domingo, 20 de setembro de 2015

Surreal


Os ouvidos parecem não se cansar de ter de ouvir a conversa desavisada que sempre vem em momentos inesperados, quando se é arrastado para um caminho desconhecido ou quando quem fala conversa para si, como se quisesse afirmar a ele próprio aquela falta de tato, aquele mau gosto exasperado de contar o que não diz respeito a ninguém, nem a ele próprio.

O despreparo e a surpresa são sempre iguais porque parece impossível que a contagem de dados estúpidos seja derrubada boca afora sem filtro, sem tranca e sem pudor. O “ó” da boca entreaberta para pedir caluda fica no ar, a respiração passa a ser por ali uma vez que será difícil fechá-la tal o espanto desavergonhado de engolir um diálogo sobranceiro que envolve uma narrativa sem propósito de conteúdo.

Deve ser a sina de quem aprendeu a ouvir mais do que falar, a enxergar ao invés de ver, a sentir ao invés de demonstrar, a abster-se de opinar, a manter-se de lado no julgar do diálogo e a pensar com mais vagar.  Esta é a maldição à trava na língua e a incapacidade de fugir do mau assunto e relegar a massa cinzenta a remoeção dos dados enxertados à força pelo momento. Ser levado sem consulta e aviso prévio à intimidade de quem quer que seja, carece de sentido, demonstra falta de tato e gera um arrasto de impossibilidades no pretenso diálogo que, aliás, não acontece deveras.  


O término do solitário e surreal passeio verborrágico é singular e abrupto e assim se inicia o movimento pela retomada da linha enovelada inicial e, desta forma, todos os fios desencapados do raciocínio lógico se restauram como se fosse mágica. A cabeça se refresca, a musculatura se solta e a mente ensaia uma oração: que estes ventos letrados ao contrário não tenham mais tamanha envergadura no futuro e que não atinja quem prefere calar.

domingo, 9 de agosto de 2015

Meu pai



Quando penso em meu pai lembro, em primeiro lugar, de um grande jornal e ele por detrás do mesmo me fazendo pensar como seria ficar tanto tempo entretido atrás daquele papel, preto e branco, áspero e que sujava as mãos. Depois, vinha o telefone preto em que se enfiava o dedo no buraquinho redondo com o numero e se conversava com a telefonista, havendo depois, uma longa espera para que o dito cujo aparelho voltasse a tocar. Aí, sim, que sina a nossa assistindo sem nada entender horas e horas de conversas e até hoje tenho a impressão que ele comandava tudo por ali, o mundo e todos nós.  Ultimamente ando pensando que o meu amor por ler jornais e falar ao telefone – que coisa antiga - começou ali, do hábito dele se informar e se comunicar. Para fora, bem entendido.

A feição dele era muito resoluta e séria, mas se amenizava quando nós os três irmãos nos escondíamos atrás das cortinas do quarto para ele nos encontrar, quando chegava de suas longas viagens. Ele também não ria muito em casa, hábito bem comum nos adultos daquela época, ou, talvez, porque não quisesse nos dar balda.

Eu lembro também do cheiro dele que rescindia a charuto e em uma época houve o fumo de cachimbo que eu adorava. Gosto até hoje e levanto o nariz perseguindo o aroma quando circulo por algum lugar na cidade que recebe os adeptos. Os hábitos de casa também me vêm à mente como o ranger da porta do armário em que ficava o uísque preferido, o som seco do gelo ao cair no copo e depois o borbulhar da água mineral complementando o drink especial de época. O copo alto de cristal com desenhos primorosos e de cores suaves, eram perfeitos na degustação da bebida. Ele era um patriarca de bom gosto.

A música clássica ecoava pela casa e quando ele ficou estafado acho que parte da cura veio através dos múltiplos vinis que lhe fizeram companhia em todos os momentos em que se recuperava. Eu ficava de longe, espiando e rezando para sentir novamente o cheiro dos seus tabacos maravilhosos e do buquê de suas bebidas pedindo a Deus que os jornais chegassem aos milhares e que o telefone nos ensurdecesse, só para vê-lo circular autoritário – quem diria – pela casa. Mesmo assim ficava eu em silêncio porque naquele tempo criança não falava. Calada eu já era, então, piorei.


