domingo, 2 de setembro de 2018

Natureza morta



Gosto de ter, às vezes, diante de mim, um quadro de natureza morta porque o mesmo irá retratar o momento do meu estado de espirito que procura pela paisagem perfeita, rica em detalhes com luz e harmonia escondendo com maestria a liberdade do criador em eternizar na tela o momento que só a ele diz respeito.

Vez ou outra meus olhos não se abrem para o que tem movimento e fico invertida com o desejo de parar frente a um retrato, uma abertura, um momento, não havendo possibilidade de fugir do desenho que se apresentou recatadamente perante mim. Penso que vem como se uma tramela da vida se cristalizasse na minha alma com impossibilidade de escapar em dia específico.

Escolho a dedo o que vou fixar naquele dia para que assim eu possa percorrer minhas lembranças no conforto do tempo que não urge, na parcimônia de admirar o belo, no cuidado para que feridas já cicatrizadas não se abram como flor de lótus deixando as beiradas do presente aflorar.

Navego nos detalhes caprichosos de luz e cor, no significado de objetos e alimentos se interporem um ao outro criando uma história inédita e com sentido diverso para quem lhe põe os olhos. Um momento de espera e liberdade de qual vereda pisar, tendo o cuidado de uma vez elegida, melhor dar-lhe as asas mais importantes conferindo uma história particularmente curativa.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

As Dores de Um e Mais



Arruma-se com perfeição na beira do mar, amontoando-se com aprumo incrível que se percebe com espanto certa linearidade na composição desarrumada. Assim dispostas de modo meio torto direito, permanecem em harmonia de cores e formas contrariando a estética comum de arrumação. A disposição é perfeita em seu encaixe junto às areias e as águas do mar, deixando à mostra o arranjo perspicaz e sutil, pois enquanto umas se fecham em si mesmas, outras se expõem em escancaro e outras mais não se dão conta por completo do prumo a tomar. Fica um recado a céu aberto e acabo imaginando que bom seria que nossos sentimentos tivessem esta autonomia.

Eu gostaria de acomodar as minhas dores da alma - que não são poucas – de maneira que não houvesse cronologia porque assim elas não viriam me assombrar com determinada ordenação. Se estão misturadas fica mais difícil encontra-las e iniciar aquele rosário de lamentações de “ai ai ai meu Deus porque”. Desorganizados os eventos que minha alma carimbou me sinto mais volúvel e frívola deixando-os para trás. Afinal, vai dar muito trabalho analisar a cronologia desta traquitana.

Passado este assunto com jeito lúgubre de análise do espírito acabo não podendo me furtar das minhas dores do corpo, corpo esse que Deus me entregou para que dele cuidasse porque ele é o templo da minha alma. Porém, parece que fui surpreendida no meio do caminho - ou talvez um pouco além da várzea - pela intermitência do tempo, sujeito encanzinado em denegrir nossa imagem. Ele, o espelho e as fotografias de esqueleto andam sempre as voltas um com o outro apontando para uma progressão aritmética que me dá a impressão de que não compareci àquela aula. Este assunto vai andando de lado porque não há como se livrar do dito.

Por fim elas aparecem bem ao pé das ondas, ficam ali para serem respingadas de sol e água do mar, deixam-se levar por uma e outra maré que as mudou de lugar ou deixou-as de baixo para cima por puro capricho. As alegrias são assim, mudam de status e de lugar sem o menor constrangimento fazendo com leveza um intervalo.

sábado, 14 de julho de 2018

Um Mar Só Para Mim



Eu tenho a impressão que nasci assim, manchada de letras, coberta de frases que nem sempre tiveram vida própria e muito menos saíram por ai a vociferar verdades e mentiras, destas, de que tanto gosto de me arvorar. Parece que sempre estive iludida e mesmo quando não manchava os papéis com minhas ideias elas sobrevoavam como mariposas dentro da minha cabeça. Esta certeza de fantasia eu tenho até hoje. Tudo esta sempre em movimento para mim e com um norte bem definido, e assim, ficando em branco ou dispersando letras onde me der na telha, vou tentando tirar este vácuo que me assola.

A vida, que não dá paradinhas estratégicas para recuperar o fôlego vai passando por cima de todos os apontadores e sem muito controle vai se amigando com o clima, porque este, sim, dita a vida em estações, balbucia cantigas enganadoras e faz com que a natureza se ajoelhe aos seus pés como únicos mandantes. Queria eu estar ao pé de tantas ideias, de tantos fatos, de tanta alegoria do entorno. Quisera me embebedar de todo alfabeto de uma única vez para que assim tivesse a ressaca precavida de muitas historias na tela, no papel, na rede. Seja lá o que isso vai significar no futuro.

