domingo, 31 de maio de 2026

Vanisa e o Labirinto Cristalino

 


O amanhecer trouxe Vanisa já com os pés na areia, apesar do frio. Ela se esmerava para fazer todo santo dia sua reconfiguração anônima: de semente jogada ao vento ao renascer do chão. O esforço para ser heroica busca perceber o mar, que gosta de surpreender: a todo momento o tempo pode virar tempestade e colocar o que está certo e contratado, de patas para o ar.

Tudo cheirava a óleo de motor e peixe. O ranger do barco nos troncos de deslize iniciava seu rumo, os palheiros da marujada recendiam a tabaco recentemente enrolado, as baforadas se mesclavam com a maresia funcionando como chamariz aos aldeões: estava na hora da pesca! Ela, que morava perto do pequeno ancoradouro passou a mão no alforge, guardou secretamente a bussola antiga que havia encontrado no porão rumando rapidamente até o barco que estava prestes a singrar ondas já bravias.  Ao se depararem com a silhueta diáfana frente a instrumentos rústicos, esboçaram um largo sorriso, acenando para que ela se acomodasse na proa do pequeno veleiro, um lugar de honra ao visitante.

Todos sentiam a delicadeza nas marolas verdes de hoje que apenas beijava o casco, mal lambendo os pés da nova companhia que todos reverenciavam, deixando-a pouco à vontade. Não demorou muito para  conferirem-lhe a incumbência de estender a vista até onde o horizonte se confunde com o oceano. Receosos, os marujos observaram que a presença da moça movimentava tanto as águas rasas quanto profundas, sendo acompanhadas por um zunido longínquo, semelhante ao temido canto da sereia.

Vanisa se perdeu em seus pensamentos, que foram desviados pelo borrifo de salitre no rosto que a fez corar, lembrando da apoteótica chegada na maré estagnada, a bordo do “gigante de ferro”. Neste momento, o casco da caravela submergiu levemente devido ao estancar do vento e murchar das velas. A calmaria engoliu o grupo de pescadores quando, ao mesmo tempo, o labirinto cristalino do planeta oceânico surgiu frente a ela, demonstrando seu reconhecimento da figura mítica.

Do alto do convés ela mostrou a bussola antiga e, sorrindo ofereceu o seu intento: o oceano profundo se compadeceu e resgatou a brisa escondida, movimentou os ponteiros do quadrante, as velas se ergueram e o zunido do canto das sereias se esvaneceu. Chegaram ao pequeno porto com os porões de pescado lotados e - na espera - as caldeiras fumegavam na faixa de areia. Pisarão a terra firme com Vanisa capitaneando o destino de todos.

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