domingo, 19 de junho de 2016

Marco zero


Era sabido que de alguma forma poderia ir e ficar, para sempre, afinal, o lugar escolhido nem era longe. Mas foi necessário mergulhar em entranhas estranhas, e, por um bom período não sair dali. Submergir e emergir com tanta facilidade dá-se a conta de parecer não ter feito outra coisa na vida, e sempre aparecia um novamente.

Foram tantas as feridas, que ficou difícil saber por onde começar a costura. Se em algumas delas colocasse algo bem ardido talvez cicatrizasse para sempre e não se teria mais acesso àquela informação, podendo sucumbir para sempre uma inspiração, uma necessidade, uma tristeza súbita, luzes, um crepúsculo ou um raiar do dia glorioso e cálido. 

O íntimo com tantos veios em aberto é solidário e garante o conteúdo como se fosse um cofre imenso de onde se pode retirar, a qualquer momento, uma cura, uma gargalhada, um motivo.

Por outro lado, o enjoo flutuante, seguia um ritmo cadenciado em ondas suaves, acompanhando de certa forma o refletir irrelevante e, ao mesmo tempo, empurrando para conclusões já cristalizadas no ar, como se fosse mágica feita para não sumirem. O ar rarefeito dava o ritmo, ambientando as decisões.


O entorno se modifica como se fosse uma mente indômita que não se cansa de querer ser outra, ou, simplesmente poder ser diferente do que é. A névoa do pensamento insistente sublevado a outros tantos, não foi empecilho para enxergar clareza ali adiante. Um emaranhado de propósitos e de soluções. Tantos remédios para uma doença só. 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Reiniciando




Acordei com aquele sino na cabeça ribombando em mil acordes dissonoros, claudicantes, e ao mesmo tempo em que o badalo ia lentamente de um lado ao outro, parecia tão rápido que eu mal conseguia acompanhar. Demorei um pouco para perceber que o sono surgido com tanta urgência na noite anterior veio com a missão de acumular assuntos de todas as tendências, se apresentando tão cedo, incontinenti.

Entendi que não estava dando tempo para olhar cada um com parcimônia, porque logo atrás deste, vinha o seguinte me acenando e cada um parecia mais urgente. Era como se eu estivesse diante de tantas tarefas acumuladas que só de olhar a planilha a vontade era de desistir.

Faz um tempo que me espreguiço sobre assuntos dando-lhe as costas sem aprofundar a questão, sem ficar curiosa, sem ter alegria de esmiuçar o vocábulo, a intenção ou mesmo o disparate que tenta me seduzir.

Está me parecendo agora que um desdém altivo é o vírus que me contamina que me enfraquece que me tira o alfabeto da linha de frente tornando-me eu, desta forma, uma parasita dos sem palavras.

As notas que antigamente eram dramaticamente digitadas ou rabiscadas em qualquer pedaço de papel sumiram da vista, ou melhor, da cabeça. Eventualmente algum assunto parece vir me acordar deste silêncio absurdo a que me prendi, mas se esvai como a bruma da manhã que morre para dar nascimento à luz do dia.

Nesta manhã intuí que a fila de agravos e desagravos havia aumentado sensivelmente se tornando uma doença inevitável e que para dar cabo da mesma somente indo a campo.

Com paciência, desta vez, foquei um a um os temas na berlinda e fui reparando que ao percebê-los, já não me pareciam ter sentido, estavam distantes de mim, não comprometiam meus sentimentos e nem partilhavam de um mínimo de atenção do meu coração.

Dentre tantos que descartei por desmerecimento absoluto, aparecia a situação surreal de desentendimento que me levou a tantas lágrimas e desespero, resultando em ferida aberta, porém, agora aplico o cicatrizante chamado tempo, que remedia tudo o que remédio não tem.

Passei aos outros itens mais entusiasmada, com metade de mim que reiniciava a passos lentos. Dei de cara com a surpreendente irrelevância que assoma nossos dias, que dilacera nossa esperança que inviabiliza sorrisos e atravanca a rotina.


