domingo, 24 de maio de 2015

Aquela porta


Quase sem querer, praticamente, abri aquela porta com certo vigor porque eu precisava de ar. Ando sempre precisando de brisa fresca como se todas as ventanias e aragens não são suficientes para oxigenar meu corpo. Parece-me, às vezes, que todo o meu corpo carece de ar, uma vez que ando me sentindo como uma máquina trincada, tudo ruge com estardalhaço e então enfiando a cabeça no mundo aspirei aliviada o ar da noite, contemplei o céu estrelado e os ventos mornos.

Quando resolvi voltar, a porta não quis fechar. Ficou ali estaqueada, empedernida, me desafiando. Nem que eu colocasse toda minha força ela não se mexia. Sentei frente aquela fresta para a rua, que aparentemente veio para ficar, tentando imaginar o recado.

Dei outra espiada para fora e não vi mais a noite, mas os dias ensolarados e vertiginosos que passavam por mim sem que eu sequer pudesse alcançar os havidos. Havia também conversas de final de tarde e um alvoroço do qual eu não fazia parte e me senti invisível aos acontecimentos. Enxerguei amigos, familiares, conhecidos e muitas outras pessoas transitando com pressa, desencontrando-se, olhando à frente, mas tão à frente que dificilmente um olhar ali iria se cruzar. Senti o peso de mensagens rápidas se tornarem lufadas desinteressadas, observei que de fato a conexão é mais uma palavra que carece de sentido da verdade e assim o passa-passa do improvável me fez recuar a vista.

Eu não queria mais olhar para a filmagem dos dias que corriam, porque ali não encontrei ninguém de fato, não recebi nenhum vínculo plausível, não consegui ver a vida arejada que eu estava tentando entender através da abertura desta oportunidade que me veio trincada parecendo um desafio.


Teimosa, encarei a porta como se ela fosse culpada por eu ter tido uma coragem besta de ir espiar o mundo e voltar com os olhos sem luz, sem foco e sem brilho. Resignada, empurrei de volta o vão aberto que agora se fechou docemente, como se pedisse perdão. 

sábado, 16 de maio de 2015

Disfarce

Era sempre a mesma coisa, a situação surgia e as boas intenções alavancadas brotavam afoitas na certeza de ter o caminho mirado e a combinação do passo a passo organizado, com precisão. Com armadura até os dentes como um gladiador pronto para o arroxo tudo se apresentava de maneira clara e objetiva e a intenção estava firmemente proposta, não vislumbrando nenhum perigo à frente uma vez que tudo havia sido examinado com uma coragem renovadora promovendo a ocasião.

Não se sabe bem como, e muito menos em que momento, a defesa pareceu ter nascido somente de um lado. Parecia assim, de pronto ao olhar, que naquele campo as minas enterradas serviam a apenas um senhor, que havia uma trincheira apenas funcionando e no campo aberto não se via arma empunhada, muito menos mãos erguidas ou artefatos de miragem longa. Tudo parecia estranhamente normal e calmo, com gladiadores relaxados, e talvez até perplexos com o aparato.

Nesta hora a armadura começava a pesar e certo ridículo pairava no ar com densidade suficiente para desencorajar quem estava preparado. As perguntas eram lançadas, mas reverberavam de volta sem resposta deixando aquele momento espetacular ficar sem sentido inicial. Aqui pareceria que a preparação para o que vinha era fundamental, e o planejamento para conhecer o que à frente estava tinha sido alinhavado com as linhas do pensamento lógico deixando uma costura mais forte de elementos que mascaravam alguma intenção oculta.  A peça estava pronta e nada poderia dar errado.

Com este impasse foi sendo retirada a armadura que já pesava um tanto, a camuflagem embaçava os olhos, o peso das armas já não podia ser suportado e mesmo sem enxergar direito à frente, desarmou-se o primeiro campo abrindo desta forma o coração para o que viria.

Assim que as armas emocionais metaforicamente representadas pela armadura de gladiador foram despidas, surgiu o furioso ataque da perfídia que ali estava o tempo todo disfarçado, havendo outro por dentro.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Espera


Eu, naquele dia, não tinha alternativa a não ser me dobrar na urgência da comunicação que eu nem entendo direito para que, mas como já fui dominada por ela, me curvo. Então soltei uma frase completinha no teclado, contente pela coragem, feliz por ser moderna, por ser conectada, por parecer ao menos, deste mundo.

E lá se foram gravadas as palavras que em tempos de hoje significariam 1500 caracteres caprichados. Vai entender.

