sábado, 13 de julho de 2013

Ausências


 

O meu canto estava lá, esperando que eu lhe desse vida,  imagino. Quando entrei novamente no espaço após este período em que me ausentar foi necessário, percebi o quanto ele me faz falta. Depressa, fui ver o mar, meu quadro pintado por Deus que eternamente está em movimento e sempre a meu dispor nas minhas janelas, lindo, cinzento e muito calmo como lhe é peculiar no outono e no inverno. 

Meu olhar se deita por todos os cantos lambendo cada detalhe, cada colorido e começo a ajeitar as dobras farfalhadas que a diarista deixou, talvez até, querendo me agradar ou posando de arrumadeira. Mas nem precisa. Meus objetos possuem vida própria e só a mim obedecem cerimoniosamente quando os envaideço em destaques uma vez que todos fazem parte da minha história ou da familia. Milimetricamente dispostos para meu olhar.
 

Sigo até o jardim, bem tratado, e também dou alô para a vizinhança minha companheira de abanos, porque por aqui, todo mundo se cuida um ao outro com discrição. Um bom dia, um sorriso e todos estão acompanhados e solidários às suas mesmices e particular anseio pela calma e pela paz do lugar nesta época. 

Então percebi como me faz falta a presença da vizinha que foi embora. Nós duas tínhamos um acordo sem palavras desde sempre, de nos sentirmos felizes e acompanhadas mesmo sem bater na porta de uma e outra. Disse ela que custou a me conquistar o olhar e por isso eu peço perdão. É meu jeito obtuso, destrambelhado, quiçá. E então, surpresas eram sempre inusitadas, ora um arroz com leite bem quentinho na minha porta, um pastel ou ainda apenas uma frase: vim te dizer que mesmo que a gente não se fale, eu estou aqui, e também gosto de saber que tu vieste. De minha parte, um toc-toc na janela: precisas de alguma coisa?
 

Ao estacionar meu carro ontem me dei conta de como eu estava acostumada de observar suas janelas, ora cerradas ora abertas ou no meio tom. Como eu, ela gosta de penumbra e de sóis às avessas. Perdas e ganhos. Eu não devia ter ficado longe.

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domingo, 5 de maio de 2013

Academia II





Escrava ou dependente de academia. Escolha o mais apropriado, mas a verdade é que eu sou uma destas, ou as duas, e lá me vou ao paraíso dos apaixonados por seus corpos, músculos e definições, inúteis ou fúteis, todo dia. Mas como há gente para tudo, o tal recinto equipado com ferro retorcido nos mínimos detalhes abriga uma fauna digna de muitos relatos. Mas todos na busca da saúde.

Nesta academia que agora freqüento, só tem som bate-estaca mas é proibido falar alto, fazer turminhas e agitar. Baixe a cabeça e trate de sair logo dali, porque a densidade demográfica no espaço, que é enorme, também é grande.

O que me chama a atenção neste lugar não é exatamente o ambiente e o clima mas, os detalhes dos freqüentadores. Quase todos chegam com a  cara tão amassada que com certeza teve alguém que lhe chutou da cama, ele bateu no tapetinho, pegou uma garrafa de água e se foi. Chega meio atordoado, com marcas de lençol no rosto e, evasivo como um sonâmbulo, anda pelo recinto com a ficha na mão, sem saber aonde ir. Conceito moderno desta academia: cada um por si.

Outros chegam saídos do banho com certa pose cumprimentando o “personal” com um tapa nas costas digno de fazer cuspir o café da manhã. Ali se inicia o ritual de conduzir o aluno pela mão, carregar os pesos, puxar o saco e falar sem parar toda e qualquer bobagem.  Conceito moderno: 1 + 1 = 2 e assim sucessivamente, se multiplicando e explodindo nos incensados metros quadrados.

Parto agora para observar o balcão das fichas dos alunos colocadas em um móvel. Ali é o recanto do status por aqueles que ignoram o reles vestiário com armários para colocar seus pertences e, inconformados com a obscuridade, preferem deixar em cima do balcão, de maneira muito casual, seus ícones como uma única chave solitária com a marca Mercedes, telefones celulares  que fazem um duro contraste com o molho de chaves com penduricalhos tão estranhos que fica difícil imaginar a feição do seu proprietário.

