sábado, 3 de outubro de 2009

Café Atlântida


Não há ventos calorentos no voal de seda que descortina o entorno do Café Atlântida, nem a diáfana de pessoas, iniciando o dia de trabalho, sabedoras do alegre estar que irá se desenvolver por ali.

O lugar, criado com cuidadoso requinte praiano está em sofrimento pela ausência da massa carinhosa que dá vida ao ambiente. Uma vida para poucos. Uma existência que morre no inverno para renascer no verão.

As madeiras que fazem parte da construção rangem lamentosas ao sabor do vento agora constante, de primavera. Já sentem o tempo sobre si e se indagam se está longe o momento de serem acarinhadas por olhos e harmoniosos corpos de verão.

A vegetação já dá sinais, brotando suas sementes com a certeza de dar vida ao lugar ao florescerem. Vitaminadas, enfrentam as chuvas e a atmosfera enlouquecida da mudança de estação para se tornar uma flor, um arbusto ou uma copa de árvore que amavelmente fornecerá sombra aos freqüentadores.

As mesas e cadeiras espanam sua poeira e se organizam ficando todas na maior compostura. Igualmente todos os móveis entram no clima.

O microfone, propagador dos tons musicais que alimentam as festas do Café Atlântida, se empina soberbo na espera do Claus&Vanessa e de tantos outros que espalham seus trinados por ali.

A calçada entremeada de inços aguarda as passadas ligeiras de jovens e nem tanto, solapando seus espaços e arrasando com a erva daninha, dando sobrevida ao passeio.

Esperamos todos, com o coração na mão, pela estação em que tudo é esquecido. O verão sempre é tempo de renovar, de se alegrar, de olhar para o horizonte e vislumbrar o novo.
Inspirar ventos quentes expirando o frio da alma.


domingo, 27 de setembro de 2009

Proposta




Adoro propostas. Ainda bem, porque vivemos delas e elas decidem nosso destino. Gosto até das indecorosas, porque me fazem rir. Seja qual fôr o perfil dela.

A proposta comercial vem nos apresentar como profissionais competentes e fazedores de tudo o que está sendo relatado. Um acordo comercial antecede um trabalho que será um sucesso em suas tratativas. O cumprimento das regras estabelecidas para ambos resulta em soluções eficazes e todos ganham. Ganha ganha, uma bela proposta.

Uma proposta de amizade. Muito se fala em amizade e ter amigos já virou uma obrigação. Ai do coitado que não tem amigos. Ele será um pária. A dita cuja amizade é condição si ne qua non para uma vida saudável. Inicia devagar e termina de repente. Ao conhecer uma pessoa, vais tomando pé e descobrindo assuntos em comum acontecendo uma empatia. Dia após dia, pelas circunstâncias da vida os encontros serão mais freqüentes e a amizade vai se instalando. Quando a vida muda, mudam também os personagens que até então te acompanhavam. É assim, é pra frente que se anda.

Proposta de vida. A proposta de vida é uma sinuca. De bico. Amarramos nossos objetivos dando no leme a direção e vamos corrigindo a rota. Até que um furacão nos deite de borco, um raio nos parta ao meio e o vento nos varra da nave. Proposta de vida é isso. Preste atenção! É turbulento e mutante.

Proposta de amor. A mais linda porque é o amor a mola mestra de nossa vida. Somos movidos a afeto e por isso, em muitas circunstâncias, é tão difícil ser frio. Você pode receber uma oferta de amor e entendê-la de forma diferente do que foi sugerida. Cada pessoa lê sua amorosidade de maneira diversa. É encantador e sofrido também. Porisso, tantos desencontros de amor. Escolhas amorosas são armadilhas que poderão vir bem a calhar ou poderão vir a ser o teu inferno. Vai te pegar?  Não, não vai


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Poupando vida




Volta e meia nos defrontamos com situações que te tiram do bate estaca rotineiro e como a vida anda pra frente apesar de a gente ter, às vezes, a impressão que ela anda de lado ou pra trás, tudo nos acontece.

Do melhor e do pior.

Todo mundo, a todo momento, tem que tomar decisões e entre esse ou aquele e lá vamos nós tropeçando na nossa vida e na dos outros. Os caminhos são escolhidos depressa porque a fila anda, a moda passa, e a dúvida não se solidariza com ninguém.

Porém, quem poupa vida anda com tanta cautela que só pode tropeçar e cair. Só pode dar errado. Pensar mil vezes antes, revisar outras tantas o objetivo.

Ficar por aqui ou não
Encarar ou fugir.
Viajar nos sentimentos ou partir pro mundo.
Guardar para o futuro ou gastar.
Correr atrás ou deixar pra lá.