Eu não faria o que os antigos fazem como soltar textos ao vento, ao pé do ouvido, até, pasme, ao telefone, esta coisa tão antiga. Usei até abreviaturas coisa um pouco parecida como usar roupas inadequadas a sua idade ou ao biótipo. Fiquei ali olhando a mensagem que em um clic iria alvejar seu destino e minha euforia pela ousadia não tinha fim. Fiquei ansiosa porque estava falando, enfim, a língua dos teclados, a farra do muito dizer com poucas letras e me enfileirei no mundo da espera de resposta.

A expectativa era grande e me fez sentar em todas as cadeiras da casa, balançando nervosamente as pernas cruzadas, ora uma, ora outra, um senta levanta, toma café, toma água, vai à janela. Ah! A Janela, esta abertura cafona para um mundo de hoje que só olha para baixo, para a mesa, para o colo. Há muito que sei que dali mesmo que nada vem, o meu mundo está enjaulado, em um quadrado mais ou menos grande e outro bem pequeno. Já a vista que não alcança muito tudo, agora mesmo que se aperta, se aguça, sofre para enxergar.

Ao enviar minha missiva cheia de alternativas para resposta, lotada de carinho acumulado, transbordante de ansiedade, me senti, de certa forma, vazia. Tanto planejamento para flechar um alvo difícil e agora só me resta, grudar os olhos na parafernália eletrônica, os algozes de quem tem sede de resposta.


Demorou muito para que finalmente eu tivesse retorno do meu empenho. Mas estava lá, majestosa, super moderna, forte e decisiva A Resposta: “eu também”. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Final


Todos os poros cintilavam na chegada sentindo todos os cheiros da praia de infância abalroando as narinas, entregando como oferenda de final de ano este perfume raro disponível neste momento, incentivando o devaneio, permitindo empinar a pipa da devoção e do temível presente. Tanto quanto desejado, mais temido, uma vez que neste palco irão se apresentar ao vivo os personagens que deram o tom do ano que passou. Será assim, uma apresentação multimídia, com pincéis de cores variadas, mas não em raras ocasiões faltara tinta e sobretons, entrando de última hora, os tons de preto no branco, assustador.

Para chegar a usufruir a paz prometida e sempre alardeada pelos quatro cantos do mundo, foram retiradas muitas pedras do caminho, muita cangalha derrubada pelos fortes ventos do dia a dia tiveram que ser recolhidos e reposicionados, muitas vezes não se encontrando jamais a maneira original de sua criação. Então, serviço dobrado para limar as ponteiras, ajustar os pedaços que não se entendiam mais porque nas tormentas se separaram de tal forma que somente nascendo de novo, e por assim dizer, cá para nós, ainda bem.

A furiosa tentativa é de desligar todos os esquemas sonoros nesta empreitada infernal para se conquistar e recompor o retrato mudo do que foi embora e não volta. Não há necessidade, neste momento, de palavras sem tom invadindo o espaço, não há porque participar dos locais que se transformam em berreiros áridos e invasivos, a música fora do tom sai de cena, a conversa fica na retaguarda porque assunto que não acrescenta está fora de questão.

Bateram à porta e eu não quis ouvir, acionando meus ouvidos moucos estratégicos e de plantão. Primeiro foi a penumbra que deixei que invadisse o espaço, muda e silenciosa, antecipando a chegada da noite escura. Acompanhando o passo a passo a lua surge soberana e se esconde atrás da cortina adensando a escuridão, mas alertando o olhar. O vento se cala em reverência ao mar que sussurra em ondas todas as suas desventuras e assim compartilhamos o que somente as profundezas de suas águas podem ouvir. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Escolhas


A escolha parecia adequada para aquele momento, mas nunca se sabe ao certo se vai dar ponto ou se será um ponto sem nó ou, pior, se vai se abater uma contramão que derreterá todas as boas intenções. O propósito sempre vem do bom agouro, da intenção de se estar no caminho certo.

As oportunidades vão surgindo e são consumidas como se fossem a única porta aberta, o vão salvador da temporada e vem com lotação esgotada de esperança, de desejo de não ser esquecida, da vontade de superar a si e a todo o passado, responsável pela montagem do presente.

Como um joguinho de lego, as escolhas vão sendo feitas, ora montando fantasmas, ora se espalhando em blocos coloridos difíceis de combinar entre si desafiando a boa vontade de qualquer um e, mesmo assim, o resultado não aparece emergindo deste caos aparente e o inesperado desatino em relação ao que se esperava.

