quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Cálice Perdido

 


Há muito tempo guardei meu cálice preferido. Não lembro o motivo do afastamento quando o coloquei em uma prateleira especial, apenas tendo a impressão de que não o queria por perto. A peça foi lavrada em um cristal puro, pesado, com uma transparência ondulada, fazendo com que o olhar através dela flutuasse em pequenas ondas, determinando que a visão, assim como a respiração, operava em cadência única naquele mágico início de todas as noites, quando os sinos dobram.

Viramos as costas um para o outro. Acredito que eu tenha tomado esta atitude porque, nestes dias que se anoitavam, não podia mais perceber o aroma do mar se infiltrando por portas e janelas mal fechadas, intencionalmente. O banho de salitre na alma fazia parte da transparência da taça que batizava o ritual da mente que se esvaía em ausência, com a promessa de voltar na manhã seguinte como página em branco. 

O fantasma de cristal rejeitado pela realidade, o deixou opaco. Não é mais possivel divisar a intensidade do anoitecer que se despede, nem acompanhar o som clássico do mantra entoado em uma rádio qualquer. De dentro da vitrine a portas fechadas, o cálice sufoca em uma nuvem de areia fina sem encontrar a   alma no crepúsculo desarmado.

Na mesa ao lado preservei a mancha característica da taça, que muitas vezes lacrimejava comigo, ria da audácia, das conversas ácidas, das açucaradas, do riso espontâneo e do choro convulsivo. E foi assim, sem aviso, que o berço do cálice de cristal ficou vazio.

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