sábado, 26 de abril de 2014

Rame-rame



O falatório não parava, parecendo flechadas de cupido recalcado porque quando tentava acertar um alvo apontava uma projeção que se desfazia no ar, ou, parecendo esta a hipótese mais correta, se desviava num tempo exclusivo e atingia um lugar diferente onde se encontravam duplas diversas e pessoas juntas em avessas.  

O som de todas as palavras reverberava pelo universo e como eram dissonantes na maior parte das vezes, por lá ficavam a vagar sem destino, se tornando inócuas e aumentando a tensão dos céus, irritando todos os arcanjos que queriam de fato fazer o arranjo e se ver livre da empreitada. Mas não seria desta vez e não tão fácil assim, porque o limite tolerável do rame-rame vai muito além de todas as forças contrárias e do intento.  

Incontroláveis palavras se sobrepunham umas às outras tornando as conversas às vezes, descontroladas e na busca do entendimento, derreadas.  Se unir era a intenção, o fracasso veio dar seu recado muito cedo e indignado com a falta de pudor dos gladiadores das letras ficou tentado a acabar com o discurso e a pose infame do pretenso acordo. Desta feita, ficaram sem chance de ouvir o que lhes vai ao fundo da alma e perderam a condição de serem agraciados com aquela ajuda do cupido destrambelhado, que perdeu a paciência. 

 Enfim, a vida pede destino, o dia pede atitude, a tarde pede um encontro e a noite pede romance. O arcanjo ficou triste e resolveu descartar o rame-rame que para ele era promissor. Só para ele, é claro.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Facebook




Um lugar incrível, um verdadeiro paraíso onde está empilhado no espaço todo tipo de gente, uma realidade surpreendente mesmo para os dias que correm tão céleres, como um piscar de olhos.

 E por falar em vida física acho que o Facebook deveria ser um órgão do corpo. Penso que faz todo o sentido transformar o aplicativo em um órgão que fará parte da nossa anatomia e pode ser até com o mesmo nome, ou pré nome. Eu apenas sugiro que a localização dentro do corpo humano é que seria diferente para cada pessoa, uma vez que tudo acontece neste espaço, para o bem e para o mal.


Corações são partidos por conta do seu poder de estrago de espalhar desavenças, amizades de longa data são estremecidas por um esquecimento em curtir algum acontecimento importante para quem postou, e para quem viu, nem tanto. O dia começa na corrida cibernética pelos “likes”, levantando inimigos de morte na competição. Não sei se será uma parte do corpo que irá trazer benefícios uma vez que para se ficar conectado tem que se estar em frente a alguma tela que somente daqui a séculos saberemos se faz bem ou mal. Bom, vá lá, amores podem acontecer, mas correndo o risco da inveja e do mau agouro vir multiplicado em zilhões de falsos “likes”. 


Ele é um traíra, porque ao mesmo tempo em que reúne ele afasta quem se uniu, uma vez que a demanda é voraz na derrubada do que hoje acontece e urge no quê, ou quem, vem depois. 

Então, acho que dever ter muita gente querendo que o seu Facebook esteja colado ao coração, porque é ali que ele volta ao passado e se encharca na lama da nostalgia, com aquela sede de ser de novo quem era, se sentir jovem, revigorado em rever tanta gente que se espalhou no mundo sem sequer se despedir dele. A gente poderia chamar de Çãoface.  

Outros talvez preferissem que ele se situasse junto ao fígado, porque desta forma haveria uma parceria etílica uma vez que o dito cujo filtra tudo o que o gajo entornar e o Facebook monitora os conteúdos. Assim, ficam juntos na saúde e na doença. Poderia se chamar Fígface.  

A galera indignada revoltosa com tudo, com todos e consigo mesmo, gostaria que o órgão estivesse colado ao intestino uma vez que este despacha o que apodrece em nós. Desta forma fica lógica a parceria escatológica. Um bom nome seria Inface.  

O principal parceiro do Facebook é o cérebro porque ele está no comando das informações, mas, não vou agregá-lo nesta minha visão apocalíptica porque não quero ver suplantadas as minhas esperanças que um dia este inferno acabe.


sábado, 19 de abril de 2014

Lexotan





Sempre muito bem vindas, a esperança e a alegria juntavam correntes para viver e pensar que o  que hoje acontece é o melhor, mesmo que as expectativas não se confirmem. Difícil discernir para que lado nos bandeie, uma vez que o que se apresenta perante nós pode vir com todo o sentido, ou, sem o menor sentido. 

