domingo, 6 de dezembro de 2020

Pelas frestas

 

Meus olhos andam vergados nas frestas que pululam no espaço físico, acantonadas e à disposição de terem seus rasgos exíguos invadidos pelo olhar que por ora se dá permissão para o mínimo, uma envesgada para o lado de fora e assistir o mundo exterior se processando com relevante discrição e lerdeza me apoderando assim do que posso vislumbrar por entre cortinas, vão de veneziana, fenda na madeira, racha na parede. 

Coloquei o mar na mira com um recorte horizontal e fiquei em duvida se mirava o horizonte com seu manancial de água verde e profunda dando a entender que os segredos ali guardados vão além de uma mirada entre persiana. É de imaginar que por ali estão escondidos os segredos dos náufragos, da fauna e flora profunda, dos afogados, dos barcos que foram a pique, dos destinos alterados pelo vento e a maré. Decidi ficar com a vista presa nesta tira como se eu fosse um marinheiro de primeira hora. 

A frincha escolhida atravessou com vertical importância a rua parando na murada do arvoredo em frente que canta e dança o ano todo no balanço dos ventos da praia que depois do sol reina absoluto, balançando perigosamente os ninhos, assustando as pernas envergadas dos velhos, alevantando a saia da mulherada, fazendo os chapéus de aba larga voar e muitas vezes não serem alcançados, arrematando com o espraiamento das sementes, mas não sem antes se dedicar ao que mais gosta: devolver as areias da beira da praia ao seu devido lugar. 

Diminuir a vista do entorno trouxe meu olhar para dentro internalizando o prumo dentro de mim e assim o passeio neste interstício aponta os livros, companheiros fiéis, que mudos e empilhados com determinada graça, aguardam meu olhar, meu carinho com flanela em punho lhe tirando de cima o mundo que se pulveriza por e entre eles. Será nesta greta interna que me quedarei, por ora.

sábado, 28 de novembro de 2020

O grupo


 Surgiu como tantas outras coisas que aparecem neste mundão sem esquina causando certa surpresa para quem, como eu, esvaziei o alforje de coisas e loisas indo embora sem olhar para trás deixando mais ou menos de tudo um pouco para os que ficaram. De certo que a ausência provocou um vácuo que jamais será preenchido se não houver um olhar acurado do ficante e deste jeito bem humano as lembranças vão se apagando e fugindo do dia a dia, até desaparecerem por completo e já não se existe mais para o outro. 

Com estes sinais que de imediato percebi chegando até mim, dei de ombros e me fui porta afora ocupar o meu vazio voluntário sem expectativas que me aborrecessem e me deixassem refém de algo ou de alguém ou até da galera circundante. Dei um basta e encerrei. 

Deste modo, alegre e descompromissado, passei a fazer parte do mundo das telas múltiplas que me perseguem pela casa enchendo-a de som e imagem apesar de eu haver determinado parcimônia de assistência porque não quero ser subtraída pelo fugaz de estar ali dia sim e outro também. Precisava me cercar de presenças de valor e por este motivo resolvi não me vender para qualquer reclame fantasiado. 

E assim dei-me de cara com o dito cujo cidadão do mundo e alquimista de mesa farta ou pobre abrindo uma porta e chamando alguns para entrar. Lembro que não entrei e sim me joguei sala adentro olhando para os lados e me dando conta que era ali mesmo, neste espaço virtual que eu encontraria as falas que eu procurava mesmo sem saber, as risadas escassas nestes tempos bicudos, as historias bem contadas, as realidades singelas, as opiniões semelhantes, o humor diário, as diversas idades e, mais do que tudo, entregar-se com simplicidade ao desconhecido da face mas não das convicções.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

70 anos

70 anos é uma marca, mas não pensei bem o que fazer com este numero que se apresentou a mim com tanta pompa e circunstância hoje, ao abrir os olhos. Refletindo um pouco mais percebi que agora ele a mim pertence e não é mais um futuro, ele se consagra como de minha propriedade e deste modo eu usarei sua estética e seu valor intrínseco – como a idade – para o meu deleite e serventia. 