Enquanto fazemos conta de cabeça do que está por vir se lançarmos nossas flechas, a vida segue lépida e faceira.

Sem você. É claro. Resolveu que ia poupar vida. Pra quê? Pra aproveitar depois? Depois quando? Quando os amores foram embora, cansados da espera. Os filhos se enjoaram da demora. Os amigos..que amigos? Eu jurava que estavam aqui ontem.

Para curtir bem a performance lutadora de nossos dias aproveite tudo o que te acontece.

Se for ruim, faça ser bom e se for bom, aproveite!


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Hordas humanas



A análise dos caminhantes dentro de um shopping Center passa por várias fases e dependendo do seu humor, vais reparar neles ou não.

Cada monumento ao consumo tem seu próprio público, e suas fases estão refletidas em cada canto luminoso.

Acredito muito que o shopping atrai todo tipo de pessoa, desde aqueles que necessitam de algo quanto aqueles que ali vão se perder na multidão, se tornar incógnitos misturando-se na massa, como uma necessidade imperativa do seu estado de espírito.

Talvez esse comum mortal deixe sua solidão caseira para trás com a expectativa de encontrar o mundo ali, na construção caprichada e luxuosa, muitas vezes.

Ver refletida sua imagem em vitrines deslumbrantes podendo se jogar dentro do cenário, fazendo parte dele e não mais se sentir um excluído. Abandonar por horas sua vida sem graça e deixar-se levar pelo sonho e pelo capricho da edificação. Tão longe da sua realidade.

Um shopping Center é um lugar perfeito para ocultar uma verdade. Tão fácil na sociedade de hoje se igualar a todos e adotar atitudes e falas contundentes para poder parecer, sem ser.

As hordas humanas que vagueiam pelas ruas aí estão para desafiar os crédulos e ingênuos que se descuidam de um olhar mais aprofundado.

As máscaras são muitas

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Traição



A traição impera de certa maneira no nosso dia começando pelo tempo que prometeu ficar de céu azul e se vendeu aos ventos e chuvas, desabando sobre nossas cabeças, alagando a mente e resfriando o espírito.

Não pense que a traição precisa de circunstância para aparecer. Ela precisa de uma vítima.

No meu entender somos ingênuos na maior parte do tempo e a traição que sofremos é por falta de atenção.

Os traidores perambulam soltos e inocentes fazendo suas vítimas de acordo com a oportunidade. E elas surgem a toda hora nos mais banais acontecimentos.

Ao confessar um segredo e vê-lo espalhado aos quatro cantos
Ao imaginar que se é de tua família e de teu sangue, estás seguro
Ao pensar que tua retidão vai segurar todos os contratos
Ao buscar companhia e ficar vazia de tudo
Ao exercer a confiança e ver que foi desconsiderada

Tanto mais sofremos a traição mais eu percebo que a nós foi dada a inteligência para percebê-la. Nossa intuição capta todos os sinais, mas nem sempre queremos enxergar corretamente o que o universo nos sinaliza.

A traição é movida a partir da ingenuidade de cada um.

sábado, 12 de setembro de 2009

Sorry



O perdão lembra religiosidade. Sempre. E romance, cinema, letra de música.

A língua afiada dispara, muitas vezes, como metralhadora giratória em momentos que nem são favoráveis e o perdão aparece na circunstância. Aí, que fazer, temos que admitir o exagero e voltar atrás, mas a palavra nunca é perdão. A palavra que vai te dar a redenção do mau, será outra.

Circulamos em volta do perdão, às vezes até odiando ter que fazê-lo. Tropeçamos na voz, no gesto, fortuimos o olhar pra longe para dar impressão de estar arrependido. Nem sempre estamos. Ser sincero é bom demais e voltar atrás é desdizer de quem somos, do que pensamos e dizemos.

Não deveria haver perdão.

Feito o mal, siga e faça o bem. Assim serás perdoado pelo universo.

Tenho pra mim que ninguém se arrepende de nada. Voltar atrás só em último caso e vamos nos dando conta que um pé na acusação e outro na redenção, é o normal.

Redimir-se vale nossa alma, ela sim, maculada por ter passado dos limites com o outro, jaz ofendida. Ferimos a nós mesmos ao fazer a desavença. E somos nós que purgamos nosso pecado. O que mais vale na situação conflituosa é perdoar si mesmo, por sermos tão imperfeitos e
tão soberbos.


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

De vez em quando o mundo anda para trás




. Às vezes me parece que o mundo anda para trás de tantas surpresas que tenho. As certezas se vão como se nunca tivessem existido e os pensamentos zombam da realidade brincando de não ser.

