domingo, 26 de outubro de 2014

No chão


O dia ia alto quando A Menina foi expulsa do Prédio uma vez que iniciariam sua derrubada naquele mesmo dia, um pouco tonta e cansada de tantos avisos e desistências, sequer lembrou naquela hora que havia chegado o Dia. Era tarde, o Prédio já estava a postos para cair em pé. O Rio corria manso, na espreita de acolher qualquer cascalho que sobrasse e assim o desejava, para poder guardar no fundo do seu leito e continuar conversando com seu amigo, ou melhor, com o pedaço do seu amigo e, desta feita, resolveu ficar ali, quieto, olhando sem fazer rumor.

Agora o destino emocionante se cumpre após tantos e tantos anos e fica parecendo que a sustentação do Prédio foi feita apenas da memória de quem fez parte da história inesquecivel de uma indústria que por muitos anos foi referência na região, no Brasil e no Mundo. Assim foi a caminhada no mesmo lugar do Prédio, com muitos dizendo que era uma vergonha ali estar ainda de pé, conforme a Menina ouviu de uns e outros, até de quem foi seu amigo e também de outrem que sequer conhecia. Então, a luta nos últimos tempos não era somente no balança, mas não cai, mas na pauta da polêmica, o non sense do pseudo amigo e o despudor do desconhecido. A Menina depois do desabafo resolveu deixar para lá uma vez que estava dado o recado.

Foi com muita aflição que O Rio e A Menina acompanharam o quebra-quebra tendo ao lado O Prédio#Memória, que muito orgulhoso de si e de sua história olhava para a destruição do parque industrial. Muito inspirado falou por alguns minutos com seus amigos, alertando que neste país com dimensões continentais o patrimônio é derrubado em cada esquina como se a história não tivesse vez no mundo de hoje. Não só de hoje, mas de há muito e assim vai ao chão o que conta o passado para erguer nada em seu lugar ou na sequência.

A Menina, recomposta do bafão da derrubada observa com cuidado a demolição e agora se vê muito assustada porque ao invés de ouvir o som das pedras rolando escuta em alto e bom som os diálogos das funcionárias da salsicharia trocando receita, dos carregadores empurrando os grandes carros e descendo o elevador, falando de futebol e de mais uma vitória do Renner, do bater das maquinas de escrever no imenso escritório que reverberava a saúde da empresa. Do Sr. Gaspar chegando sempre muito cedo, sentiu em sua pele o gelo da sala de computadores que naquela época ocupava muitos metros quadrados e agora, sem nenhuma surpresa parecia ouvir o toc-toc dos tamancos holandeses do Julio Alfredo ressoando nos andares da fábrica e também viu a si própria secretariando as reuniões da CIPA.


E assim, um por um, foi acontecendo o esvaziamento do Prédio em queda livre e a onda branca da cabeça aos pés invadiu a Rua Ramiro Barcelos rumo ao coração de todos que fizeram parte da história e que tem amor ao trabalho.

sábado, 18 de outubro de 2014

No fundo


Como sempre acontece, o despreparo é bola cheia no encalço da testa desatenta e que está na vista certeira dos múltiplos talentos que por serem tão focados em seus objetivos praticamente não caminham com e entre os outros, mas sim, planam sobre tudo num jogo absurdo de encaminhar como sugerem seus desejos e tudo no entorno.

E é assim que se rouba a dignidade de poder pensar um tantinho, dar um breake na vida, cruzar os braços e decidir o não que grita com toda sua força, mas por incrível que pareça não consegue fazer-se ouvir. E assim a bola passa a rolar em campo minado e no arresto de todas as resistências que por ventura um dia por ali se cruzaram aparecendo do nada aquela teia urdida com um primor absurdo que enreda e prioriza o único caminho vislumbrado.

No tempo, então resoluto das decisões, cai por terra aquele andar firme, a maneira natural de negociar o que se apresenta, se esconde de maneira infame e vil a certeza do correto, se enche de duvida e névoa seca os pensamentos e assim se gruda a intenção forjada com precocidade, o pensamento arguto, a não discussão do teor desmedido que embala o normal, exacerba o desimportante e descontrola a razão.

E agora a trilha já foi formatada no gosto, a presa não vê outra saída além de seguir ao molde do sugerido mesmo com luzes piscantes no falso decoro e com aquela desconfiança leve que o caminho tomado não tinha volta e ao olhar para trás percebe que as migalhas de pão para retornar no caminho descrito não haviam sido lembradas. Era ir ou ir.