Ao encarar este numero de frente achei que a boniteza lhe antecedia o passo se mostrando com clareza, design limpo, bem construído e assim me veio a saudade por todos os motivos da juventude, da casa e seus jardins, dos amigos e primos, das musicas, meu amor pela natureza e o silêncio e ouso, também, salientar sem reserva que existia em mim uma determinada simplicidade sobre tudo. O tornar-se moça demorou muito a chegar e a fase de brincar de boneca e usar carpim branco foi se esvaindo de mim lentamente e com certo pudor. 

Eu não sabia que chegaria tão longe e muito menos carregando tantas vidas em uma, o que parece libertador, porque os personagens que precisaram entrar em cena usurparam da minha essência e, em muitos casos posso lembrar-me, o roteiro, as falas e a encenação que se apresentaram não combinava muito comigo, com o tempo ou com a situação, obrigando minha alma com uma sabedoria atávica registrar como sendo apenas um ensaio. 

Os papéis foram se alternando e agora, pelo visto, me foi dada a benção de sentar e olhar para trás e deixar passar o longa metragem da minha vida, muitas vezes com a película em preto branco, outras se avermelhando  na cor de sangue  e agora me autorizando a perceber que a palheta de cores que pintou e bordou a minha existência se encontra na cor sépia, amenizando com muito carinho a realidade da lembrança. Mas agora não tem importância, meus 70 anos são da cor do mar.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A ferida

 


Ela está sempre ai, oculta, incógnita e traiçoeira sobrevivendo nos cantos da vida, nos recônditos mais escondidos os quais, no mais das vezes não conseguimos perceber pelo simples motivo de, cansados, o olhar mira o horizonte em busca da esperança na certeza de que o sol irá aparecer mesmo entre nuvens, a brisa irá soprar garantindo a respiração, medrosa e ofegante por vezes. A danada se faz de vitima porque se fosse autêntica se apresentava imediatamente ao comando de quem lhe leva nas costas para dizer a que veio.

Sorrateira, invade nosso corpo nas internas e sem alarde parecendo se sentir muito à vontade o tanto quanto possa ficar imperceptível ate o momento em que decide, por pura maldade, dar a cara à tapa e surgir plena de vigor causando estrago ferrenho porque se sabe que seu surgimento vai causar incômodo. 

Muito maldosa em sua essência domina o corpo físico e muito mais o espírito, objetivo que parece ser sua especialidade porque de certo começa por um e segue para o outro, em um jogo macabro com uma intenção de fragilizar o invisível, o etéreo, o imperceptível, o mudo do sentir. 

Muita ingenuidade da praga porque ao surgir não imagina o quão poderosas são as armas que existem com o poder de extirpar as feridas que se apresentam incontinenti. Vale uma faca afiada de um instrutor bem treinado até uma conversa no balcão da cachaça onde surge o ensejo de encerrar o estertor da praga que assola o espirito atormentado. Ferida cicatrizada

sábado, 14 de novembro de 2020

E agora

Achei uma desculpa espetacular para cumular, mais uma vez, meu desejo de desocupar os atrapalhamentos que insistem em se atravessar perante mim não aprendendo neste tempo todo que não sou de lides múltiplas, não pertenço ao coletivo nem à massa circundante. Sempre me restabeleço onde o nada consta como única alternativa e, palmilhar os caminhos abandonados são sempre a primeira opção, colocando em minha frente apenas o que pode me surpreender. 

Desdobro-me em empurrar o vazio e o silêncio imperativo para frente para que eu tenha a possibilidade de preenchê-lo com as minhas esquisitices, com as minhas práticas maniáticas, com a ausência da fala, com o cansaço do externo exposto como ferida e com mórbida alegria por brindar com uma indiferença monumental o que não merece de mim um aceno. 

Um olhar rápido vai determinar que estrada é esta que se apresenta onde o sorriso parece ter sido esquecido em alguma calçada qualquer parecendo uma alegoria ou uma brincadeira do arvoredo que entra em cena deixando voejar sem destino seus pedaços que se postam por aí como alternativa ou como deboche. 