Como uma bofetada eu percebi todos os rouba-tempos que minavam a minha leveza e a minha capacidade de evocar a vida que segue todos os dias, esta particularidade simplória que se configura como nosso motor mais completo e azeitado.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Lembranças




Ela se apresentava sempre majestosa com a cumieira devidamente estrelada, com todos os coadjuvantes milimetricamente dispostos em seus lugares de origem, seus penduricalhos vibrantes cintilavam todo ano, do mesmo jeito, com aquela simplicidade de ter de ser sempre tudo igual. O verde escuro e a seiva da natureza colaboravam para que se formasse o símbolo perfeito, entrava ano saía ano.

Ninguém percebia que ali havia espinhos uma vez que tudo se encontrava tão bem disposto e ninguém se atreveria a buscar algum defeito. Também passava despercebido que as raízes arrancadas do solo úmido iniciavam sua rota para o fim, encetando com vagar por sua profundeza, a secura do ambiente e o inicio do seu fenecimento.

No animo inicial os olhos de todos não se detinham em quase nada especificamente e a vista era, além de superficial, descurada de detalhes. Não ficava claro, por exemplo, que muito sumariamente, as pontas airadas no espaço ressecavam e se dobravam à falta da seiva da terra que lhe deu vida por tanto tempo. Mais exatamente até aquele momento em que foi arrancada para virar um símbolo. Dizia-se que era um privilégio se destacar nesta data tão importante, para união de todos. A ousadia de duvidar ficou a encargo do tempo que viria cobrar sal assertiva.

Parece que a algazarra compromete o olhar, os brindes se sobrepõem ao pisca-pisca de luzes, a euforia dos encontros que por natureza, às vezes se desencontram são mais fortes do que a vista alcança. Tudo se confunde e se multiplica em uma grande arruaça que aprisiona quem deseja fugir dali e diverte quem supõe que para agregar é necessário obrigar. O desmonte era esperado e com ele veio a realidade.


O tempo, que faz deixar para traz tudo o que é bom e mau, assume o comando esclarecendo ao pé do ouvido que a parentalha se desfez do grupo ruidoso, mostrando de verdade a sua cara. Como mágica, cada um rola para seu quadrado demonstrando que importar-se já não faz parte da cantoria, que o pensar no outro só surge no dia seguinte assim como os ausentes nem notados são. É o fim da lembrança que como todo revival se esconde na penumbra de uma alma em paz.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Dá no mesmo


Não tem jeito de eu me conformar com o que se apresenta e tenho para mim que talvez seja uma revolta inconsciente em relação ao tempo que avança e deixa para trás meus cabelos fartos e loiros, minha pele viçosa, minhas pernas fortes, minha cintura, meus braços soltos em abraços e minha mente leve e tranquila como folha ao vento. Só pode ser isso.

Todo dia, toda hora, todo acontecimento, lá estou eu novamente lutando para não ter esse olhar do cotidiano mais tradicional e que me faz lembrar minha mãe, minhas avós, e, de certa maneira, viver e corresponder o que não vale mais, aparentemente. Para todos os lados a minha desdita somente se fortalece.

Ando dando de cara muito assiduamente com um descontrole quase inimaginável de aspectos que deveriam ser tratados como um fator de linha mais dura, digamos assim. Navegamos no mar das incertezas em comportamento, não sabendo nunca o que vamos encontrar ao lado ou em frente e eu penso, que por este motivo, o passado tem vindo me assaltar para que eu não perca as estribeiras. Deve ser isso que o avanço nos anos faz. Para frente e para trás para não perder o rumo. Boa essa.

Agora nas rodas de conversas, nos encontros de muitos, na presença de tantos desconhecidos, entro de lado, tipo sorrateira, desconfiada, com cara de paisagem torcendo para não ser percebida. Não desejo mais correr para o abraço no vácuo que me recebe, uma vez que eu considero que os pares se importam. Dei adeus a minha crença gratuita e despreocupada porque não existe garantia de ser bem recebida, mesmo que tudo tenha iniciado bem.

Ninguém me convence que o trato com o semelhante tenha que mudar de forma radical ao se deparar com um imprevisto, uma situação que foge do controle e precisa ser administrada. O foguetório sem noção é disparado sem controle e com este novo formato tudo parece efêmero como uma brisa e sem o menor sentido.


