Rumei para a rua muito cedo e
logo dei me conta que algo estava acontecendo. O dia amanhecera morno como
leite de criança, não havia barulho de marretas nem motor desregulado, briga de
vizinho e tampouco a matilha de cachorros grandes se apresentava. Talvez meus
ouvidos moucos se tivessem apertado um pouco mais. Sempre ajusto tudo que vou
enfrentar no espaço público para assim caminhar sem nenhuma companhia indesejada
ou, que se empoleire no meu ombro sem que eu perceba.
Pensando neste meu jeito um
tanto afoito, empurrei o portão de ferro antigo que ainda guarda ferrugem, mas
sua aldrava está sempre azeitada, com seus adereços de metal fundido, datados
de muitos anos antes de ali me acomodar.
A calçada de pedrinhas brilhantes, com acesso ao alpendre, reluzia no clima
tépido que evoluía mansamente.
Entrei na casa em velocidade
maior do que normalmente o faço, provavelmente porque meu espirito se acalmou
no decorrer do passeio nas calçadas aquietadas de maneira estranha. Meus pés
bateram forte, praticamente sem querer, no assoalho antigo que ressoou de forma
alarmante, me jogando um passo atrás. Recuperei o fôlego e passei os olhos em
todo ambiente caseiro.
Comecei a examinar o porquê do
espaço estar reverberando sons há muito dissipados por força do jeito de morar,
da forma carinhosa trocada com os objetos preciosos, das paredes cuidadas como
se fossem a galeria da minha vida, dos tapetes trançados ponto a ponto pela
minha mãe e pelas prateleiras guardiãs das louças da minha avó. Tudo isso
estava ali. À frente.
Sentei-me na poltrona
preferida que acolhe meus ossos sem ranger, recebendo, no entanto, um estrondo
de volta. Apurei meus ouvidos porque a esta altura, havia uma ressonância
altiva dentro da casa tornando difícil adivinhar quem falava o quê ou de onde
efetivamente os ruídos se originavam, dando a entender que havia a batuta de um
maestro. No fundo do espelho da sala vi minha imagem refletida em mil
partículas de luz difusa demonstrando que, do passeio de hoje, nasceu o ruído
da casa em lágrimas secas.

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