O tempo vai sendo preenchido de pequenas esperas, entremeadas de doces lembranças, de pedidos em sussurro de perdão pelo suposto mal feito, do alongamento das preces ao cair da noite, da elevação do pensamento, da solicitação de esquecimento das perfídias involuntárias. O caminho oculto está sendo trilhado um pouco sem destino, outro tanto temeroso e mais precisamente, angustiado.

As tranças de linhas invisíveis se cruzam como se desconhecidas fossem, e talvez o sejam, porque de um lado um convite em aberto e de outro o descaso não conseguindo estes dois antagônicos desejos se encontrar. A grande dúvida aparece e insiste na pergunta: O que foi agora?

sábado, 27 de dezembro de 2014

O banco


O desafio desta época é ver aquele banco de praça lotado, destoando do ambiente normal do ano, onde o que mais tem vida são as ondas do mar, a cachorrada de rua engalfinhada, a areia correndo solta com ventos do norte e as garças perdidas pelo lado de cá, provavelmente aliviadas da superpopulação que impera em tempos de calor.

Eu o tenho sempre na mira e ouço todas as suas histórias com olho no olho quando ele está vazio, uma vez que nossa fala é a única por estes lados. Ele não pranteia a falta de companhia, não se irrita com os passarinhos pousando em si nem com os galhos de árvores que lhe vem por cima. Não se sente inútil por ficar tanto tempo sem que ninguém ali se sente para o descanso, não se verga quando o vento bate forte e não se importa quando a chuva vem lhe açoitar. Passa seu tempo sempre como novo. Inabalável.

Temos muito em comum eu e ele, a começar o gosto pelo silêncio, pelo desejo de solidão imponderável, pelo acolhimento de todas as falas mesmo as mais rudes não conseguindo de nenhum modo revidar e pela situação contumaz de se fincar no mesmo lugar. Não gostamos de partir, porém há sempre àquela hora em que ele, quer apodrecer e desistir de estar ali à mercê de tudo e de todos, e eu, agonizo a todo o momento porque o trem da minha partida não me fornece a data, nem o horário e local.

Porém, nem tudo é defeito. Ambos gostamos de ouvir conversas, as mais interessantes, as mais vulgares, as mais inteligentes e as mais burras. Mesmo não metendo o bedelho no assunto ouvido temos a certeza que esta pauta nos alimentará por alguns dias.

E é chegada a hora dele, do banco, ela sempre vem, quando a mais variada das criaturas vem se assentar em seu dorso e destrambelhar seus assuntos. A fauna humana se estabelece quando começa a esquentar e a sucessão de causos compartilhados em cima dele o deixa em lastimável estado de confusão.

É através dele que a fofoca toma corpo, o comentário maldoso em relação à vizinhança tem vida própria, a erva amarga e o gole etílico trocam figurinhas, a mulher de um alfineta a do outro, o homem ignorante agride quem não conhece a mulher sem escrúpulos inventa e maldiz.

Fico olhando de longe meu amigo banco sempre tão bem intencionado. Assim como ele muitos dentre nós, só que em muitas ocasiões só nos resta ser o observatório da vida em movimento.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Salvar


Encontrei tantos recados enfileirados que me causou estranheza naquele momento não ter o que dizer. De mim sumiram todas as ideias, todas as frases e as centenas de palavras que povoam mais a minha mente do que as largo no papel, se revoltaram e não me deram o ar da graça. Graça esta que se expande quando encontro motivos para me jogar ao desconhecido, para bater no ar afoitamente, para me deter e examinar detidamente o que aparece e lavrar conteúdos, muitas vezes insólitos, negros de significado sendo alguns travestidos  de dardos venenosos. Como erro sempre a mira, não causa dano.

E então me encontrei no vazio, um vácuo procurado, um lugar planejado para estar, mas, em lá chegando me dei conta que havia uma conta insana pendente que eu devia pagar. Todas as frases feitas estavam a postos me desafiando a me espelhar nelas, dizendo com desenvoltura para baixar a crista e não persuadir ninguém do contrário, não denunciar as marmotas oblíquas que sem querer percebia, não dispensar nenhuma palavra para fomentar o que sinto, pelo menos naquele momento, não me ater a momentos sem fim e não analisar a replica criando condições de errar a mão.

