sábado, 25 de janeiro de 2025

Onde estão as palavras

 

Por mais que eu saiba onde os vocábulos estão, em que página, em qual dicionário, em qual livro se acomodam, não as tenho encontrado com facilidade.

Elas demoram para aparecer como se estivessem com pressão demais ou na contrapartida um certo desdém e por este motivo andam camufladas. Quem sabe sentem-se envergonhadas ao serem obrigadas a mostrar uma torrente de termos impróprios, fazendo-as corar de decepção e embaraço, preferindo não dar na vista a dita frase que poderá constranger os brios do vernáculo.

O composto em sequência de vogal e consoante que encaixa todos os nomes, pronomes, virgulas, pontuação, parágrafo e travessão formando o conjunto a ser lido sumiu como que por encanto dos rascunhos amassados e jogados ao redor do teclado.

Anda parecendo que me engano no encaixe uma vez que a grafia correta escorrega do papel, se apaga como num passe de mágica, os fonemas fogem horrorizados com o absurdo relatado nas inocentes linhas, linhas estas que vazias se oferecem para bem servir o pensamento que insiste em se expandir teimosamente, mesmo percebendo que as tintas do pensamento andam navegando em outros mares. Mares ocultos e não navegados com frases que não fazem mais sentido


domingo, 19 de janeiro de 2025

Ventos uivantes

 

Por aqui, neste pedaço de mar e terra insólito por calmo ser, o vento chega como quem não quer nada parecendo até pedir desculpas antecipadas por estar, eventualmente embaralhando o que tiver pela frente acredito até que por pura diversão, enquanto o calor grassa na areia escaldante o vento resolve brincar de esconde-esconde, aparecendo e desaparecendo como que por mágica.

Tudo inicia com uma calmaria inquietante com um ou outro sopro inusitado que levanta aqui e ali um Areial e logo se acomoda, disfarçando o que há de vir, balançando a vegetação dos cômoros, tapando as casinhas de tuco-tuco e de coruja, com este ar de normalidade e refresco.

Como os tempos são de números excedentes em tudo o que se refere aos calores de verão o primeiro a se manifestar na ventania é bem no rés do chão quando o sopro afoito açoita os comandantes moradores de abaixo do chão que ao se refestelar em águas mais quentes se aquietam no sufoco do areiame e correm para o buraco.

Depois, os humanos iniciam sua jornada de corrida ao chapéu, ao guarda-sol, à canga e o que mais houver que possa voejar nos braços do vento airoso e forte, aliás, ele sempre com um cínico sorriso nos lábios.

Mas o rumoroso destino da tempestade de areia ultrapassa a meia praia e se joga com furor nos morros, nas estepes, nos matos de eucaliptos e de pinus não havendo uma única folha que não passe o dia se virando e revirando com esta brisa indômita.

E deste jeito vai passando o tempo e as vestes, as bandeiras, as ventarolas, os banners, já esfarrapados não se cansam de ir ao mar por ser um movimento atávico de cada praieiro gaúcho. Faça sol, faça chuva, faça vento, lá estou eu!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Aos pedaços

 

No todo que se apresenta parece haver uma falha que eu não consigo vislumbrar muito bem, distinguir o acertado e o apartado, o encostado e o sumido o que me causa certa, apreensão para destacar o mínimo. Encomendei que tudo viesse no mesmo formato, com as mesmas características de um aglomerado minimamente coerente.

Me parece agora que houve ali uma ruptura que viceja por debaixo da aparência que se esconde em profunda sutileza de forma alguma passando despercebida. Talvez fosse proposital, talvez fosse o modo correto de sempre, mas não para esta ocasião que prevê desprendimento, alegria, coração aberto e braços erguidos para o abraço.

E assim segue a passo a ocasião marcada por cortes aqui e ali, prenhe de significado real, saudoso do havido em tempos idos, ansioso por novas histórias e, principalmente, tempo mais largo para cria-las.

Melhor aceitar que muito pode acontecer aos bocados restando a tarefa de juntá-los com paciência deixando que a vida trate de reunir o que por ora se apresenta em porções desconexas na sua maioria.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Desta vez

Achei por bem relevar, colocar no escanteio, fazer ouvidos moucos e mente desacordada para tudo o que se aproxima de mim a passos largos, que pode ser fruto da imaginação ou a realidade se impondo tumultuada na escuridão da vida paralela, havendo a possibilidade de que uma armadilha esteja armada só pelo gosto de açodar a minha alma, essa daí que ora anda em léguas, ora se arrasta, ora se curva sem forças.

