sexta-feira, 29 de maio de 2026

Retinas de Sal

 


O dia estava claro e límpido com os ventos outonais escondidos nos cômoros, embora o mar estivesse um pouco fora de si, comendo a borda dos muros de areia. Todos já conhecem a natureza rebelde do rei das águas que mira o estrago, com olhos opacos. A brisa de vez em quando busca arrebanhar a terra fina e branca para remontar o que foi desfeito, mas sem sucesso.

Parece diferente perceber que apesar da paradeira do clima onde não se mexe nem uma folha, o oceano rebola faceiro em desencontradas marolas que, vez ou outra, jogam uma lufada de água com sal na vidraça das casas que ousaram enterrar suas fundações na gola da areia, antes do mar, na costa deserta neste tempo frio. Por ali as ondas menores fazem a travessura de jogar espuma com areia fina e depois fugir, não havendo ninguém que possa impedir tal ato da tímida brincadeira da natureza. O sol se esconde na peraltice da tarde sem vento.

Porém, é nesta janela que está colocada a poltrona preferida do avô da casa, designada fora de sua pretensão. Aos olhos de quem vê de dentro para fora, desde o amanhecer até a noitinha, escorrega pela umidade desta abertura a melancolia de olhos que se jogam ao chão. Na retina, imagens de uma antiga residência se sucedem, deslizando em pequenas gotas de múltiplos formatos e uma fosforescência de matizes reconhecidos pelo rosto do ancião. E assim todo dia, por dentro e por fora, as cenas do filme de uma vida escorregam como se fossem vivos acontecimentos serpenteando entre o sal, a água e o sonho vivido.

 

Nenhum comentário:

Retinas de Sal

  O dia estava claro e límpido com os ventos outonais escondidos nos cômoros, embora o mar estivesse um pouco fora de si, comendo a borda do...