sábado, 29 de maio de 2010

Nunca mais




Lanço meu olhar agudo, por velho se sentir, por sobre as coisas e as vejo muito claras agora.

Um olhar diferente sobrevoa a caminhada, sem detalhes, porque nesta hora quero somente pairar, olhar de cima o que aparece e ver quanta importância destaquei aos de menos e não vi o que a mais me ofereciam, por estar cega e envolta na trama do impossível. Presa no sonho, grudada na desatenção do momento presente.

Apequenada na observação percebo que de tudo o que vejo muito tem de nunca mais. De cima consigo enxergar o quanto outra sou e esta me persegue avisando sem parar.

Definitivo e intenso demais para quem está sempre querendo ir além ou onde der para ir.

Todos os depois terão novas cores, iluminando meu pensar, trazendo possibilidades.

E de tanto em tanto vou formatando aquela que serei eu.

Nunca mais.


sábado, 22 de maio de 2010

Quatro paredes



Quatro paredes nunca contam com o teto e na verdade, o teto é que são elas. O que acontece nos reflexos dos cimentos ao quadrado é o de cima que os vê e é sempre emparedado que enxergamos o que talvez a olho nu e na claridade não conseguiríamos entrever.

É nesta prisão que nos defrontamos com o desconhecido de nós mesmos, pois por ali, não temos para onde correr e de tais partes se formam o viver, este presente sem fuga.

A parede real nos grita as obrigações, os compromissos e os deveres a cumprir como uma ameaça, se não dermos cabo das ditas. Faca no pescoço. Cumpra.

A parede em frente tem a cor da esperança que avisa que o tic-tac do relógio está correndo e alertando que não dispomos de muito mais tempo para sermos felizes ou infelizes, porque na verdade isto é do gosto de cada um. Uns e outros passam a vida no sofrimento por não saberem trilhar o caminho da alegria e da felicidade e escolhem para si o pedregulho, e nunca dele conseguem se safar.

A outra parede em tons de ilusão mostra as impossibilidades da vida de uma forma muito sutil, pois é nesta seara que muitos não alcançam autonomia imaginando simplesmente o que desejam, pressupondo que a solução venha como se uma mágica fosse.

A quarta parede vem nos falar da essência da existência, assoprando desesperançada que a nós é dado o livre arbítrio. Ir e vir faz parte da assombração que idealiza um sentido constante de crescimento e de valorização do que vem por aí. Viver.
E entre estas quatro paredes vemos o “teto” que tudo observa como se Deus fosse. Para mim, o teto representa o amor. Indiscutível.


Esqueleto



De volta ao esqueleto com milhões de partículas de toda a espécie que se uniram cantareiras e voltaram a envolver meus ossos. Na evolução dos sentidos comecei a pressentir a quentura dos nervos e a musculatura aderindo à minha ossada descarnada. Veias se inchando com sangue quente que recomeça a navegação por entre elas que de tão secas tomam um susto. Mas rápidas se alegram e se refazem, talvez um pouco mal humoradas. Afinal, este corpo estava descansando e lá vem esta tal de vida movimentar o que estava quase morto.

A gritaria entre os átomos é ensurdecedora com meus pensamentos zunindo de um lado a outro, um pouco desprovidos de senso, uma vez que agora procuram acomodar-se nessa carcaça.

Tonta com a potência da história a me empurrar barranca acima, sem dó, meu esqueleto agora revestido de gente decide assumir o que vier.

A renovação deveria ser sempre assim, ruidosa e galopante, sem meias- medidas, anunciando ao mundo que a caveira agora tem dono.


domingo, 16 de maio de 2010

Suspeita



De revés, alongo meu olhar no agora e só enxergo o depois. É sabido que para vivermos plenamente, só o presente momento é o que interessa. Mas a fobia de olhar em frente é sempre minha primeira opção.E a carga do agora para trás faz minhas passadas se tornarem densas, seguidas por um conteúdo que não quer se desligar.

Faço voltas por areias macias, pedregulhos pontudos e águas geladas do mar. Salteio entre fatos e decido seguir sem proteção, descalça, rumando por entre os caminhos da frente e deixando para trás o que eu já vivi. Como deve ser.

Intensidades descartadas na efemeridade de um pensamento.

Lembranças sutis de uma que não era eu.