Sem poder escapar do algoz, é imperativo emplacar fervor na chegada, ousar ao máximo o resultado, defender o propósito com audácia, ser tão incomodamente assertivo que de tão firme o final terá mais peso que o inicio, quebrando as regras do outro e multiplicando o talento na resposta dada, concretizando um final de sucesso sequer imaginado. Na verdade, não foi necessário todo este empenho, uma vez que a presa possuía mais talentos inerentes a si do que o algoz.


O arrocho mal feito terminou após o desafio do pedido invertido de valores e verdade muito bem acompanhado pela argumentação capciosa e de promessas com inequívoco sabor de ilusão e de comprometimento às avessas que teve seu final coroado pela completa ignorância do resultado assim como uma lição do imponderável.

sábado, 11 de outubro de 2014

O de si


Tudo começa quando todos sentam, mas nem sempre o que vem dali pode ser útil ou aprazível porque a verborreia se abanca cedo, quando todos os elogios e a menção aos seus feitos são ditados um sobre o outro dando um chilique e apequenando quem não tem este costume e muito menos este talento, digamos assim.

A saraivada entre orelhas versa sempre sobre o umbigo do decujo que está se mostrando com um pula-pula sem conseguir, entretanto, sair do seu próprio circulo virtuoso com o objetivo de aparentar sua importância. O sou isso, sou aquilo é presenteado com uma cavaqueira onde a citação de pessoas importantes e lugares famosos atingem o seu momento mais incrédulo ao serem entremeadas em cínico tom casual onde todos estes adjetivos apregoados são considerados qualidades imprescindíveis para sua imagem pública. A fartura da chatice me faz entrar em total transe, paralisando meu raciocínio, me jogando no poço sem fundo do non sense.

Então tem aquele cara que não tem rumo de conversa que não seja o seu quintal enervando o público que deseja escapulir dali e bufa, pede licença, mas não consegue se subtrair do incômodo que soa pegajoso como doença ruim. Normalmente a voz acompanha o ânimo do estúpido arrebentando os tímpanos da companheirada. Urge uma providência, mas nem sempre é fácil se desapegar daquele idílio forjado, parecendo querer se infiltrar para dentro das cabeças mais pensantes que, infelizmente, neste momento ficam totalmente sem comando e à mercê da situação.

Existem aqueles que roubam do passado o que gostariam de ter sido e então carregam como um fardo precioso pela vida afora o ocorrido que não houve. Assim se faz o presente, costurado com linhas invisíveis ao olhar pregando cada peça remendada de outrora. Assim, nesta triste lembrança são retificadas uma a uma as situações que acabam se posicionando como um grande e aborrecido retalho de acontecimentos em que o novo não tem espaço, ou pior, quando chega se faz velho.


E a corriola vai desde a madama que perdeu a beleza há muito, mas sustenta a pose e a coroa de rainha até aquele senhor que anda com sua máscara ligada ao tubo de oxigênio de algum poderoso e é neste exato momento que abordo a vida, desesperada, e peço para dar uma encostadinha no meio fio porque quero descer.

sábado, 27 de setembro de 2014

Distância


Mais por costume do que por vontade própria a distância faz esquecer um pouco de tudo ou de tudo um pouco, não havendo mais nenhuma sanha, não lembrando fosse o que fosse se espichando o despudor em deslembrar. Fica para trás o tormento insistente da mente descontrolada, da emoção que finca pé e a todo o momento vem ofertar a imprecisão e o descaso.

O vazio se instala soberano e não aparece nem em sonhos os desejos antagônicos, os suspiros profundos, os olhares apaixonados e muito menos os seus sujeitos. E assim vai seguindo de cabeça feita e do avesso buscando novos feitos para contrapor o deletado, preenchendo o que ficou em branco pesquisando no entorno novas histórias, reescrevendo o passado.

As cartas na mesa estão sem naipe e não significam nenhum traçado futurístico, não anunciam o novo amor aguardado, não mostram o caminho das pedras nem apontam para o tesouro perdido.

As duas pontas se afastam tanto que parece impossível reatar ou reaver qualquer coisa e então, desta feita, acontece o encurtamento das distâncias destituídas do seu maior poder: o esquecimento. Os segredos guardados aparecem com lucidez e nova serventia, se revelando aos poucos fazendo todo o sentido. Com este pano de fundo serpenteado de surpresas a orquestra ensaiada se refaz com seus instrumentos no lustro e afinados na proposta de manter em alta o tempo perdido.

