sábado, 27 de setembro de 2014

Distância


Mais por costume do que por vontade própria a distância faz esquecer um pouco de tudo ou de tudo um pouco, não havendo mais nenhuma sanha, não lembrando fosse o que fosse se espichando o despudor em deslembrar. Fica para trás o tormento insistente da mente descontrolada, da emoção que finca pé e a todo o momento vem ofertar a imprecisão e o descaso.

O vazio se instala soberano e não aparece nem em sonhos os desejos antagônicos, os suspiros profundos, os olhares apaixonados e muito menos os seus sujeitos. E assim vai seguindo de cabeça feita e do avesso buscando novos feitos para contrapor o deletado, preenchendo o que ficou em branco pesquisando no entorno novas histórias, reescrevendo o passado.

As cartas na mesa estão sem naipe e não significam nenhum traçado futurístico, não anunciam o novo amor aguardado, não mostram o caminho das pedras nem apontam para o tesouro perdido.

As duas pontas se afastam tanto que parece impossível reatar ou reaver qualquer coisa e então, desta feita, acontece o encurtamento das distâncias destituídas do seu maior poder: o esquecimento. Os segredos guardados aparecem com lucidez e nova serventia, se revelando aos poucos fazendo todo o sentido. Com este pano de fundo serpenteado de surpresas a orquestra ensaiada se refaz com seus instrumentos no lustro e afinados na proposta de manter em alta o tempo perdido.

No atraso da vida perdem-se detalhes, escondem-se minúcias, esquecem-se situações ou jogam-se fora impulsivamente tantas histórias que agora precisam ser recontadas e trazidas à tona com o olhar do novo.


E assim foram restauradas todas as falas, os olhares se cruzaram tantas e tantas vezes que se acostumaram rapidamente com a linguagem muda do dito não dito, todos os sorrisos se arrevesaram em gargalhadas preenchendo os instantes com muita sonoridade e assim a rota foi retomada, desta vez com ares de para sempre.

domingo, 14 de setembro de 2014

Ofensas



Não presto atenção em tudo e por isso mesmo vive caindo no meu colo o que não pressuponho que aconteça. Então num desses desvarios de pensar, de ler e de escrever enxerguei nitidamente o quanto pode ser curiosa à falta de tato e por que não dizer – de educação – do anônimo. E falo em desconhecido para mim, não que a pessoa se esconda. Em tempos reais e de conexão vale tudo, larga-se palavras e ofensas ao vento como se elas não fossem chegar ao destinatário.

Os arautos que sineteiam nos caminhos ainda tortuosos da comunicação moderna infestam nosso cotidiano agridem nossas origens, nossa família e nosso passado, como se deles fossem. Não existe trava na língua, amor à ponderação, respeito ao próximo. Tudo vai na lata.

Penso no direito de julgar ao próximo sem que ao menos lhe seja permitido ter um encontro com olho no olho para poder sentir a frieza ou o acaloramento da discussão ou das falas em uma simples conversa.

Os diálogos ingênuos deram lugar a grandes discussões de grupos que reunidos estão virtualmente muitas vezes falando sozinho, contando de si para si, se arvorando como o dono da verdade desrespeitando a opinião pública, conforme o caso. Chegou a hora dos sem dono, do desserviço de jogar todas as ideias em solos desconhecidos sem se preocupar se o pátio fica grudado ao seu. Caia onde caia a ofensa grassa.

A relevância e a verdade estão descartadas uma vez que neste momento, a opinião individualizada se tornou tão passional que a razão nem mesmo importa. Importa vomitar a ofensa, agredir quem não se conhece, tornar público o ditado sem fundamento ou razão de ser.

Levantar hipóteses não faz mais sentido nestas horas de tantas veredas enredadas, tantas ideias plantadas, tantos pensamentos cruzados. Bom saber, entretanto, que o que está selado, está feito.

domingo, 7 de setembro de 2014

Virtual



Antigamente vivíamos entre portas e janelas muito bem cuidadas, os moradores se esmeravam na pintura da entrada, instalavam campainhas que tinham a tarefa de avisar o residente que havia um visitante e assim também proporcionavam a ele momentos de deleite ou de emoção ao levantar a mão para tocar um sino, um din-don, uma imitação de cigarra – para os mais surdos – ou uma pesada argola lembrando os tempos mais antigos, na verdade, quando não existiam tais engenhocas.