Desta vez vou deixar que avance a intenção e me colocar em guarda na observação e, com lápis e papel em punho lá me vou registrando o que acontece como nos tempos de outrora.

De primeira mão não vou fazer nenhum juízo, vou apenas exercitar o meu raro atributo de lembrete para, na sequência, fazer registros. Estas notas, primeiramente passarão pelo escrutínio da minha emoção e com um tempo nem curto nem longo os colocarei ao rés do chão, lado a lado e mal comparando. Após isto feito, saio de cena silente, como em tantas outras investidas recebidas.

Pressenti que neste patamar vou fazer diferente ludibriando a mim mesma, alçando voo para conseguir uma vista panorâmica dos feitos em andamento no andar de baixo que está em formação.  Espero a chegada com altivez de quem está em guarda premeditada.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Cabeleira de maré

 

A tempestade anunciada com alarde sempre vem com o destino traçado de destruição, de terra arrasada, de mar nas alturas, de barrancos desmoronando, de postes em colapso, de botes e navios adernando parecendo que o fim dos tempos realmente vai chegar com dia e hora marcados, tanto para abordar-se quanto para evadir-se e no mesmo ritmo do anúncio a correria se instala  causando transtorno igual ou maior do que o anunciado vendaval com pompa e circunstância. A adrenalina começa a correr forte no sangue de bichos e gentes que arrepiam a carcaça externa e interna em posição de sentido para a luta.

O oceano enfarpelado tal como cabeleira de maré invade a meia praia parecendo desejar se evadir do furor em seu lugar de origem, o alto mar. Aderna por aqui todo tipo de personagem começando pelo velho marinheiro que se estabelece com sua parafernália de pescaria inutilizada neste momento pelo nó cego que as ondas realizaram em sua rede de pesca e que tais.

O vento surge audacioso valsando com audácia, descabelando toda sorte de árvore, arbusto e inço rastaquera não poupando ninguém enquanto assobia e canta esperando que a chuva venha lhe fazer companhia.

Tudo pronto na face da terra para a grande defesa ao clima ameaçador que paira sobre a cabeça do velho lobo do mar que espreita os acontecimentos com desconfiança uma vez que utiliza seus instrumentos adquiridos através da experiência na navegação de anos em águas bravias.

Arrebitou o nariz, apontou o dedo para o negro horizonte, alisou a cabeleira revolta e assentou. Puxou o palheiro, desdobrou sua rede, arrumou caniço e anzóis preparando-se para o desenlace que certamente ocorreria em poucos minutos. Assim como veio a notícia ameaçadora por via remota novamente vence o faro de quem habita o mar e, com singela humildade, o vento amainou, o mar retrocedeu e bichos e gentes saíram da toca ocasional renovando a fé nos ensinamentos da vida natural.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

O desafio diário

O desafio naquele dia se encontrava em um certo aperto ao redor, um sinal vermelho para o movimento, um gradeado inusitado e sem propósito alçando os ambientes do entorno, um certo medo de tudo ou quase tudo levando ao encarceramento da vontade, do sorriso, da conversa deixando este dia em modo de espera desesperador.

Segui enclausurada dentro de mim e apesar do esforço hercúleo em me livrar do aprisionamento mais me enredava na teia pegajosa e invisível que abarcava além de mim o mundo ruidoso ao redor que agora teimosamente se imiscuía de afrontar o silêncio imposto por uma aparente ordem de vida desconhecida.

O olhar vagava lento e interessado em buscar na visualização a resposta para a paralisia circundante sem êxito. Dei-me conta lentamente que os impedimentos que me cercavam não tinham autoria, não vinha de nenhuma voz interior ou do além, não havia nenhum exercito barrando os caminhos, inexistiam muralhas intransponíveis e tampouco vozes expressando palavras de ordem.