Então se abre em contornos tudo o que nos parece difícil de enfrentar e assim transparece nossa vida pregressa denunciando que talvez não sejamos capazes de seguir em plena vigência de nossas aspirações e, muitos dos nossos maiores medos, aqueles que nem a gente tem conhecimento, batam continência sem a gente menos esperar.  

As improbabilidades acontecem perante a tantas interlocuções sem o menor fundamento e vagam imponderadas em busca de respostas, ocupando o vácuo, sugerindo com sofreguidão que se esclareça, pelo menos, uma ponta do mistério.  

A ponta que se abre é tão nobre e por isso mesmo tão pequena, tão solene e ao mesmo tempo tão minguada que sequer aparece.  Porém, existe a outra face, aquela a quem ninguém se permite olhar e que sequer faz parte do todo, mas, enganam-se quem não lhe dá atenção, uma vez que virão deste momento, todas as respostas.  

Uma resposta, ou várias, sempre dependerão de um pensar acurado, do verter lágrimas de sangue, de estilhaçar as emoções em mil facetas para juntá-las depois com a paciência de quem sabe que com isto se reunirão seus pedaços.  

Pode até ser que na configuração final o resultado não apareça do melhor jeito, com aquela cara limpa de noite bem dormida e de um prazer incontido de saber de si, e assim, as respostas irão sufragar no buraco negro do inconsciente.


sábado, 5 de abril de 2014

Perdidos


Vez ou outra eu olhava em volta, um pouco para trás como se algo me incomodasse, ou pior, me obrigasse a prestar atenção, forçando uma barra. A pressão na nuca e certo desconforto no corpo acompanhavam a sensação. Como não é de minha feição ficar encostada no já transposto, ignorei.

Sigo em frente, porém, de novo, o chamado fez-me voltar o corpo inteiro com urgência causando um desequilíbrio e confusão mental. Parecia um recado. Aprumei o corpo todo, encorajando-me, e me enfrentei, antes que me enfrentassem.

Comecei imaginando qual a finalidade deste encosto morno neste exato momento, uma vez que a vida agora está numa quentura certa, apesar de dar muito trabalho controlar a temperatura para dar continuidade ao que se apresenta.  

Ando assim, tudo têm que estar no preparo certo, e, por isso, coloco todo dia na balança as medidas corretas para adensar esta massa disforme que é a vida.  Como ingrediente principal o longo suspiro antes de responder qualquer coisa já faz parte da receita, porém, erro a mão quase sempre e o acerto fica para a próxima.

O restante da matéria prima como a fala também continua intermitente porque ao invés de pensar antes de falar, falo antes de pensar. Com o sorriso não tenho deslizes, mas com o beijo sim, ele voa da minha boca e vai pousar no alvo certo, mas ele não está esperando e, às vezes, a hora é errada.

Os olhos estão sempre querendo passear acelerado pelos rostos tentando imaginar o que está por trás do semblante do outro e que segredos ele não quer compartilhar, porém, sempre encontro olhares carinhosos o que me dá um norte de que nem tudo vai mal e esta parte é boa.

Os braços andam desordenados e em descompasso, jogando-se à frente quase sempre num impulso infantil, se sobrepondo ao encontro e perdendo a oportunidade de receber um abraço caloroso que se perdeu pela minha afoiteza. Constrangida, balanço para um lado e outro e me recolho. As mãos acompanham todo o resto e também tem de ser lembradas a se manifestarem somente quando existe uma possibilidade de recepção real do afago.

Nesta análise e digressão de comportamento fiquei pensando que as sombras no entorno são os meus amores perdidos me chamando a atenção para os amores que advirão.


domingo, 30 de março de 2014

Abraço



Não havia contagem que suportasse a espera do encontro que se repetia, com certa alternância de data, e, por isso mesmo, se tornava tão temerário. E era sempre a mesma coisa, coração pulsando, adrenalina fustigando o corpo e maltratando as veias que quase se arrebentavam de tanto esforço.

Na cabeça, ora, na cabeça, somente bobagens, muito confete e uma fila enganchada de possibilidades que vistas a olho nu mostrava a realidade com aquela cara irreverente e dúbia, mas não nesta feição e nem nesta hora. Esta, não se formava por gosto, mas por ter nascido com aquele formato.  Mas, não tinha jeito, sempre havia aquela mania de pensar o bem, de promover energias boas e ter a confiança de que tudo anda.