No atraso da vida perdem-se detalhes, escondem-se minúcias, esquecem-se situações ou jogam-se fora impulsivamente tantas histórias que agora precisam ser recontadas e trazidas à tona com o olhar do novo.


E assim foram restauradas todas as falas, os olhares se cruzaram tantas e tantas vezes que se acostumaram rapidamente com a linguagem muda do dito não dito, todos os sorrisos se arrevesaram em gargalhadas preenchendo os instantes com muita sonoridade e assim a rota foi retomada, desta vez com ares de para sempre.

domingo, 14 de setembro de 2014

Ofensas



Não presto atenção em tudo e por isso mesmo vive caindo no meu colo o que não pressuponho que aconteça. Então num desses desvarios de pensar, de ler e de escrever enxerguei nitidamente o quanto pode ser curiosa à falta de tato e por que não dizer – de educação – do anônimo. E falo em desconhecido para mim, não que a pessoa se esconda. Em tempos reais e de conexão vale tudo, larga-se palavras e ofensas ao vento como se elas não fossem chegar ao destinatário.

Os arautos que sineteiam nos caminhos ainda tortuosos da comunicação moderna infestam nosso cotidiano agridem nossas origens, nossa família e nosso passado, como se deles fossem. Não existe trava na língua, amor à ponderação, respeito ao próximo. Tudo vai na lata.

Penso no direito de julgar ao próximo sem que ao menos lhe seja permitido ter um encontro com olho no olho para poder sentir a frieza ou o acaloramento da discussão ou das falas em uma simples conversa.

Os diálogos ingênuos deram lugar a grandes discussões de grupos que reunidos estão virtualmente muitas vezes falando sozinho, contando de si para si, se arvorando como o dono da verdade desrespeitando a opinião pública, conforme o caso. Chegou a hora dos sem dono, do desserviço de jogar todas as ideias em solos desconhecidos sem se preocupar se o pátio fica grudado ao seu. Caia onde caia a ofensa grassa.

A relevância e a verdade estão descartadas uma vez que neste momento, a opinião individualizada se tornou tão passional que a razão nem mesmo importa. Importa vomitar a ofensa, agredir quem não se conhece, tornar público o ditado sem fundamento ou razão de ser.

Levantar hipóteses não faz mais sentido nestas horas de tantas veredas enredadas, tantas ideias plantadas, tantos pensamentos cruzados. Bom saber, entretanto, que o que está selado, está feito.

domingo, 7 de setembro de 2014

Virtual



Antigamente vivíamos entre portas e janelas muito bem cuidadas, os moradores se esmeravam na pintura da entrada, instalavam campainhas que tinham a tarefa de avisar o residente que havia um visitante e assim também proporcionavam a ele momentos de deleite ou de emoção ao levantar a mão para tocar um sino, um din-don, uma imitação de cigarra – para os mais surdos – ou uma pesada argola lembrando os tempos mais antigos, na verdade, quando não existiam tais engenhocas.

O umbral da residência recebia muita atenção e importância porque muitas vezes um de seus vasos de flores era o escolhido para “esconder” a chave da casa porque não havia perigo algum em deixá-la ali para que seus usuários em seu vai e volta o fizessem com naturalidade. O capacho fazia parte do acordo de facilidade para entrar e sempre era um personagem de destaque no alpendre e uma opção libertária de esconderijo.

As janelas eram muito privilegiadas, porque mostravam o externo para quem estava dentro, com incumbência de trazer as imagens do que acontecia na rua, no jardim, no trânsito em frente à casa, no céu, nas nuvens e no ar. Eram elas que davam o recado todo dia e serviam com fidelidade absoluta. Através delas os humores vespertinos se alteravam porque a programação poderia mudar conforme fosse a noticia que entrava através destes grandes olhos. Cortinas eram instaladas, algumas para vetar a luz do sol que em determinados dias não era bem vindo ou simplesmente para fazer uma bruma entre a realidade e o sonho, se por acaso ali vivessem poetas, escritores, artistas ou apenas pessoas mais sensíveis. Como uma moldura da vida, as floreiras davam o acabamento perfeito a estas janelas que em seu parapeito recebiam cotovelos curiosos perscrutando a rua, sorrisos com a chegada de parentes e vez ou outra muito choro por quem dali se afastava para sempre.