Ergui a cabeça mirando pela primeira vez, depois de iniciado o estupor que me envolvia, o firmamento, que lá se encontrava impávido e misterioso iluminando a escuridão com toda a galáxia a seu dispor. Me pareceu que estava mais do que na hora de acordar do pesadelo, alçar voo e seguir na busca dos caminhos desconhecidos.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Novo tempo de Luz

 

Levantei a cabeça com dificuldade naquele dia pois a caminhada no escuro exauria minhas forças, minha visão e meu raciocínio causando este estado de estupor frente ao que se passava à minha frente, ao lado e atrás. Nem sei direito se era real a sensação de nó na garganta, de teia em redemoinho de corda forte ou se era a conjunção difícil que o Universo emanava para todos os lados quase que sem critério me atingindo em cheio pelo visto.

Sentei na beira do caminho desolada quando percebi que a bagagem que eu carregava estava pesando demasiadamente e me pus a pensar o que poderia ser interessante descartar para que eu tivesse inciativa e coragem de me evadir daquele lugar que de uma hora para outra se tornou inóspito e desconhecido para mim. Imperativo buscar o incógnito que tanto almejo.

Ponderada, coloquei em minha frente a carga que me acompanhava e ao analisar com critério o que se apresentava percebi com clareza que o maior volume não constava de objetos físicos que eu havia recolhido às pressas. Curiosa e alerta resolvi abrir aquela maleta antiga de couro sovado. Nela eu havia guardado todas as lembranças, boas e outras nem tanto. Escrutinando o manancial de assuntos remotos pesou sobremaneira meu espirito que tombou em desalento.

Delicadamente depositei em um altar improvisado na beira do caminho todo o peso que eu sentia, orando ao Pai Eterno que enviasse os Anjos de Luz para resgate. Neste momento surgiu brilhante no horizonte o túnel do Novo Tempo. Aleluia.

 

domingo, 24 de novembro de 2024

Gosto amargo

 

Girei os calcanhares com gosto amargo na boca travando meu raciocínio para reconhecer o espaço de tempo que ocupo desde há muito e que hoje não distingo como sendo de minha escolha ou, se foi, sumiu sua capacidade benfazeja e, aparentemente, submergiu todo o sentido, empalideceu seu entorno, desmereceu a cor do dia enevoando a lembrança e obstruindo o caminho em curso.

Quase ao mesmo tempo deste momento incomum surgiram tantas possibilidades de escolha e descarte estonteando o momento e deixando meu coração apertado frente a batalha em ir ao cabo do mundo, tomar novos ares, dar apenas um giro ou andar de terra em terra até me assentar.

Na grande mesa de vidro da vida as alternativas se alinhavam multifacetadas e com tanta rapidez que pareceu impossível estancar o passo e analisar a melhor escolha me deixando sem ação na apresentação caótica me dando a impressão que nenhuma daquelas rotas me faria caminhar.

Resolvi seguir em frente com a mente vazia de sentido, tomar novos ares, confiando que deveria palmilhar rotas iluminadas, desconhecidas, silenciosas e que reverenciassem o espirito. Assim fiz.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Um bilhete

O dia chora desesperado, ora com altos soluços, ora mansamente como que pedindo perdão pelo excesso, pela falta de cuidado do vento que açoita dia e noite as entranhas do lugar, que por ser próximo ao mar se encharca com mais pressa deixando para trás um rio de dúvida.

Uma profunda emoção tomou conta de mim e deste jeito mais intempestivo do que o normal sai a coletar pequenos bilhetes de cores variadas para poder compor um passo a passo do que anda acontecendo nas cercanias da minha alma que está sempre sôfrega de relatar ou delatar o que o universo anda conjurando ao meu redor, sempre tão expressivo em suas falas silenciosas e metafóricas me levando com ímpeto a confabular com tudo o que se apresenta.

Abri de par em par uma corda com os supostos recados caprichosamente um ao lado do outro, todos em branco. Esperava eu que abandonados a sua própria sorte, sem nenhuma missiva gravada os deixasse dispersos e distraídos a respeito do que eu poderia historiar neste dia perverso e de mau humor do tempo.

E assim expostos à minha mira comecei a tratar cada bilhete como um recado em separado para diferentes cores, assuntos, temas, lugares, tudo o que melhor representasse este meu momento em especial e justamente neste dia aguado.

A primeira frase me veio da cor laranja porque a nuance sempre remete ao nascer e por do sol neste meu quadrante, trazendo a boa noticia que no dia seguinte ao abrir os olhos ele estará lá, de novo e todo dia da mesma cor. Ao nascer e ao se pôr.