A missão era árdua porque me pedia que não tivesse opinião, que falseasse a hora, que ocultasse abertamente e que não viesse a público mostrar uma verdade que não serve para todos. Senti que fui proibida de ser, barrada da fala dúbia, execrada da sinceridade, difamada por ser do contra naquele momento pelo menos.

A corrente de insanidades me parecia volumosa demais para poder dar conta, porém ali estava o desafio e como não sou de me acovardar com ventos contrários resolvi ir ao chão. Do fundo do poço fui subindo pé ante pé, pisando com determinação em cada momento que ali havia se instalado pelo clima e no final, lá estava eu a bordejar a mentira de todos.

Assim surgi de dentro para fora, com a minha verdade em lemas assoprados e verdadeiros. Foi neste momento que eu acordei para a necessidade de enfrentar os demônios da causa inglória, da felicidade alardeada, da ocultação do sentir da verdade e da proibição de ser você ou outra ou até, pasmem, plenamente. 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Folgada


Não percebi que a pergunta poderia ter uma investigação torpe, muito não a minha cara, porém muito sim a cara do perguntador. Que raio de análise me propuseram a fazer ao pedir para relatar se eu tinha como modo de vida ou sobrevivência esta palavra.

Apenas uma palavra com tantos aspectos e nuances e tenho uma vaga lembrança que me veio à mente, imediatamente, o tempo. Quero folga para ter tempo. Um tantinho para nada fazer, outro naco para fazer tudo e não sobrar nada para depois, sabedoria para fazer passar o dito sem que se perceba, inteligência para fazê-lo parar quando é preciso. É necessário ser íntima das horas para estar afiada e com presença de espírito para responder o que é merecido, apesar de quem não merece uma resposta dessas é quem pergunta.

Fui caminhando com muito cuidado pela minha mente, identificando às vezes o quanto ainda faltava para ter uma clareza de como se vive em folga sem que isso pareça preguiça, sem que remeta ao ócio do mal e sem que eu possa responder àquela pergunta da malvadeza com a resposta esperada.

Ruminei ardidamente o tema, visitei meus dias, minhas horas, meus minutos e segundos e não entendi aonde esta desocupação poderia estar, uma vez que ela me parecia sempre enredada. Havia na minha linha do tempo um enlace de assuntos, tarefas, companhias, humores, descasos e uma variedade absurda de incoerências. Todos engalfinhados uns aos outros com o objetivo proposto de que eu os fizesse se deslindar. Caminhavam lado a lado muito mais que amistosos, o riso e o choro, a destemperança, a piada, o sim e o não, o ridículo e o ponderado, o amigo e o inimigo.

No rumo em busca de respostas vasculhei o passado, mas retornei ligeiro quando ele me disse que estava perdido, que dali não tinha como se ativar nada e que apenas a experiência tinha valor, portanto, para meu dilema de rebate, ele não era válido. Voltei então à palavra arremessada com tanto mau gosto e nonsense, e dei uma olhada no futuro que me disse não estar disponível, obviamente.

Cheguei à conclusão que não havia espaço nenhum para revidar e neste exato momento o tempo desocupado passou voando por mim, sorriu e levou para longe a palavra que o indiscreto queria ouvir.

sábado, 1 de novembro de 2014

Voz


Os três amigos, O Prédio, A Menina e O Rio,  estavam encostados na barranca assistindo a tentativa de demolição do Prédio. O mais cínico de todos, O Rio, marolava satisfeito e vez ou outra jogava sua água barrenta nos operários que, estavam ali suando a camiseta, para derrubar o “combalido” prédio. Na conversa entre os três ele ameaçava inundar aquele maquinário e traga-los para as profundezas do seu leito. Mas era só conversa, estavam todos mais atentos ao destino que se cumpria, muito mais doloroso para quem se exauria na tarefa do que eles próprios.

Sereno, O Prédio se via ainda pela metade e divertia-se com a dificuldade em derrubá-lo, estavam todos tão pequenos ao seu redor parecendo querer domar um gigante, logo ele, sim, um gigante por dentro, por ter sido referência industrial por tantos anos, por ter sido objeto de desejo de muitos que queriam trabalhar ali e também por ter levado o nome da sua cidade para muitos cantos do mundo.

As marretadas já doíam na  cabeça da Menina que acompanhava os dois na via crusis que estava sendo esta empreitada. Não podia deixar de comentar a ironia que levou a este fim e tantas ameaças de que o Prédio iria cair, matar pessoas, uma vergonha estar ali, esquelético, mas de pé. A resposta veio rápida, porque o Prédio resolveu ficar erguido por mais tempo e assim agitar a memória e não se ver diminuído em sua importância somente porque iria virar seixo no chão.