A dúvida me leva a ponderar o que eu preciso de verdade e o que eu posso dispor ao vento.

E solto as amarras do aditivo que insiste em me perseguir e entendo que o amontoado preso em mim, não me pertence, apesar de querer parecer.

Sem dúvidas, se clareia a caminhada e se alegra o presente com o olho afoito no que há de vir.


sábado, 8 de maio de 2010

Invasão










Se tem uma coisa que a vida moderna nos trouxe é a invasão. Temos os grandes olhos do mundo focados em nós, e, nem que não queiramos, assim é.


Um presente grego da tecnologia que facilita a vida enquanto derruba qualquer tentativa de vivermos ocultos e em paz.

Tantas formas de conexão e tão pouco aproveitáveis por não engrandecer nossas relações porque na verdade nos afasta da palavra, do olhar e do toque.

Um abraço e um beijo são digitáveis e para muitos tem o mesmo valor. Eles vêm enfeitados e coloridos querendo parecer tão deliciosos como se o fossem na realidade.

Carinhos de lábios cheios e abraços de brinquedo surgem a partir de hábeis tecnologias gráficas preenchendo corações solitários. Parece que apenas da máquina surgirão os presentes emotivos que de longe lideram as relações interpessoais de hoje.

Não esquecendo que todas as redes podem ser usadas para chegar até você, mesmo que você não queira. A abordagem aparece através do espaço infinito da tecnologia.

Somos um buraco imenso cavado na internet e por ali embarca o tudo do mundo. Estamos impotentes e entregues e o descarte também pode vir sem aviso prévio, sem bilhete azul.

Hackers da vida de todos

Parada




Sempre sem aviso, a vida pára. Um breque repentino em que ficamos impossibilitados de seguir em frente. Nem um passo sequer poderemos dar. Estanques e atônitos, impotentes na chamada “correria”.

Nunca estamos preparados suficientemente para enfrentarmos a hora em que apenas a cabeça está funcionando, e mal, digamos assim.

Por um motivo qualquer a programação estabelecida não foi cumprida e descontrolados do rumo, ficamos com pensamentos desfocados, indo e vindo, como animais em jaula procurando uma saída.

É aí que entramos em contatos com a nossa vida de verdade. E percebemos que chegou a hora de pensar melhor. De analisar o entorno e descobrir como e porque chegamos ali.

E então a calmaria se estabelece e iniciamos a delicia de se ver sem controle.

Observar as batidas do coração, o suor frio do susto da parada e os tremores de um corpo acostumado a andar na coleira, como um bicho domesticado.

Devagar, vamos entrando em contato com o eu interior e relaxando no sentido de enxergar melhor a vida em perspectiva e não apenas transitar célere por ela.

A parada vem te avisar que é chegada a hora de voltar.

Regresse um pouco ao tempo e aproveite a virada dos minutos.

Vai valer à pena.


domingo, 2 de maio de 2010

Tempos tecnológicos


Quando a tecnologia falha e me deixa, como uma inválida fosse, fora do ar, sem conexão com o mundo e com meus projetos.
Quando ela me derruba precisamente quando eu mais preciso.
Quando ela me joga ao chão como se eu fosse um ser sem serventia.
Quando ela me faz de boba a encarar olhares incrédulos e irônicos como se eu nada valesse, então penso no passado, por incrível que pareça. Pois é.

Linkados no rabicho de nossos instrumentos atuais de trabalho nos arrastamos pela via láctea - só pode ser – no infinito onde as correntes fluorescentes do limbo são o que nos traz à terra. Tudo voa por cima da nossa cabeça, e ao olharmos para os ventos no céu, não conseguimos enxergar quem nos aprisiona com tanta propriedade e inteligência.

Não tem poesia nem romance nesta cruzada de fios invisíveis conectados com o impossível. De tão complicado que é, só sabemos que somos reféns. E que sem as máquinas poderosas e céleres que vão aonde vamos, somos ninharia.
E então o passado vem me provocar.

Em que um dia tinha exatamente 24 horas e as primeiras doze horas, pareciam ser um tempo de inúmeras tarefas a cumprir, todas elas com prazo longo para serem executadas e o dia se arrastava lindamente. Não era necessário correr e nada nos deixava na mão, porque tudo estava na mão. Era só trocar uma pilha, repor a fita, trocar a lâmpada, consertar o aparelho.