Ele era um homem poderoso e visionário com todos os seus talentos aperfeiçoados por vontade própria, um autodidata esforçado e com esta vontade férrea andou sempre para frente.  De todos os talentos dele eu não herdei nenhum, a não ser a teimosia em seguir apesar de.

domingo, 21 de junho de 2015

Refletir reflexo


Multifacetados, o tempo dos dias segue inauditos, céleres e performáticos sem que se consiga dominar todos os seus significados parecendo de vez em quando que não estamos na vida, mas ela está em nós, empurrando ladeira abaixo e acima no roldão.  Ao levantar a mão para fazer um cumprimento, ao cair na tentação de dar uma parada, no atropelo de esboçar um sorriso, na ânsia de um abraço, no desejo de um beijo, parte de nós se abstrai. Furta-se de enxergar e nossos olhos são feridos pelo fulgor sem fim de todo o entorno autocentrado.

O mundo todo brilha e se reflete incessantemente sendo que alguns destes raios transparentes não trazem mudanças significativas apontando apenas rumos traçados tempos atrás, como uma marca tão forte que parece impossível sair do caminho. Escondidos no prumo, engolidos pela mesmice, encurralados em falsa segurança, fincamos o olhar no espelhamento que se impõe, presos nas horas desesperadas de se ver refletido na luz que somos obrigados a possuir.

A meta é seguir em frente a qualquer custo não ocorrendo que entre um fulgor e outro poderá haver uma trilha secreta, um caminho não sugerido, uma salvação de alma penada, uma credulidade de única escolha, a fatalidade de outro jeito de fazer as coisas.

No viés de tanto clarão jorrado por, e em cima, da nossa existência, não parece viável a escolha de um caminho mal iluminado, uma rota com novas pedras, outros andantes, dificuldades jamais imaginadas e na contrapartida, quem sabe, uma ladeira íngreme que, surpreendentemente, ao invés de te fazer subir na exaustão, te puxará docemente para o cume. Quem sabe o abismo que se apresenta assustador não fará exatamente o contrário, oferecendo uma descida com acolhimento delicado em seu leito.


A opção de pisar em solo diferente, com pedras reais empoeiradas pela passagem de aventureiros iguais, alamedas verdes algumas e outras nem tanto, cantos mais escuros reclamando com toda força uma descoberta, cavernas úmidas a espera de uma nesga de sol. Jardins desiguais pelo simples fato de uma terra ser mais fértil e outras nem tanto, mas que aguardam o desafio e por este motivo entregam uma chance. Caminhos e descaminhos se dobram como sinos muito antigos, um alerta para esta vida viciosa do refletir-se.

domingo, 14 de junho de 2015

Valores


Não vai longe o dia do acreditar, de se jogar de ponta cabeça porque o dito vinha com tanta ênfase que seria uma desumanidade ignorá-los. A cabeça feita vem antes, se sobrepondo muitas vezes ao que virá depois e então, ao se deparar com o inaudito, a sensação de bobeada fica muito presente.

Assim é quando se fala muito e pouco se promete, assim é quando se destaca o que não tem a menor importância, ou pior ainda, se regozija do que deveria fazer parte isolada de um caso. Não parecer é coisa do passado e a verve hoje está centrada, poderosa, entre umbigos, solapando qualquer intenção de segredo.

Estes são os dias em que ainda não se está preparado para a torrente de qualidades e adjetivos superlativos com que as pessoas se apresentam. Não dá nem tempo de parar e escutar a fluidez da conversa, para, aos poucos, se tomar um fôlego e dar conta do terreno que se está pisando, não dá nem hora de pensar, e muito menos de sentir se há empatia ou não. Somos soterrados pela audácia do mostrar-se.

Então é assim: expor tudo de maneira incontrolável construindo uma imagem tão poderosa de si mesmo que perambulam por aí, não pessoas, mas sim espectros de si, fantoches montados minuciosamente, com um corte de tecido mais fino, com linhas de seda impecáveis, botões, bainhas e arremates folheados a ouro, se possível. Tudo do bom e do melhor, como se dizia antigamente, e que hoje nem cabe esta frase. O que cabe somente é o parecer ser e o ser, coitado, este está completamente desacreditado e sufocado pela multidão de bonecos fake que transitam nosso dia a dia, com uma riqueza de detalhes inventados. Os personagens parecem tapetes trançados ponto a ponto no detalhe.