Esta percepção da perdição dos bons modos se completa na mania perversa de que se deve estar conectado o tempo todo, com a roda de cada um refletida em si. Tudo e nada dá no mesmo.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Cartilha


Em um primeiro momento eu contei certo que aquele assunto teria de ser enfrentado com astúcia e paciência e quase me imolei em sacrifício, uma vez que eu não tenho estas qualidades. Mas, “não está fácil para ninguém” jargão da hora de uns e outros e então resolvi que eu seria minimamente inteligente e tranquila, mais duas coisas de que sinto muita falta em mim quando o caldo entorna.

Mas se eu não as tenho neste exato momento de premência, terei que pedir emprestado e ao meu redor todos do alvo viraram a cara ao meu esforço. A bola nas costas rola solta no meu campinho e na continuação do contexto lembrei que nestas ocasiões fechar a cara e ser firme funciona. Negue um sorriso e verá que a energia que está rolando contra você dá uma baqueada geral e recua. Então foi o que eu fiz.

Mas fiquei triste por não poder intercalar na roda da conversa nada animadora, diga-se de passagem, a benção de uma gracinha, a facilidade que o bom humor proporciona mesmo em assuntos mais espinhosos. Levantou-se no ar certa mágoa por ter de passar por este momento sem merecer a ousadia do descrédito e ter de ouvir apartes fora de controle e de propósito para o momento. Neguei meu sorriso e leveza no trato com o outro e isso doeu mais em mim, certamente. Mas seguir em frente sorrindo se aparentava totalmente impossível, por isso sucumbi.

Existe uma crise no ar, uma piora de atitudes que antes serviam de norte para todos, jovens e velhos. Era um tipo de cartilha dos bons modos que todos recebiam ao nascer antes mesmo de abrir os olhos. As famílias honravam estes mandamentos e os passava de pai para filho para que sempre que houvesse discórdia, discussão ou ideias diferentes lembrasse-se de seguir o rito.


A cartilha jaz sem serventia neste século, onde grassa o império da falta de educação e respeito ao próximo. Mas eu ainda penso que abrir um sorriso seria uma ótima solução. Antes de ler a cartilha, é claro.

domingo, 29 de novembro de 2015

Olhar



Perplexa, fiquei analisando bem de pertinho, sem querer acreditar no que eu assisto, e muito menos, no que me acontece, ouço ou leio. Tudo revirado, como se cada parte da vida fosse um grande rolo de fio, delicado é claro, como deve ser, mas enredado por demais, como jamais deveria acontecer.

É fio de seda se enredando com fio de algodão, o próprio se enroscando na lã, o cordão tosco de amarração solitário e o fio de ouro longe da turba. Os tantos outros fios de menor serventia ou fama, se enredam irresponsavelmente entre si e entre todos. Surge aquela questão do primeiro que salva a pele e corre, sem olhar para trás.

E assim enxergo as relações que permeiam a vida, que nunca está fácil, que sempre tem um degrau mais alto que os outros, uma pedra difícil de arredar, um tronco atravessado no meio do caminho, um córrego profundo que não dá pé ou um rio caudaloso que arrasta tudo que vê pela frente, até você.

Do meu observatório composto de lupas muito sensíveis não consigo enxergar um meio termo nas atitudes de um mundo que se reúne no dia a dia para se relacionar, para amar, para trabalhar, para dividir, se divertir e para dar certo, ora veja.

No porão escuro dos sem noção, a praga da atualidade, a desdita entra sorrateira, resvala na parede em silencio com pés descalços para parecer sem recursos e a respiração suspensa demonstra fôlego para fazer o mal.

Aparentemente, os cordões previamente organizados que haviam decidido respeitar a origem de cada um, tomaram para si uma vida própria que carece de pacto com o outro. Ao invés de fazer a renda combinada fica decidido perseguir o emaranhado confeccionado com os fios de quinta categoria e difíceis de manipular. Todo este esforço para apenas ludibriar.


A ideia deles é não ser presenciado na queimação do combinado, fazendo parecer que a falta de tempo é culpada pela desmemoria e ausência de compromisso. Quem não tem tempo para nada mente para si e para a vida e esta vai cobrar o preço por ter sido desperdiçada a moeda mais inconteste da vida. Não se engane.

domingo, 20 de setembro de 2015

Surreal


Os ouvidos parecem não se cansar de ter de ouvir a conversa desavisada que sempre vem em momentos inesperados, quando se é arrastado para um caminho desconhecido ou quando quem fala conversa para si, como se quisesse afirmar a ele próprio aquela falta de tato, aquele mau gosto exasperado de contar o que não diz respeito a ninguém, nem a ele próprio.

