O amanhecer trouxe Vanisa já com os pés na areia, apesar do
frio. Ela se esmerava para fazer todo santo dia sua reconfiguração anônima: de
semente jogada ao vento ao renascer do chão. O esforço para ser heroica busca
perceber o mar, que gosta de surpreender: a todo momento o tempo pode virar
tempestade e colocar o que está certo e contratado, de patas para o ar.
Tudo cheirava a óleo de motor
e peixe. O ranger do barco nos troncos de deslize iniciava seu rumo, os
palheiros da marujada recendiam a tabaco recentemente enrolado, as baforadas se
mesclavam com a maresia funcionando como chamariz aos aldeões: estava na hora
da pesca! Ela, que morava perto do pequeno ancoradouro passou a mão no alforge,
guardou secretamente a bussola antiga que havia encontrado no porão rumando
rapidamente até o barco que estava prestes a singrar ondas já bravias. Ao se depararem com a silhueta diáfana frente a
instrumentos rústicos, esboçaram um largo sorriso, acenando para que ela se
acomodasse na proa do pequeno veleiro, um lugar de honra ao visitante.
Todos sentiam a delicadeza nas
marolas verdes de hoje que apenas beijava o casco, mal lambendo os pés da nova
companhia que todos reverenciavam, deixando-a pouco à vontade. Não demorou
muito para conferirem-lhe a incumbência
de estender a vista até onde o horizonte se confunde com o oceano. Receosos, os
marujos observaram que a presença da moça movimentava tanto as águas rasas
quanto profundas, sendo acompanhadas por um zunido longínquo, semelhante ao
temido canto da sereia.
Vanisa se perdeu em seus
pensamentos, que foram desviados pelo borrifo de salitre no rosto que a fez
corar, lembrando da apoteótica chegada na maré estagnada, a bordo do “gigante
de ferro”. Neste momento, o casco da caravela submergiu levemente devido ao
estancar do vento e murchar das velas. A calmaria engoliu o grupo de pescadores
quando, ao mesmo tempo, o labirinto cristalino do planeta oceânico surgiu
frente a ela, demonstrando seu reconhecimento da figura mítica.
Do alto do convés ela mostrou
a bussola antiga e, sorrindo ofereceu o seu intento: o oceano profundo se
compadeceu e resgatou a brisa escondida, movimentou os ponteiros do quadrante,
as velas se ergueram e o zunido do canto das sereias se esvaneceu. Chegaram ao
pequeno porto com os porões de pescado lotados e - na espera - as caldeiras
fumegavam na faixa de areia. Pisarão a terra firme com Vanisa capitaneando o
destino de todos.

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