Mas nada é mais singelo do que a chave do carro que não é mais chave, é um cartão, colocado displicentemente como se nada significasse, no meio de tantos objetos contraditórios entre si. 

Finalizando meu treino relâmpago que acontece todos os dias, paro para assistir o desfile das meninas que saem do vestiário pisando forte com o salto 8 no piso flutuante, reverberando vários tons acima do bate-estaca, com a retaguarda malhada empinada, saia lápis, cintura marcada, maquiagem excessiva, colares e pulseiras cintilantes, cabelo fake tipo piaçava. Antes de sair porta afora, dão voltas e mais voltas, falando com um e outro, para se certificarem que todos as estão observando.

Entro muda e saio calada, mas desamassada.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

As diaristas



 

Uma delas trabalha na capital e é levada por dois ônibus, para lá e cá,  todo dia, para cumprir a tarefa de vários patrões, cada um com seu perfil. Camaleoa, adotou um perfil pedinte que se relaciona com todos como estando sempre em falta, sempre no fio da navalha  e com suas contas atrasadas. Ela tece sua teia de “salvamento” para quando precisar.

Ela está embarcada no trem da vida desumano que somente existe para gerar necessidades materiais, e dali não consegue apear. Ora é a cozinha, o quarto, a sala, a geladeira, o fogão, a prateleira ou a reforma do barraco e o puxadinho. Também ajuda o filho que bem novo já casou, já tem filho e precisa da mãe para seguir a vida. Trabalha e cumpre com seu oficio, porém carrega nos ombros a força e o peso da demanda que ela pensa precisar.

A frase que ela sempre repete é que “não passa vontade”. Isto quer dizer várias coisas e só vou comentar uma, pois me chama muita a atenção:  a alimentação. A desgarrada elegeu toda a comida que faz mal à saúde para alimentar a si e a família porque, penso eu, para ela este consumo está associado a algum “status”. Ninguém elege um pé de alface como sendo algo precioso a ser consumido. A conseqüência do sobrepeso e os riscos para a saúde não a incomodam assim como a falta de quase todos os dentes.

Tudo por um, ou vários, carnês.

A outra trabalha em cidade pequena e utiliza a bicicleta para fazer a visita aos seus patrões. Como a primeira, todos diferentes e com vários perfis. Alegre, sorridente e muito fiel, quando demoro a aparecer, por conta própria vai dar uma reativada na faxina que faz tempo que fez e, por qualquer motivo, eu não pude ir e aproveitar.

Deixa bilhetes carinhosos e pede desculpas por ter entrado para pegar o pagamento que deixei em cima da mesa, porque apressada tive que ir embora. Atende ao telefone, sempre que eu ligo me chamando de “querida” e já vai perguntando como estou e como vai meu irmão.

Sempre sincera e pura, chega de surpresa na minha porta para bater um papinho que eu agradeço com um cafezinho bem passado na hora. Sentamos na copa para trocar uma idéia que passa longe, bem longe do consumo, do dinheiro, do ter ou do dever. Às vezes eu a encontro na cidade vizinha ou no supermercado e trocamos palavras como velhas conhecidas, ela, sempre bem arrumada, sem reclamar de nada e de muito bem com a vida.

 As duas são generosas quando fico doente. Uma diz que eu sou rica e ela é pobre a outra sempre me abraça quando chega e  gosta de me dar conselhos e de me criticar quando minha fala fica cinzenta.

Com a primeira estou sempre em divida parecendo que estou em falta com ela, com a outra, sob o mesmo prisma, estou sempre com muito crédito.Uma trabalhadora escrava do ter, outra livre para ser.


sábado, 13 de abril de 2013

O fantasma




Não sei bem quando ou onde me perdi, me deixando levar como se fosse uma desgarrada folha solta ao vento, batendo e me ferindo em redobradas muradas, planando na vida sem rumo. Mas assim foi e fiquei deste jeito meio abusado de recolhimento, somente na observação do entorno e esquentando a cabeça, pelo sim e pelo não.

Quanto mais mergulhada no silêncio, mais apurado o ouvido apreendendo o que quer que seja. O olhar é embaçado mas se aguça e enxerga bem de todas as distâncias e os julgamentos não são tão doentios quando o pensar se arrasta como uma lesma viscosa. Virei uma assombração e um fantasma de mim.