Nossos passos eram mais comedidos, aproveitando a travessia. Nossos pensamentos eram ordenados com simplicidade de quem tem uma vida inteira para viver. Nossa fome de tudo era moderada. Não lotava nossos estômagos nem nossa mente com excessos. Tudo slim. Já naquele tempo sabíamos precisamente o que significava “slim” - muito antes de chegarmos no agora.

Tempos mais enxutos de tanta coisa a se pensar. Mais magros de alimentos. Mais romances e amores a dar chance. Tempos de poder pensar em refazer tudo ou muito. Na velocidade da luz, não temos mais tempo.


sábado, 1 de maio de 2010

Abajur





Um abajur diz muito de si quando apagado e mais ainda quando inicia sua vida, aceso. Ilumina pouco o ambiente e quase sempre aquele pedacinho da casa. Sempre muito delicado, tem mil feitios.

Mas, a melhor feição dele é no escurecer em que sua luz se confunde com o crepúsculo e assim ele vai criando suas próprias sombras mescladas com as nuances do cair da noite. Uma luz que termina em outra, tímida, cautelosa, uma penumbra que vem avisar que é chegada a hora de se aquietar. Uma cruzada para o sossego.

Assim sou eu quando em luz baixa. Minha mente fica pouco esclarecida e jaz quieta atirada em um canto qualquer. Esmaecem minhas idéias e até parece que se foram para sempre.

O fulgor da vida é assim. Às vezes se afina em tons etéreos, quase transparentes ficando nebuloso o juízo. De tanto ir e vir no meu louco pensar desprender-se do farol interior é necessário.

Do tom sombrio mas profícuo da solidão se refletem ponderações para a próxima ocasião.

Sossegue

domingo, 25 de abril de 2010

Pensar





Uma força surpreendente dentro de nós este pensar.

Constante e sem direção, quase sempre ele é quem comanda, mesmo que não queiramos. Toda a sorte de assuntos vão nos assaltando e ficamos impotentes frente à massa encefálica, poderosa dona de nossas idéias e destino.

Nossa vida toda controlada perde toda a empáfia ao se defrontar com nossa concentração de idéias encadeadas ou não, de todo dia.

Parece que temos o domínio da razão mas somos ingênuos em pensar assim, afinal, o nosso pensamento não tem dono e anda louco por aí com toda a sorte de assuntos, por conta própria. Livre, aparentemente sem senhorio, faz estripulias nas direções mais incertas. Ele tem o leme e nós somos apenas passageiros sem rumo.

Apesar de tentarmos sempre o contrário.

Podemos estar em uma festa repleta de familiares e amigos em alegre confraternização e nossa mente vaga como alma penada querendo estar em outro lugar, com pessoas diferentes, sorrisos mais amorosos, discussões mais profícuas. Enfim, nosso espectro está presente porém o eu completo se encontra assombrado, em outro lugar.

Tudo isso nossa mente é quem faz sozinha, diga-se de passagem. Se nosso espírito anda vagando por aí, enfermo ou não, podes ter certeza que tem o dedinho do pensamento que reina absoluto.

Comando em ação eu o chamaria porque dele pode vir nossa alegria e nossa tristeza agindo como um burro embretado na estrada, teimando em não ir por ali.

Em um rumor obscuro ele te diz: vem por aqui

Uma tentação

Pelo menos



Ao ouvir a expressão pelo menos já me aprumo em orelhas porque de lá não vem boa coisa. Para mim é nada, uma vez que estão diminuindo a oferta. Se for de carinho e de amor, já viu. Racionada a porção.

E me vou aos pensamentos num frenesi tentando imaginar o que pode ser tão bom que valha tirar um pouco do significado, do volume ou da constância.

Se a proposta for de uma negociação comercial, já vamos sabendo que não seremos providos de tudo e sim de um pouco da importância. Ou, talvez, um prazo estendido que não nos favorece, absolutamente. Ou, acreditem, da honra que nos é conferida se aceitarmos aquele trabalho. Pelo menos. Podem ter certeza que quanto a nossa contrapartida teremos que dar tudo.

