Acordo muitas,
muitas vezes, toda noite! E nem me importo mais..acho maravilhoso poder
aproveitar a noite, dormindo e acordando podendo vagar suave e assustada no
piso frio do apartamento. Sentir o gelo da madrugada no corpo e nos lençóis
quentinhos que resfriam a cada ausência de mim, corpo incauto e indócil nas
noites quase intermináveis de quem espartanamente, dorme cedo.
Acordar no meio da noite é muito surreal porque você,
instintivamente, irá perscrutar janelas vizinhas e perfis insones que se
solidarizam com você. Luzes acesas e alguns vultos surgem etéreos
complementados por nuvens aceleradas no céu escuro ou uma lua linda de morrer
que te faz tão feliz e nostálgica. Bem bom, para fazer meia-volta-volver para a
caminha...e tentar dormir agora.....
E ai que vem de novo o despertar! Mas este, tem mais sentido
do que o simples abrir os olhos e ver que não chegou a hora de levantar todos
os panos para trabalhar.
Este despertar na madrugada teve um motivo sonoro, porque
acordei – graças à deus – com o canto do passarinho que mora aqui pertinho da
minha janela de quarto e começa a cantar lá pelas quatro da manhã, quando a
primavera está quase a nascer.
Nossa! Ficar feliz em acordar de madrugada!! Só eu
mesma....Mas eu lembro que a cada noite depois de rezar e agradecer a Deus pela
minha vida e de todos meus queridos, sempre penso no verão! Ah...será que vai
demorar muito para que eu possa simplesmente deitar? Quando vou ouvir a
passarada as quatro da matina???? Juro que penso isso toda noite..E quando o
verão vem, eu rio muito quando deito sem as pesadas cobertas.
Rejuvenescer no verão é
minha regra e os passarinhos na madrugada vem me avisar que é tempo de ficar
jovem !!!!!!!
Escrever para viver e viver para escrever. A inspiração é o meu objeto de desejo a cada amanhecer e assim minha alma fica fortalecida no encontro do silêncio e da natureza marítima. Leiam com bons olhos! Mail para contato: verarenner43@gmail.com Vera Lucia Renner
sábado, 6 de setembro de 2008
Tempo de ficar jovem!
Como num susto
É como num susto que as coisas importantes
acontecem na vida da gente. Basta um episódio qualquer te tirar da rotina para
avaliar como tu enfrentas a vida.
Todo mundo tem sua rotina diária que obedece para fazer valer
o seu pão de cada dia, seja ele legalmente formalizado e com garantias, seja
ele fruto do viva todo o dia o dia ou, ganhe todo dia o seu pão. Os eventos
assustadores podem vir por carta, por telefone, pelo seu médico, por e-mail,
pela campainha da tua casa, por um estouro na rede elétrica e mil motivos mais.
Mas, todos eles, sem exceção vem a testar seu grau de
enfrentabilidade frente a problemas, gritando uma solução.
Sempre me dá vontade de morrer, de ir para o espaço - meus Deus
quero ser astronauta!! - de congelar no freezer, de me escafeder do território.
A vida não espera os humores de quem tem a dádiva divina de estar neste mundo.
Ele quer respostas e soluções.
O susto sempre vêm para iniciar e concluir uma etapa da nossa
vida. A partir de qualquer susto não seremos mais os mesmos, teremos sempre
aquela oportunidade nos dada por Deus para evoluir e vamos pensar diferente. O
susto pode nos indicar cautela ou não ter medo, aceitar desafios, não se
considerar menos, não pensar que foi pior e sim foi melhor...
Na vida nada
é por acaso..um furar de pneus, o estourar de um transformador, uma goteira,
pode nos sinalizar destinos e encontrar soluções.
domingo, 17 de agosto de 2008
A idade
O tempo é um tema constante e paira sobre nós marcando momentos, pautando nossa evolução, trilhando metodicamente passo a passo do nosso dia. A cada segundo envelhecemos e conseguimos agora ver o avançar do tempo em nosso corpo físico quase que tão rapidamente quanto o vemos passar no relógio.
Mas, nada, nada mesmo é mais absolutamente realístico em relação ao tempo do que se deparar com algum idoso em situação de risco ou de constrangimento na rua.