Percebi que a ausência de um semblante completo nesta metáfora vem bem a calhar, porque me enche de esperança de fazer um novo desenho na caveira ora imposta, quem sabe com uma cor e leveza no olhar nunca visto, uma capacidade para perceber e selecionar com capricho os odores importantes e mais disciplina na seleção do ouvir tornando o inusitado dos dias em mantra.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

48 horas

Eu tenho certeza que sai por alguns instantes, não mais que isso, porém, o contador das horas diz que foi mais, a realidade afirma que foi menos e minha percepção foi de um tempo que não acabava mais, tal os sinais que eu recebia de todas as partes, do meu corpo, do meu coração, da minha respiração. O entorno não deixou por menos e se afeiou o tanto quanto pode me deixando surpresa de mim, do que via, ouvia e percebia. 

Achei por bem relevar tudo o que se apresentava uma vez que comecei a pensar que havia aportado em outro lugar e não naquele ao qual havia me dirigido. De pronto forcei o meu sorriso que sem plateia se retraiu voltando-se para dentro de mim e foi como sentir a alegria se esvaindo na distribuição de bons augúrios ao ambiente em que ia passando. Percebi que ele foi sumido por um trapo escolhido por qualquer um na clara tentativa de apagar o sol com a peneira além de surripiar o ar livre que respiro. 

O arfar me deixou com a impressão que as horas estavam se estabelecendo diante de mim como intermináveis e a vida resolveu cambiar de lado destravando a cancela do efêmero como se não se importasse com as expectativas e os sonhos que não possuem barreira na realidade sempre presente do pós-imaginário. 

Como se não houvesse amanhã se apresentou a mim as nuances do lado negro outro branco, o alegre outro triste, o doente outro sadio, o falante outro calado, um perto outro distante, um furioso outro calmo, um crente outro pessimista, um limpo outro sujo, de tal sorte, que me enredei nos pensamentos demorando um tempo para colocar a minha cabeça no rumo que me pertence, esta direção que se perdeu e se ampliou para tantos outros além de mim.

Pensei que é chegada a hora de puxar o freio, fazer uma parada estratégica,  e voltar um pouco no tempo com o coração aberto, mesmo que por ora, o arrevesado contador de minutos pareça contrário.

sábado, 7 de novembro de 2020

Vou ficar

Resolvi me aquerenciar na minha imaginação e assim subi para este lugar lúdico, com a beleza das nuvens a me rodear porque me parece premente neste momento forçar uma parada estratégica para olhar de cima, deixar o coração flutuar na vida, fechar um pouco os olhos e diminuir a contemplação ao que se procede no andar de baixo da existência, parecendo, inclusive, que momentaneamente, está situada dentro de uma zona que flutua entre o descabimento da razão e o perigo de toda a ordem. 

Desqualificadas as horas que se amontoam uma por sobre as outras como se soterrasse os fios da esperança que liga o vivente mais obtuso e simplório em seu entendimento diário ao que de mais estranho possa nos parecer por hora: o abuso da capacidade Imoral que se impregnou em uns e outros que traz no arrasto os muitos e vários que seguem estonteados na caminhada deste roteiro que leva a todos aos confins da terra. 

As chances de que haja um norte seguro, uma trilha palmilhada com pedras arredondadas que se unem para assoalhar a passagem do ingênuo, do apavorado, do velho, do novo do saudável e do doente foge aos olhos dos simples mortais que descalços de compreensão seguem perdidos de si e dos outros.


sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Faltou luz

E assim a escuridão se fez levando o breu para todas as ruas e com este jeito arrevesado de as coisas se mostrarem, ficarmos cobertos do negro da noite se dá em boa hora pois deste modo podemos observar os pirilampos vagando no entorno da casa, festejando alegremente que em apenas um momento possam ser vistos, acompanhados e curtidos pela vizinhança que parece não mais saber enxergar. Em seu rastro as trilhas ficam iluminadas pelo olhar esgazeado das corujas, dos gatos vagando na noite, dos cachorros insones e perdidos e mais um tanto da fauna noturna perambulante da noite. 