Queria para mim um mar. Não este que me passa na frente dia após dia zombando da minha ausência criativa, se esmerando em tramoias com ondas que se refestelam junto à orla vazia, brincando de ser grande, de estar sujo, de estar gelado ou morno, de arrefecer sua força só para zombar de quem por aqui não pode estar em tempos frios. Acalma-se e enfurece-se em todo momento, aproveitando que não há pressão para que fique nos conformes para veranistas.

O meu mar seria bem parecido na personalidade e no destino. A sua composição seria desigual, teria uma massa de letras, de fonemas, de adjetivos, de pronomes, de adjuntos, preposições, pontuação, acentuação, sinônimos, antônimos, siglas e nomes próprios almejando expressões de quilate duvidoso. O destino que eu proponho ao dito cujo é que me arremesse em ondas gigantes, todo o dia, letras de que preciso para sobreviver. Amém.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Vida digital



Não foi um dia qualquer este, no qual assoma ao recinto plácido de quem se recupera de dores – pode ser da alma ou nem tanto - com mensagens imprevisíveis adentrando sem permissão a vida digital, essa cachaça que não tem hora nem lugar para ser oferecida, sequer ficando corada pela invasão. Afinal, o passado se apresenta sempre em luz difusa, de fatos e lembranças.

Ali se configurou sem cuidado que havia uma história, para um, mal contada e de outro lado muito precisa de detalhes, de argumentos, sentimentos e desejos permeando as lembranças deixando no ar um perfume que poderia ser sentido como real. Para um. Não para outro.

Pode-se afirmar que o tempo passado em anos estava naquele momento levando um choque de saudosismo e tudo o que se soletrava parecia se tornar real no momento propicio, no dia morno, ensolarado e de preguiça do corpo. Só do corpo porque cabeças velhas pensam de trás para frente e de frente para trás com lucidez indômita.

Havia ali uma luta para recriar um idílio e fazê-lo novo em folha, buscando de qualquer maneira descrever os acontecidos, burilar suas imagens como novas, proporcionar uma chance de vida, buscar no desespero da lembrança uma esperança colocando em luz encontros, uns mais picantes e outros nem tanto passando por situações pueris e que de tão românticas – vistas hoje – se tornam quase incipientes de valor.

Não dá para relativizar a importância porque assoma à lembrança risadas apressadas, provocações juvenis parecendo uma medição de forças de corações apaixonados. Nesta circunstância havia o impasse de um e outro quando as forças traziam à tona irrelevâncias e outro as considerava de muita importância, gerando um clima de clara tentativa de revisão, mas de distintos modos. Provavelmente seja verdade que o esforço de buscar o que ficou para trás não tem futuro porque o mundo girou e a percepção torna impossível a volta.

sábado, 23 de junho de 2018

Solstício de Inverno no Praião

Foto Vera Renner - Beira Mar Capão da Canoa - RS

Identifiquei-me com este guarda-sol tão bem amarrado na beira do mar, talvez porque ele esteja encerrado dentro de si e proibido de espiar as ondas sem se dar conta. Foi fechado para balanço, foi amarrado para não precisar proteger ninguém, foi excluído de dar amparo a quem dele necessita, foi interpretado como inútil neste solstício de inverno.

A verdade é que existe uma paradeira no ar, uma menção da natureza de pouco deslocamento onde se pode aproveitar para pensar, para analisar, para reformular e para ser, quem sabe, mais assertivo no propósito e menos ágil na ação. A luz reflui como uma benção ao espirito como se de fato fosse urgente a precisão de dias mais curtos e noites mais longas porque só assim a escuridão vai se transformar em renovação, ao invés da percepção de que escureceu e vamos enxergar o que até agora nos foi tapado.

Acredito que os avisos vêm nos detalhes das idas e vindas, da observação delineada, nas nuances da troca do calor pelo frio que afeta nosso olhar que ora vaga solto e sem determinação, ora se apruma para enxergar o que para a natureza se faz óbvio.

Assim ressaltamos nosso espirito praieiro que nem bem os olhos se abrem e já se deitam para o lado do mar, para sentir a temperatura, para ver se está mais calmo ou mais furioso, se o sol veio para derreter ou para simplesmente acelerar os plantios da estação, se o vento veio cantar a ermo ou se veio para se divertir no embaraço dos cabelos de todos e mais um.