As horas não passavam no ritmo delas, mas, sim, em um compasso muito particular, uma contagem acelerada de mil olhadas no relógio, de passadas para lá e cá e outras tantas manias mais de deixar qualquer um a beira de um espasmo. Até aquele momento não foi percebido o perigo, apesar de ele ter dado as caras desde o início e, então, irritada, a vida resolveu intervir e de um soco colocou de maneira bem singular uma lembrança recente e o desconforto gelou seu ânimo, esfriando o galope desordenado da expectativa e assim se instalou, moderadamente uma tranqüilidade.

Como não quer nada, a clareza veio dar o seu pitaco e trouxe à tona aquele abraço não completado, o doce empurrão que farfalharam seus cabelos e, assim, de maneira imperceptível apresentou-se ao momento acentuada falta de conexão. Os braços caíram com tristeza ao longo do corpo e o olhar, abrumado, afastava de vez todas as possibilidades.


sábado, 29 de março de 2014

Ladrilhados




O projeto, nas entrelinhas, se apresentou de repente, tão de repente que o formato das coisas já assentadas se mostrou em uma desordem incomum para quem já havia percorrido e superado tantos caminhos. Mas parecia, assim, num olhar mais acurado, que talvez pudesse vir a ser uma situação onde vazios seriam preenchidos e lugares compartilhados com possibilidades infinitas de rearranjo e de substituição.

Desta forma a caminhada iniciou-se, um pouco afobada no começo, porque logo surgiu a dificuldade de montar o quebra-cabeça que se compunha de várias circunstâncias, algumas mais pesadas, outras obtusas e muitas delas em situação tão irregular que custava a crer que fosse se encaixar no movimento conjeturado.

A estrutura desmontada e esquecida roubava a cena cada vez que se apresentava, uma vez que a intenção era refazer caminhos perdidos, conectar sentimentos díspares que ressurgiam com voracidade se alinhando com sede de aproximação. Algumas vezes o desencontro traía impiedosamente a intenção, porém, a curiosidade e o sentimento de estar vivo era mais forte e a construção não parava. Apenas dava um tempo para a calma reinar e a respiração abrandar.

E assim foi sendo feita a passagem, com cada peça se encaixando uma na outra, selada pela mistura composta de sensibilidade, de alegria, de riso infantil, de olhar brejeiro com intenções não reveladas. Para fazer a liga, lágrimas de riso da piada repentina. Desenhada a ponte tijolo a tijolo ladrilhada com os entretons da espera e da vontade de acertar.


sábado, 15 de março de 2014

Chance




Sempre que a Chance encosta-se a mim, olho no entorno perturbada, querendo me certificar que é comigo mesma que ela está falando. Mais desconfiada ainda rastreio a vista de cima a baixo, porque, de certa forma ela pode surgir de várias formas e é bom estar preparado, se bem que, nunca se está.

Tem vezes que ela aparece promissora, sorridente, tão cheia de armadilhas secretas, que fica difícil identificar à primeira vista o que vem junto com este pacote ofertado sem se ter pedido. Como as esquisitices nunca estão a olho nu, a trabalheira é dobrada na busca da verdadeira ocasião.

Preste mais atenção se a Chance inicia a conversa com o parágrafo da bajulação em primeiro plano, formando e descrevendo você com conceitos exacerbados e pior ainda, te elevando aos céus como personagem idílica ou caracterizando todas as suas ações como perfeitas. Do encosto se sai leve como uma pluma, cogitando múltiplas oportunidades, andando como cabra cega e não acreditando na boa sorte. Esta abordagem é certeira para carregar você ao inferno e ao paraíso, concomitantemente, uma vez que a intenção é chegar ao seu ponto fraco, aquele, que nem a gente sabe que tem e muito menos qual é.

Muitas vezes ela se aproxima como quem não quer nada, só espiar em você ou soprar alguma oportunidade não aventada, um demônio que ronda nossa vida, se acercando sempre sem se mostrar inteiramente. Esta característica é a mais sutil e mais difícil de domar, e a derrapagem na arapuca vem célere, acolhendo as ofertas sem analisar o que está por trás e, mais ainda, o que pode vir pela frente. Aí, sem chance.


sábado, 8 de março de 2014

Caquinhos





Era um dia lindo, azul perfeito e eu não percebi uma nuvem escura bem a esquerda da minha janela, no horizonte. Que bobagem, quem ligaria para qualquer sinal em céu de brigadeiro, onde se ouve o som da calma em ventos outonais e se respira o perfume das folhas resvalando ao chão, se despedindo languidamente do amor que as manteve nas estações anteriores. A seiva que por ora se esvai com promessa de voltar.