Flagrar a queda da velhinha que desce do lotação, toda empoada e bem vestida com suas roupas bem conservadas mas de uso bem antigo. Perceber a confusão da pessoa ao tentar se localizar e encontrar o caminho a ser seguido, olhando para o infinito com olhar quase infantil e boca semi-aberta. Como se isso fosse ajudar em sua decisão.
De repente. você se enxerga ali, como se ela fosse você, e surge um delírio que eleva o espírito a bons pensamentos.
Maravilhoso não ter mais que comprar roupas inúteis e outros itens que corrompem nosso orçamento, podendo agora nos dedicar apenas a criação dos melhores métodos de conservação do que já temos. Nostálgico poder desfilar pelas ruas com aquele casaco que em tantos invernos nos aqueceu e nos livrou de doenças e poder usar aquele sapato preto, desgastado e elegante, conservado metodicamente com muita graxa de sapato que possibilita um caminhar com segurança e conforto.
Carregar aquela bolsa e cinto que já tomou contornos do nosso corpo de tanto nos acompanhar vida afora, é uma surpresa deliciosa e cúmplice, afinal.
Vestir aquela velha calça jeans dos anos idos que já nem lembramos mais, com um colete de couro surrado e tênis das antigas, faz rejuvenescer nossa alma, porque afinal, o estilo do vestir permanece para sempre como nossa identidade e nosso figurino que “levávamos” com elegância, vamos seguir fazendo com a mesma dignidade, criatividade e alegria.
E tudo o que é velho e usado adquire vida própria impregnada de poesia e lembranças. Afinal são utensílios que fazem parte da história da nossa vida e ai de quem só o ama o novo e é fã do descarte.
Atletas da vida
Em tempos de jogos olímpicos não há que se furtar
em falar de superação. Aliás, é disso que vivem estes atletas. De superar a
todos, a si e ao mundo e ai meu deus !!!
Pois eu já vou pensando que não são humanos. Que são máquinas azeitadas pela
tecnologia do alimento, do ego, da disciplina, da conservação e do treino. São
robôs programados para vencer, para seguir rígidos padrões em que afeto,
abraços e sorrisos só da família e olhe lá.
Mas é superação, é passar de si para um objetivo maior.
Pois eu acho que a vida é uma olimpíada e salto em vara é só o começo!!!! Todo
dia, todo mundo, tem doze horas de superação que quase sempre se assemelha a
uma gincana e começa pela manhã com exercício físico, boa alimentação e tal e
coisa.
E seguindo em frente, o trânsito não é uma pista de maratona ou de ciclismo
livres de obstáculos, mas sim, uma performance de solo em saltos e reviravoltas
atrás do táxi, do ônibus e do lotação.
O que os atletas enfrentam nestes dias é o que todos enfrentamos todo dia,
guardadas as proporções, é claro. Neste mundinho em que a informação é lei e ao
mesmo tempo somos soterrados por ela sem conseguir absorver tudo, vamos
esquecendo o que é importante e guardando o que não presta.
A superação nossa de cada dia é colocar as contas em dia, se dedicar ao
trabalho como se fosse o primeiro e o último, ser afetuoso e gentil com todos
inclusive consigo mesmo e por aí vai.
Os atletas tem apenas que superar os outros para vencer, nós comuns mortais
temos que superar a vida para ganha-la. Somos todos atletas da vida!
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Frouxos de riso
Acho que entristecer faz parte da vida e uns
mais, outros menos, vão penando pelo mundo seus infortúnios. Quase nunca é tão
sério para tanto sofrimento, mas... que fazer se a alma não pergunta? Obedece
ao nosso ímpeto ora mais pra cima ora mais pra baixo.
E acompanhando nosso espírito lá vai nosso corpo físico que
maltrata o coração que bate devagar, apertado, quase inaudível e com o mínimo
esforço. Seguem uníssonos ao coração, os músculos, as juntas, a pele, as
vísceras, os neurônios e lá estamos nós feito um “pote até aqui de mágoa”....
Até que um belo dia, qual computador reformado, ligamos
rapidamente, a tela se ilumina e estamos online em banda larga. Alerta
cuidadoso porque nossos sentidos tão apagados começam a voltar. E reaparece o
paladar, os olhos ficam mais vivazes, os cabelos andam mais soltos, a luz do
inverno parece que está indo embora. O inverno da alma. A tristeza vai
pulverizando no ar lentamente dando lugar ao bem estar e a conformidade em
deixar a vida andar, trilhando seu caminho surpreendente.
