“Verônica é uma cyborg que em sua
bancada tecnológica, de frente para o mar, tem em mãos o Manual da
Verônica. Confira amanhã, dia 9 de junho!!!”
Escrever para viver e viver para escrever. A inspiração é o meu objeto de desejo a cada amanhecer e assim minha alma fica fortalecida no encontro do silêncio e da natureza marítima. Leiam com bons olhos! Mail para contato: verarenner43@gmail.com Vera Lucia Renner
“Verônica é uma cyborg que em sua
bancada tecnológica, de frente para o mar, tem em mãos o Manual da
Verônica. Confira amanhã, dia 9 de junho!!!”
O mundo clareava todo dia diferente,
com pincéis diversos, tantos quantos fossem os tons do universo à disposição.
Assim a vida nascia com cenário desigual ao de ontem, e alternativo no amanhã:
foi com este sopro que Vanisa acordou, não somente abrindo os olhos, mas
enxergando uma mudança no ambiente caseiro, com destaque para uma quentura rara
e receptiva a sua presença. Esta impressão abraçou a moça de modo tão real que
sentiu em seu corpo uma sólida vibração.
Ainda deitada, esticou o
corpo, pregou os olhos no teto levando a mão ao peito e sentindo seu coração
batendo forte. Ao sentar-se na cama ainda morna do sono reparador, percebeu a
sala iluminada, com a cor da lua e o brilho das estrelas. Lá fora, o oceano se
agrandava em suas primeiras ondas e brincalhão, respingava espuma branca no
alpendre, na tentativa vã de chamar a moradora para dentro das águas uma vez
que assim a conduzira, a esta aldeia.
Levantou-se, vestiu sua roupa
mais rústica e ainda leve, deixou seus pés descalços porque ardiam como fogo ao
se arrastar no assoalho limpo e áspero.
Parecia existir um raio oriundo da base do chalé que fluía em pequenas fisgadas
de torpor.
Resolveu checar como estava o
povoado nesta manhã que - para ela - parecia no mínimo surpreendente e ao abrir
a pesada porta, encontrou na soleira um vaso com uma delicada folhagem da qual
não reconhecia a origem, até porque sua estrada até este lugar havia sido por
via marítima. Tomou nas mãos a oferta - por enquanto anônima – que se
encontrava enrolada com capricho em um pano de linho rústico e resistente.
Depositou-o sobre a mesa de jardim, desfez o pacote ansiosa por descobrir quem
formulou o recado com tanto capricho e mistério.
Ao estender o pedaço de pano
no tablado de jardinagem ela encontrou uma singela proposta, que encheu seus
olhos de lágrimas como se fosse um bálsamo. Neste instante compreendeu que a
quentura do seu corpo no alvorecer se originou do movimento espiritual secreto
dos aldeões.
O bilhete havia sido escrito por
mãos calejadas que empregaram tinta com a qual os trabalhadores do ancoradouro
ilustram seus barcos, os remos, as velas, o casco, a âncora. Em letras com
desenho incerto a oferta seguiu tão bucólica, quanto o lugar: “Entregamos à
forasteira o atestado de posse da vida em solo que se move. O Guanandi será a
forja das raízes que por debaixo da terra marcarão a fronteira da sua chegada.”
Vou passear do lado de fora do
mundo que tantas e tantas vezes desdenho, porque sempre me empenho em fugir de
suas armadilhas a cada vez que coloco meus pés no asfalto. Em caso de força
maior, entro pela porta dos fundos, pois acredito que ali ficam os decididos, os
renegados, os sem importância e os não bonitos da vitrine. Dia destes recebi
do meu planeta um sopro de maresia empenhado em me convidar a pular o muro e andar
por outras vias.
Logo acedi ao convite, porque
deste lado não se faz desfeita, e corri a buscar no fundo do armário aquela
botina que guardei, ainda com o lustro impecável. De tempos em tempos a retiro
para matar a saudade de uma era de concreto armado. Rumei pela trilha de chão e
logo alcancei a pavimentação que fumegava no sol do meio dia. O meu pensamento
andava vago, se esforçando para focar no lado de fora da minha vida que - neste
momento - deixaria para trás: meus pés descalços, cabelo ao vento, o mar me
espreitando e toda a natureza selvagem que sempre se faz íntima.