Uma construção inócua porque o valor está na costura desencontrada, na conjunção do bem e do mal, no encontro de cores que não combinam, na percepção de tecidos mais leves junto aos mais ásperos, na visão de um lado de uma ponta rasgada e de outro, uma franja desarticulada.

domingo, 24 de maio de 2015

Aquela porta


Quase sem querer, praticamente, abri aquela porta com certo vigor porque eu precisava de ar. Ando sempre precisando de brisa fresca como se todas as ventanias e aragens não são suficientes para oxigenar meu corpo. Parece-me, às vezes, que todo o meu corpo carece de ar, uma vez que ando me sentindo como uma máquina trincada, tudo ruge com estardalhaço e então enfiando a cabeça no mundo aspirei aliviada o ar da noite, contemplei o céu estrelado e os ventos mornos.

Quando resolvi voltar, a porta não quis fechar. Ficou ali estaqueada, empedernida, me desafiando. Nem que eu colocasse toda minha força ela não se mexia. Sentei frente aquela fresta para a rua, que aparentemente veio para ficar, tentando imaginar o recado.

Dei outra espiada para fora e não vi mais a noite, mas os dias ensolarados e vertiginosos que passavam por mim sem que eu sequer pudesse alcançar os havidos. Havia também conversas de final de tarde e um alvoroço do qual eu não fazia parte e me senti invisível aos acontecimentos. Enxerguei amigos, familiares, conhecidos e muitas outras pessoas transitando com pressa, desencontrando-se, olhando à frente, mas tão à frente que dificilmente um olhar ali iria se cruzar. Senti o peso de mensagens rápidas se tornarem lufadas desinteressadas, observei que de fato a conexão é mais uma palavra que carece de sentido da verdade e assim o passa-passa do improvável me fez recuar a vista.

Eu não queria mais olhar para a filmagem dos dias que corriam, porque ali não encontrei ninguém de fato, não recebi nenhum vínculo plausível, não consegui ver a vida arejada que eu estava tentando entender através da abertura desta oportunidade que me veio trincada parecendo um desafio.


Teimosa, encarei a porta como se ela fosse culpada por eu ter tido uma coragem besta de ir espiar o mundo e voltar com os olhos sem luz, sem foco e sem brilho. Resignada, empurrei de volta o vão aberto que agora se fechou docemente, como se pedisse perdão. 

sábado, 16 de maio de 2015

Disfarce

Era sempre a mesma coisa, a situação surgia e as boas intenções alavancadas brotavam afoitas na certeza de ter o caminho mirado e a combinação do passo a passo organizado, com precisão. Com armadura até os dentes como um gladiador pronto para o arroxo tudo se apresentava de maneira clara e objetiva e a intenção estava firmemente proposta, não vislumbrando nenhum perigo à frente uma vez que tudo havia sido examinado com uma coragem renovadora promovendo a ocasião.

Não se sabe bem como, e muito menos em que momento, a defesa pareceu ter nascido somente de um lado. Parecia assim, de pronto ao olhar, que naquele campo as minas enterradas serviam a apenas um senhor, que havia uma trincheira apenas funcionando e no campo aberto não se via arma empunhada, muito menos mãos erguidas ou artefatos de miragem longa. Tudo parecia estranhamente normal e calmo, com gladiadores relaxados, e talvez até perplexos com o aparato.

Nesta hora a armadura começava a pesar e certo ridículo pairava no ar com densidade suficiente para desencorajar quem estava preparado. As perguntas eram lançadas, mas reverberavam de volta sem resposta deixando aquele momento espetacular ficar sem sentido inicial. Aqui pareceria que a preparação para o que vinha era fundamental, e o planejamento para conhecer o que à frente estava tinha sido alinhavado com as linhas do pensamento lógico deixando uma costura mais forte de elementos que mascaravam alguma intenção oculta.  A peça estava pronta e nada poderia dar errado.

Com este impasse foi sendo retirada a armadura que já pesava um tanto, a camuflagem embaçava os olhos, o peso das armas já não podia ser suportado e mesmo sem enxergar direito à frente, desarmou-se o primeiro campo abrindo desta forma o coração para o que viria.