Eu estava confiante e firme, lembro bem, com meu espírito elevado em elucubrações românticas com a feição de quem é amada e o único pensamento que borbulhava nas minhas antenas nesta manhã memorável, era a faceirice. O sorriso tenho certeza, ficou branco como cal de uma hora para outra, se alinhando ao tempo que se esbranquiçava lentamente, mandando para longe o vermelho do sol de verão. Ocorreu-me, naquele momento, certa inquietude, um arrepio e uma quentura fora do normal no corpo todo, mas eu estava afoita e certeira demais para me aguçar em insinuações mal formuladas.

Segui em passo firme com as convicções empoleiradas nos ombros, uma vez que elas não cabiam mais em nenhuma pasta que eu pudesse carregar.  Todas elas vinham com anotações várias, para que eu as mantivesse atualizadas e também de fácil acesso para esclarecer qualquer conversa. Certezas convencem.

De súbito, precisei sacar meu talento para fazer frente ao que se impunha, sacudi os ombros, corri em busca da agenda, escarafunchei minha bolsa e dei tratos à bola. Dei alguns passos e, desconfortável, percebi que tudo o que eu tinha estava no chão, partido em mil caquinhos multifacetados refletindo o mundo. Uma sucata pronta para se transformar.


quarta-feira, 5 de março de 2014

Cantorias no parque – a parábola



O Café do  Parque deitou-se mansamente à beira do lago da Redenção trazendo um charme absoluto para as margens verdejantes do parque mais inusitado de Porto Alegre. Por muitas voltas que se dê em seu entorno, seremos sempre surpreendidos pelo inesperado.

Assim foi com a dupla Claus&Vanessa que, como quem não quer nada, iniciaram as cantorias no Parque, em banquinho e violão, em um tablado ao ar livre, compartilhando com a exuberante natureza todos os seus sonhos. O agrado dos freqüentadores veio como uma das muitas surpresas deste lugar de todas as tribos. Chegou para ficar, todo domingo, conferindo o som.

A cantoria da dupla foi se espalhando pelos gramados e tantas raízes, tomando conta da copa das árvores e calando todos os pássaros. Havia certo alvoroço da bicharada, na chegada do domingo, pois pensavam: lá vem nosso diapasão.

Ao anoitecer, quando todas as gritarias de domingo se esvaíam lentamente do parque, era chegada a hora dos primeiros acordes eletrônicos da dupla que ali estava para cantar e encantar. Os famosos gatos da Redenção aumentavam seu olhar e brilho se enroscando nos arredores sendo imitados pelas carpas que apenas fluíam em seu nado, talvez para poder ouvir plenamente, a dupla cantante.

E era a hora da chegada dos fãs, em fila indiana, na porta do Café, meninas e meninos querendo parecer a dupla, quiçá, o amor dos dois.O som leve, solto e romântico sobrevoa todos os caminhos e recantos da Redenção deixando a natureza surpreendida e calma e agora, mais do que nunca as cantorias do Parque da Redenção fazem parte da natureza.


segunda-feira, 3 de março de 2014

ABISMO



Nunca pensei que haveria de cair no mesmo erro, de falsear o pé e me ver na beira do abismo, com todos os gigantes olhos me olhando de baixo para cima, rindo da minha cara e de dedo em riste parecendo dizer, eu te avisei.

Claro, que se eu tive algum vislumbre de lucidez, ele se fora na instantaneidade que a novidade te dá e a esperança fornece, pois a cada dia em que o sol nasce tudo se transforma e lá vamos nós como guerreiros ensanguentados e maltrapilhos em busca da ilusão, do oásis, que com certeza fica logo ali, pensamos repetidamente. Logo ali.

Mil coisas me passaram na cabeça e a primeira delas é que os tempos de calma haviam chegado e assim cavalgava acelerada na minha maturidade e me orgulhava da minha clareza e todo dia a folha branca que me aparecia era preenchida. Então, estou andando bem a par e passo.

O desaviso me rasgou por inteira, lavrando o que eu tinha de melhor, deitando por terra a confiança que eu acreditava viver e neste momento, tenho as pontas dos pés beirando o vazio do mundo.