O despreparo e a surpresa são sempre iguais porque parece impossível que a contagem de dados estúpidos seja derrubada boca afora sem filtro, sem tranca e sem pudor. O “ó” da boca entreaberta para pedir caluda fica no ar, a respiração passa a ser por ali uma vez que será difícil fechá-la tal o espanto desavergonhado de engolir um diálogo sobranceiro que envolve uma narrativa sem propósito de conteúdo.

Deve ser a sina de quem aprendeu a ouvir mais do que falar, a enxergar ao invés de ver, a sentir ao invés de demonstrar, a abster-se de opinar, a manter-se de lado no julgar do diálogo e a pensar com mais vagar.  Esta é a maldição à trava na língua e a incapacidade de fugir do mau assunto e relegar a massa cinzenta a remoeção dos dados enxertados à força pelo momento. Ser levado sem consulta e aviso prévio à intimidade de quem quer que seja, carece de sentido, demonstra falta de tato e gera um arrasto de impossibilidades no pretenso diálogo que, aliás, não acontece deveras.  


O término do solitário e surreal passeio verborrágico é singular e abrupto e assim se inicia o movimento pela retomada da linha enovelada inicial e, desta forma, todos os fios desencapados do raciocínio lógico se restauram como se fosse mágica. A cabeça se refresca, a musculatura se solta e a mente ensaia uma oração: que estes ventos letrados ao contrário não tenham mais tamanha envergadura no futuro e que não atinja quem prefere calar.

domingo, 9 de agosto de 2015

Meu pai



Quando penso em meu pai lembro, em primeiro lugar, de um grande jornal e ele por detrás do mesmo me fazendo pensar como seria ficar tanto tempo entretido atrás daquele papel, preto e branco, áspero e que sujava as mãos. Depois, vinha o telefone preto em que se enfiava o dedo no buraquinho redondo com o numero e se conversava com a telefonista, havendo depois, uma longa espera para que o dito cujo aparelho voltasse a tocar. Aí, sim, que sina a nossa assistindo sem nada entender horas e horas de conversas e até hoje tenho a impressão que ele comandava tudo por ali, o mundo e todos nós.  Ultimamente ando pensando que o meu amor por ler jornais e falar ao telefone – que coisa antiga - começou ali, do hábito dele se informar e se comunicar. Para fora, bem entendido.

A feição dele era muito resoluta e séria, mas se amenizava quando nós os três irmãos nos escondíamos atrás das cortinas do quarto para ele nos encontrar, quando chegava de suas longas viagens. Ele também não ria muito em casa, hábito bem comum nos adultos daquela época, ou, talvez, porque não quisesse nos dar balda.

Eu lembro também do cheiro dele que rescindia a charuto e em uma época houve o fumo de cachimbo que eu adorava. Gosto até hoje e levanto o nariz perseguindo o aroma quando circulo por algum lugar na cidade que recebe os adeptos. Os hábitos de casa também me vêm à mente como o ranger da porta do armário em que ficava o uísque preferido, o som seco do gelo ao cair no copo e depois o borbulhar da água mineral complementando o drink especial de época. O copo alto de cristal com desenhos primorosos e de cores suaves, eram perfeitos na degustação da bebida. Ele era um patriarca de bom gosto.

A música clássica ecoava pela casa e quando ele ficou estafado acho que parte da cura veio através dos múltiplos vinis que lhe fizeram companhia em todos os momentos em que se recuperava. Eu ficava de longe, espiando e rezando para sentir novamente o cheiro dos seus tabacos maravilhosos e do buquê de suas bebidas pedindo a Deus que os jornais chegassem aos milhares e que o telefone nos ensurdecesse, só para vê-lo circular autoritário – quem diria – pela casa. Mesmo assim ficava eu em silêncio porque naquele tempo criança não falava. Calada eu já era, então, piorei.