Faz parte do acordar se certificar que a praia esta no mesmo lugar, que as plantas brotaram inequívocas de sua missão, que os pássaros cantam talvez com uma rouquidão dengosa, que os passeantes trotam com galhardia na ventania, na neblina e no areal salínico. De certo modo andamos amarrados pelo gelo, mas nunca sem ter a visão de mesmo assim o movimento continuar e a reza por dias mais quentes seguir firme e forte.


domingo, 10 de junho de 2018

O branco do inverno



Ando assim, em branco, e ao meu redor as histórias vão se acumulando com inicio, meio e término e acabam tão sem sentido que são descartadas porque ao fim e ao cabo não me parecem verossímeis. Dá uma pinta de que me acomodei nas nuvens e delas não quero me apartar de jeito nenhum.

São tempos calmos na orla marítima onde flocos brancos vagueiam pelo céu azul com uma independência de dar inveja. Vai ver que o branco que ora impera na minha alma tem a ver com o clima e com o alvor dos dias protagonizado pelo Rei Sol em esferas onde gosto de meter o bedelho.  Vago por entre tudo o que me vem à cabeça e assim como vem se vão, com tal sorte de destino que tudo flui como a brisa.

Meu olhar não se atém às cores precisamente e sim ao pulverizado esmaecer da natureza que parece descansar neste tempo varrido de atuação e que vai assim prenunciando que a alva espuma que avança na meia praia vem com ar zombeteiro se achegar junto às conchas – todas pálidas – para uma brincadeira nas areias vazias. Junto a elas se acumulam todos os outros seres que se agregam na comemoração do frio.

Com estas vagas arremessadas e sem dono andam as sombras tal qual fantasma que arremete por entre o arvoredo que murmura sonatas se harmonizando com o trinar dos pássaros que por sua vez mais quietos estão parecendo enregelar-se em suas gargantas.

Em uma contrapartida uníssona deito minhas ideias quaradas imaginando que um dia irão se revoltar na pasmaceira e conquistar a vida própria de quem tanto dependo. Por ora, assim me encontro: aquartelada nas nuvens.

domingo, 27 de maio de 2018

O dia em que a alma parou



Escondeu-se o mar, voaram para longe suas aves, as conchas restam quebradas, a pesca arrefeceu, o olhar se desconcentra e some para os lados das montanhas, ardem com o sol refletindo o asfalto, os carros descansam em suas garagens protegidos ou não das intempéries marítimas. O ruído diário toma outra forma e faz zunir outros pneus nas estradas, aquelas que não levantam tanto pó, que não agridem o ambiente, que condiciona o movimento através da força muscular, do bombeamento do coração e do prazer do cabelo ao vento.

Subtraiu-se das ruas o excesso, a inutilidade de se estar na rua sem propósito, quedou-se de maneira quase instantânea a necessidade de ser andarilho para nada, de gastar sola de sapato como se não houvesse amanhã, de andar por aí sem causa justa, mas sim pelo fato simplório de não encontrar em seu reduto motivo real para recolhimento e consideração de seu íntimo.

O vazio invade com soberania os espaços instalando um pânico repentino para quem possui o olhar abaixado em circulo fechado de si. Até parece que a cervical travou e que os olhos não conseguem mais levantar-se do chão e deste jeito arrevesado eliminam-se possibilidades para quem possui bom senso, visão ampla e solidariedade. O coletivo esquece sua missão banalizando realidades contraditórias e parte para atitudes extremas como se no mundo somente existisse uma versão, uma forma de reagir consolidando a ignorância como única saída.

sábado, 5 de maio de 2018

Litoral Norte, do começo ao fim.



A extensão é imensa se pensarmos nos quilômetros que permeiam o litoral oceânico do Rio Grande do Sul reinando de norte a sul com uma paisagem sem grandes surpresas, passando, é claro, por inúmeros lugares, vilarejos, faróis, e muita gente esquecida por Deus ou que por vontade própria rumou para outro plano de vida mantendo os pés na areia. E assim vai se estendendo pelos confins da beira da praia todas as histórias que vão sendo contadas e outras que vão sendo descobertas. Sem falar nas inventadas, porque na falta de preocupação a imaginação pode correr solta e incendiar as rodas de chimarrão com muita prosa e muita risada.

O percurso – aparentemente monótono – é quebrado pelo humor indomável do mar que vai caprichosamente alterando a orla conforme seu conluio com a lua e o clima. Inseparáveis, andam juntos pela eternidade e assim vão se divertindo por entre tantas dunas e tantos lugares da encosta, uns mais bafejados pelo acumulo de gente, outros ansiosos pela solidão e silencio. A orla é generosa e vai abrigando tudo e todos de qualquer gosto para viver. Apesar de voluntariosa, as beiras da praia se orgulham de quem lhe prefere para morar.