Um vazio, infelizmente, preenchido pela prepotência mascarada de elegância onde nas entrelinhas surgem a falsa modéstia, a inveja e o falso poder. Um espaço oco recheado de artimanhas torpes e deboches muito bem articulados.

Meus pés deslizavam com suavidade para baixo e para cima, deitando seixos na fundura do precipício e com meu corpo oscilando ao vento naquela beirada, ouvi alguém me chamar, surpresa, me equilibrando, dei meia volta. Este alguém era eu.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Um aparte






Em primeiro lugar tirei o fone do gancho puxando-o até a orelha para ouvir o som da linha continuado, e depois dissonante, e imaginei a agonia de quem gostaria de falar comigo por este instrumento arcaico e ri deles a mais não poder, em uma espécie de histeria vingativa, pois este, dos múltiplos contatos de hoje em dia, é o que menos mostra a que veio e por sentir tanta saudade das conversas de outrora, foi o primeiro a sentir meu descaso.

Depois foi a vez de desconectar o cabo da TV porque se eu quisesse me jogar na preguiça daria tanto trabalho refazer o feito que já me tirou a vontade. Para ter certeza, virei a tela de cara para a parede para ficar bem claro para mim, e para ela, que eu estava de mal.

Corri ao interfone e despenquei-o do suporte. Eu não atenderia o zelador que vem me entregar cartas, contas, propagandas, jornais e revistas e estas ficarão amontoadas por um tempo indeterminado, uma vez que decretei momentos de total falta de lucidez. Meu tormento era buscar o vácuo, o desinteresse e o nada.

Do celular foi mais doloroso me despedir, e, antes de tirá-lo do ar cravei os olhos nos não sei quantos ícones de mensagens que atormentam meu dia para o bem e para o mal. Esta caixinha pequena guarda os meus amores e desamores, meus esquecimentos e minhas lembranças, minhas senhas e muita informação. Guarda meus amigos e os inimigos também, uma vez que muitos deles não há como se desvencilhar.

Eu buscava um estado de tédio uma vez que nos últimos tempos, esta situação de espírito sub-reptício e até melancólico não nos é ofertado, não aparecendo na nossa agenda diária nem nos alertas de última geração.

Após tudo feito sentei-me em relativa paz. E devagarzinho fui percebendo que sem querer levei a mão ao lado em busca do celular umas cem vezes, outras cem olhei para o sinal de TV a cabo, outras idas na janela para ver se o zelador estava lá embaixo me acenando. Também levantei o fone convencional para ver se tinha linha e insistentemente meu olhar passeava por cima da minha mesa na busca do pisca-pisca da banda larga.

Um pouco decepcionada e ansiosa, conectei com paciência os meus laços com a vida, parecendo inútil me apartar dela e de todo resto.





domingo, 16 de fevereiro de 2014

Brilho no tempo





Eu não conseguia vislumbrar um tempo mais útil ou inútil que se alongasse para que eu pudesse dar conta da faina histérica da vida de hoje que urge em todos os sentidos ou, mais precisamente, ruge, como um grande animal feroz a nos morder o calcanhar sem piedade. Então, voluntariosa, tranquei o passo e fui espiar o entorno pé ante pé, sem fazer muita graça e rebuliço.

Escolhi um tempo não contado em horas, mas nas emoções e no desatino da descoberta daquela vida amordaçada que corria paralela a minha existência real. E assim deixei que as últimas horas e dias minha mente flutuasse por aí, sozinha e sem rumo, se engraçando com a fantasia deixando para outra hora a volta. Se eu tivesse sorte talvez não mais voltasse a mim e perduraria este clima translúcido que somente nós mesmos podemos nos ofertar.  Diverti-me muito ao passear por caminhos novos atraindo ao meu dia a dia resoluções pueris que me brindaram com um novo olhar para o velho.

Com certo pudor fui desamarrando os nós que milagrosamente se desfaziam como pó e então pude perceber a fragilidade das ataduras e a facilidade, desta feita, de me livrar delas. A poeira se transformou em uma densa neblina cintilante, polvilhou as situações do antes e do depois em matizes coloridos, variando a cor conforme a cena. O passado veio empoado de brilho e juventude, o presente se revestiu de cores vibrantes e o futuro me aguarda com seu manto misterioso tecido com os fios da esperança e viço do novo.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...