Vivemos com convicções que nos dão colorido e alegria e de repente a impossibilidade de enxergar o verdadeiro, nos leva a repensar o que existe atrás da cortina da vida.

Acreditar é uma mola propulsora para tudo o que queremos construir e julgar destrói até possibilidades. E como conviver com este mundo multifacetado de personalidades dúbias?

As certezas já não proporcionam segurança e o que nos comanda é a dúvida. Chegou o limite da razão e o mais certo é recolher-se em si buscando o mundo antigo com valores que atualmente não existem mais.

Mundo de tantos nomes e tão pouco conteúdo.

Tantas palavras e muito medo.
Tantas atitudes e conseqüentes desistências.
Tanta exposição e nenhuma sinceridade.
Tanta mentira e tanto disfarce
Tão pouca alma e compaixão.
Tantos amigos e pouca companhia.
Tanto assédio irresponsável.

Andar um pouco para trás e resgatar a dignidade de uma amizade, de um contato, preservar o estreitamento de laços mais humanos, não descartando oportunidades nem pessoas.

Vou ficar um pouco atrás da cortina deste mundo que andou ao contrário.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Hoje acordei com cem anos



Um despertar diferente me leva a crer que fiquei com cem anos da noite para o dia. Percebo o pensamento, outrora célere, parado. Nada dentro da cabeça, todos os nervos embaçados numa farra desordenada e alegre de neurônios em férias. Sensação estranha e boa, afinal. Parece que terminou o tempo de pensar. Agora é flutuar. Nem sei meu nome.

Meus ossos são gravetos arqueados e doloridos e as passadas, leves. Bom não ter vigor. Vigor cansa.

Meu dia de cem anos começa sem tarefas a cumprir. Sem pesos a carregar e sem novidades a lembrar. O mundo parece só meu e de tanto viver, nada devo a ninguém.

De mansinho um ou outro lembrete da vida começa a se derramar e não vem de dentro de mim. Vem de fora, de uma folha de papel jogada ao qual tropeço. Pareço um embrulho roto arrastando a vida que ficou para trás.

O mundo, vazio de futuro, parece comigo. Uma velha cansada. Minha alma jaz ao meu lado, prostrada e cinza, suplicante para voltar ao corpo.

Entretanto, o tempo não parou como eu pressentia. Queria apreciar o nada. Queria enxergar o velho. Queria me enxergar.

E só consigo ver o caminho passado com tantos afazeres empilhados e aprumados que me custa acreditar que aquela fui eu. Cada vez mais jovem, ocupada e tarefeira, pois na lembrança nada me segurou no cumprimento da rotina. E a viagem de volta continua, agora bem rápida.

Engraçado como velho anda rápido para trás!!!!!

Com avidez, a mente abre todas as gavetas e a realidade transborda de dentro delas tal qual lingeries de seda macias, coloridas e jovens.

E, agora lembrei, meu dia de cem anos vai acabar. Como o feriado.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Mentes no chão





Andar a toa, dizem, faz bem para a alma que flutua, um pouco cambaleante de prazer, ao sentir a atmosfera se enroscando pelo corpo físico.

O nosso olhar se transforma em grandes caleidoscópios na busca de cada detalhe do caminho. No zigue-zague, palmas dos pés e pensamentos se unem para viajar na realidade. Muitas das nossas passadas não deixam marcas, mas nos surpreenderíamos se as pudéssemos ver.

Se houvesse o registro da turbulência da mente marcando o chão, teríamos imagens com exatidão emocional.

Em preto e branco os pensamentos funestos, nas passadas embaralhadas a lembrança da agonia. Passinhos fortuitos e alegres acompanham como um raio, a lembrança do melhor. Macios, adentrando o chão, a mente envolvida em perspectivas carinhosas ou de pura ilusão amorosa.

E a passada se desenvolve cada vez mais complexa formando a teia da nossa vida.

Deixada para trás
.


domingo, 30 de agosto de 2009

Amigos..amigos..e que tais





Todo mundo quer ter amigos e deus nos livre se você for do tipo solitário e pensador, ou, pior ainda, não andar com a manada. Sim, porque ter uma turma de amigos significa seguir a manada. Pisar em ovos, cuidar para falar o que não vai agradar a todos, não colocar seu pensamento como alternativa em qualquer situação.

Se for assim, serás aceito.

Não tem voz quem quiser digredir do enunciado e está morto quem tem vontade e pensamentos próprios e ousar enunciá-los.

Exagerei na entrada pra chamar atenção de como são insólitas as relações humanas e ainda mais, no que se refere a amizade.