A escuridão funciona como um gatilho para arregalar o olhar e enxergar o que não aparece na claridade, o que pode ser muito significativo. Acostumar a vista ao negrume e poder assim adivinhar pelas sombras da noite as ameaças que não possuem corpo em dia alto, o medo, que por estar iluminado faz muita sombra na decisão e indecisão no propósito, a coragem que se apequena ao se enxergar o caminho livre e, assim, as atitudes tomam outro rumo quando aclaradas.

 A escuridão da noite possui muitos destinos se lhe prestarmos atenção devida, desde a oportunidade de se aquietar ouvindo o que nos quer dizer o entorno escuro, em qualquer lugar, até a descoberta de uma vida que pulsa em outra cadência. Por ora, é só o que resta.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O negativo do filme

Vou passar a limpo alguns acontecimentos do passado porque quero aclarar para mim as imagens como se eu tivesse uma maquina de fotografar das antigas que dá oportunidade de, após o filme abarrotado, retirar a película e examinar cada acontecimento no negativo e a olho nu antes que o instantâneo se torne um acontecimento colorido e que apareça em suas reentrâncias de sombra e luz uma ilusão, uma verdade falsificada ou uma promessa mal feita ludibriando quem se propôs a gravar. 

Decidi então imaginar que eu tinha em mãos uma maquina bem antiga porque de certo ela terá dentro de si uma engenhoca acurada e detalhista o que os tempos modernos não possuem mais tudo funcionando na velocidade da luz.  Nada mais tem tido a prioridade de se ver em minucias: nem a fala, nem a escrita e muito menos a conversa e me agarrei à tentativa de ver dentro de mim a oportunidade de esmiuçar os acontecidos. Aqueles mesmos aos quais me curvei praticamente sem querer. 

E assim desfilaram perante mim todos os “negativos” dos últimos tempos que surgiram desordenados me proporcionando uma chance de examiná-los contra a luz e decidir o que vou relegar ao ostracismo do fundo da gaveta e o que vou revelar para o mundo e exibir em porta retrato e álbum de recordação que figuram dentro de mim. 

Com muita audácia e coragem deixei na película negativa do filme que inventei todas as ocasiões em que me deixei enganar, atitudes que tomei sem muito pensar e momentos em que deveria partir e resolvi ficar. Vou deixar à mostra apenas o colorido das letras que derrubo por sobre o papel e que vão delatando o dia a dia por aqui, por ali, eternizando a melhor fotografia da vida.

sábado, 17 de outubro de 2020

Os comunicáveis

 

Ando enredada em muitas coisas, a maioria delas nem presto atenção porque não possuem um rabicho que se conecte a mim e então, de pura implicância me desvencilho com a maior facilidade, porque, afinal de contas, tudo o que não está conectado não parece ter importância e assim vão se somando irrelevâncias das mais variadas formas. Por este motivo ando no arresto de tantos cabos que faz parecer que a vida se encontra dependurada em algo ou, melhor, em tudo. 

As combinações de antigamente – todas – dão uma pinta de falência geral porque com certeza parecem, hoje, terem sido feitas de forma telepática porque estávamos no local combinado e sem atraso somente com o ajuste firmado no dia anterior ou, quiçá, muito antes. Não havia necessidade de confirmar: o dito era cumprido e, com rigor, de local e horário fosse qual fosse o compromisso. 

Por ora encilhados pela moderna comunicação via aparelhos ultra poderosos nos foi tirada a independência de cumprir com a promessa “de fio de bigode” justamente porque, para alguns, para muitos ou para todos ficou outorgada a tentação de o compromisso passar em branco por falta de conexão momentânea, a energia elétrica se foi, a bateria acabou. Simples assim. Vez ou outra pode se fazer muito tentador ignorar o lufa-lufa das redes sociais que nos acaçapa no “corner” dos minutos de um dia inteiro. 