O umbral da residência recebia muita atenção e importância porque muitas vezes um de seus vasos de flores era o escolhido para “esconder” a chave da casa porque não havia perigo algum em deixá-la ali para que seus usuários em seu vai e volta o fizessem com naturalidade. O capacho fazia parte do acordo de facilidade para entrar e sempre era um personagem de destaque no alpendre e uma opção libertária de esconderijo.

As janelas eram muito privilegiadas, porque mostravam o externo para quem estava dentro, com incumbência de trazer as imagens do que acontecia na rua, no jardim, no trânsito em frente à casa, no céu, nas nuvens e no ar. Eram elas que davam o recado todo dia e serviam com fidelidade absoluta. Através delas os humores vespertinos se alteravam porque a programação poderia mudar conforme fosse a noticia que entrava através destes grandes olhos. Cortinas eram instaladas, algumas para vetar a luz do sol que em determinados dias não era bem vindo ou simplesmente para fazer uma bruma entre a realidade e o sonho, se por acaso ali vivessem poetas, escritores, artistas ou apenas pessoas mais sensíveis. Como uma moldura da vida, as floreiras davam o acabamento perfeito a estas janelas que em seu parapeito recebiam cotovelos curiosos perscrutando a rua, sorrisos com a chegada de parentes e vez ou outra muito choro por quem dali se afastava para sempre.

Impossível não pensar em nossas atuais portas que perderam sentido e encanto, uma vez que a virtualidade das relações extinguiu as campainhas que perderam seu propósito. Ninguém mais se anuncia e todos entram sem permissão em todos os lares através do mundo virtual e assim as aberturas, além de não terem trancas não encarnam o romantismo de uma visita inesperada, do amor retornando, da vizinha trazendo uma prenda ou da chegada surpreendente de um filho que se foi há tempos.


As janelas de hoje são as que mais sofrem, porque restam fechadas com black-out para que a luminosidade não atrapalhe a interatividade desenfreada compartilhada entre tantos aparelhos de alta definição. As flores, ora, flores murcham por falta de atenção e o capacho se desfia sozinho.

sábado, 6 de setembro de 2014

Mentira


De tempos em tempos sou envolvida pela mentira, engraçado, porque se tem uma coisa que não faço é mentir. E não é por gosto não, não minto porque tenho medo, porque se antevejo deixar alguém na mão dando uma desculpa inexistente tenho a certeza que serei descoberta e fico paranoica em relação à criatura e ao fato, e então desisto. Melhor pagar o mico de não estar a fim de qualquer coisa sugerida, do que falsear as intenções que vem a você com o mote de fazer parte do mundo aludido do outro.  Como carregar a falsidade será o tema da sua vida se cair nesta armadilha.

Percebo que em muitos casos a mentira faz parte do dia a dia, ela existe e está ali na agenda diária de compromissos, tipo, uma reunião desajustada, uma mentira, um passeio previsto esquecido, outra mentira, um encontro desmarcado, mais uma mentira. A sequência se torna uma teia que enreda o real da vida e a falta de coragem de ser autentico. Seria bom tomar uma chuveirada de lealdade todas as manhãs e distribuir como se fosse o pão da vida, os acontecimentos que tem fundamento, que chegam recheados de argumentos interessantes mesmo que as noticias ruins grasse, o idílio previsto não aconteça, o amor não tenha mais conserto, o negócio esteja falido e o interesse tomou Doril. Todos estes temas pedem sensibilidade que somente a clareza de atitudes pode prover.

Quando sou desafiada a dar uma espiada na vida lá fora e sem querer tomo o caminho errado, a mentira me pega no contrapé e compreendo que a calúnia vai se apresentar no momento em que está sendo gestada, parecendo um sino tocando no fundo, mas bem no fundo da minha cabeça. Talvez eu a reconheça a partir do convite que veio em tom de voz e se a empreitada desonesta vem por escrito faz a minha intimidade com as letras esquadrinhar a cadência inequívoca da desculpa que vai me atingir a seguir.

Sempre fico surpresa ao perceber que saltar fora dos trilhos sem querer traz uma nova forma de ver e entender as pessoas que coexistem entre tantos personagens criados particularmente e cada um com esmero invejável.