Sempre digo que uma amizade não se conquista como tantas outras coisas. A amizade acontece, como o amor. E não acontece de repente também. Ao reparar numa pessoa que agrada teu intelecto as vibrações e a energia da aproximação começam a rodear o espírito dos interlocutores e então se inicia a teia do mais nobre sentimento. O da amizade.

Dentre muitos, poucos terão importância.


sábado, 15 de agosto de 2009

O funeral






Morrer é solene e a morte é imperativa. Não tem nada mais definitivo e mais incerto em nossa vida.

Sempre, sem acreditarmos que a hora vai chegar, aparece o velório daquela pessoa querida, parente, pai ou mãe e vais te ver diante da cerimônia, em que a despedida é a última.

É para nunca mais.

A cena, muitas vezes é insólita, pois entramos no túnel do tempo. A vida tratou de dar um soprão em todas as pessoas da cidade natal e de repente todas elas, do teu passado, retornam, como gentis fantasmas sorridentes te espreitando, te olhando, para confirmar se você é você mesma.

É neste momento que o funeral se torna uma cerimônia linda, única, entremeada de abraços e como vais, há quanto tempo, enquanto a alma do morto paira sorridente sobre o grupo, pois foi desta terra nascido e por ali viveu sendo respeitado e querido...apenas o destino o levou para outros cantos, mas sua alma mora ali, naquela cidade. É para ela que ele quer voltar.

As raízes afloram nesta hora, todos entram nos trilhos do passado e aproveitam a viagem que vai se tornando íntima e lúdica. As primas e primos, parentes e amigos que há muito não se vêem e que precisaram de reforço ocular para ter certeza de quem é este ou aquele, agora identificados, soltam a conversa.

O funeral vira uma grande e emotiva reunião onde todos se conhecem e se estranham porque já foram íntimos, e há muito, não o são.

Amigos de infância que juntos, têm as melhores recordações de criança parecem querer voltar no tempo, já começam a sorrir e se falar do mesmo jeito de 40 anos atrás ou mais.

O passado impera na cerimônia.

A alma do velado continua serena, pois afinal, em sua despedida, todos estão reunidos. Que honra.

E ele parte. Agora, para sempre. Regressa à sua terra.

À beira do túmulo, agora fechado e cheio de vivas flores e homenagens o grupo se alvoroça, é chegada a hora de voltar ao agora. Em círculos, as pessoas se misturam, andam erráticas e não sabem como se sai de lá.

A viagem de volta ao passado tem que terminar ali. Abraços de um e outro e quando se vê, se está abraçando e se despedindo pela terceira vez a mesma criatura e o grupo se alterna em círculos cada vez mais fechado e mais difícil de dissolver.

Enfim, se rompe o laço. Não tem jeito. É hora de voltar a viver a vida.

Até a morte.

Depois...é tarde!





A desvairada rotina nos suga da cama e nos joga no mundo tal como rolha de champagne arremessada em desvario.

Este é o inicio da vespertina manhã de nossas vidas.

Sem pensar, vamos aos apontamentos do dia e qual robôs, damos conta de tarefa após tarefa. Tudo no lugar, momento e timbre.

E vamos vivendo a hora, dia, mês e ano seguintes. Nada mais é agora.Tudo é depois. Nos tornamos almas penadas do tempo. Sonhando e fazendo o que ainda nem chegou.

E a vida de hoje, onde será que nós a fomos colocar? Ela não tem espaço nem para emoção porque também resolvemos não chorar agora. Choro depois, em casa, e o choro é engolido porque agora também não dá tempo e lá vamos nós a fazer bolhas na alma.

Não temos mais tempo para observar os amores em volta, querendo te laçar. Parece que uma aventura romântica está fora de lugar nesta rotina. Tantos impedimentos na mente mas o pensamento, voa livre! Será?

Não há escusas para repelir o prazer e alegria que um encontro – mesmo fortuito – pode proporcionar. Mas, todas as leis de boa conduta imperam no teu cérebro e evento após evento, rejeitamos o amoroso, sem trégua nem remorso.

Nosso coração jaz morto, coitado, de tanto ser açoitado pela dona sem compaixão.

Só mesmo a doidera de uma vida em saltos para não enxergar as paixões acontecendo, e você, deixando-as de lado.

Dizem que a vida é uma dádiva divina. E dela não aproveitam os pobres mortais. Por viverem o amanhã. Urgente é o nosso tempo.

Onde você estiver, não se esqueça de mim...

O Vazio de Vanisa - Contos do Mar

Em algum lugar numa ponteira do oceano, aquela pequena aldeia, antes viva, reluzente e cheia de movimento, se encontrava em um estado difere...