A Menina, O Prédio e O Rio estavam encantados com o futuro que se avizinhava, pois haveria apenas escombros de um ícone histórico, tão empedernido que em hipótese alguma se deixaria abalar por lhe tirarem a vida de pedra. Já se vê quase como um amontoado de entulho no chão o que não invalida absolutamente sua memória. Muito pelo contrário.

O olhar dos três se voltou então para a cidade, a nova morada do Prédio e da Menina acompanhados de longe pelo Rio que, em sendo muito traquina, volta e meia se faz transbordar e invade a cidade para um passeio.

A combinação entre eles é que agora teriam uma missão, talvez até mais pesada do que simplesmente montar guarda no Prédio vilipendiado por muitos. Era chegado o grande momento de se engalanarem e fazerem uma completa varredura nos acervos culturais da cidade e buscar entre tantos alfarrábios pedaços do Frigorifico que nasceu ali, se desenvolveu e ajudou muitas pessoas em sua experiência e crescimento profissional. Sairão às ruas, aqueles dois, revisitando para trás cada passo dado, cada foto tirada, cada evento ocorrido, juntando todas as peças criando um grande caleidoscópio que se chamará trajetória.

Engana-se quem quis ver O Prédio sumir da face da terra. É neste momento que a luta será urdida porque O Prédio terá Voz.


domingo, 26 de outubro de 2014

No chão


O dia ia alto quando A Menina foi expulsa do Prédio uma vez que iniciariam sua derrubada naquele mesmo dia, um pouco tonta e cansada de tantos avisos e desistências, sequer lembrou naquela hora que havia chegado o Dia. Era tarde, o Prédio já estava a postos para cair em pé. O Rio corria manso, na espreita de acolher qualquer cascalho que sobrasse e assim o desejava, para poder guardar no fundo do seu leito e continuar conversando com seu amigo, ou melhor, com o pedaço do seu amigo e, desta feita, resolveu ficar ali, quieto, olhando sem fazer rumor.

Agora o destino emocionante se cumpre após tantos e tantos anos e fica parecendo que a sustentação do Prédio foi feita apenas da memória de quem fez parte da história inesquecivel de uma indústria que por muitos anos foi referência na região, no Brasil e no Mundo. Assim foi a caminhada no mesmo lugar do Prédio, com muitos dizendo que era uma vergonha ali estar ainda de pé, conforme a Menina ouviu de uns e outros, até de quem foi seu amigo e também de outrem que sequer conhecia. Então, a luta nos últimos tempos não era somente no balança, mas não cai, mas na pauta da polêmica, o non sense do pseudo amigo e o despudor do desconhecido. A Menina depois do desabafo resolveu deixar para lá uma vez que estava dado o recado.

Foi com muita aflição que O Rio e A Menina acompanharam o quebra-quebra tendo ao lado O Prédio#Memória, que muito orgulhoso de si e de sua história olhava para a destruição do parque industrial. Muito inspirado falou por alguns minutos com seus amigos, alertando que neste país com dimensões continentais o patrimônio é derrubado em cada esquina como se a história não tivesse vez no mundo de hoje. Não só de hoje, mas de há muito e assim vai ao chão o que conta o passado para erguer nada em seu lugar ou na sequência.

A Menina, recomposta do bafão da derrubada observa com cuidado a demolição e agora se vê muito assustada porque ao invés de ouvir o som das pedras rolando escuta em alto e bom som os diálogos das funcionárias da salsicharia trocando receita, dos carregadores empurrando os grandes carros e descendo o elevador, falando de futebol e de mais uma vitória do Renner, do bater das maquinas de escrever no imenso escritório que reverberava a saúde da empresa. Do Sr. Gaspar chegando sempre muito cedo, sentiu em sua pele o gelo da sala de computadores que naquela época ocupava muitos metros quadrados e agora, sem nenhuma surpresa parecia ouvir o toc-toc dos tamancos holandeses do Julio Alfredo ressoando nos andares da fábrica e também viu a si própria secretariando as reuniões da CIPA.


E assim, um por um, foi acontecendo o esvaziamento do Prédio em queda livre e a onda branca da cabeça aos pés invadiu a Rua Ramiro Barcelos rumo ao coração de todos que fizeram parte da história e que tem amor ao trabalho.

sábado, 18 de outubro de 2014

No fundo


Como sempre acontece, o despreparo é bola cheia no encalço da testa desatenta e que está na vista certeira dos múltiplos talentos que por serem tão focados em seus objetivos praticamente não caminham com e entre os outros, mas sim, planam sobre tudo num jogo absurdo de encaminhar como sugerem seus desejos e tudo no entorno.