Prefiro pensar que são eles – os mentirosos - que dão brilho à caminhada, oxigenam o coração por conta do susto e da surpresa, trazem mais cuidado ao se avistar com todos e definitivamente trazem uma alegria enorme na aferição da nossa intuição.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O anônimo


O dia estava luminoso e a expectativa brilhava assim como tem de ser quando se está prestes a lançar a alma ao vento, ela, sempre partida em mil pedaços, mas rearranjadas em um único volume, seguida de página em página e finalmente as letras, ora brincalhonas, ora mordazes que iam dando vida aos pensamentos sempre desconcertantes. Este todo complicado resultou na escancara do de tudo um pouco.

Ela já estava sentada aonde deveria entregar e assinar sua vida contada na metáfora, mostrar a trajetória infame de querer alinhar sempre o imponderável, a mania de estar sempre se repetindo, a impulsividade de escrever sobre o que vê, o que sente e o que imagina, conquistando desta maneira inimigos e fãs. Alguns, tão sinistros, ao se identificarem com algum dos textos cortaram as relações para sempre com a autora sobre o argumento de que a mesma roubava suas vidas. Vai saber.

A pilha de livros ficava à sua esquerda e projetavam sombras muito determinadas que se refletiam por debaixo da mesa, mais precisamente em seus pés. Achou que parecia um mau agouro voltar-se para baixo, mas pensou também que esta não era a hora de ficar elucubrando estórias, era chegada a hora de se entregar aos outros, sem pressa.

A mesa ao lado replicava os tons e sobretons nas taças de cristal que receberiam o espumante com a incumbência de deixar o ambiente no enlevo do sussurro aconchegante e ao mesmo tempo gerar um alarido sem muito sentido, um diz que diz sem nexo com sorrisos destemperados e cumprimentos entre tantos demonstrando um convescote sem noção.

Ela não tirava os olhos do fundo do corredor e mesmo parecendo um presságio suas mãos acariciavam a mesa lustrada, mas sua alma sangrava aterrorizada e em alguns momentos pensava que talvez fosse melhor fugir, tocar fogo em tudo e destruir todos os seus pensamentos que resolveram ter vida própria e se assentar no papel.


Era esta a situação quando se posicionou ao seu lado um anônimo ilustre, gomalina na cabeleira, elegante, bem vestido, bonito, óculos escuros, gabardine preta clássica que lhe estendeu a mão com um sorriso cínico profetizando: acorde.

domingo, 31 de agosto de 2014

Papelada



De ventas altas se fizeram aqueles dias, fungando todos os fantasmas desde os mais corriqueiros até os mais densos, aqueles que se assemelham a nós mesmos nos piores momentos. Fugir era a minha intenção e quase o fiz, mas houve algo que me prendeu e perdi as forças por conta daquele olhar matreiro, divertido, carinhoso, mas um pouco sem graça que olhava, mas não enxergava, tentava chegar perto e se perdia.

Ouvi um rufar ao longe que me pareceu muito antigo e então percebi que havia chegado a hora de afundar naquele baú que me perseguia há tempos e arrancar dali o que fosse preciso. Segui em frente com coragem até porque eu havia determinado que este fosse meu alimento de hoje, juntar todos os cacos que insistiam em se amontoar naquela caixa e remontá-los em divertidas figuras dando um jeito de materializar a fantasia.

As primeiras tralhas que se apresentaram foram os desavisos. Ali, estavam todos enfileirados, um a um, me dando a lembrar do quanto fui distraída em não ter dado a devida importância a todos eles que me acompanharam com total dedicação e mesmo agora, quando não há mais tempo, continuam por perto. Saravá.

Em seguida saltaram e se apresentaram a mim todas as ilusões. Vinham representadas em cartões amarelados, fitas roídas, bilhetes com escrita nervosa, mas com lindas frases, recortes de flores e corações entrelaçados que de repente se desfaziam em suas cores, desnudando o que estava proposto matando a intenção. Aperto contra o peito aquele amontoado de promessas, umas cumpridas outras não e ao voltar meus olhos uma última vez, as percebo renovadas em seu brilho parecendo ter recebido um sopro de vida. Julguei-me ali totalmente incurável.