A cor ensombrecida e desmaiada remete ao vacilo da mente que ora se aquieta e se recolhe, ora se lamenta em branco sem saber nem porque, ora levita em ascensão ao céu puro e límpido fazendo uma viagem de repouso por seu sofrimento e dor do mundo refletida nas pequenas cartas, as vezes grafada, outras sem recado, muitas sem sentido.


 

sábado, 16 de novembro de 2024

Raízes


 Aquela fenda estava ali há muito tempo, dividindo o mesmo solo ressecado e árido da calçada em uma rua escondida em algum beco esquecido. A fissura abriu-se como um pedido de socorro ao vento, a chuva, ao sol, aos insetos para que com a energia da natureza restabelecesse neste vão profundo um motivo, apenas um motivo para que suas raízes tomassem um rumo conciliador entre a aridez da rocha e a exuberância da terra.

Como em nossa alma por muitas vezes sacudida pela secura do dia a dia se faz a reza diária pedindo ao Universo um pouco de alimento divino, mesmo mergulhado na profundeza do pensamento que a todo momento palpita inconformado dentro do coração levantando os seixos aleatórios da mente que sempre se sobrepõe tornando possível a escalada rumo ao viço e ao encontro com o ar respirável da emoção.

Bastou apenas um espaço pequeno e instigante para alertar que a alma não sobrevive em terreno bravio havendo sempre a possibilidade de fugir de tudo na busca da quentura do sol, do refresco da brisa e da perfeição da natureza que se alia ao ser humano numa conjunção de vida e fé. Certeza de que a abertura será para dias melhores, mais vigorosos apesar da aparente delicadeza do murmúrio em prece permanente.

domingo, 10 de novembro de 2024

Sutileza dos tempos

Sinais inequívocos surgiram na sutileza do tempo, sorrateiros como a traição, ocultados da luz do dia inundando minha alma como a chuva fraca e intermitente devassa o solo sem permissão, apenas na demanda da natureza. Assim surgiu a sombra nestes lados onde a claridade não dá folga nascendo todo dia com muito aparato e circunstância e foi por estar por aqui, na beira da luz, que precisei buscar dentro de mim uma atitude de maior poder para dissipar o sombreamento que a mim se apresentava como uma surpresa.

Não foi difícil encontrar nos meus alfarrábios mentais aquele feixe brilhante que volta e meia preciso acessar, uma vez que tempos estes necessitam de atenção e clareza de espirito para uma luta onde a guerrilha é travada em ambiente trevoso sempre dissimulado.

Encorajei-me na busca da origem da ofensiva e percebi imediatamente que a minha alternativa estava ali naquela estante virtual onde guardo com muito cuidado o tesouro curativo para muitas ocasiões em que o entorno vibracional tem sua lucidez empanada.

O sol se pondo no horizonte por detrás de nossa muralha florestal eivada de energia da terra, do mar, do vento e da água me chamou a atenção e escolhi aquela ferramenta que possui todas as qualidades para iluminar a minha vida a partir desta noite até o dia seguinte bem cedinho. E assim chegaram as estrelas brilhantes que inundaram com sua energia divina o céu que nos protege.

sábado, 2 de novembro de 2024

Silêncio

 

Amanheci com a mente, a casa, a rua, o entorno, o céu, o mar e o vento todos calados em expressiva oração aos que fizeram parte da nossa trajetória, alguns muito próximos, outros nem tanto e outros ainda figuraram entre nós com desígnio especifico e se foram como uma brisa leve e passageira. Chegaram para dar um recado importante e partiram de um jeito manso ficando no ar a lição que agora rendemos homenagem.

Os olhos acordaram marejados, o corpo em posição de prece e as almas queridas sendo lembradas com saudade formam um dia especial.

Os ventos costeiros soprando forte estão assobiando a propósito de que não esqueçamos este dia, que nos guardemos em silêncio buscando o isolamento da comunhão de almas, que se acendam velas no ambiente previamente ensombrecido, que o incenso se espalhe no ar da casa perfumando o laço afetivo entre os seres que nos observa do mundo espiritual, recebendo com alegria nossa lembrança e nossa dedicação.

Este dia se esconde de todos os propósitos barulhentos se tornando um ensaio para o desígnio de ora em diante aprumar o ouvido para falas de melhor oratória pavimentando o caminho para elevar o espirito nesta jornada de mais um tempo até o encontro divino de todos espíritos em santa morada.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...