Assim que as armas emocionais metaforicamente representadas pela armadura de gladiador foram despidas, surgiu o furioso ataque da perfídia que ali estava o tempo todo disfarçado, havendo outro por dentro.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Espera


Eu, naquele dia, não tinha alternativa a não ser me dobrar na urgência da comunicação que eu nem entendo direito para que, mas como já fui dominada por ela, me curvo. Então soltei uma frase completinha no teclado, contente pela coragem, feliz por ser moderna, por ser conectada, por parecer ao menos, deste mundo.

E lá se foram gravadas as palavras que em tempos de hoje significariam 1500 caracteres caprichados. Vai entender.

Eu não faria o que os antigos fazem como soltar textos ao vento, ao pé do ouvido, até, pasme, ao telefone, esta coisa tão antiga. Usei até abreviaturas coisa um pouco parecida como usar roupas inadequadas a sua idade ou ao biótipo. Fiquei ali olhando a mensagem que em um clic iria alvejar seu destino e minha euforia pela ousadia não tinha fim. Fiquei ansiosa porque estava falando, enfim, a língua dos teclados, a farra do muito dizer com poucas letras e me enfileirei no mundo da espera de resposta.

A expectativa era grande e me fez sentar em todas as cadeiras da casa, balançando nervosamente as pernas cruzadas, ora uma, ora outra, um senta levanta, toma café, toma água, vai à janela. Ah! A Janela, esta abertura cafona para um mundo de hoje que só olha para baixo, para a mesa, para o colo. Há muito que sei que dali mesmo que nada vem, o meu mundo está enjaulado, em um quadrado mais ou menos grande e outro bem pequeno. Já a vista que não alcança muito tudo, agora mesmo que se aperta, se aguça, sofre para enxergar.

Ao enviar minha missiva cheia de alternativas para resposta, lotada de carinho acumulado, transbordante de ansiedade, me senti, de certa forma, vazia. Tanto planejamento para flechar um alvo difícil e agora só me resta, grudar os olhos na parafernália eletrônica, os algozes de quem tem sede de resposta.


Demorou muito para que finalmente eu tivesse retorno do meu empenho. Mas estava lá, majestosa, super moderna, forte e decisiva A Resposta: “eu também”. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Final


Todos os poros cintilavam na chegada sentindo todos os cheiros da praia de infância abalroando as narinas, entregando como oferenda de final de ano este perfume raro disponível neste momento, incentivando o devaneio, permitindo empinar a pipa da devoção e do temível presente. Tanto quanto desejado, mais temido, uma vez que neste palco irão se apresentar ao vivo os personagens que deram o tom do ano que passou. Será assim, uma apresentação multimídia, com pincéis de cores variadas, mas não em raras ocasiões faltara tinta e sobretons, entrando de última hora, os tons de preto no branco, assustador.

Para chegar a usufruir a paz prometida e sempre alardeada pelos quatro cantos do mundo, foram retiradas muitas pedras do caminho, muita cangalha derrubada pelos fortes ventos do dia a dia tiveram que ser recolhidos e reposicionados, muitas vezes não se encontrando jamais a maneira original de sua criação. Então, serviço dobrado para limar as ponteiras, ajustar os pedaços que não se entendiam mais porque nas tormentas se separaram de tal forma que somente nascendo de novo, e por assim dizer, cá para nós, ainda bem.

A furiosa tentativa é de desligar todos os esquemas sonoros nesta empreitada infernal para se conquistar e recompor o retrato mudo do que foi embora e não volta. Não há necessidade, neste momento, de palavras sem tom invadindo o espaço, não há porque participar dos locais que se transformam em berreiros áridos e invasivos, a música fora do tom sai de cena, a conversa fica na retaguarda porque assunto que não acrescenta está fora de questão.