O riso, a risada frouxa, há muito deixados para trás torna-se
fácil armadilha para uma piada boba invadindo nosso corpo moído, soltando as
amarras. E frouxos de riso parecem loucura momentânea, esgarçando o rosto em
lágrimas que rolam em gargalhadas incontidas. Aí você vê o quanto esteve calada
e sombria nos últimos tempos.
Pois é...o sofrimento aparece para todos e engrandece,
expande a alma e nos faz crescer..O riso vem compensar o tempo perdido e tirar
as rugas que já estavam chegando na alma!
Tenha frouxos de riso por
nada que a alma agradece.....Já perscrutei rostos além do meu próprio e todos
tem a mesma resposta e em todos vejo a mesma coisa!
quarta-feira, 30 de julho de 2008
TRAVESSIA DOS MUNDOS
A todos é dado o direito de mudar de vida, de ir para longe nesse mundão intergaláctico - porque não serei eu que vou dizer que não existe vida em outro planeta. Porém, esta possibilidade atinge quase sempre os jovens que estão começando a vida sem medo e a vêem tão excitante e valiosa que não deverá ser perdida em um lugar só.
E lá se vão de mochila na costas e diploma na mão para o outro lado do mundo ou do país ou da região e vão conquistando seus espaços emocionais, formando outro circulo de amizades, se inteirando da nova cultura, amargando as saudades dos parentes que ficaram para trás e este caminho escolhido vai se consolidando cada vez mais a medida que os anos passam.
E o dia a dia se torna a eterna comparação da cultura, de hábitos e de sotaques, de clima, de vegetação e de tudo. E eles que nem bem se formaram como adultos em sua cidade natal, se tornam seres indagativos do que deixaram para trás e do que conquistaram para frente, sem saber direito o que falta e o que sobra.
Mas..a sensação é sempre de que falta um pedaço. Um pedaço na conversa, na discussão, no hobby, na companhia, na farmácia, na empregada, no supermercado, na escola, no pós-graduação, no chão, na estrada, no asfalto, na calçada, no motorista, no ônibus, no banco, na concessionária, no chefe, nos colegas.
E os filhos aparecem e também fazem parte daquela terra que não é a deles absorvendo por osmose o sentimento de uma terra perdida de onde os pais vieram e passam a amar os parentes distantes como se fossem próximos e a querer morar no lugar que quando os pais falam seus olhos se iluminam e o semblante notifica uma saudade.
E a vida vai correndo com gosto de lugar deixado pra trás e sempre um estranhamento com a cultura local e, óbvio, uma comparação com a cultura de origem, tão saudosa. A esperança surge e uma pontada que mais parece um neurônio enlouquecido pululante no cérebro se desconcerta e inicia sua evolução ao passado. Ahhhh...meu deus...voltar ! Como eu queria...e a mente se engorda do passado e o sonho invade a alma como se fosse sangue quente e novo correndo nas veias de quem se sente quase morrendo e de repente desperta.
Voltar! Um dia! Sempre a esperança, esta senhora que move todo mundo para frente!!!!!!!!!!!!!!
domingo, 27 de julho de 2008
Bolor – louca introdução de domingo em Porto Alegre
Fumegante e preguiçosa, como cafeteira vou me tornando viva levemente pensante e já passo a ser um robe chambre cor creme, quase um rôlo, mas ainda uma coisa.
Ainda não sou gente nesta fase porque a mente enevoada e lenta custa a precisar que dia do mês da semana e ano estou e o esforço baixa minha energia de pilha não carregável ainda mais.
A atmosfera úmida gruda meus pensamentos e me conformo em ficar ali flanando pela casa esperando o timing inicial do dia bolorento passar.
Nostalgia
Tem um lugar na minha casa – na verdade todo mundo tem – em que se guardam as fotografias de toda a vida, quando ainda elas eram confeccionadas em papel. É só abrir uma caixa de pandora destas e fica indiscutível que o túnel do tempo te invade e és arremessada para trás como um tiro de canhão, sendo obrigada a ver, folhear, sentir e cheirar toda uma vida passada e impressa. Já em cores desmaiadas. É nostálgico e interessante, mas não por muito tempo.