E é assim que se rouba a dignidade de poder pensar um tantinho, dar um breake na vida, cruzar os braços e decidir o não que grita com toda sua força, mas por incrível que pareça não consegue fazer-se ouvir. E assim a bola passa a rolar em campo minado e no arresto de todas as resistências que por ventura um dia por ali se cruzaram aparecendo do nada aquela teia urdida com um primor absurdo que enreda e prioriza o único caminho vislumbrado.

No tempo, então resoluto das decisões, cai por terra aquele andar firme, a maneira natural de negociar o que se apresenta, se esconde de maneira infame e vil a certeza do correto, se enche de duvida e névoa seca os pensamentos e assim se gruda a intenção forjada com precocidade, o pensamento arguto, a não discussão do teor desmedido que embala o normal, exacerba o desimportante e descontrola a razão.

E agora a trilha já foi formatada no gosto, a presa não vê outra saída além de seguir ao molde do sugerido mesmo com luzes piscantes no falso decoro e com aquela desconfiança leve que o caminho tomado não tinha volta e ao olhar para trás percebe que as migalhas de pão para retornar no caminho descrito não haviam sido lembradas. Era ir ou ir.

Sem poder escapar do algoz, é imperativo emplacar fervor na chegada, ousar ao máximo o resultado, defender o propósito com audácia, ser tão incomodamente assertivo que de tão firme o final terá mais peso que o inicio, quebrando as regras do outro e multiplicando o talento na resposta dada, concretizando um final de sucesso sequer imaginado. Na verdade, não foi necessário todo este empenho, uma vez que a presa possuía mais talentos inerentes a si do que o algoz.


O arrocho mal feito terminou após o desafio do pedido invertido de valores e verdade muito bem acompanhado pela argumentação capciosa e de promessas com inequívoco sabor de ilusão e de comprometimento às avessas que teve seu final coroado pela completa ignorância do resultado assim como uma lição do imponderável.

sábado, 11 de outubro de 2014

O de si


Tudo começa quando todos sentam, mas nem sempre o que vem dali pode ser útil ou aprazível porque a verborreia se abanca cedo, quando todos os elogios e a menção aos seus feitos são ditados um sobre o outro dando um chilique e apequenando quem não tem este costume e muito menos este talento, digamos assim.

A saraivada entre orelhas versa sempre sobre o umbigo do decujo que está se mostrando com um pula-pula sem conseguir, entretanto, sair do seu próprio circulo virtuoso com o objetivo de aparentar sua importância. O sou isso, sou aquilo é presenteado com uma cavaqueira onde a citação de pessoas importantes e lugares famosos atingem o seu momento mais incrédulo ao serem entremeadas em cínico tom casual onde todos estes adjetivos apregoados são considerados qualidades imprescindíveis para sua imagem pública. A fartura da chatice me faz entrar em total transe, paralisando meu raciocínio, me jogando no poço sem fundo do non sense.

Então tem aquele cara que não tem rumo de conversa que não seja o seu quintal enervando o público que deseja escapulir dali e bufa, pede licença, mas não consegue se subtrair do incômodo que soa pegajoso como doença ruim. Normalmente a voz acompanha o ânimo do estúpido arrebentando os tímpanos da companheirada. Urge uma providência, mas nem sempre é fácil se desapegar daquele idílio forjado, parecendo querer se infiltrar para dentro das cabeças mais pensantes que, infelizmente, neste momento ficam totalmente sem comando e à mercê da situação.

Existem aqueles que roubam do passado o que gostariam de ter sido e então carregam como um fardo precioso pela vida afora o ocorrido que não houve. Assim se faz o presente, costurado com linhas invisíveis ao olhar pregando cada peça remendada de outrora. Assim, nesta triste lembrança são retificadas uma a uma as situações que acabam se posicionando como um grande e aborrecido retalho de acontecimentos em que o novo não tem espaço, ou pior, quando chega se faz velho.


E a corriola vai desde a madama que perdeu a beleza há muito, mas sustenta a pose e a coroa de rainha até aquele senhor que anda com sua máscara ligada ao tubo de oxigênio de algum poderoso e é neste exato momento que abordo a vida, desesperada, e peço para dar uma encostadinha no meio fio porque quero descer.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...