Ele era um homem poderoso e visionário com todos os seus talentos aperfeiçoados por vontade própria, um autodidata esforçado e com esta vontade férrea andou sempre para frente.  De todos os talentos dele eu não herdei nenhum, a não ser a teimosia em seguir apesar de.

domingo, 21 de junho de 2015

Refletir reflexo


Multifacetados, o tempo dos dias segue inauditos, céleres e performáticos sem que se consiga dominar todos os seus significados parecendo de vez em quando que não estamos na vida, mas ela está em nós, empurrando ladeira abaixo e acima no roldão.  Ao levantar a mão para fazer um cumprimento, ao cair na tentação de dar uma parada, no atropelo de esboçar um sorriso, na ânsia de um abraço, no desejo de um beijo, parte de nós se abstrai. Furta-se de enxergar e nossos olhos são feridos pelo fulgor sem fim de todo o entorno autocentrado.

O mundo todo brilha e se reflete incessantemente sendo que alguns destes raios transparentes não trazem mudanças significativas apontando apenas rumos traçados tempos atrás, como uma marca tão forte que parece impossível sair do caminho. Escondidos no prumo, engolidos pela mesmice, encurralados em falsa segurança, fincamos o olhar no espelhamento que se impõe, presos nas horas desesperadas de se ver refletido na luz que somos obrigados a possuir.

A meta é seguir em frente a qualquer custo não ocorrendo que entre um fulgor e outro poderá haver uma trilha secreta, um caminho não sugerido, uma salvação de alma penada, uma credulidade de única escolha, a fatalidade de outro jeito de fazer as coisas.

No viés de tanto clarão jorrado por, e em cima, da nossa existência, não parece viável a escolha de um caminho mal iluminado, uma rota com novas pedras, outros andantes, dificuldades jamais imaginadas e na contrapartida, quem sabe, uma ladeira íngreme que, surpreendentemente, ao invés de te fazer subir na exaustão, te puxará docemente para o cume. Quem sabe o abismo que se apresenta assustador não fará exatamente o contrário, oferecendo uma descida com acolhimento delicado em seu leito.


A opção de pisar em solo diferente, com pedras reais empoeiradas pela passagem de aventureiros iguais, alamedas verdes algumas e outras nem tanto, cantos mais escuros reclamando com toda força uma descoberta, cavernas úmidas a espera de uma nesga de sol. Jardins desiguais pelo simples fato de uma terra ser mais fértil e outras nem tanto, mas que aguardam o desafio e por este motivo entregam uma chance. Caminhos e descaminhos se dobram como sinos muito antigos, um alerta para esta vida viciosa do refletir-se.

domingo, 14 de junho de 2015

Valores


Não vai longe o dia do acreditar, de se jogar de ponta cabeça porque o dito vinha com tanta ênfase que seria uma desumanidade ignorá-los. A cabeça feita vem antes, se sobrepondo muitas vezes ao que virá depois e então, ao se deparar com o inaudito, a sensação de bobeada fica muito presente.

Assim é quando se fala muito e pouco se promete, assim é quando se destaca o que não tem a menor importância, ou pior ainda, se regozija do que deveria fazer parte isolada de um caso. Não parecer é coisa do passado e a verve hoje está centrada, poderosa, entre umbigos, solapando qualquer intenção de segredo.

Estes são os dias em que ainda não se está preparado para a torrente de qualidades e adjetivos superlativos com que as pessoas se apresentam. Não dá nem tempo de parar e escutar a fluidez da conversa, para, aos poucos, se tomar um fôlego e dar conta do terreno que se está pisando, não dá nem hora de pensar, e muito menos de sentir se há empatia ou não. Somos soterrados pela audácia do mostrar-se.

Então é assim: expor tudo de maneira incontrolável construindo uma imagem tão poderosa de si mesmo que perambulam por aí, não pessoas, mas sim espectros de si, fantoches montados minuciosamente, com um corte de tecido mais fino, com linhas de seda impecáveis, botões, bainhas e arremates folheados a ouro, se possível. Tudo do bom e do melhor, como se dizia antigamente, e que hoje nem cabe esta frase. O que cabe somente é o parecer ser e o ser, coitado, este está completamente desacreditado e sufocado pela multidão de bonecos fake que transitam nosso dia a dia, com uma riqueza de detalhes inventados. Os personagens parecem tapetes trançados ponto a ponto no detalhe.

