domingo, 15 de setembro de 2024

A origem

 

Mergulhei fundo no buraco que se abria aos meus pés encarquilhados pelo tempo e assim determinada enverguei uma voadora mundo abaixo sem medo de revés, sem temor da volta, sem receio de me perder, sem ansiedade de ali  encontrar os fantasmas reais e imaginários, os reis e rainhas nomeados, os santos e os demônios que ali se refugiaram, usurpando minha vigilância e meu zelo para mantê-los longe, em segurança. 

Premente é desvendar os segredos que eu mesma tratei de esconder no fundo do poço uma vez que notadamente eles não se ocultaram ao rés do chão e assim, com insistência infantil retornam à beira da trajetória vivida fresteando meu espirito, murmurando sandices do acontecido, do presente mambembe e do futuro fantasiado.

Com impertinência iniciei o resgate de toda a turma que amontoada nos recônditos escuros do fundo de mim fingiam agora serem de bom coração que a mim vieram em socorro nos momentos de dúvida, de medo, de tristeza, de penúria.

Não contavam que neste momento venho armada de todas as ferramentas que meu espirito disponibiliza e com eles vou dissipando todos os verdugos que sorrateiramente se acomodaram junto a mim com sopros de sofrimento irreal. Cheguei à origem e de ora em diante montarei guarda.

sábado, 14 de setembro de 2024

Passo Divino

Achei um caminho inusitado neste dia em que o Divino se acomodou entre nós parecendo estar com intenção de perambular por aí como quem não quer nada se fazendo de quase invisível deixando à mostra apenas um livro aberto que aguça a curiosidade do desperto na madrugada, do olhar que se estica como elástico forte, como mente agitada pelo terror da noite. É para estes que o livro se abre sem pudor e sem explicação, balbuciando em suas páginas apenas um rumor do que acontece aqui e ali numa instância para prestar atenção.

Faz bem olhar com cuidado o conteúdo que emerge das páginas e vão se acomodar por aí em meio ao nada parecendo ter a intenção de prosear com o desconhecido, de alertar o adormecido, de brincar de esconde-esconde com o cotidiano pacato do lugar, afinal a página virada para ser lida foi impulsionada sem critério do que revelar.

A interpretação me pareceu uma brincadeira de criança, eivada de alegorias sutis brindando o leitor num jogo de adivinhação e de alegre passeio por entre suas ideias, da mais simples à mais estapafúrdia, da mais complexa à mais bucólica demonstrando que tudo pode ao se desvendar a lauda de um alfarrábio qualquer  desde fechar sua página peremptoriamente por absoluta rejeição, por descaso, ignorância, ou solene aceitação da brincadeira das palavras grafadas permitindo o nascimento de personagens de vários matizes.

Em espaço reduzido a imaginação trava uma batalha campal no espirito que busca alimento para alma e que se nega a empobrecer de versos que saltam e vagam pelo tempo de todos com promessas acreditáveis e outras vãs.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

A claraboia

 

Ela surgiu à minha frente de surpresa uma vez que eu não tencionava na minha caminhada adentrar em nenhum lugar fechado pois havia urgência em respirar os ventos marítimos mesmo que estes não rescendessem seu aroma, por ora, e seu brilho ocultasse a vista longa e ampla de sempre. Rumava pelo caminho buscando sair à luz e nesta condição meu corpo seguia o que comandava o meu desejo e meu pensamento.

A atração daquele afunilamento que a claraboia me proporcionou foi irresistível e assim entrei no recinto, mágico e belo por si, silencioso por natureza e receptivo por ser este o seu destino desde sempre.

A penumbra solene foi o impacto que primeiramente me tocou o fundo da alma e na sequencia o deslumbre do meu olhar no ambiente que resplandecia em uma miríade de tom sobre tom e sombreamento espetacular sendo que a luz se expandia na sombra como um caleidoscópio de cor cinzenta.