Bateram à porta e eu não quis ouvir, acionando meus ouvidos moucos estratégicos e de plantão. Primeiro foi a penumbra que deixei que invadisse o espaço, muda e silenciosa, antecipando a chegada da noite escura. Acompanhando o passo a passo a lua surge soberana e se esconde atrás da cortina adensando a escuridão, mas alertando o olhar. O vento se cala em reverência ao mar que sussurra em ondas todas as suas desventuras e assim compartilhamos o que somente as profundezas de suas águas podem ouvir. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Escolhas


A escolha parecia adequada para aquele momento, mas nunca se sabe ao certo se vai dar ponto ou se será um ponto sem nó ou, pior, se vai se abater uma contramão que derreterá todas as boas intenções. O propósito sempre vem do bom agouro, da intenção de se estar no caminho certo.

As oportunidades vão surgindo e são consumidas como se fossem a única porta aberta, o vão salvador da temporada e vem com lotação esgotada de esperança, de desejo de não ser esquecida, da vontade de superar a si e a todo o passado, responsável pela montagem do presente.

Como um joguinho de lego, as escolhas vão sendo feitas, ora montando fantasmas, ora se espalhando em blocos coloridos difíceis de combinar entre si desafiando a boa vontade de qualquer um e, mesmo assim, o resultado não aparece emergindo deste caos aparente e o inesperado desatino em relação ao que se esperava.

O tempo vai sendo preenchido de pequenas esperas, entremeadas de doces lembranças, de pedidos em sussurro de perdão pelo suposto mal feito, do alongamento das preces ao cair da noite, da elevação do pensamento, da solicitação de esquecimento das perfídias involuntárias. O caminho oculto está sendo trilhado um pouco sem destino, outro tanto temeroso e mais precisamente, angustiado.

As tranças de linhas invisíveis se cruzam como se desconhecidas fossem, e talvez o sejam, porque de um lado um convite em aberto e de outro o descaso não conseguindo estes dois antagônicos desejos se encontrar. A grande dúvida aparece e insiste na pergunta: O que foi agora?

sábado, 27 de dezembro de 2014

O banco


O desafio desta época é ver aquele banco de praça lotado, destoando do ambiente normal do ano, onde o que mais tem vida são as ondas do mar, a cachorrada de rua engalfinhada, a areia correndo solta com ventos do norte e as garças perdidas pelo lado de cá, provavelmente aliviadas da superpopulação que impera em tempos de calor.

Eu o tenho sempre na mira e ouço todas as suas histórias com olho no olho quando ele está vazio, uma vez que nossa fala é a única por estes lados. Ele não pranteia a falta de companhia, não se irrita com os passarinhos pousando em si nem com os galhos de árvores que lhe vem por cima. Não se sente inútil por ficar tanto tempo sem que ninguém ali se sente para o descanso, não se verga quando o vento bate forte e não se importa quando a chuva vem lhe açoitar. Passa seu tempo sempre como novo. Inabalável.

Temos muito em comum eu e ele, a começar o gosto pelo silêncio, pelo desejo de solidão imponderável, pelo acolhimento de todas as falas mesmo as mais rudes não conseguindo de nenhum modo revidar e pela situação contumaz de se fincar no mesmo lugar. Não gostamos de partir, porém há sempre àquela hora em que ele, quer apodrecer e desistir de estar ali à mercê de tudo e de todos, e eu, agonizo a todo o momento porque o trem da minha partida não me fornece a data, nem o horário e local.

Porém, nem tudo é defeito. Ambos gostamos de ouvir conversas, as mais interessantes, as mais vulgares, as mais inteligentes e as mais burras. Mesmo não metendo o bedelho no assunto ouvido temos a certeza que esta pauta nos alimentará por alguns dias.

E é chegada a hora dele, do banco, ela sempre vem, quando a mais variada das criaturas vem se assentar em seu dorso e destrambelhar seus assuntos. A fauna humana se estabelece quando começa a esquentar e a sucessão de causos compartilhados em cima dele o deixa em lastimável estado de confusão.

É através dele que a fofoca toma corpo, o comentário maldoso em relação à vizinhança tem vida própria, a erva amarga e o gole etílico trocam figurinhas, a mulher de um alfineta a do outro, o homem ignorante agride quem não conhece a mulher sem escrúpulos inventa e maldiz.