O corredor salgado praticamente não provê obstáculos para quem deseja nele se enveredar, voar, velejar, viajar de jipe, a cavalo, carroça ou o que mais aprouver. Com persistência, porém, gosta de brincar com obstáculos porque a natureza é sua rainha e a ela deve devoção.

Este caminho sem convulsão aparente toma um choque ao se aproximar o norte dando de cara com uma topografia totalmente inversa do que até ali a trilha levou. E assim erguem-se majestosas formações rochosas que se formaram há milhões de anos trás, com a distribuição impressionante – visto o caminho monocromático até ali – de montanhas, morros recifes e fragmentos perdidos de sua origem que, por capricho da natureza, dali não quiseram ou não puderam se desgarrar, ficando assim afilhotados na grande erupção do passado. É bem verdade que se toma um choque visual ao adentrar a última cidade litorânea do Estado deslumbrando-se o olhar frente ao inesperado. Uma surpresa parecida com a vida da gente, talvez depois de um monótono caminho de vida sempre pode surgir uma topografia diferente aligeirando nossos pés em meio a novos pedregulhos.

sábado, 28 de abril de 2018

O vacilo da luz



Aconteceu que naquela manhã, justo naquela, o dia estava iluminado e de tão ensolarado carecia de apertar a vista para enxergar tudo o que se apresentava desde coisas minúsculas e sem importância maior no comum dos dias até as mais relevantes como, é claro, a vista imutável para o mar. Imutável que se diga, porque ela não muda no enquadrado da janela, quem se solta para outras veredas é sempre o oceano. Mas enfim, tudo estava encaixado na grande angular do dia e assim o que era bacana e também o que era mal visto apareceu ali, naquela lente deste dia claro.

Mas o destino – sempre ele – naquela ocasião estava de maus humores e o dito cujo na mira não conseguiu enxergar o que o nascer do dia apresentava. Na normalidade abrimos os olhos e vamos andando em frente desviando dos obstáculos que nos aparecem com destreza, esperteza e visão boa. Mas não foi bem assim. Não foi.

A escuridão se instalou sobranceira nos olhos de quem sempre enxergou, quem sempre teve uma boa pontaria, para quem apertar e arregalar o olho era a tarefa mais simples do mundo. A vida com determinado senso surripiou este poder e assim sumiu a capacidade de verificar em que plano se movimentariam seus pés, porque a visão é quem os conduz e foi assim que a escuridão passou a ser seu guia e com ela ele deveria se haver.

Privado de luz que garantisse imagens normais na rotina, foi de certo modo sem querer, que o olhar voltou-se para dentro, e assim a viagem começou na sua mente como se voltasse ao passado, ou como se tivesse uma noite com tantos sonhos que de repente tudo parecia real. A viagem nas lembranças recentes e outras nem tanto distraíram o destino imposto e assim foi se acomodando a retrospectiva para que, em primeiro lugar, não se perdesse a esperança de a luz voltar. Quanto mais o filme da memória rebobinava, mais interessante ficava o caminho. Com tantos enigmas e imagens a lhe fazer companhia ficou fácil prever o que estaria acontecendo ao redor e deste jeito foi se alinhando o que parecia agora lhe pertencer: a imaginação. A surpresa fica por conta da vida. Ela tira, mas eventualmente pode remediar ou devolver. Desta feita a luz se fez. Aleluia.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Mira certeira em tempos fantasiados



A vista mudou, mas não há jeito de o sol ir embora e para alegria de muitos não se desgruda do pouco vento e da lucidez das águas do mar que resolveram se aquietar e transparecer suas entranhas rasas e profundas para quem andar por aqui com este tempo chamado outono travestido de verão. As noites não enganam ninguém, mas quem se importa? No raiar do dia todos os chinelos levam para a beira do mar, as cadeiras e os guarda-sóis acompanham a cuia e a impressão é de um verão que não acaba nunca. A ilusão do praiano é estar em outro lugar do planeta e vai assim cruzando os dedos para que o frio demore a apontar as orelhas.

Para isso toda reza fica fácil, toda opção quente vem para fazer coro com o brinde do tempo que decidiu por conta própria fazer o outono fantasiado. Mas não é aquele verão soberbo onde nem as formigas tem vez nas calçadas, que a careca arde como fogo em brasa só na caminhada até a padaria, que as filas tomam conta de todo lugar parecendo que a cidade inflou e para vivê-la, somente ficando um atrás do outro e de certo modo tudo medido em poucos metros, quiçá, centímetros. Dá para sentir no ar o bafo na nunca que paira nas ruas do comercio durante a temporada.