Enlouquecidos com o pisca-pisca eletrônico fica bem difícil se evadir da ciranda multicolorida do viés da vida moderna, com seus ícones chamativos e em sua maioria passiveis da importância que lhe são conferidos. Fica parecendo de certa maneira irônica que “o dito pelo não dito” nunca teve tanta notoriedade.

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

De fora

Idealizei uma chave que apenas abra na minha cabeça lembrança de coisas - ou das coisas - que eu gosto de fazer, de olhar, de rever, de esquecer e de chorar. São muitas e aproveito para - ora em diante - deixar bem na minha frente as ditas por que acredito ser mais fácil acordar e simplesmente sorrir.  Não que eu vá achar graça de tudo, porém o fato de me defrontar comigo mesma e uma listinha do bem já ajuda. Deste mesmo modo de organizar os pensamentos bons desorganizei os de maus modos, os que nascem com a chateação em seu DNA. Estes não terão vez no gaveteiro a que me proponho fazer. Ficarão relegados, bloqueados e serão dizimados sem dó nem piedade pelo bom senso que o cansaço proporciona aos agentes da outra banda. 

O dia que aponta ali no horizonte marítimo chega cheio de novidades e todas diferentes do dia anterior e a esperteza é observar quem mudou mais de lá para cá, se o clima, se nosso intimo. Ou os dois, quem sabe. Melhor não pensar muito sobre o assunto e se jogar de boca na xicara de café preto escaldante porque após dois goles tudo pode mudar. Se o olhar estava embaçado e frouxo, se aclara e se define com o espirito acompanhando célere o movimento. Que perplexidade! Água bem quente e uma especiaria se torna um objeto de desejo todos os dias. E basta. 

Na sequencia o clima se enfuna e entra pelas janelas sendo ele de bons modos ou maus modos, entra sem bater e define se haverão galochas na soleira da porta ou um guarda sol multicolorido na espreita. Qualquer das duas opções esta sempre de bom tamanho porque não tem como discutir com a natureza. 

Chegou a hora do alimento e das escolhas do dia e da mesma forma não se discute, pois a fome é o melhor cardápio e assim, com a disponibilidade de mais ou menos panelas, a alquimia acontece e o corpo agradece.  Com muita sutileza, assim como o dia aponta as orelhas se despede com igual reverência. É nesta hora magistral que a chave vem ajeitar os escaninhos das bênçãos diárias deixando – pelo menos por mais um dia – os desordenados de fora.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Um chip

 

Percebi que o chip havia se rompido com toda a autoridade de quem manda e não pede quando já na rua estava, e foi deste jeito imediatista que me tornei um ser mambembe que batia cabeça e tonteava para descobrir como gerir o que eu pretendia sem o maldito que anda ao meu lado muito mais do que a minha sombra. Junto com ele, seu irmão gêmeo e de todas as horas, a internet, resolveu fazer um “brake” e sumir da vista, melhor dizendo, do conjunto de cabos visíveis e invisíveis que enfeiam a minha casa. Pela sua ausência sai porta afora parecendo nitidamente que havia conluio entre estes dois algozes.

Caminhando sem rumo achei por bem tentar lembrar de como era a vida antes deste período incerto em que estamos o tempo todo pendurados em algo invisível que nos comanda parecendo que é para o bem, mostrando que e sempre melhor saber de tudo um pouco do que muito de uma coisa só. Um tempo em que a irrelevância e a superficialidade vencem com folga espantosa tudo o que se exige mais de um minuto de atenção.

Ficou para trás o modo de pensar com vagar e ter para si o tempo em que os neurônios façam a conferência do assunto e com carinho vai liberando as alternativas para análise. Não existe mais o sentar-se para pensar, olhar para longe buscando socorro, abrir páginas de um livro qualquer para alimentar o raciocínio lógico, usar uma caneta e um papel para anotações dispersas que fatalmente se unirão nas respostas tão aguardadas.

Vou retomar a situação, não sem antes deixar pelo caminho pedaços de mim. Irei até o fim da estrada e ao voltar catarei um por um estes cacos deixados ali e vou organizá-los em uma nova configuração, desta feita, formatada no meu “modo” antigo.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...