Assim, transparente, me facilita vagar pelo olhar indiscreto que espiona meu dia a dia a cada passo meu, me obrigando a agir como se a vida fosse uma brincadeira de esconde-esconde. Aproveito e fotografo na retina uma vista aérea da vida, atualizando a topografia dos problemas, retirando da toca as soluções ou simplesmente deixando de lado o que não dá para definir. Agora.

Resolvo encarar o que vem pela frente, mas, antes, preciso olhar para trás para ver se dou de cara com quem eu sou e estabeleço a conexão perdida. Achei difícil entrar neste feitio apertado, nesta bagunça cotidiana com ruídos infernais parecendo que todas as vozes e estalidos habituais do mundo e da natureza estão em formação de uma orquestra de loucos. Percebo que nada mudou muito na minha ausência voluntaria e a experiência de ser névoa foi interessante apesar de considerar que ser diáfana é maçante.

Que saudades de mim.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Capa preta


Sempre que eu me permito penso nele. Aquele amor que eu colori por dentro com todo o cuidado como se fosse para sempre me aquecer, uma vez que o amor guardado a sete chaves possui uma quentura infinita nas  abas da discrição. Uma preciosidade deve ser guardada no cantinho do coração e eu cumpro com este compromisso sempre que posso.
Desta feita, não estou podendo, porque é muito divertido espiar este vivo avesso coberto com o sigiloso manto negro. Ademais, ando solta, à deriva, mente alhures, irresponsável.
E lá vou eu a lembrar das tantas alegorias secretas que permearam aquele romance que não aconteceu. Que bom, pois agora me permito a elocubrar o que teria sido, com toda a pompa e circunstância do imaginado.

E os “se” invadem a tela afoitamente porque da dúvida foi construída uma estória e dela eu me alimento até hoje, com muita alegria, porque o prazer de inventar é muitíssimo engraçado.
A fábula começa quando eu lembro que sempre que ele adentrava o cenário meus olhos se enchiam de animação e termina com o inusitado convite acompanhado por um olhar azul, antes da cerimônia.

Recusei a aventura e me instalei no possível. Boba boba.


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domingo, 20 de janeiro de 2013

À deriva



 

Gosto de ser como o mar, uma massa à deriva dos meus pensamentos deixando minha vida seguir em ondas que às vezes podem ser mais volumosas e outras apenas marolas, chegando delicadamente na beira da praia. Muitas vezes, com vento ao contrário da maré, a espuma se enfuna numa brincadeira trágica, uma vez que a profundeza é mais forte e busca seus respingos de volta.

Bom demais ter uma cabeça barulhenta como o oceano, que indica vários desafios desde o começo do dia, não necessitando nenhum estímulo externo para se sentir bem, para saber o que fazer e pensar. Esta sensação de não estar presa é que me dá sustento para fincar meus objetivos de acordo com o tempo a meu serviço, resultando em certo mal estar em relação às invasões cotidianas de pessoas e de situações.

É com esta cachola cheia que me nutro para andar por aí, trocando idéia com o vento, seguindo o vôo dos pássaros, reconhecendo em cada esquina o buraco de ontem desviando somente no instinto. É com a minha mente liberta do algoz do compartilhamento – que para mim já é palavrão – que possuo todas as benesses de um dia de fazer nada e dias de muito fazer. Mas a insistência não pára.

Aquietar o corpo e o espírito devia ser regra para todos, uma vez que somente no encontro íntimo de cada um vamos nos conhecer.  Sem o duro embate com nossa própria alma não há como crescer.

Não tenho paz com tanta interferência invasiva.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Voando no tempo




Estou sempre com a situação na minha cabeça e, do nada, a figuração me aparece formatada em vários ângulos, e quando eu penso que chegou a hora de viajar no tempo sem levantar suspeitas, ela escorrega limosa numa seqüência de imagens coloridas. Muitas vezes no afã de me agarrar a uma, me escapam todas.

Toda esta empreitada é porque eu acredito que se pensar bastante, se fizer do meu coração um estojo e guardar cuidadosamente as lembranças, o eco será meu prêmio, uma vez que o universo se encarrega de fazer o leva e traz para o destino certo, conspirando para um tráfego em perfeita conexão.

Para esta viagem no tempo inventei a tecelagem de um tapete mágico, onde vou mediando os fios invisíveis da saudade, contando uma história em pequenos pacotes arrematados com os liames do tempo. Ali estão entrelaçados olhares e conversas sem nenhuma intenção aparente, os tantos encontros inesperados, a farsa de se jogar conversa fora e as muitas surpresas no caminho. Assim está formada a base sólida da alcatifa que se mantém à medida que a distância aproxima.