Impossível não pensar em nossas atuais portas que perderam sentido e encanto, uma vez que a virtualidade das relações extinguiu as campainhas que perderam seu propósito. Ninguém mais se anuncia e todos entram sem permissão em todos os lares através do mundo virtual e assim as aberturas, além de não terem trancas não encarnam o romantismo de uma visita inesperada, do amor retornando, da vizinha trazendo uma prenda ou da chegada surpreendente de um filho que se foi há tempos.


As janelas de hoje são as que mais sofrem, porque restam fechadas com black-out para que a luminosidade não atrapalhe a interatividade desenfreada compartilhada entre tantos aparelhos de alta definição. As flores, ora, flores murcham por falta de atenção e o capacho se desfia sozinho.

sábado, 6 de setembro de 2014

Mentira


De tempos em tempos sou envolvida pela mentira, engraçado, porque se tem uma coisa que não faço é mentir. E não é por gosto não, não minto porque tenho medo, porque se antevejo deixar alguém na mão dando uma desculpa inexistente tenho a certeza que serei descoberta e fico paranoica em relação à criatura e ao fato, e então desisto. Melhor pagar o mico de não estar a fim de qualquer coisa sugerida, do que falsear as intenções que vem a você com o mote de fazer parte do mundo aludido do outro.  Como carregar a falsidade será o tema da sua vida se cair nesta armadilha.

Percebo que em muitos casos a mentira faz parte do dia a dia, ela existe e está ali na agenda diária de compromissos, tipo, uma reunião desajustada, uma mentira, um passeio previsto esquecido, outra mentira, um encontro desmarcado, mais uma mentira. A sequência se torna uma teia que enreda o real da vida e a falta de coragem de ser autentico. Seria bom tomar uma chuveirada de lealdade todas as manhãs e distribuir como se fosse o pão da vida, os acontecimentos que tem fundamento, que chegam recheados de argumentos interessantes mesmo que as noticias ruins grasse, o idílio previsto não aconteça, o amor não tenha mais conserto, o negócio esteja falido e o interesse tomou Doril. Todos estes temas pedem sensibilidade que somente a clareza de atitudes pode prover.

Quando sou desafiada a dar uma espiada na vida lá fora e sem querer tomo o caminho errado, a mentira me pega no contrapé e compreendo que a calúnia vai se apresentar no momento em que está sendo gestada, parecendo um sino tocando no fundo, mas bem no fundo da minha cabeça. Talvez eu a reconheça a partir do convite que veio em tom de voz e se a empreitada desonesta vem por escrito faz a minha intimidade com as letras esquadrinhar a cadência inequívoca da desculpa que vai me atingir a seguir.

Sempre fico surpresa ao perceber que saltar fora dos trilhos sem querer traz uma nova forma de ver e entender as pessoas que coexistem entre tantos personagens criados particularmente e cada um com esmero invejável.

Prefiro pensar que são eles – os mentirosos - que dão brilho à caminhada, oxigenam o coração por conta do susto e da surpresa, trazem mais cuidado ao se avistar com todos e definitivamente trazem uma alegria enorme na aferição da nossa intuição.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O anônimo


O dia estava luminoso e a expectativa brilhava assim como tem de ser quando se está prestes a lançar a alma ao vento, ela, sempre partida em mil pedaços, mas rearranjadas em um único volume, seguida de página em página e finalmente as letras, ora brincalhonas, ora mordazes que iam dando vida aos pensamentos sempre desconcertantes. Este todo complicado resultou na escancara do de tudo um pouco.

Ela já estava sentada aonde deveria entregar e assinar sua vida contada na metáfora, mostrar a trajetória infame de querer alinhar sempre o imponderável, a mania de estar sempre se repetindo, a impulsividade de escrever sobre o que vê, o que sente e o que imagina, conquistando desta maneira inimigos e fãs. Alguns, tão sinistros, ao se identificarem com algum dos textos cortaram as relações para sempre com a autora sobre o argumento de que a mesma roubava suas vidas. Vai saber.

A pilha de livros ficava à sua esquerda e projetavam sombras muito determinadas que se refletiam por debaixo da mesa, mais precisamente em seus pés. Achou que parecia um mau agouro voltar-se para baixo, mas pensou também que esta não era a hora de ficar elucubrando estórias, era chegada a hora de se entregar aos outros, sem pressa.