Continuei a fuxicar nos escombros da minha vida porque de certo modo estava sendo divertido separar o joio do trigo, limpar os cantinhos reservando o que tem importância e descartando o mau feito. Encostei ao meu lado a lixeira que iria recolher as risadas mais antigas, os vestidos de baile, arranjos cafonas, viagens desesperadas e retornos mais ainda. Por último, retirei um pacotinho bem fechado onde estava escrito em letra miúda: amor perdido. Vagarosamente devolvi todas as lembranças ao seu lugar devido.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sabiá



A noite nos cobre em silêncio com seu negro manto e mesmo que haja barulho lá fora, em tudo se aquieta a vida, ela, que durante o dia comanda todas as ações conforme sua fase, claro, bordejando entre o bem e o mal. Não existe meio termo quando o sol se alevanta e a negra atmosfera surge após, com suas características e surpresas, pegando a todos desprevenidos quase sempre.

Afundamos na escuridão por livre iniciativa, a mente buscando a paz e o corpo querendo se esvair em partículas mínimas para não pesar. Nada sólido apetece nesta hora muito menos pensamentos confusos e assim etéreos como anjos avançamos na madrugada densa e por isso mesmo desejada. Bom demais tirar a fantasia e as máscaras que amarrotam nossos desejos, rasgam nossas propostas, furam nossos olhos com o inominável, surripiam nossas convicções tirando de campo, por um momento, a vontade de ser.

Desnudos da vida real neste horário eis que surge um personagem gritante em meio à bruma gelada e úmida da madrugada. Difícil acreditar, que ao invés do terror noturno, dos sonhos inconfessáveis, do descanso da agitação amorosa em meio aos lençóis, da paz conquistada uma vez que o dia caiu, possa haver tal intromissão que pia incessantemente através do sereno da noite.

Ele chega altaneiro e como dono do silêncio escuro resolve conceder seu trinado para dar o contraste aos sonhos desesperados que varam o buraco abissal que se constitui a noite, para alguns muito, para outros nem tanto e até pode ser que para vários, nenhum.

A cadência do Sabiá empurra para o lado a faina ignóbil do sono trazendo a acústica de volta, só que desta feita, com cantorias que talvez mereçam serem ouvidas mesmo que maçantes em sua melodia, porque o Sabiá é monocórdio.

E assim, mesmo sem querer, o nirvana cerebral absorve o concerto qualificado que lentamente consegue abrir as gavetas fechadas dos nossos medos, desencantar o pesadelo sem fundamento, desmanchar os fantasmas que se incluem como visitantes indesejados todas as noites. A insistência do trinado repetido e melancólico nos traz de tudo um pouco.

sábado, 23 de agosto de 2014

Alvo

 


Era sempre ali no fundão que parecia haver a resposta, era por ali, naquele entorno desfigurado que se assistia o desfile acontecendo, sempre com assuntos ocultos, mas também sempre presente no ar. A intenção era descobrir o que havia chegado para acontecer, porque os atos promissores se desdobraram com força, mesmo que vez ou outra houvesse certa desaprovação e as querelas se chocassem áridas, resultando em um enlevo dissonante, descartadas em outro momento, como se medo houvesse. Parecia que a alegria sempre andava mal acompanhada. 

As más companhias do pensamento chegavam a alguma conclusão, porém, um ditado se antepunha derrubando os argumentos. Tudo fazia sentido nas fracas teorias que não se sustentavam, justo neste entreato de tentativas de descobrir com urgência o que vinha – ou o que havia – por trás daquele pano pomposo. 

Mas o olhar apagado surgiu ao longe, vindo da bruma da consciência provocando um conforto necessário naquela exata hora de apuração da verdade, da realidade tomando corpo e se desfazendo do imaginário, largando fora o brilho da apresentação altaneira e concedendo, finalmente, um troco a todas as indigestas promessas jogadas sem dó e que foram engolidas sofregamente para que a alma não secasse. 

Cada palavra lufada ao pé da orelha eclodia depois como algozes no tempo e no espaço, tornando a dúvida e a boa intenção companheiras inseparáveis no seu propósito, mas distintas no fato. 


sábado, 9 de agosto de 2014

Fatura



Nos últimos tempos não eram os meus pés que me guiavam, mas minhas costas, que tomaram à frente de tudo, penso que por existir ainda algum acerto a ser feito ou um alerta para não deixar nada em haver, uma vez que a fatura do passado chegou cobrando juros feito lágrimas, multa pelo amor não correspondido e IOF pela tristeza infinita.