Nossos corpos, nossa pele e cabelos são quase uma irrealidade para nós mesmas e o esforço para se colocar naquela época dói.
Acredito que a vida anda pra frente e sempre pra melhor.
Mas a nostalgia de se ver fotos antigas pode acabar com o dia da gente, pode abrir feridas que nem cicatrizaram surgindo outras por conta de culpas, de decisões tomadas lá atrás e agora já vamos enlouquecendo e pensando porque não foi assim e assado e porque não disse isso e aquilo e ai jesus onde eu estava com a cabeça!
As perdas, os ganhos, a família, os amores, os amigos..muitos renovam o staff ao longo da vida definindo através destas passagens sua história. Outros conservam romanticamente todos e agregam outros, e tem aquela gente ainda que fica só com o que é do passado porque arriscar novas experiências e sentimentos é perigoso e dá trabalho.
Alguns adoram sentar e rever toda a turma do colégio e trocar idéia sobre aquele tempo e fazem reuniões periódicas. A nostalgia que trás o passado me faz correr para frente!!!!!
Um encontro do passado é sempre ver rugas, cabelos brancos e bordas de gordura em excesso e pior! ter que dar explicação...Onde foram parar teus queridos, como aconteceu aquilo? Como está tua mãe? Teu pai? Tia Mariquinha mora contigo ainda? Morreu? E teu marido? Separou? Quantos filhos? Que idade? Tais trabalhando? Eras gorda..Tais magra..Tais bem? Tais mal? Moras lá? Moras onde? Casaste de novo? Tens namorado? Teus irmãos? E o fulano? E a fulana? Mas....tu não lembra dela? Aquela de cabelo amarelo! Aquela moreninha chinfrim E aquela ruiva? Não lembra? Lembra disso? Lembra daquilo? Ai como era bom..tu não achas?
Não, não acho. Na verdade estes encontros se parecem com um pesadelo aterrador do qual quero acordar!!!!!!!!!!!!!!!!!
O gosto da comida que se faz com amor
Quem mora só está acostumado a fazer comidinhas maravilhosas
para si que são degustadas com o vinho ou espumante preferido. Não raras vezes
sobra um pouquinho que vira um congelado no refrigerador.
O ritual de preparo é sempre o mesmo com música de qualidade
ao fundo, passinhos de dança pela casa enquanto uma cebola te faz chorar – e já
aproveita para fazer um lamento qualquer - o alho miudinho é uma tarefa a ser
cumprida com muito cuidado e vem o tomate e especiarias e o fogo e tudo demora
muito, mas muito mesmo.
O prazer na tarefa e na expectativa de degustar o manjar dos
deuses mesmo sendo um macarrão, eleva nosso espírito e nossa mente ao vazio e
ao prazer simplesmente de uma noite ou uma manhã solitária.
Todas estas emoções que envolvem o preparo da comida se
impregnam no manjar conferindo um sabor personalíssimo. O sabor, o prazer e a
dedicação destes momentos estarão para sempre nesta comida. Mesmo congelada.
Depois de um tempo vais degustar aquele prato congelado que
preparaste naquele dia de chuva, ou sol, na praia, no campo, na casa da cidade.
A magia daquele dia em que foi elaborada a comida voltará a tua mente através
das papilas gustativas que trarão o clima de uma noite ou manhã maravilhosa na
companhia de si mesma! Delicioso
déjà vu!!!!!
domingo, 13 de julho de 2008
Eu acredito em anjo da guarda
Todo dia somos invadidos por um furacão de compromissos e
vamos agendando a vida e estabelecendo rotinas para cumprir nosso destino.
E, de repente, atravessa nosso caminho um ímpeto
incontrolável de desviar e fazer algo que está há tempos na nossa mente e nada
de executar? E somos conduzidos pelo braço sem saber direito como nem porque,
sentindo uma força poderosa dentro de si.
E neste caminhar resoluto quase irreal surgem situações de
embaraço e de impedimento que nos forçam a reagir em relação a nossa rotina e
buscar a solução. Ai meu deus..a solução! Qual delas??
