terça-feira, 26 de maio de 2026

Labirinto do Silêncio

 


Rumei para a rua muito cedo e logo dei me conta que algo estava acontecendo. O dia amanhecera morno como leite de criança, não havia barulho de marretas nem motor desregulado, briga de vizinho e tampouco a matilha de cachorros grandes se apresentava. Talvez meus ouvidos moucos se tivessem apertado um pouco mais. Sempre ajusto tudo que vou enfrentar no espaço público para assim caminhar sem nenhuma companhia indesejada ou, que se empoleire no meu ombro sem que eu perceba.

Pensando neste meu jeito um tanto afoito, empurrei o portão de ferro antigo que ainda guarda ferrugem, mas sua aldrava está sempre azeitada, com seus adereços de metal fundido, datados de muitos anos antes de ali me acomodar.  A calçada de pedrinhas brilhantes, com acesso ao alpendre, reluzia no clima tépido que evoluía mansamente.

Entrei na casa em velocidade maior do que normalmente o faço, provavelmente porque meu espirito se acalmou no decorrer do passeio nas calçadas aquietadas de maneira estranha. Meus pés bateram forte, praticamente sem querer, no assoalho antigo que ressoou de forma alarmante, me jogando um passo atrás. Recuperei o fôlego e passei os olhos em todo ambiente caseiro.

Comecei a examinar o porquê do espaço estar reverberando sons há muito dissipados por força do jeito de morar, da forma carinhosa trocada com os objetos preciosos, das paredes cuidadas como se fossem a galeria da minha vida, dos tapetes trançados ponto a ponto pela minha mãe e pelas prateleiras guardiãs das louças da minha avó. Tudo isso estava ali. À frente.

Sentei-me na poltrona preferida que acolhe meus ossos sem ranger, recebendo, no entanto, um estrondo de volta. Apurei meus ouvidos porque a esta altura, havia uma ressonância altiva dentro da casa tornando difícil adivinhar quem falava o quê ou de onde efetivamente os ruídos se originavam, dando a entender que havia a batuta de um maestro. No fundo do espelho da sala vi minha imagem refletida em mil partículas de luz difusa demonstrando que, do passeio de hoje, nasceu o ruído da casa em lágrimas secas.

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