Fico olhando de longe meu amigo banco sempre tão bem intencionado. Assim como ele muitos dentre nós, só que em muitas ocasiões só nos resta ser o observatório da vida em movimento.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Salvar


Encontrei tantos recados enfileirados que me causou estranheza naquele momento não ter o que dizer. De mim sumiram todas as ideias, todas as frases e as centenas de palavras que povoam mais a minha mente do que as largo no papel, se revoltaram e não me deram o ar da graça. Graça esta que se expande quando encontro motivos para me jogar ao desconhecido, para bater no ar afoitamente, para me deter e examinar detidamente o que aparece e lavrar conteúdos, muitas vezes insólitos, negros de significado sendo alguns travestidos  de dardos venenosos. Como erro sempre a mira, não causa dano.

E então me encontrei no vazio, um vácuo procurado, um lugar planejado para estar, mas, em lá chegando me dei conta que havia uma conta insana pendente que eu devia pagar. Todas as frases feitas estavam a postos me desafiando a me espelhar nelas, dizendo com desenvoltura para baixar a crista e não persuadir ninguém do contrário, não denunciar as marmotas oblíquas que sem querer percebia, não dispensar nenhuma palavra para fomentar o que sinto, pelo menos naquele momento, não me ater a momentos sem fim e não analisar a replica criando condições de errar a mão.

A missão era árdua porque me pedia que não tivesse opinião, que falseasse a hora, que ocultasse abertamente e que não viesse a público mostrar uma verdade que não serve para todos. Senti que fui proibida de ser, barrada da fala dúbia, execrada da sinceridade, difamada por ser do contra naquele momento pelo menos.

A corrente de insanidades me parecia volumosa demais para poder dar conta, porém ali estava o desafio e como não sou de me acovardar com ventos contrários resolvi ir ao chão. Do fundo do poço fui subindo pé ante pé, pisando com determinação em cada momento que ali havia se instalado pelo clima e no final, lá estava eu a bordejar a mentira de todos.

Assim surgi de dentro para fora, com a minha verdade em lemas assoprados e verdadeiros. Foi neste momento que eu acordei para a necessidade de enfrentar os demônios da causa inglória, da felicidade alardeada, da ocultação do sentir da verdade e da proibição de ser você ou outra ou até, pasmem, plenamente. 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Folgada


Não percebi que a pergunta poderia ter uma investigação torpe, muito não a minha cara, porém muito sim a cara do perguntador. Que raio de análise me propuseram a fazer ao pedir para relatar se eu tinha como modo de vida ou sobrevivência esta palavra.

Apenas uma palavra com tantos aspectos e nuances e tenho uma vaga lembrança que me veio à mente, imediatamente, o tempo. Quero folga para ter tempo. Um tantinho para nada fazer, outro naco para fazer tudo e não sobrar nada para depois, sabedoria para fazer passar o dito sem que se perceba, inteligência para fazê-lo parar quando é preciso. É necessário ser íntima das horas para estar afiada e com presença de espírito para responder o que é merecido, apesar de quem não merece uma resposta dessas é quem pergunta.

Fui caminhando com muito cuidado pela minha mente, identificando às vezes o quanto ainda faltava para ter uma clareza de como se vive em folga sem que isso pareça preguiça, sem que remeta ao ócio do mal e sem que eu possa responder àquela pergunta da malvadeza com a resposta esperada.

Ruminei ardidamente o tema, visitei meus dias, minhas horas, meus minutos e segundos e não entendi aonde esta desocupação poderia estar, uma vez que ela me parecia sempre enredada. Havia na minha linha do tempo um enlace de assuntos, tarefas, companhias, humores, descasos e uma variedade absurda de incoerências. Todos engalfinhados uns aos outros com o objetivo proposto de que eu os fizesse se deslindar. Caminhavam lado a lado muito mais que amistosos, o riso e o choro, a destemperança, a piada, o sim e o não, o ridículo e o ponderado, o amigo e o inimigo.

No rumo em busca de respostas vasculhei o passado, mas retornei ligeiro quando ele me disse que estava perdido, que dali não tinha como se ativar nada e que apenas a experiência tinha valor, portanto, para meu dilema de rebate, ele não era válido. Voltei então à palavra arremessada com tanto mau gosto e nonsense, e dei uma olhada no futuro que me disse não estar disponível, obviamente.

Cheguei à conclusão que não havia espaço nenhum para revidar e neste exato momento o tempo desocupado passou voando por mim, sorriu e levou para longe a palavra que o indiscreto queria ouvir.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...