O dia estava claro e límpido
com os ventos outonais escondidos nos cômoros, embora o mar estivesse um pouco
fora de si, comendo a borda dos muros de areia. Todos já conhecem a natureza
rebelde do rei das águas que mira o estrago, com olhos opacos. A brisa de vez
em quando busca arrebanhar a terra fina e branca para remontar o que foi desfeito,
mas sem sucesso.
Parece diferente perceber que
apesar da paradeira do clima onde não se mexe nem uma folha, o oceano rebola
faceiro em desencontradas marolas que, vez ou outra, jogam uma lufada de água
com sal na vidraça das casas que ousaram enterrar suas fundações na gola da
areia, antes do mar, na costa deserta neste tempo frio. Por ali as ondas
menores fazem a travessura de jogar espuma com areia fina e depois fugir, não
havendo ninguém que possa impedir tal ato da tímida brincadeira da natureza. O
sol se esconde na peraltice da tarde sem vento.
Porém, é nesta janela que está
colocada a poltrona preferida do avô da casa, designada fora de sua pretensão.
Aos olhos de quem vê de dentro para fora, desde o amanhecer até a noitinha,
escorrega pela umidade desta abertura a melancolia de olhos que se jogam ao
chão. Na retina, imagens de uma antiga residência se sucedem, deslizando em
pequenas gotas de múltiplos formatos e uma fosforescência de matizes reconhecidos
pelo rosto do ancião. E assim todo dia, por dentro e por fora, as cenas do
filme de uma vida escorregam como se fossem vivos acontecimentos serpenteando
entre o sal, a água e o sonho vivido.

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