Resolvi abrir esta correspondência que foi selada com a saliva da pressa, impugnando o meu interesse e deixando-me com as mãos vazias, o coração apertado e o sorriso reverso.

Na conta remetida, tinha a coluna em que se somavam os muitos dias de verão com o calor que abrasava as emoções e elevava a perspectiva ao cubo. Havia uma proposta clara de conectar os laços perdidos que se apresentaram com toda a pompa e cor dos anos que se foram, ressurgindo puídos do tempo com elegância e uma inefável tessitura rota e muita ponta cega espalhada tentando se achar e buscando o encontro. Um estado perfeito para a ilusão se assentar.

Porém, naquele contrato estava escrito em letras bem pequenas - que no momento não interessaram - que diziam do perigo do desentendimento, da afoiteza na busca e as implicações que adviriam se a sequencia não fosse cumprida. Ali dizia também que é mais seguro dar uma parada e olhar com muito cuidado toda a argumentação porque se sabe, e não é de hoje, que tudo pode se romper de repente, sem aviso prévio. O acordo não tem garantias e sempre podem acontecer imprevistos, mesmo que o caminho já tenha sido trilhado em outros tempos.

Ir além da miuçalha é difícil porque entre parágrafos e adendos tropeçamos em deliciosas ofertas que ali estão para desafiar a improbabilidade de dar errado uma vez que tudo se apresenta com a intenção de fechar a conta com sucesso. Acrescentem-se aí todas as boas intenções que somente não se tornaram reais porque não se estabelece nada do amor em conjunturas, em hipóteses, em planejamento.

Na distração não se percebe que o envelope entregue com a fatura em aberto possui belas ilustrações, assim como o reencontro, que nem bem havia começado, já terminara. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sorrindo




Dia morno na caminhada lomba acima espanando o mofo, a injúria enrustida e certa indolência com tudo. Mas toda subida tem sua descida e sempre em grande estilo porque descer é mais rápido, mais perigoso e muito, mas muito mais arriscado. Então, acelerei na baixada sem querer, mas fui parada pela prepotência uníssona dos rostos que me transpassavam arreganhando uma boca e um semblante desproporcional ao meu interior, confesso, sorumbático.

Eu queria ficar ali, de cabeça baixa lambendo o chão, mas como sempre acontece nestes casos, o entorno suga teu intento, a luz forte e quente te avisa que não será esta a hora de se agachar ou de se enterrar um pouquinho só e muito menos usufruir um tiquinho de solidão necessária para renascer mais adiante. Não, neste dia luminoso eles vem te alevantar pelos chifres e te fazer encarar o que vem pela frente.

Forçada, comecei a observar os rostos de quem passava por mim e presenciei exatamente o que eu queria viver ali, nas ruas, mas ao contrário. Todos os rostos desviados tinham um singular esgar na boca que eu entendi como um leve sorriso – que não eram a mim dirigidos - como se aquela pessoa estivesse pensando em algo bom, interessante ou engraçado.

Todas elas com esta atitude tinham um smarthphone na mão e caminhavam por cima de tudo e de todos, com a visão acima da linha do horizonte e tão etéreas que poderia afirmar estarem somente na imaginação.

Dali para frente me ficou impossível não pensar que é uma ingratidão para passantes de ruas imensas negarem o cruzamento do olho no olho, trocar um sorriso, recusar um flerte imperioso com alguém interessante ou subtrair a tentação de espontaneamente cumprimentar um desconhecido simplesmente. Não é mais possível encontrar a incógnita tão estimulante, não se faz leitura de quem passa na rua e não se encontram mais as almas se cruzando no universo.

O olho e o espírito focado no que vem de fora, criado e manipulado para as massas tornaram os indivíduos espantalhos do dia que riem sozinhos por aí, sem presenciar o calor da oferta dos amores reais que agora são fantasmas perambulando solitários pelas ruas. 


domingo, 27 de julho de 2014

Secreto



Ele me disse que tudo iria ficar em segredo entre nós, ou secreto, seria o termo mais adequado. Engraçado, pois na hora não entendi direito como isto iria funcionar, uma vez que se dois estão sabendo, mistério não mais existe.  