Mas a dita cuja época de veraneio se foi e há muito, então, talvez a Iemanjá que reina soberana no calçadão esteja protegendo esta gente que tem em seu DNA o amor pela praia, o mar, o sol e a brisa. Os nativos se enchem de graça e coragem e passam a usufruir com galhardia a cidade, onde não existe mais competição de chegar prematuramente em nenhum lugar, porque disponíveis  se encontram.

Na mira certeira, aquele banco de praia encarapitado no cômoro desafia este tempo coordenado por Deus a passar por ali um momento, respirando, refletindo, agradecendo e ocupando mais um nobre lugar tão singelamente disponível.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

São Jorge



Nasceu predestinado a ser guerreiro e por este motivo caiu em sua graça quem necessitava ter um arrimo de confiança na vida, quem precisava ter um rol farto de orações encadeadas para o tempo de aperto, de desespero, de posição assertiva frente ao perigo, fosse qual fosse. O seu fã-clube foi aumentando à medida que o mundo se perdeu em si mesmo, se repartiu em guerras, se acomodou em outras tantas esferas, se retraiu em alguns aspectos e se apoderou de tantos outros credos e usurpou tantos outros pontos.

Seria de bom tom começar pela sua armadura, que para os dias de hoje surge com uma imponência metafórica que tem em sua essência todos os componentes necessários para vestir a mente que se ajusta a novos tempos, a outras quimeras, a outros estados de espírito, a agressões em paragens inimagináveis e delírios sobre o mal e o bem. As armas do santo, aparentemente, perderam valor em sua forma física, porém, na contrapartida, a defesa migrou para cabeças pensantes, articuladas no seu viés, determinadas em sua compostura e certeiras em seu diagnóstico. 

As armas empunhadas pelo Santo se travestem para os comuns de hoje em dia como uma voz, que transforma o artefato de briga medieval em força de oração para a defesa que insistente se insere na vida cotidiana. Se não mais há dragões a matar, estes se transmutaram de grandes questões humanitárias ao considerar uma defesa contundente.
A corrida não é menos importante e talvez seja mais acirrada uma vez que não se trata de animais que defendem cavernas e que estão à espreita, mas sim, mentes que se aguçam na busca de fazer o mal, de se imiscuir no campo dos bons semeando as farpas da dor, do infortúnio e do descaso. A morte aqui não é considerada uma vez que ela, por ser a única certeza, não possui porta voz.

A todos os orantes que se devotam ao Santo como única alternativa para seus males, que se regozijem porque certamente São Jorge, grande mito, escuta e acolhe quem lhe brada por socorro. Amém.

domingo, 15 de abril de 2018

A “Santinha” do calçadão



Para os praieiros o mar é sempre o destino, movimentado, “de lua” e indomável, chova ou faça sol, tem seu fã clube garantido durante todo o ano, mesmo quando se torna perigoso um simples banho de mar. Ele tem muitas companhias em sua orla e a mais famosa é a Praça Iemanjá que dá abrigo ao monumento que homenageia a Santinha em plena beira do mar, por onde passam muitas pessoas todos os dias.

A Rainha do Mar está de costas para o horizonte marítimo porque a intenção é lançar o seu olhar para quem por ali vier fazer uma homenagem, uma reza, encher o coração de esperança, deixar que ela assuma dali para frente à proteção divina. No alto, protegida do clima do litoral norte que sabe ser feroz nas quatro estações, também proporciona certa calma a quem for lhe depositar oferendas, flores, agradecimentos pela graça alcançada e o mais de devoção que houver.

A força da santa se encontra nas águas da natureza que devolve as oferendas nas graças solicitadas como se houvesse ali um capricho divino. Diz a lenda que ela, caprichosa, leva para o fundo do mar todas as aflições, tristezas e problemas que são colocados aos seus pés. Peregrinar por ali acaba encorpando os fiapos de esperança por um mundo melhor, mais justo e mais tranquilo.

Para os pescadores e suas famílias a prece ronda para receber a abundância do alimento que dever ser trazido nas redes pesqueiras e, enquanto o patriarca se lança nas ondas bravias os pedidos de sucesso na empreitada se proliferam. Alimento e bom retorno estão na mira da Santa e se cumpre.

A Deusa Divina mantem sob seu controle a natureza das águas em sua fase lunar exibindo quase sempre a mudança necessária em todos os aspectos da vida, provendo então a compaixão, o perdão e o amor incondicional. Percebeu Iemanjá em sua trajetória que quanto mais ela ofertava mais recebia, consolidando um ensinamento muito antigo: “é dando que se recebe”.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...