Uma construção inócua porque o valor está na costura desencontrada, na conjunção do bem e do mal, no encontro de cores que não combinam, na percepção de tecidos mais leves junto aos mais ásperos, na visão de um lado de uma ponta rasgada e de outro, uma franja desarticulada.

domingo, 24 de maio de 2015

Aquela porta


Quase sem querer, praticamente, abri aquela porta com certo vigor porque eu precisava de ar. Ando sempre precisando de brisa fresca como se todas as ventanias e aragens não são suficientes para oxigenar meu corpo. Parece-me, às vezes, que todo o meu corpo carece de ar, uma vez que ando me sentindo como uma máquina trincada, tudo ruge com estardalhaço e então enfiando a cabeça no mundo aspirei aliviada o ar da noite, contemplei o céu estrelado e os ventos mornos.

Quando resolvi voltar, a porta não quis fechar. Ficou ali estaqueada, empedernida, me desafiando. Nem que eu colocasse toda minha força ela não se mexia. Sentei frente aquela fresta para a rua, que aparentemente veio para ficar, tentando imaginar o recado.

Dei outra espiada para fora e não vi mais a noite, mas os dias ensolarados e vertiginosos que passavam por mim sem que eu sequer pudesse alcançar os havidos. Havia também conversas de final de tarde e um alvoroço do qual eu não fazia parte e me senti invisível aos acontecimentos. Enxerguei amigos, familiares, conhecidos e muitas outras pessoas transitando com pressa, desencontrando-se, olhando à frente, mas tão à frente que dificilmente um olhar ali iria se cruzar. Senti o peso de mensagens rápidas se tornarem lufadas desinteressadas, observei que de fato a conexão é mais uma palavra que carece de sentido da verdade e assim o passa-passa do improvável me fez recuar a vista.

Eu não queria mais olhar para a filmagem dos dias que corriam, porque ali não encontrei ninguém de fato, não recebi nenhum vínculo plausível, não consegui ver a vida arejada que eu estava tentando entender através da abertura desta oportunidade que me veio trincada parecendo um desafio.


Teimosa, encarei a porta como se ela fosse culpada por eu ter tido uma coragem besta de ir espiar o mundo e voltar com os olhos sem luz, sem foco e sem brilho. Resignada, empurrei de volta o vão aberto que agora se fechou docemente, como se pedisse perdão. 

sábado, 16 de maio de 2015

Disfarce

Era sempre a mesma coisa, a situação surgia e as boas intenções alavancadas brotavam afoitas na certeza de ter o caminho mirado e a combinação do passo a passo organizado, com precisão. Com armadura até os dentes como um gladiador pronto para o arroxo tudo se apresentava de maneira clara e objetiva e a intenção estava firmemente proposta, não vislumbrando nenhum perigo à frente uma vez que tudo havia sido examinado com uma coragem renovadora promovendo a ocasião.

Não se sabe bem como, e muito menos em que momento, a defesa pareceu ter nascido somente de um lado. Parecia assim, de pronto ao olhar, que naquele campo as minas enterradas serviam a apenas um senhor, que havia uma trincheira apenas funcionando e no campo aberto não se via arma empunhada, muito menos mãos erguidas ou artefatos de miragem longa. Tudo parecia estranhamente normal e calmo, com gladiadores relaxados, e talvez até perplexos com o aparato.

Nesta hora a armadura começava a pesar e certo ridículo pairava no ar com densidade suficiente para desencorajar quem estava preparado. As perguntas eram lançadas, mas reverberavam de volta sem resposta deixando aquele momento espetacular ficar sem sentido inicial. Aqui pareceria que a preparação para o que vinha era fundamental, e o planejamento para conhecer o que à frente estava tinha sido alinhavado com as linhas do pensamento lógico deixando uma costura mais forte de elementos que mascaravam alguma intenção oculta.  A peça estava pronta e nada poderia dar errado.

Com este impasse foi sendo retirada a armadura que já pesava um tanto, a camuflagem embaçava os olhos, o peso das armas já não podia ser suportado e mesmo sem enxergar direito à frente, desarmou-se o primeiro campo abrindo desta forma o coração para o que viria.

Assim que as armas emocionais metaforicamente representadas pela armadura de gladiador foram despidas, surgiu o furioso ataque da perfídia que ali estava o tempo todo disfarçado, havendo outro por dentro.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...