Segui através do ambiente sagrado e soberano onde os detalhes do entorno estavam obscurecidos pela aura de luz difusa deste dia. Me aproximei do fulgor que a claraboia permitia refletir naquele assoalho antigo e milhões de vezes pisado por tantas e tantas outras pessoas, pessoas estas desaparecidas no momento, talvez porque estejam escondidas na penumbra da  vida, ocultas no medo, subtraídas da razão sem conseguir vislumbrar o milagre que apenas uma réstia de luz divina pode alcançar.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Reflexão mareada

 

O dia recém começou, minhas ideias acontecem ainda mareadas pela escuridão da noite com seus assombros, pontuados com capricho pelo meu corpo físico muito bem guiado pelo espírito que parece não se importar com a premência de um sono profundo, que não alavanca nada de importante, que não lembra coisa alguma relevante. Simplesmente me deixe estar, ficar ali, à mercê do silêncio de Deus.

Os pensamentos, na sequência da modorra do tempo se aguçam timidamente, justo no momento inaudível parecendo ter a intenção de  despertar, de atiçar, de  jogar o dia que teima em nascer, que busca a luz da paisagem, que insiste em chamar a natureza, a fauna, o mar, a areia , o sol e o vento a fazer parte.

No entanto o movimento não acontece como o previsto, as ruas não se movimentam como normalmente, a luz do sol surge apagada e sem quentura, o vento esqueceu de abrir as asas, o mar recuou e silenciou, a bicharada se escondeu, as gargantas apenas fazem movimentos caricatos e fenecem sem voz.

A vida parou de repente deixando todos os seus atores à mercê de si mesmo e de seus íntimos pensamentos, fazem parte aqueles que andam de lado dentro da alma para não serem vistos, os fatos que jazem escondidos nas gavetas lacradas da alma, se inclui os acontecimentos relegados ao esquecimento e as farsas brilhando desnudas com as verdades inundando o pensamento mais obscuro.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Papelaria em dois tempos

 

Não sei quem me encontrou primeiro, se aquela papelaria antiga ou eu, que ando gastando a sola do sapato atrás de quinquilharias que lembrem o passado da escrita, do desenho, da caligrafia, enfim, elementos que fazem parte da recordação, atualmente.

Sempre que algo ruim me vem à cabeça penso logo na borracha de antigamente que era utilizada para apagar e corrigir uma grafia descuidada e acredito que  seja uma lembrança muito especial porque, como uma metáfora do fundo do baú, se pode fazer sumir o que aquele fato ou criatura  proporcionou . Nestes tempos de pensamento açodado a arma antiga se constitui em objeto curador do mau pensamento.

 A parafernália, mesmo em tempos bicudos de teclado, me acompanha com galhardia e olho aberto porque, todas elas – cadernos, lápis, borracha, blocos, papel de recado, caneta tinteiro, apontador, clips, grampeador, caneta esferográfica, régua, lápis de cor e cera, compasso - e mais o que a minha memória não alcança, nutrem a esperança de que todo dia eu vá buscar por seus serviços. E de fato assim é.

Ao utilizar as minhas companheiras de escrita desde que me conheço, sempre volto a uma época em que a vida passava em frente a mim como se fosse um compasso de música suave, momentos em que se levantava o olhar do caderno para apreciar um pio de passarinho, um gatinho por entre as mudas de flores, uma minhoca vagando por entre a grama perfeita da minha casa. Ao apreciar a natureza em seu ritmo primoroso a mente se acalma e se organiza voltando o olhar para a página em branco. Então, na sequência,  com outros elementos para a continuação da escrita e leitura entra em cena novamente a cadência do tempo, que não voa, ele acontece, minuto a minuto.

terça-feira, 30 de abril de 2024

Dando um tempo

 

Acalmou-se o vento, as ondas e o sol inclemente, restando um vazio abençoado que paira durante o dia todo nas ruas daqui deste fim de mundo abençoado por Deus. O som grita de tão suave em todas as suas manifestações fazendo de moucos os ouvidos de todos. Não se quer mais ouvir, falar, ir e vir, fechando para balanço inicial da temporada fria como se fosse uma operação obrigatória.