Iniciei o passeio propriamente
dito em calçadas de cidade onde meus passos andam errantes seguindo um fluxo
onde se mistura um pouco de tudo, estonteando-me levemente. Resolvi me distrair
apreciando as vitrines e uma após outra, elas me mostraram a sutileza de nada
necessitar, mesmo sabendo que no lado de fora é aonde tudo se tem.
Já estava desanimada porque
havia tido a impressão que eu poderia – ou deveria – ter uma surpresa nesta incumbência.
Resolvi sentar-me por instantes: meus pés doíam apertados no calçado de
antanho, me sentia descabelada por um vento desorganizado vindo de polos
opostos e o meu espírito começava a dar mostra de exaustão, ao se esforçar para
o que parecia ser inútil.
Meus olhos ambulavam
preguiçosos pelo entorno repleto de distrações, quando percebi uma luz muita
intensa vindo de uma das vitrines da rua. Parecia me chamar. Ao chegar bem
perto, me deparei com uma placa de madeira com os dizeres “Fui Ver o Mar”.
Arrebanhei a peça e tomei o rumo do chão batido. A placa eu a fixei no hall
como um aviso: ao entrar, vou ver o mar: e ao sair da mesma forma.
Ando me sentindo igual à minha
gaveta de sobras: situada em um móvel de herança familiar, tão soberbo e cheio
de recordações, que quase se tornou um altar no meio da sala. Ele sempre foi
precioso e, por esse motivo, guardar lembranças pareceu ser a maneira mais
óbvia para sua presença. Lembrei dele porque já faz um tempo que me considero
por fora, como se ao meu lado houvesse uma roda, sem acesso, tornando
impossível a participação - talvez porque meus passos não se emparelhavam.
Resolvi organizar a traquitana
em apenas uma gaveta deixando a outra livre para o que houvesse no futuro, quem
sabe. Gosto de saber que a peça me acompanha há séculos e este termo me faz sentir tão ou mais antiga que
ela não fazendo parte deste mundo e deste sonho.
Um pouco arrependida de ter deixado
este sentimento aflorar fui a contragosto examinar o motivo de tal
emoção ter se manifestado com tanta intensidade, levando-me a largar o
dia vazio pela frente e enxertar o que, aparentemente, só existe em algum lugar
oculto. Ri baixinho, imaginando que ao me predispor a vasculhar o passado posso
descobrir um pedaço de mim extraviado ou jogado fora do giro em algum remoto
momento de voltas e revoltas.
Eu já começava a sentir
náuseas. Porque o sentimento de exclusão fez-se forte sendo empurrado pela
perspectiva de um dia longo, silencioso e vazio de tudo ao meu entorno,
portanto, um fácil depositário de maus presságios.
Sacudi a cabeça para que se
evadissem de mim essas pulgas enxeridas e iniciei a investigação. Abri a
primeira gaveta que rangeu soltando uma poeira fina. Esta se depositou nos meus
dedos que brilharam muito. Fiquei empertigada e comecei a catar o que ali se
encontrava: tudo estava organizado em pequenas caixas com itens importantes guardando
momentos especiais, que já passaram. Fechei o móvel lentamente, deixando tudo
como estava compreendendo por qual motivo estou fora.
Hoje tomei uma decisão baseada
nos meus ouvidos, que despertaram moucos, e não foi por não querer ouvir o que
acontece lá fora: foi por não haver simplesmente nenhum som na atmosfera, a não
ser um chiado como se fosse de rádio antigo, até porque o meu, estava
desligado. Eu sou uma adoradora de
coisas que não acontecem porque minha mente metafórica já vai entrando na
corrida progressiva da invenção, somente parando quando acionado o guarda-chuva
de palavras que se fecha com a fita crepe.
A acústica ausente me empurrou
até a faixa de areia do mar que brilhava ao sol da manhã, reluzindo os sinuosos
caminhos de moradores, de dentro e fora da areia. Todos eles se movimentavam em
prol da subsistência sistêmica das espécies vizinhas, formando um mapa
intrincado de trajetos que se cruzam, atravessam, vão juntos ou se afastam. Não
demora, a primeira onda vem aguar o primoroso desenho. Não tem importância:
amanhã eles fazem outro.