Segredo secreto é tudo o que temos dentro de nós e que permanece em si apenas pela condição de não ser ofertado a ninguém, e até quando nós mesmos vamos pensar no assunto, corremos dele para longe.

Mas, como eu estava interessada nesta vida oculta que estava sendo ofertada resolvi, como sempre, começar a imaginar como ela seria e então o nirvana se instalou uma vez que junto ao arremate todos os ensaios tomariam corpo se unindo em uma única voz para colorir o mundo que se avizinhava. 

Todo dia eu acordava e seguia reto a conferir as novidades que a obscuridade da noite havia me trazido e, de fato, ali estavam a me esperar todos os desafios com que eu teria que lidar naquele e nos próximos dias. A partir dali eu seguia todas as regras que me haviam sido confiadas com um primor e fidelidade como convinha.

De repente me pareceu que eu apenas estava seguindo a vida que se apresentava, todo dia, com sua simplicidade absurda de entregar problemas sem solução como se fosse um pão quentinho e uma garrafa de leite ainda morno de vaca, ilusão perfeita.

A vida secreta prometida se esvaiu em segundos dando lugar ao meu interior rico de absurdos, de paranoias e de perseguições imaginárias das quais não consigo viver longe porque são o fio condutor de manter a sanidade mínima para o levante diário. O absurdo é o elemento da massa que cria minha realidade.

Largando de mão a proposta incorreta, me vi em meio a um mundo de possibilidades apenas. No achado do dia nada se fazia de acordo para ficar, para se alternar em sim e não, para dar um norte ao meu desvario, para acalmar a minha tristeza, minha decepção, minha saudade e meu amor obtuso.

Todos os meus segredos montaram barreira frente a mim, me ironizando, me desafiando, e eu ali, sem norte. E então, devagarzinho, os segredos que seriam apenas de minha autoria borbulharam para fora da minha alma, escapando do meu controle frágil tomando todas as linhas da folha branca. 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Romance




Variados, subalternos, loquazes ou simplesmente simples eles vem e vão, assim como a brisa que deita seu vento pequeno na floração do dia e muda a aragem ao se apresentar esperançoso, futurístico, e por isso mesmo desastroso. Muitas vezes rompe as fronteiras das improbabilidades como lhe assopra a intuição, grande amigona que às vezes é escanteada e desacreditada. Vai ver que é para dar passagem à ilusão, outra danada parceira de conluios romanceados. 

Com este clima tudo se enverdeja e se esclarece elevando o pensamento para milhões de bobagens que deixariam rubra qualquer pessoa de bom senso. Mas não para quem tem o hábito de romancear sempre o que se apresenta tendo uma capacidade de trazer para dentro da rotina certa, determinadas inadequações.  

Assim a vida vai dando corda cega uma vez que a ordem é não estancar, não desistir, ir sempre além, mesmo que depois tenha que costurar as feridas, calcificar os ossos, atirar-se ao chão na busca das tantas palavras desperdiçadas nas muitas conversas. Diálogos deliciosos que vão para frente e para trás numa dança de presente e passado como se grandes cúmplices fossem. Deitar o olhar ao mar em agradecimento por ele ter sido uma testemunha calada e confidente do interlúdio, faz parte do fim e do começo. 

Parece que de pronto tudo está se estabelecendo a favor, porém um ruído mínimo no fundo do pano incomoda sem que se possa lhe dar o devido valor ou sequer mensurar se vem para estragar ou se é um alerta de perigo iminente. Por risco quero dizer cair-se em ciladas floreadas, deixar-se levar pela quentura de um olhar mais atrevido, do beijo roubado em susto, do abraço imprevisto e desajeitado e dos encontros que se desfazem como sorvete derrubado em asfalto quente. Tempos ardentes fazem parte da promessa do amor que, inadvertidamente, pode chegar travestido de inverno rigoroso, promessas falsas e catastrófico final, mesmo que estejamos aproveitando o calor. 

O carrossel não para uma vez que lhes foi dado o açoite e as mãos que o conduzem, embora frágeis no início, se fortalecem para servir de anteparo a tudo que foi arremetido em sua direção. Um destino certo desviado na chegada.


O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...