As ruas vazias recepcionam as chuvas intermitentes e o mais que a natureza mandar se aceita a iniciativa com muito prazer, uma vez que há premência de se apartar um pouco deste modo de vida praticamente sempre fora da curva. Pelo menos para lavar a alma de feridas que por qualquer motivo se abriram durante o agito, durante a gritaria, durante o abuso, durante o desrespeito.

As falas agora ocorrem arrastadas e preguiçosas podendo, às vezes, haver desistência da explanação porque é muito óbvio que a mente se esvazia do excesso e, indolente, resolve escolher com mais critério o que merece ser ouvido, lido e visto – principalmente.

O pensamento, atento, se eleva a outro patamar buscando distrair-se do rebuliço coloquial cotidiano, se preparando criteriosamente para encolher em recantos bem quentinhos suas escolhas de calmaria. Se faz imperiosa a vontade de se relacionar com as notas musicais que repercutem a suavidade perfeita para acompanhar a alma que se abriga em si. Este tempo raro se embrenha no espirito com audácia e determinação sendo impossível recusar sua companhia.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Uma rua

 

Estanquei o passo ao me defrontar com aquela esquina, uma vez que ela tinha matizes diversos e contrastava com o que havia na minha memória, a começar pelo traçado de paralelepípedo mais irregular e solto,  o inço grassava no entorno da calçada e quase não havia passantes, nem bola jogada, nem gritaria de criança, latido de cachorro, rotina de ambulantes. Nada, absolutamente nada havia ali que lembrasse o trajeto do qual eu havia, no passado, circulado tantas e tantas vezes em um esperançoso vai e volta.

Firmei o passo e o olhar procurando traços do que havia em mim sobre aquele caminho em particular e assim, comecei a pensar que a passagem deteriorada pode ser resultado destes últimos tempos em que andei solta por aí, perdida em pensamentos, olhando para todos os lados e para lado nenhum, divagando em conceitos, diminuindo certezas, duvidando aqui e ali de muito ou de nada. Irrelevância parecia estar palmilhando a estrada e o resultado da mente vagante determinou o motivo do trecho estagnado.

Pensei em voltar a fita da vida e restaurar o rumo antigo. Iniciei levantando os olhos frente ao mar, depois deixei que o vento me indicasse qual lado da rua escolher, na sequencia firmei minha alma no propósito de alcançar as  crenças antigas e tão caras para mim que, por qualquer motivo, se achavam cobertas por um véu. Segui firme no restauro da rua antiga arrancando com firmeza tudo o que atravancava a calçada, chamei os ambulantes, as crianças, cachorros e gatos que dali haviam partido e todos retomaram o espaço alegremente. A breve excursão para dentro de mim reativou um tempo bom daquela rua da minha vida.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

A Veranista

O silêncio do longo inverno nos corredores do prédio ecoa em meus ouvidos como se fosse uma música recorrente e monocórdia que  simplifica o dia a dia, que ensurdece os tantos ventos airados que circulam intermitentes em uma conversalhada confusa onde seus atores se constituem em todos os elementos da natureza. É no corredor gelado que a voz do mar, das árvores, dos passarinhos e das flores se enredam numa linguagem própria.

Esse tempo, porém, sempre tem data certa para acabar, pelo menos no calendário, e assim que o sol vem de longe para nos abafar aqui em frente o corredor se toma de silêncio absoluto, parecendo se preparar para uma mudança radical no lufa-lufa inóspito do ano todo. Quieto, aguarda em profunda reverência a Veranista adentrar o espaço sorrindo, como de costume, bem perto da minha porta

Junto com o sol quente, o mar calmo, o vento escondido, as árvores com sombra e os passarinhos na grita geral se estabelece a expectativa de que as escadas terão maior realce, as vozes se agigantam em tom alegre, a vestimenta leve de verão inunda o espaço cogitando com entusiasmo que o tempo é de circular por entre todos, distribuindo sorrisos e abraçando a saudade do lugar.