Comecei a perceber que a beira
do mar ressoava o rumor da rua, isto é: quase nada a borbulhar. Segui em frente
sem muito me alterar achando muito bom que apenas o som dos meus pés nus se fizesse
ouvir - e, mesmo assim, com uma cadência especulativa, e não de velocidade. A costa
é selvagem e misteriosa porque o alto muro de areia fina é volúvel e gosta de
dançar valsa com o vento.
O oceano, ao avançar contra os
cômoros, cavou uma entrada que findava em um casebre rústico, com telhado de
zinco e uma pequena antena que emitia delicados raios de luz, como se pulsasse
dentro de um corpo - uma máquina, um aparelho qualquer que precisasse de
propulsão.
Aproximei-me com o coração
acelerado porque lembrei do esquisitismo do alvorecer e empurrei levemente a
portinhola do local que mansamente se abriu. A cena me cativou, mais do que me surpreendeu,
porque em frente a um janelão com olhos para o mar havia todo um aparato
tecnológico monitorado por uma moça de cabelo azul profundo, olhos azuis, com
um braço mecânico, pescoço de metal, conchas raras, caneca de café e algas.
Virou-se sorrindo no momento exato em que intensa luz pulsou do seu peito,
proferindo a frase: Eu sou “Verônica.”
"Um sopro de vida, um feixe de luz vermelha na
janela... Ela chegou em silêncio. Blog da Vera Renner"
O amanhecer trouxe Vanisa já com os pés na areia, apesar do
frio. Ela se esmerava para fazer todo santo dia sua reconfiguração anônima: de
semente jogada ao vento ao renascer do chão. O esforço para ser heroica busca
perceber o mar, que gosta de surpreender: a todo momento o tempo pode virar
tempestade e colocar o que está certo e contratado, de patas para o ar.
Tudo cheirava a óleo de motor
e peixe. O ranger do barco nos troncos de deslize iniciava seu rumo, os
palheiros da marujada recendiam a tabaco recentemente enrolado, as baforadas se
mesclavam com a maresia funcionando como chamariz aos aldeões: estava na hora
da pesca! Ela, que morava perto do pequeno ancoradouro passou a mão no alforge,
guardou secretamente a bussola antiga que havia encontrado no porão rumando
rapidamente até o barco que estava prestes a singrar ondas já bravias. Ao se depararem com a silhueta diáfana frente a
instrumentos rústicos, esboçaram um largo sorriso, acenando para que ela se
acomodasse na proa do pequeno veleiro, um lugar de honra ao visitante.
Todos sentiam a delicadeza nas
marolas verdes de hoje que apenas beijava o casco, mal lambendo os pés da nova
companhia que todos reverenciavam, deixando-a pouco à vontade. Não demorou
muito para conferirem-lhe a incumbência
de estender a vista até onde o horizonte se confunde com o oceano. Receosos, os
marujos observaram que a presença da moça movimentava tanto as águas rasas
quanto profundas, sendo acompanhadas por um zunido longínquo, semelhante ao
temido canto da sereia.
Vanisa se perdeu em seus
pensamentos, que foram desviados pelo borrifo de salitre no rosto que a fez
corar, lembrando da apoteótica chegada na maré estagnada, a bordo do “gigante
de ferro”. Neste momento, o casco da caravela submergiu levemente devido ao
estancar do vento e murchar das velas. A calmaria engoliu o grupo de pescadores
quando, ao mesmo tempo, o labirinto cristalino do planeta oceânico surgiu
frente a ela, demonstrando seu reconhecimento da figura mítica.
Do alto do convés ela mostrou
a bussola antiga e, sorrindo ofereceu o seu intento: o oceano profundo se
compadeceu e resgatou a brisa escondida, movimentou os ponteiros do quadrante,
as velas se ergueram e o zunido do canto das sereias se esvaneceu. Chegaram ao
pequeno porto com os porões de pescado lotados e - na espera - as caldeiras
fumegavam na faixa de areia. Pisarão a terra firme com Vanisa capitaneando o
destino de todos.
