nem o sol querem andar juntos, minha mente, meus sentimentos e minha alma, inclusive, entraram no modo retrogrado e desde bem cedo ando esquecendo certas palavras, dificultando a minha entrada neste mundo de falatórios de toda laia ao qual sou empurrada toda hora, todo dia, mas não todo sempre, acreditem.

Acabei pensando que talvez o dia, matreiro, sem ter o que fazer de relevante, tenha resolvido me enviar desafios, me obrigando a duvidar de minha linha de pensamento, ou do destino das minhas ultimas letras no confuso caderno de rascunho que quase sempre anda perdido pela casa. Posso encontra-lo na mesa de trabalho, embaixo do sofá depois de um cochilo extemporâneo, atras da almofada, em cima do fogão, da geladeira, da máquina de lavar ou na bolsa que nunca uso. Como o propósito de manter este rascunho é para não haver nenhuma perda do alfabeto, que está sempre me assaltando, a trilha dele dentro da casa faz jus ao conteúdo.

Neste exato momento eu percebi que o dito cujo de rápidas anotações não se encontrava à vista propositalmente e entendi, rapidamente, que o dia ameno veio para lembrar que algumas letras inventadas perambulantes acintosamente por aí, não teriam mais o meu prestigio, portanto, as eliminei cegamente e segui meu rumo ao santuário da minha escrita imaginando haver me esquivado de quaisquer assuntos resgatando meu vocabulário. Voilá!

quinta-feira, 3 de abril de 2025

A primeira janela – O conto

 


Amaryllis governava aquela casa antiga com primor tendo ajuda de pessoas que exerciam as tarefas como se fosse um sacerdócio, uma veneração pela preservação, pela ordem, pela boniteza, pela natureza entrando pelos olhos e se afundando em cada canto da casa que rescindia a flores, folhagens e terra fresca. Colchas de crochê finamente elaboradas pelas avós enfeitavam as camas, as poltronas, as mesas de refeição. O assoalho de madeira maciça onde ecoavam as botinhas de couro das meninas, os tamancos do rapaz, o salto alto da dona da casa finalizando com as botinas do esposo eram cobertas por tapetes que abafavam o vai vem dos moradores e a faina diária do casarão.

As aberturas muito antigas - tanto portas quanto janelas – arranhavam estranhamente ao se abrir e fechar parecendo ávida para expor o ambiente externo e trazer para dentro da rotina da casa sua vida de início da manhã. Se entreabre para o mundo, em sussurros, assuntos de todos os tempos, passarada em alvoroço, ruídos da rua na manhã brumosa quando os personagens diários que frequentavam a madrugada vinham dar seu recado. Assim se ouvia o leiteiro, o padeiro, o capataz, o entregador de fruta e o carteiro, este se equilibrando no cesto de muitas missivas dirigida todos os dias àquela casa. Era chegada a hora de se debruçar nos janelões centenários onde figuravam floreiras impecáveis onde em cada palmo de terra exíguo se exibia uma espécie diferente formando um canteiro de flores aéreo ao redor da construção.

Neste momento encontramos Maria Flor que transitava neste ambiente com brejeira curiosidade levando para todo canto sua traquitana de estudo e de brincadeira sendo este ambiente quente, afetuoso e amplo que lhe deixava muito a vontade para expandir sua fantasia de menina. Menina essa mais quieta, de pouca fala, um pouco amuada, de muitos olhares e percepção aguda. Nem sempre lhe seria favorável esta condição, mas naquele tempo ela não tinha conhecimento disso.

Em um memorável dia Amaryllis tomou a mão da menina e a levou para um pequeno quarto no centro da casa, quase escondido, com uma porta monumental, provida de vitrais com desenho feito cetim opaco, o que a deixou paralisada. Uma lindeza só.  Na entrada da porta, à direita, uma mesa pequena detinha um dos raros telefones da época que, para fazer ligações dependia de uma telefonista, anunciando um tempo que, por enquanto, andava devagar.  Feito o registro em sua mente, sentiu um puxão novamente e, ao entrar no recinto sentiu uma clareza não bem identificada. A saleta havia sido arrumada com uma grande escrivaninha em frente a uma janela o qual se destacava lindamente no centro daquela mesa que continha seus alfarrábios de escola,  um armário pequeno e duas gavetas com lápis de escrita e de cor, algumas borrachas e apontador, uma pequena lixeira e um rádio de pilha de longo alcance.

A paisagem que se descortinava da abertura, após os gerânios abundantes do peitoril, era nada mais nada menos do que a entrada da casa de sua avó que todas as tardes vinha lhe chamar para o café da tarde. Neste momento seus cadernos eram empilhados cuidadosamente para assistir as histórias das duas irmãs com uma preciosa xicara de café e torradas com margarina.  Para Maria Flor foi o início da vida entre janelas em que o destino, mansamente, foi apontando, uma vez depois da outra, novas ventanas.