A Veranista com o riso solto se apropria do espaço com circunstância e dele vai extraindo o que existe de melhor na temporada de Verão. A calma e a luz se instalam fazendo a vida ter mais sentido, mais movimento e jovialidade unindo em estrofes únicas o sentido de se avizinhar em um ambiente tão abençoado pela natureza.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Rodoviária

 

Meus passos me levaram a vaguear por aí sem destino e sem propósito, levada apenas pela curiosidade de mudar a paisagem deste dia em que me assalta uma diversidade de assuntos. Fui à rua em busca de resposta e tenho fé que o vento me empurre decididamente a um lugar que me inspire, que me forneça com delicadeza uma reflexão por detrás dos panos. 

O olhar anda opaco e vai salteando entre tudo que nas ruas se apresenta com mais colorido ou com cinzenta tristeza, e deste jeito, ao acaso, cheguei naquela Rodoviária estancando meu passo e alertando meus sentidos de maneira singular em um caleidoscópio de imagens misturadas e juntas ao mesmo tempo. 

Um lugar onde literalmente as vidas perambulam de um lado para outro carregando em sua alma um alivio e alvoroço por estar prestes a sair daquele lugar que o tenha atraído involuntariamente, se aproximando, talvez da hora de se escafeder dali se por ventura a viagem não lhe favoreceu. Semblante ansioso, com um leve sorriso no canto da boca e uma respiração aliviada, se constitui em uma boa soma de transeuntes pelo amplo estacionamento. 

Mais um lance atento na observação traz aos ouvidos uma algazarra estridente vinda de uma penca de rostos sorridentes e animados que dão a nítida impressão que a passos largos se aproxima uma aventura desejada e que agora está prestes a acontecer. O espírito se expande e aligeira a caminhada. 

Mas este lugar não vive somente de vai e vem frenético de pessoas correndo atrás de alguém, de um lugar, de alguma coisa ou de coisa nenhuma. Existem  encontros pontuais e diários de personagens que ali aportam para uma prosa, um trago, um café, um pão com manteiga. São os atores do circo da vida que já deixaram de correr sem rumo e que assentaram sua cobiça por qualquer motivo: por cansaço nas pernas, por falta de melhor assunto, pelo opacamento da vida em curso, pelo sentimento de pertencer. Um bar de rodoviária, um cigarro, uma cachaça, uma empada. Um encontro com a vida que passa.

domingo, 13 de agosto de 2023

Preciosidades

  

Dia enevoado, brisa sorrateira e silêncio obsequioso premia o amanhecer que, lento e preguiçoso, não sabe se fica atrás do mar mais um pouco ou se irrompe com bravura e cumpre com sua rotina neste dia sombrio. Meu olhar e minha respiração acompanha o tempo e sigo fuçando na quinquilharia circundante, não sei bem se para organizar tudo novamente ou se apenas procurar um norte, um ensejo, uma proposta, uma esperança de um pensamento vago. 

Na separação da traquitana dei de cara com fotos fluidas, de outro tempo. Em meio a modorra do dia saltou à minha frente aquela chave antiga que combinava tanto com o amanhecer sombrio quanto às minhas conjeturas e, ávida por assuntos memoráveis tratei de me dedicar ao objeto com fervor. 

Lembrei-me muito rapidamente do meu armário de criança a qual me foi dado o direito de ter nele uma gaveta chaveada o que considerei um privilégio inestimável e iniciei então a minha coleção sigilosa de assuntos diários de criança, temas estes que mereciam ser inatingíveis e secretos. 

A chave por si só denotava grande capricho e responsabilidade no manuseio me encantando pela confidencialidade que se interpunha entre nós. Com cuidado, passei a colecionar assuntos caros na meninice e assim fui empilhando pequenos bilhetes familiares, resquícios de um ensaio de prosa, página de caderno rasgada e solta,  um bloco pequeno em branco contendo entre suas páginas pétalas ressequidas, um pequeno diário chaveado, um toco de vela, uma travessa de cabelo, um laço de fita amarelado pelo tempo, um estojo com lápis, apontador e uma borracha, um feixe de lápis de cor, um porta joia com uma caneta tinteiro, uma caixa minúscula com meu primeiro dente de leite, uma mecha de cabelo encaracolado enlaçado com fita de cetim azul ,uma bola de gude, um dado. Assim, rapidamente, a gaveta ficou povoada com os meus assuntos de época. 

