domingo, 24 de maio de 2026

Vanisa: Lembranças Sem Destino

 


O inverno chegou com força na aldeia de Vanisa onde o cenário não era de desolação, mas de pressa de esquentar os ossos através do trabalho pesado, da puxação de corda, do empurrar dos barcos pesqueiros mar adentro, da marujada entoando cantorias para acalorar a garganta. As fogueiras improvisadas no meio da praia iniciaram a fumegar junto com a chuva fina insistente. Por ali, o tempo sempre será louvado, não importando se gotas de precipitação se derramam para abençoa-los no frio, se o vento espanta os cardumes na primavera, se o plantio desaba no outono e o sol torra seus lombos já queimados de sal.

O oceano estava calmo para um passeio em sua borda, e foi o que ela fez. Puxou sua capa antiga que abraçou seu corpo com carinho, como se fossem velhas conhecidas e seguiram encosta acima para observar os moradores que guardam suas casas para a volta vitoriosa da produção, espiar se as crianças estão bem agasalhadas e zelar pelos idosos, que não tem medo do frio esticando a língua na contação de histórias.

O vento acrescentava um sentimento de fuga no corpo dela, talvez querendo se escafeder da iniciativa de caminhar por aí. Ela não se importou porque sempre tinha um palpite que algo importante estava por acontecer quando ela, como hoje, enveredava por trilhar o caminho da descoberta.

Seguiu no pé firme morro acima, morro abaixo quando, em uma picada mais livre de vegetação o vento quase a tombou. Assustada buscou o abrigo dos bolsos, puxou o capuz até a testa e desceu rapidamente o trecho. Ao firmar o passo seus dedos tocaram algo no fundo do tecido: um envelope muito antigo, com bordas rasgadas e lacre rompido. Lembrou-se, então, que todas as suas roupas e até adereços foram doadas pelos aldeões. Estes, demonstraram intimidade ao se instalar em seus armários, ao rés do chão, escrivaninha e utensílios variados de uso caseiro.

Vanisa se deu conta que a memória vai colecionando acontecimentos durante o tempo que arrefece a luz do sol, deixando rastros físicos dentro de gavetas, fundo de armário, fendas de agasalhos, malas guardadas, botas que descansaram um bom período. Todos estes são esconderijos perfeitos para a hora em que nossos sentimentos se voltam para dentro, que a voz emudece, que os olhos marejam e as mãos se escondem nos agasalhos.

Já dentro de casa, esquentou a água para o chá, estendeu o envelope rompido em cima da escrivaninha, despejou poucas gotas de afeto no ferrolho arrebentado, que romanticamente se reuniu em si. Vanisa pensou: lembranças antigas que chegarem sem destino, ao seu próprio, retornam.

 

 

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