Entre uma trama e outra vou intercalando as letras e as músicas que expressam os anseios que não tiveram oportunidade de se concretizar junto aos sorrisos camuflados. Finalizando a peça ilusionista trancei uma grande franja com todas as palavras que foram escritas enganchadas umas nas outras em perfeita desordem, esperando serem decifradas.

Não se esqueça de mim.


sábado, 29 de dezembro de 2012

Tempero


Temos que ter agora uma vida sem sal e de preferência uma comida que se ressalte o sabor através de especiarias ou dele próprio.

Então,  vão se mexendo para inventar o  que mudar no alimento para que tenha bela figuração na mesa sem aquele personagem agregado que agora é vilão. Simples assim, por decreto, como se estivéssemos em uma república das antigas onde todas as ordens eram impostas. O sódio está condenado.

Fiquei então imaginando que estamos fadados a viver na doçura, flutuar em nuvens de chantilly, mergulhar em caldas macias e fartar nossa gulodice em doses catástróficas de chocolate. Mas, o delírio não se confirma, pois o açúcar também está condenado e execrado das nossas mesas, sobrando o assunto para nossa imaginação.

Então, comida boa mesmo é aquele acepipe minúsculo acondicionado no meio de uma folha de alface com um ramo de hortelã lhe seguindo as curvas, suspeitas, porque de pronto, não se reconhece sua origem. A iguaria vem salpicada de um vermelho açafrão rodeada por um fio tênue de qualquer coisa viscosa agridoce que cola no céu da boca. O prato é sempre branco e enorme causando impacto visual que imediatamente estabelece um diálogo com o estômago mandando dizer que está saciado. Estratégia.

Pensando nisso fui para a cozinha fazer um tempero de salada que eu inventei e resolvi levar um pouquinho para minha vizinha. Quando abri a porta para levar o resultado da minha obra, ela estava com a mão no alto para bater na minha porta,  me levando uma sobremesa, daquelas bem das antigas, igualzinha a que minha avó fazia. Sintonias.

O sal da vida.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O fim do mundo





Estou bem sentada aqui esperando o fim do mundo depois de amanhã. Resolvi que não vou fazer nada diferente, ou melhor, na manicure,  não vou pintar minhas unhas, porque ao virar pó não quero ter em meu corpo nada que se configure estabelecido, muito menos o meu esmalte que sempre é vermelho. Imagina,  20 pontinhos grenás permeando as poucas cinzas que eu presumo que ficarão amontoadas num cantinho. Mesmo assim, espero que meu pó seja de cor desmaiada, chic e um pouco cintilante. Mania de não querer parecer despercebida.

Fico na expectativa de uma viagem deliciosa esta, de  final dos tempos, onde tudo o que existe  irá sucumbir e se tornar apenas uma nuvem etérea vagando no cosmos, como se fosse uma civilização tão baldia que o único destino cabível é planar no inútil.  Acho que, preferentemente, não haverá cor porque todos os fins são desmaiados, estonados e tristes.

Imagina o vácuo atmosférico sem o humano vilipendiando o planeta Terra, bagunçando o coreto do clima e da água e à mercê dos poderes antropofágicos de nações, políticos e etnias. De qualquer forma, me parece que nosso astro não irá conseguir se abduzir em luz no dia 21. Muita cangalha, muito ferro, muito cimento, muito plástico, muito silicone – principalmente – sem condições de derretimento. Nem  o mea culpa vai salvar o planeta. Em minha visão, melhor que o mundo como está não se acabe, porque não vai haver espaço no céu para acolher a tralha desconjuntada.

Em contrapartida,  esta expectativa de fim do mundo andava me alegrando porque não consigo mais ser colorida como antigamente. Um coração chumbado.


domingo, 2 de dezembro de 2012

O sujeito




Sempre que ele me liga já sai gritando, bradando algumas palavras de ordem, em seguida debocha, reclama do sinal e depois pergunta onde estou, obviamente não escuta e finaliza dizendo a que veio esta ligação. Uma voz granulada e estridente que tem o  poder de me abstrair de onde estou, como  se fosse um foguete da Nasa me lançando ao cosmos, me tirando do fundo da cama, doente, simplesmente  amolada ou até morta. Também não importa para ele onde estou porque urge desgarrar-se do mico que lhe foi entregue a domicilio e pousá-lo em outros ombros. Desta vez, lançou o dardo ensandecido na minha omoplata.