"Escrevi. Chorei um pouco. Pendurei a placa 'FUI VER O MAR'. Domingo eu deixo vocês lerem por que." Vanisa: novo capítulo. No blog amanhã.
O dia estava claro e límpido
com os ventos outonais escondidos nos cômoros, embora o mar estivesse um pouco
fora de si, comendo a borda dos muros de areia. Todos já conhecem a natureza
rebelde do rei das águas que mira o estrago, com olhos opacos. A brisa de vez
em quando busca arrebanhar a terra fina e branca para remontar o que foi desfeito,
mas sem sucesso.
Parece diferente perceber que
apesar da paradeira do clima onde não se mexe nem uma folha, o oceano rebola
faceiro em desencontradas marolas que, vez ou outra, jogam uma lufada de água
com sal na vidraça das casas que ousaram enterrar suas fundações na gola da
areia, antes do mar, na costa deserta neste tempo frio. Por ali as ondas
menores fazem a travessura de jogar espuma com areia fina e depois fugir, não
havendo ninguém que possa impedir tal ato da tímida brincadeira da natureza. O
sol se esconde na peraltice da tarde sem vento.
Porém, é nesta janela que está
colocada a poltrona preferida do avô da casa, designada fora de sua pretensão.
Aos olhos de quem vê de dentro para fora, desde o amanhecer até a noitinha,
escorrega pela umidade desta abertura a melancolia de olhos que se jogam ao
chão. Na retina, imagens de uma antiga residência se sucedem, deslizando em
pequenas gotas de múltiplos formatos e uma fosforescência de matizes reconhecidos
pelo rosto do ancião. E assim todo dia, por dentro e por fora, as cenas do
filme de uma vida escorregam como se fossem vivos acontecimentos serpenteando
entre o sal, a água e o sonho vivido.
Há muito tempo guardei meu
cálice preferido. Não lembro o motivo do afastamento quando o coloquei em uma
prateleira especial, apenas tendo a impressão de que não o queria por perto. A
peça foi lavrada em um cristal puro, pesado, com uma transparência ondulada,
fazendo com que o olhar através dela flutuasse em pequenas ondas, determinando que
a visão, assim como a respiração, operava em cadência única naquele mágico
início de todas as noites, quando os sinos dobram.
Viramos as costas um para o
outro. Acredito que eu tenha tomado esta atitude porque, nestes dias que se
anoitavam, não podia mais perceber o aroma do mar se infiltrando por portas e
janelas mal fechadas, intencionalmente. O banho de salitre na alma fazia parte
da transparência da taça que batizava o ritual da mente que se esvaía em
ausência, com a promessa de voltar na manhã seguinte como página em
branco.
O fantasma de cristal
rejeitado pela realidade, o deixou opaco. Não é mais possivel divisar a
intensidade do anoitecer que se despede, nem acompanhar o som clássico do
mantra entoado em uma rádio qualquer. De dentro da vitrine a portas fechadas, o
cálice sufoca em uma nuvem de areia fina sem encontrar a alma no
crepúsculo desarmado.
Na mesa ao lado preservei a
mancha característica da taça, que muitas vezes lacrimejava comigo, ria da
audácia, das conversas ácidas, das açucaradas, do riso espontâneo e do choro
convulsivo. E foi assim, sem aviso, que o berço do cálice de cristal ficou
vazio.
Rumei para a rua muito cedo e
logo dei me conta que algo estava acontecendo. O dia amanhecera morno como
leite de criança, não havia barulho de marretas nem motor desregulado, briga de
vizinho e tampouco a matilha de cachorros grandes se apresentava. Talvez meus
ouvidos moucos se tivessem apertado um pouco mais. Sempre ajusto tudo que vou
enfrentar no espaço público para assim caminhar sem nenhuma companhia indesejada
ou, que se empoleire no meu ombro sem que eu perceba.
Pensando neste meu jeito um
tanto afoito, empurrei o portão de ferro antigo que ainda guarda ferrugem, mas
sua aldrava está sempre azeitada, com seus adereços de metal fundido, datados
de muitos anos antes de ali me acomodar.
A calçada de pedrinhas brilhantes, com acesso ao alpendre, reluzia no clima
tépido que evoluía mansamente.