A mesa ao lado replicava os tons e sobretons nas taças de cristal que receberiam o espumante com a incumbência de deixar o ambiente no enlevo do sussurro aconchegante e ao mesmo tempo gerar um alarido sem muito sentido, um diz que diz sem nexo com sorrisos destemperados e cumprimentos entre tantos demonstrando um convescote sem noção.

Ela não tirava os olhos do fundo do corredor e mesmo parecendo um presságio suas mãos acariciavam a mesa lustrada, mas sua alma sangrava aterrorizada e em alguns momentos pensava que talvez fosse melhor fugir, tocar fogo em tudo e destruir todos os seus pensamentos que resolveram ter vida própria e se assentar no papel.


Era esta a situação quando se posicionou ao seu lado um anônimo ilustre, gomalina na cabeleira, elegante, bem vestido, bonito, óculos escuros, gabardine preta clássica que lhe estendeu a mão com um sorriso cínico profetizando: acorde.

domingo, 31 de agosto de 2014

Papelada



De ventas altas se fizeram aqueles dias, fungando todos os fantasmas desde os mais corriqueiros até os mais densos, aqueles que se assemelham a nós mesmos nos piores momentos. Fugir era a minha intenção e quase o fiz, mas houve algo que me prendeu e perdi as forças por conta daquele olhar matreiro, divertido, carinhoso, mas um pouco sem graça que olhava, mas não enxergava, tentava chegar perto e se perdia.

Ouvi um rufar ao longe que me pareceu muito antigo e então percebi que havia chegado a hora de afundar naquele baú que me perseguia há tempos e arrancar dali o que fosse preciso. Segui em frente com coragem até porque eu havia determinado que este fosse meu alimento de hoje, juntar todos os cacos que insistiam em se amontoar naquela caixa e remontá-los em divertidas figuras dando um jeito de materializar a fantasia.

As primeiras tralhas que se apresentaram foram os desavisos. Ali, estavam todos enfileirados, um a um, me dando a lembrar do quanto fui distraída em não ter dado a devida importância a todos eles que me acompanharam com total dedicação e mesmo agora, quando não há mais tempo, continuam por perto. Saravá.

Em seguida saltaram e se apresentaram a mim todas as ilusões. Vinham representadas em cartões amarelados, fitas roídas, bilhetes com escrita nervosa, mas com lindas frases, recortes de flores e corações entrelaçados que de repente se desfaziam em suas cores, desnudando o que estava proposto matando a intenção. Aperto contra o peito aquele amontoado de promessas, umas cumpridas outras não e ao voltar meus olhos uma última vez, as percebo renovadas em seu brilho parecendo ter recebido um sopro de vida. Julguei-me ali totalmente incurável.


Continuei a fuxicar nos escombros da minha vida porque de certo modo estava sendo divertido separar o joio do trigo, limpar os cantinhos reservando o que tem importância e descartando o mau feito. Encostei ao meu lado a lixeira que iria recolher as risadas mais antigas, os vestidos de baile, arranjos cafonas, viagens desesperadas e retornos mais ainda. Por último, retirei um pacotinho bem fechado onde estava escrito em letra miúda: amor perdido. Vagarosamente devolvi todas as lembranças ao seu lugar devido.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sabiá



A noite nos cobre em silêncio com seu negro manto e mesmo que haja barulho lá fora, em tudo se aquieta a vida, ela, que durante o dia comanda todas as ações conforme sua fase, claro, bordejando entre o bem e o mal. Não existe meio termo quando o sol se alevanta e a negra atmosfera surge após, com suas características e surpresas, pegando a todos desprevenidos quase sempre.

Afundamos na escuridão por livre iniciativa, a mente buscando a paz e o corpo querendo se esvair em partículas mínimas para não pesar. Nada sólido apetece nesta hora muito menos pensamentos confusos e assim etéreos como anjos avançamos na madrugada densa e por isso mesmo desejada. Bom demais tirar a fantasia e as máscaras que amarrotam nossos desejos, rasgam nossas propostas, furam nossos olhos com o inominável, surripiam nossas convicções tirando de campo, por um momento, a vontade de ser.

Desnudos da vida real neste horário eis que surge um personagem gritante em meio à bruma gelada e úmida da madrugada. Difícil acreditar, que ao invés do terror noturno, dos sonhos inconfessáveis, do descanso da agitação amorosa em meio aos lençóis, da paz conquistada uma vez que o dia caiu, possa haver tal intromissão que pia incessantemente através do sereno da noite.