E ao fim do dia temos a certeza que o anjo da guarda estava
sendo nossa sombra e nos guiando no nosso dia a dia metricamente calculado onde
não reservamos espaço para liberar nossa mente e deixar a vida nos invadir com
todos os seus assuntos. Bons e maus.
O anjo um pouco cansado de nos ver como máquinas operantes
nos sacode e nos dá uma boa lição de sobrevivência no mundo organizado.
Sacudidelas para adquirir o hábito de deixar a vida andar.
sábado, 14 de junho de 2008
Caminhão de mudança
A mudança de endereço é uma prática comum nos dias
de hoje com gente indo pra lá e pra cá em busca da casa própria, do conforto,
da felicidade, do espaço prometido, da terra do nunca e da segurança e não sei
mais que tantas mil outras necessidades.
Me surpreendo toda vez que alguém sai do meu prédio...Eu
falei alguma vez com esta pessoa? Quem é esse individuo que arregaça meus
portões e descarrega em um caminhão toda sua tralha e posses deixando os
corredores com tantos sons e um apartamento vazio, coitado, chorando a ausência
dos donos?
Este espaço agora tem pela frente que sofrer a partida e se
recompor para receber novos moradores. Vão respeitar suas paredes? Seus cantos
e recantos? Suas estruturas? Irão rasgá-lo com reformas? Vão feri-lo com pregos
imensos para pendurar objetos insólitos?
Mas nunca pensei na surpresa da saída de um vizinho de mais
de 23 anos. É isso assim mesmo. Porta a porta vendo seus filhos nascerem e
crescerem sem nunca privar da intimidade da família. Coisa da raça alemã.
Conversas ocasionais de corredor, o tempo, o condomínio, não querendo ninguém
se aproximar e assim correram todos estes anos. Numa manhã este vizinho vai
embora sem uma palavra, sem um bilhete, sem um telefonema .Mais de vinte anos e
fico achando que ninguém é normal.
Na verdade este episódio foi o start para que me me
encorajasse a escrever...Tem dois anos. Nunca é tarde
As novas ruas engolindo as emoções
As ruas do meu
bairro mudam de aspecto mais rapidamente do que eu possa acompanhar.
Residências desaparecem e espigões se lançam aos céus numa velocidade voraz.
Nas minhas andanças vejo casas caírem lentamente sobre o
martelo de operários que insensíveis destroem tijolo por tijolo o lugar,
deixando desnudas as emoções que permearam anos de vida de uma família. Quantas
conversas nos corredores, discussões do dia a dia, amores compartilhados,
cheiros das estações do tempo e da comida diária. Cheiro da família, chinelos
se arrastando, gente rindo e tossindo, familiares partindo.
Acompanho atônita como se fosse um filme todas estas energias
pulsantes que pairam sobre este lugar que agora não é mais nada. Vagam no
entorno se perdendo, e para onde esta gente foi esta fase talvez não os
acompanhe.
Sem nenhum pudor a intimidade da morada é deixada à mostra e
descoberto os azulejos daquele velho banheiro que viu tantos corpos nus,
gelados, quentinhos, jovens, velhos e desolados talvez. Lágrimas escondidas num
espaço que é privado e santuário para muitos. E me aperta o coração.
O carvão da velha churrasqueira no jardim ainda cheira e ouço
risadas de uma reunião de domingo. No abandono, uma banheira de porcelana cheia
de inço, ridícula e bela na sua falta de propósito depositada naquele charco e
não em seu lugar de origem com velhos azulejos e vapores fumegantes de uma sala
de banho antiga.
E as paredes vêm abaixo sem dó com a história desta família
se desfazendo no chão junto aos últimos cacos de tijolo, argamassa e azulejo
picado mil vezes. Renascem novas em outro lugar, ou não.
E o meu coração se aperta e choro.
O Apagar - Contos do Coração
“Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...
-
A traição impera de certa maneira no nosso dia começando pelo tempo que prometeu ficar de céu azul e se vendeu aos ventos e chuvas, desa...
-
Na primeira vez me chamou a atenção um pé de sapato solitário perdido na beira do mar. Era de homem, e devia estar no fundo do oceano al...
-
Descobri que estou sempre de malas prontas, não importando a viagem. Ao meu alcance, a bolsa do dia a dia que carrega em si as esperanças...