Se o amor que recém chegou ao seu coração, é uma alma interditada pelo destino, ou pela conveniência, lhe diz não poder desfrutar da vida plena com você, prepare-se pra ouvir um sonoro pelo menos com desvairadas alternativas jogadas como forma de compensação.

Bom, ninguém pode dar o que não tem.

A expressão é ruim mesmo. Nos dá a sensação de que venha o que vier, vem pela metade. Nos esvazia a alma ao ouvir seu som ou sua escrita. Estabelece no rosto, um riso inverso.

Pelos menos, para mim, é nada, uma vez que eu penso sempre em tudo, ou muito ou no que eu realmente mereço.


sábado, 24 de abril de 2010

Bem capaz





Expressão danada de boa essa que me veio à mente numa manhã fria de outono. Sei lá porque me deparei a dizê-la em alta voz. Nem comecei a viver meu dia..porque ela me veio?

As expressões que nos vem de súbito e ditamos fora de regra são serventia da casa, e as cenas do dia vão despertando lembranças e conseguimos, num salto, resolver pendengas. Da alma, da existência, enfim, do entorno.

Como a passagem rápida por aquele casal enamorado que se delicia em juras de amor num banco da praça, todo dia, faça chuva ou sol, lá estão eles.

Obviamente vais lembrar do teu “ex”, aquele cachorrão que te levou aos céus e aos infernos ao mesmo tempo e desta feita execrar o amor sofrido é a tendência e soltamos um “bem capaz”!!!! Não voltarei a viver novamente às cegas.

E dali, não paramos mais de lembrar tudo o que não precisamos mais praticar e se abrem as cortinas das possibilidades da vida.

Bem capaz que vou acordar cedo para malhar.
Bem capaz que deixarei de malhar cedo.

Bem capaz que vou perder a alvura dos dentes com o café.
Bem capaz que vou deixar de tomar café.
Bem capaz que vou emagrecer só porque está na moda.
Bem capaz que vou estragar minha saúde engordando demais.
Bem capaz que volto àquele lugar.
Bem capaz que não vou estar lá.
Bem capaz que volto pra ele.
Bem capaz que não o darei ouvidos.
Bem capaz que vou sair neste dia lindo.
Bem capaz que vou ficar em casa neste dia lindo.
Bem capaz que vou namorar de novo.
Bem capaz que vou deixar de namorar de novo.
Bem capaz que falarei com ele novamente.
Bem capaz que vou deixar assim.
E desdobram-se assim mil possibilidades de se viver todo dia. Aproveite!


Realidade




A realidade me chama a toda hora mas nem toda hora quero vê-la, sequer conversar.

São muitos os assuntos e ela me puxa as orelhas desta vez e é sentindo o bafão na nuca dos fatos em revista, que me lanço no alfabeto.

Tomara que ele me ajude a exorcizar esta missão de letras compostas que poderão me maldizer por aí.

São histórias acenadas por tantos como eu metidos a confinar em verbos suas opiniões. Não será diferente comigo e então, vamos lá ver o que estas mulheres estão me assoprando sem parar.

Mulheres limitadas em um só ideal e este parece, terá de ser para sempre. Ou quase. Não são poucas as que vejo sem um horizonte diferente do seu par não conseguindo se enxergar sozinha sem o distinto. E este, ai meu deus, pode ser qualquer um. Melhor que seja, pois assim não precisará pensar em fugir, nem vislumbrar novas cenas, acontecimentos inesperados, contornos jamais vistos.

Preferível ser um “imediato” em prontidão buscando alhures todas as desculpas que consolidam sua frágil confiança, servindo apenas para responder a si mesmas. Um ofuscamento em dupla pode solapar uma vida. Ou muitas.

Sem liberdade de ser única. Ser de si para si.

As mulheres são as tais para levar um conjunto no arresto, mesmo que não pareça de imediato que este seja o ideal. Não tem porem, o gênero feminino é da luta do grupo, é da ânsia do ter todos em um, mesmo que o apinhado não seja dos mais ditosos. Não importa se é bom ou ruim. É o que elas têm. E isso basta.

Muitas mulheres são famintas do alimento que as empobrece
.


Vanisa Encontra o Farol - Contos do Mar

  O dia estava nascendo com rompantes de luz, mas apenas um feixe muito claro atingiu diretamente a morada de Vanisa, que estava havia muito...