A partir de agora impera a sequência regular dos tantos cenários desfrutados por Maria Flor que, por gosto, precisava ter para si o quadro do mundo exterior sempre a disposição, fosse qual fosse a paisagem, a situação ou a vizinhança. Em um canto da vida aguardava solene e calada a velha mochila de couro guardiã da imperativa e voluntariosa necessidade de se evadir.

A caminhada entre vidraças passou por ruas antigas com o quadro principal topando com um telhado velho, mas não menos interessante. Após, um cenário lúdico com escola de criança em alegre interação, e, mais tarde, bem perto do céu, com o olhar da lua e das estrelas espiando por entre as frestas da veneziana.

Muito depois, a abertura de todas as manhãs veio como um presente da vida e assim surgiu frente a uma nova janela aquele imenso oceano que todos os dias assobia seu segredo, obedece ao vento, se curva à lua, ao sol, a preamar e aos arroubos do alfabeto de Maria Flor.

sábado, 29 de março de 2025

Gosto de fel – o Conto

 


Livia Maria amanheceu gelada apesar do calor inclemente, com um gosto acre na boca, uma respiração pausada e com a impressão que havia acordado dentro de uma jarra de limonada sem açúcar, ou sentada no mais alto galho do limoeiro bergamota nos fundos da casa ou - como se não bastasse o ataque amargoso da natureza em seu frágil corpo - submersa em algum liquidificador pronto para trucidar uma penca de maracujá.

A impressão inusitada a colocou em apuros porque largou a pensar o motivo de tal ataque, quando se deparou consigo mesma no espelho e enxergou uma nuvem cáustica a envolvendo aparentemente em perfeita sintonia com o inusitado despertar repleto de contradições.

Não se importou com mais nada disso e foi cuidar da vida quando se deparou com um envelope, roto, largado com descuido em cima da mesa, inclusive um pouco escondido, o que já alvorotou os personagens do início da manhã acionando a infalível intuição de Livia Maria para algo que não prenunciava boa coisa, viesse de onde viesse, de dentro de si ou oriundo dos fios cabulosos, insensíveis e invisíveis do passado remoto, recente, não importa, arriscava ela.

Se aproximou com firmeza analisando de perto o envelope enorme já com uma sensação de missiva improvável, de outro tempo, que estariam ali a serviço do seu escrutínio. Livia Maria lutava para sair do modo ácido que a noite lhe colocou, porém, havia na sequência uma apreensão amarga do que iria se apresentar. Talvez seja este o momento da revisão e descarte, lhe assoprava cuidadosamente seu coração, velho coração.

Achou por bem abrir com cuidado, vai que alguma inspiração com intenção subjacente surja dos alfarrábios, algo nunca pensado, uma solução, um alivio, alguma revelação preciosa surgirá. Ao abrir a aba do grande envelope pardo, o ambiente foi invadido por uma nuvem de poeira semelhante àquela que pretensamente enxergou em frente ao espelho, desta feita, causando uma tontura, um mal estar, um aroma de extermínio e um raro esgar no rosto.

O conteúdo mantinha muito bem organizado pequenos bilhetes escritos à mão e todos bastante amassados, manchado de lágrimas, lido e relido, alguns com aparência de terem sido jogados no lixo e resgatados, outros com borda queimada pelo fogo, em meia dúzia - não mais que isso - algumas gotas de sangue sinistras encobriam parte das poucas palavras grafadas dando o tom de um sofrimento quase perene em alguma época da vida, agora exposto e denunciado pelas missivas esfarrapadas. A letra era bem feita oriunda de caligrafia esmerada com jovial aparência, palavreado caprichado e escrita correta.  Foi servida a taça com o coquetel da repulsa cáustica sem gelo.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Uma esquina - O conto

 


Das Dores passou voando as tranças pela rua desconhecida sem muito se deter na topografia, nos transeuntes e muitíssimo menos no comércio uma vez que não precisava de nada. Suas coisas eram substituídas somente quando chegavam ao fim de sua vida útil e isto incluía quase tudo: roupas, sapatos, objetos assim como toda a feição da estrutura da sua casa. Bem montada, aliás. Assim, que praticamente nunca se deparava com vitrines ostentando o que fosse, porque não lhe chamava a atenção.

Neste dia especialmente ela sentiu entre tantas dores da alma e do corpo algo que não ia bem, por este motivo saiu em desabalada carreira colocando seu corpo a se mexer e funcionar centrifugando o mal do seu íntimo. De fato, tentava sempre não admitir que sua rotina rígida sofresse algum revés. Durona, caminhava sem olhar para os lados, pois há um tempo bastante longo, depois de ter enfrentado uma situação inusitada que lhe deixou vazia por dentro sentiu que sua alma e seu corpo ardiam com aflições do mundo, tal qual o conceito do seu nome.