Entrei na casa em velocidade
maior do que normalmente o faço, provavelmente porque meu espirito se acalmou
no decorrer do passeio nas calçadas aquietadas de maneira estranha. Meus pés
bateram forte, praticamente sem querer, no assoalho antigo que ressoou de forma
alarmante, me jogando um passo atrás. Recuperei o fôlego e passei os olhos em
todo ambiente caseiro.
Comecei a examinar o porquê do
espaço estar reverberando sons há muito dissipados por força do jeito de morar,
da forma carinhosa trocada com os objetos preciosos, das paredes cuidadas como
se fossem a galeria da minha vida, dos tapetes trançados ponto a ponto pela
minha mãe e pelas prateleiras guardiãs das louças da minha avó. Tudo isso
estava ali. À frente.
Sentei-me na poltrona
preferida que acolhe meus ossos sem ranger, recebendo, no entanto, um estrondo
de volta. Apurei meus ouvidos porque a esta altura, havia uma ressonância
altiva dentro da casa tornando difícil adivinhar quem falava o quê ou de onde
efetivamente os ruídos se originavam, dando a entender que havia a batuta de um
maestro. No fundo do espelho da sala vi minha imagem refletida em mil
partículas de luz difusa demonstrando que, do passeio de hoje, nasceu o ruído
da casa em lágrimas secas.
O inverno chegou com força na
aldeia de Vanisa onde o cenário não era de desolação, mas de pressa de
esquentar os ossos através do trabalho pesado, da puxação de corda, do empurrar
dos barcos pesqueiros mar adentro, da marujada entoando cantorias para acalorar
a garganta. As fogueiras improvisadas no meio da praia iniciaram a fumegar
junto com a chuva fina insistente. Por ali, o tempo sempre será louvado, não
importando se gotas de precipitação se derramam para abençoa-los no frio, se o
vento espanta os cardumes na primavera, se o plantio desaba no outono e o sol
torra seus lombos já queimados de sal.
O oceano estava calmo para um
passeio em sua borda, e foi o que ela fez. Puxou sua capa antiga que abraçou
seu corpo com carinho, como se fossem velhas conhecidas e seguiram encosta
acima para observar os moradores que guardam suas casas para a volta vitoriosa
da produção, espiar se as crianças estão bem agasalhadas e zelar pelos idosos,
que não tem medo do frio esticando a língua na contação de histórias.
O vento acrescentava um
sentimento de fuga no corpo dela, talvez querendo se escafeder da iniciativa de
caminhar por aí. Ela não se importou porque sempre tinha um palpite que algo
importante estava por acontecer quando ela, como hoje, enveredava por trilhar o
caminho da descoberta.
Seguiu no pé firme morro acima,
morro abaixo quando, em uma picada mais livre de vegetação o vento quase a
tombou. Assustada buscou o abrigo dos bolsos, puxou o capuz até a testa e
desceu rapidamente o trecho. Ao firmar o passo seus dedos tocaram algo no fundo
do tecido: um envelope muito antigo, com bordas rasgadas e lacre rompido.
Lembrou-se, então, que todas as suas roupas e até adereços foram doadas pelos
aldeões. Estes, demonstraram intimidade ao se instalar em seus armários, ao rés
do chão, escrivaninha e utensílios variados de uso caseiro.
Vanisa se deu conta que a
memória vai colecionando acontecimentos durante o tempo que arrefece a luz do
sol, deixando rastros físicos dentro de gavetas, fundo de armário, fendas de
agasalhos, malas guardadas, botas que descansaram um bom período. Todos estes
são esconderijos perfeitos para a hora em que nossos sentimentos se voltam para
dentro, que a voz emudece, que os olhos marejam e as mãos se escondem nos
agasalhos.
Já dentro de casa, esquentou a
água para o chá, estendeu o envelope rompido em cima da escrivaninha, despejou
poucas gotas de afeto no ferrolho arrebentado, que romanticamente se reuniu em
si. Vanisa pensou: lembranças antigas que chegarem sem destino, ao seu próprio,
retornam.
Verônica já havia se ambientado ao espaço que encontrou - e invadiu – para fugir do descarte violento a que foi submetida por mãos desconh...