Ele chega altaneiro e como dono do silêncio escuro resolve conceder seu trinado para dar o contraste aos sonhos desesperados que varam o buraco abissal que se constitui a noite, para alguns muito, para outros nem tanto e até pode ser que para vários, nenhum.

A cadência do Sabiá empurra para o lado a faina ignóbil do sono trazendo a acústica de volta, só que desta feita, com cantorias que talvez mereçam serem ouvidas mesmo que maçantes em sua melodia, porque o Sabiá é monocórdio.

E assim, mesmo sem querer, o nirvana cerebral absorve o concerto qualificado que lentamente consegue abrir as gavetas fechadas dos nossos medos, desencantar o pesadelo sem fundamento, desmanchar os fantasmas que se incluem como visitantes indesejados todas as noites. A insistência do trinado repetido e melancólico nos traz de tudo um pouco.

sábado, 23 de agosto de 2014

Alvo

 


Era sempre ali no fundão que parecia haver a resposta, era por ali, naquele entorno desfigurado que se assistia o desfile acontecendo, sempre com assuntos ocultos, mas também sempre presente no ar. A intenção era descobrir o que havia chegado para acontecer, porque os atos promissores se desdobraram com força, mesmo que vez ou outra houvesse certa desaprovação e as querelas se chocassem áridas, resultando em um enlevo dissonante, descartadas em outro momento, como se medo houvesse. Parecia que a alegria sempre andava mal acompanhada. 

As más companhias do pensamento chegavam a alguma conclusão, porém, um ditado se antepunha derrubando os argumentos. Tudo fazia sentido nas fracas teorias que não se sustentavam, justo neste entreato de tentativas de descobrir com urgência o que vinha – ou o que havia – por trás daquele pano pomposo. 

Mas o olhar apagado surgiu ao longe, vindo da bruma da consciência provocando um conforto necessário naquela exata hora de apuração da verdade, da realidade tomando corpo e se desfazendo do imaginário, largando fora o brilho da apresentação altaneira e concedendo, finalmente, um troco a todas as indigestas promessas jogadas sem dó e que foram engolidas sofregamente para que a alma não secasse. 

Cada palavra lufada ao pé da orelha eclodia depois como algozes no tempo e no espaço, tornando a dúvida e a boa intenção companheiras inseparáveis no seu propósito, mas distintas no fato. 


sábado, 9 de agosto de 2014

Fatura



Nos últimos tempos não eram os meus pés que me guiavam, mas minhas costas, que tomaram à frente de tudo, penso que por existir ainda algum acerto a ser feito ou um alerta para não deixar nada em haver, uma vez que a fatura do passado chegou cobrando juros feito lágrimas, multa pelo amor não correspondido e IOF pela tristeza infinita.

Resolvi abrir esta correspondência que foi selada com a saliva da pressa, impugnando o meu interesse e deixando-me com as mãos vazias, o coração apertado e o sorriso reverso.

Na conta remetida, tinha a coluna em que se somavam os muitos dias de verão com o calor que abrasava as emoções e elevava a perspectiva ao cubo. Havia uma proposta clara de conectar os laços perdidos que se apresentaram com toda a pompa e cor dos anos que se foram, ressurgindo puídos do tempo com elegância e uma inefável tessitura rota e muita ponta cega espalhada tentando se achar e buscando o encontro. Um estado perfeito para a ilusão se assentar.

Porém, naquele contrato estava escrito em letras bem pequenas - que no momento não interessaram - que diziam do perigo do desentendimento, da afoiteza na busca e as implicações que adviriam se a sequencia não fosse cumprida. Ali dizia também que é mais seguro dar uma parada e olhar com muito cuidado toda a argumentação porque se sabe, e não é de hoje, que tudo pode se romper de repente, sem aviso prévio. O acordo não tem garantias e sempre podem acontecer imprevistos, mesmo que o caminho já tenha sido trilhado em outros tempos.

Ir além da miuçalha é difícil porque entre parágrafos e adendos tropeçamos em deliciosas ofertas que ali estão para desafiar a improbabilidade de dar errado uma vez que tudo se apresenta com a intenção de fechar a conta com sucesso. Acrescentem-se aí todas as boas intenções que somente não se tornaram reais porque não se estabelece nada do amor em conjunturas, em hipóteses, em planejamento.

Na distração não se percebe que o envelope entregue com a fatura em aberto possui belas ilustrações, assim como o reencontro, que nem bem havia começado, já terminara. 

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...