Seguiu em frente optando por um caminho desconhecido, pois talvez em outras esquinas o vento e o calor fossem mais brandos proporcionando mais prazer que sofrimento a empreitada, da qual, já estava um pouco arrependida. A cabeça lhe doía, os olhos marejados atrapalhavam a visão e os calcanhares sentiam as pancadas.

Enxergou mais adiante uma ruela muito simplória e pacata, desconhecida até então para ela que circulava por ali quase sempre, mas lembrou-se rapidamente que ela havia se imposto aquele modo de andar para frente sem se distrair. Por conta deste cansaço e de certa indisposição pelo arroubo em que se jogou à rua neste dia ensolarado decidiu caminhar mais pausadamente e assim, ao dar passagem a um raro pedestre e retomar o caminho tropeçou em um cavalete que ostentava uma aquarela, na calçada, junto a uma vitrine encantadora, que de imediato não lhe prendeu o olhar.

Estancou o passo ao ver-se diante de uma tela que ocasionou genuíno furor em sua alma se apercebendo que aquele painel, no meio da calçada, retratava o mapa perfeito de eventos passados em sua juventude.

Lembrou imediatamente das tantas vezes em que visitou uma saleta exígua e repleta de tantos cheiros, cores e materiais como nunca mais em sua vida experimentou. Entrava no clima de arte com uma postura tão tímida e calada que praticamente se tornava invisível em meio aos apetrechos e, deste modo, quase nunca sua presença transparente e vaga era notada.

De outra parte, o artista, Prudêncio Leme - tão jovem quanto ela - se absorvia na lida com seu colorido arsenal que praticamente não levantava a cabeça para nada. Nem para criar. Sua inspiração vinha do seu foco na tela vazia enquanto Das Dores perambulava incógnita analisando as historias mudas contadas com tanto capricho e detalhamento.

Esqueceu-se de suas dores, de sua pressa e do jeito de andar para continuar ali, de pé, em meio ao passeio público perscrutando aquele sinal que, para ela, parecia um bilhete. Atenta, examinou com cuidado o traço tão familiar e depois, um a um, os elementos que compunham a peça. Todos eles eram íntimos e agora, com a viva lembrança sentiu a fragrância de tinta fresca, a fumaça do cigarro assim como a disposição dos objetos que eram jogados de qualquer jeito como se houvesse muita pressa em adentrar no recinto. Percebeu nitidamente que conhecia as telas ali retratadas assim como a cadeira antiga que tinha por missão receber os itens que o artista utilizava em seu vai e vem diário. Tudo era colocado como que por acaso, porém, depois de um segundo olhar era perceptível que havia uma fantástica sintonia na acomodação da traquitana distribuída para contar o que fosse. Das Dores passara muitas horas tentando ler os recados e decifrar as fábulas do autor, mesmo sem saber que o fazia.

Um dia, as portas do lugar se fecharam e não houve em nenhum palmo do lugarejo quem pudesse saber o paradeiro do mentor de tantas preciosidades. Das Dores perdeu um pedaço de si mesma com esta ausência.

Ao lembrar-se do fato e saindo de sua viagem ao passado, achou por bem levantar o olhar para a vitrine que resplandecia na luz do entardecer com muitos desenhos coloridos, alegremente desarrumados. Encantou-se e ficou ali, tragicamente hipnotizada sem noção do passar do tempo. Prudêncio Leme chegou à soleira da porta para recolher o cavalete e então percebeu a presença de Das Dores.

domingo, 23 de março de 2025

Escreva

 

Nem bem nasceu o dia recebo aquela chuva de letras como se o alfabeto forçasse as tramelas de portas e janelas vindo direto ao meu pensamento ainda preguiçoso na madrugada. Além destes personagens que adoram se enganchar um no outro formando todo o tipo de conversa, do bem e do mal e do mais ou menos, os números veem a reboque e acredito piamente como os grandes torturadores do dia.

A contagem começou, a verborragia só está aquecendo os motores e assim entramos no dia submergidos em letras, números e toda a companhia intrincada que eles conjugam assim que acordamos formando fonemas simplórios que apenas querem fazer sentido para o pensamento, a criação, o verbo.

Esta turminha não vem silente, vem como se fosse um algoz para quem tem nas veias o bom trato com computador, a caneta que dia sim outro também, arruma a escrivaninha metodicamente colocando páginas em branco a serviço do rascunho, apontadores e lápis devidamente ajustados na ponta fina, borracha bem grande para derrubar um ou outro desatino no vocabulário e assim está completa a  batalha campal entre o desejo e a inspiração – esta tirana – que brinca de esconde esconde com as distrações diárias que enfrentamos.

Escrever todo dia apenas uma ou duas frases que traduzam um sentimento para o amanhecer, ou o entardecer, trazendo um norte para ações na sequência, tirando a mente de pensamentos enfarpelados como as ondas de um mar bravio desbravando a folha em branco que inocentemente aguarda tornar pública uma prece, uma desculpa, um poema, um bilhete, um pedido de socorro, uma fala divina.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...