Esta lembrança me diz da importância de vez ou outra utilizar uma chave antiga porque elas sempre abrirão tesouros.

domingo, 11 de junho de 2023

Derrubada

Derrubei a história que estava contida há muito tempo dentro desta garrafa que levei até a beira mar porque, ao contrário do que eu havia imaginado, ela parecia ter se dado por vencida, e, fracassada em sua mensagem arrombou a rolha que lhe estancava o conteúdo precioso de outrora e se espalhou desordenada pelas areias úmidas da beira do mar desejando que as ondas viessem ao seu encalço e tragasse para a sua profundeza letra por letra, ponto por ponto. 

Havia ainda a questão do sentido intrínseco da história abatida que surpreendentemente insistiu em manter-se por ali, negando-se a desaparecer como se não houvesse existido, afinal, não é eliminando letras, verbos, consoantes, preposições, ponto e vírgula que se apaga um significado que já criou asas e trilhou seu caminho enquanto mensagem, já atravessou mentes heroicas, covardes, ignorantes e inteligentes, já se expôs ao ridículo e ao sucesso, já se recolheu e já tornou a se manifestar. 

O impasse estava criado quando a maresia correu em auxílio da história que teimava em não se evaporar criando uma bruma tênue e acolhedora e deste modo singular o teor se aninhou. 

Resolvi aceitar o desafio de rever em que período aquela mensagem havia se esvaído de si mesma, em que momento aconteceu a retranca do pensamento, em que ponto a história perdeu seu rumo chegando ao extremo de desejar se esvanecer nas areias da praia, mas, quase que imediatamente percebi que a conjunção de esforço no alinhavo do palavrório não se apaga assim facilmente porque o pensamento expresso possui vida própria atravessando com pertinácia a gangorra da vida com grande probabilidade de ser tão ou mais atual do que o próprio tempo.

domingo, 28 de maio de 2023

Nudez

A verdejante natureza se traveste de nova coloração, talvez cansada da antecessora tonalidade alegórica, maciça e invasiva desde que o dia amanhece até os últimos raios do Rei Sol imperante e, quem sabe, revoltada com a aridez da terra resolveu descansar de tudo e vestir um entretom, sugerindo que os ventos serão gelados por um bom tempo e assim sua sensibilidade fica protegida através de uma nuança mais uniforme, estável e natural. A gradação sépia toma conta da paisagem na preamar, nos jardins e nas praças. 

Tempo pós-colorido pede maior estabilidade da terra em sua roupagem trazendo alívio que vem, inicialmente, da mudança na cor das ondas do mar engraçadamente concordante com a transformação, não resistindo à simplicidade dos argumentos da natureza que deseja descansar, desfolhando-se de sua espalhafatosa vestimenta que sombreia a estação mais quente do ano. 

E assim o galharedo de árvores e arbustos se reveste do seguro e sério tonalizante, deixando que suas folhas percam momentaneamente a vida para forrar as trilhas com a palheta de cores do outono e este modo ingressa nos lares e no espirito do conforto e simplicidade. 

A balada sofisticada do clima adentra o interior dos ambientes e revoluciona o dia a dia que, animado, se prepara para dias de mais quietude, de acalmação das ideias, quem sabe até não ter ideia nenhuma, esvaziando-se para que outro matiz tenha oportunidade de pintar o pensamento e pousar com suavidade na alma descolorida. 

Forma-se assim a estabilidade do vazio e do silêncio que se acerca do aconchego de uma poltrona, uma manta quentinha, um café fumegante e novas letras a serem inseridas no dia a dia de um período em que a natureza fica nua.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...