O encontro do mim para consigo fica na casa do eu falo e eu respondo, ao mesmo tempo embaralhando as palavras ao colocar a vírgula onde é o ponto, a interrogação na resposta e a exclamação na pergunta. Uma pontuação entrevada uma vez que confunde todas as rimas entrelaçando expressões que vão da acusação ao elogio, em fracionados segundos milimetricamente calculados.

Meneia a cabeça, ajeita os óculos e continua com dedo em riste ditando a contra-ordem e eu ali, pasma, sem saber para que lado fugir. Fugir sim, porque com este conteúdo jorrado sobre o meu intelecto sequer consigo impelir para um filtro que possa destrinchar a proposta.

Depois do falatório a língua começa a soltar em outros certeiros brados vinculados a forma de execução, a estratégia e tudo o mais que não é da conta do decujo proponente.Um pavão. Conversa de doido.


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Conversa




 


Já me preocupei muito com conversas, sendo um tema que deixa a  minha verve e o meu pensamento suspensos como se fossem ganchos grilhados na pele pendurados em pau de arara. Minha impressão é de sempre lá estar a catar a melhor  resposta,  o aparte  mais surpreendente  ou, pior, errar o colóquio, uma vez que estou tomada de pavor. E não é só o pavor que me acomete e sim uma preguiça feroz de participar, de ficar atenta, de dar tratos à bola e a massa cinzenta para juntar todos os cacos verborrágicos que me atravessam tal qual flechas predatórias do assunto.

Haja assunto nestes dias de hoje e, mesmo assim, quase sempre descambam para o mesmo tema, ditado pelas grandes mídias. Replicar se transformou em verbo imperativo seja o que isso signifique nos dias de hoje e a massa segue uníssona, com voz forte a derrapar em teus ouvidos.

Conversa sempre me pega em pendular burrice porque nunca sei como agir. Será que devo expressar o que eu realmente penso do assunto ou devo me calar e aguardar o que vem de lá para novamente rebater calada o que não faz sentido ou o que não me enriquece. Vai daí que sem querer eu descobri o segredo da conversa.
 

É aquela forma de se chegar perto do outro com um sorriso emoldurando a simples frase que até pode começar “como o dia está lindo” e melhor ainda se esta for dirigida a quem não tem o alfabeto na ponta da língua.

Na busca da interlocução atemporal vou seguindo com um bate papo sem compromisso a respeito das chuvas fortes da noite anterior, esticando a prosa para comentar o que a cachorrada de rua anda aprontando e deste jeito bem natural vou construindo a fala perfeita. No final do dia a mente está preenchida de conceitos e receitas de viver em conversas bobas.


domingo, 5 de agosto de 2012

Pijama de seda








Ele me olhava sedutor, atirava em mim as bolinhas brancas das quais eu me furtava de rebater, mas era como um ímã, pois quanto mais ele me atraía com seu azul cobalto, mais eu dava voltas no entorno e queria escapar.

Dava dó de vê-lo pendurado e descarnado.

Resolvi então que acharia funções deliciosas para ele em mim, a começar por poder envergá-lo após o banho de domingo, já bem tarde, e depois a parada obrigatória na rede e a vista do mar flanando evasiva.

Arrumada como uma andarilha do descanso, vou repousar na maciez do tecido, perambular por entre prateleiras revendo objetos, lustrando capas dos livros já velhas, ajeitando aqui e ali o lugar de descansar.

Vou escalar bolinha por bolinha e chegar até a altura dos ombros, ajeitar a gola generosa e aconchegante e dar uma espiada no tempo esticando a mão para fora da longa manga, para sentir de que lado o vento sopra, recolhendo em seguida e dando meia volta com prazer à tarefa de fazer nada.

Na descida, uma soneca no bolso do casaco e em seguida resolvo me divertir escorregando bolinhas abaixo chegando até a barra da calça que ajeito para não tropeçar.

Após esta viagem, volto a mim preguiçosa, avoada e impotente para rejeitar os pensamentos sem destino que vem me assaltar, me assombram e se vão. Melhor deixar pra lá e vestir aquele pijama de seda!


O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...