Escrever para viver e viver para escrever. A inspiração é o meu objeto de desejo a cada amanhecer e assim minha alma fica fortalecida no encontro do silêncio e da natureza marítima. Leiam com bons olhos! Mail para contato: verarenner43@gmail.com Vera Lucia Renner
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Hordas humanas
A análise dos caminhantes dentro de um shopping Center passa por várias fases e dependendo do seu humor, vais reparar neles ou não.
Cada monumento ao consumo tem seu próprio público, e suas fases estão refletidas em cada canto luminoso.
Acredito muito que o shopping atrai todo tipo de pessoa, desde aqueles que necessitam de algo quanto aqueles que ali vão se perder na multidão, se tornar incógnitos misturando-se na massa, como uma necessidade imperativa do seu estado de espírito.
Talvez esse comum mortal deixe sua solidão caseira para trás com a expectativa de encontrar o mundo ali, na construção caprichada e luxuosa, muitas vezes.
Ver refletida sua imagem em vitrines deslumbrantes podendo se jogar dentro do cenário, fazendo parte dele e não mais se sentir um excluído. Abandonar por horas sua vida sem graça e deixar-se levar pelo sonho e pelo capricho da edificação. Tão longe da sua realidade.
Um shopping Center é um lugar perfeito para ocultar uma verdade. Tão fácil na sociedade de hoje se igualar a todos e adotar atitudes e falas contundentes para poder parecer, sem ser.
As hordas humanas que vagueiam pelas ruas aí estão para desafiar os crédulos e ingênuos que se descuidam de um olhar mais aprofundado.
As máscaras são muitas
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Traição
A traição impera de certa maneira no nosso dia começando pelo tempo que prometeu ficar de céu azul e se vendeu aos ventos e chuvas, desabando sobre nossas cabeças, alagando a mente e resfriando o espírito.
Não pense que a traição precisa de circunstância para aparecer. Ela precisa de uma vítima.
No meu entender somos ingênuos na maior parte do tempo e a traição que sofremos é por falta de atenção.
Os traidores perambulam soltos e inocentes fazendo suas vítimas de acordo com a oportunidade. E elas surgem a toda hora nos mais banais acontecimentos.
Ao confessar um segredo e vê-lo espalhado aos quatro cantos
Ao imaginar que se é de tua família e de teu sangue, estás seguro
Ao pensar que tua retidão vai segurar todos os contratos
Ao buscar companhia e ficar vazia de tudo
Ao exercer a confiança e ver que foi desconsiderada
Tanto mais sofremos a traição mais eu percebo que a nós foi dada a inteligência para percebê-la. Nossa intuição capta todos os sinais, mas nem sempre queremos enxergar corretamente o que o universo nos sinaliza.
A traição é movida a partir da ingenuidade de cada um.
sábado, 12 de setembro de 2009
Sorry
O perdão lembra religiosidade. Sempre. E romance, cinema, letra de música.
A língua afiada dispara, muitas vezes, como metralhadora giratória em momentos
que nem são favoráveis e o perdão aparece na circunstância. Aí, que fazer,
temos que admitir o exagero e voltar atrás, mas a palavra nunca é perdão. A
palavra que vai te dar a redenção do mau, será outra.
Circulamos em volta do perdão, às vezes até odiando ter que fazê-lo. Tropeçamos
na voz, no gesto, fortuimos o olhar pra longe para dar impressão de estar
arrependido. Nem sempre estamos. Ser sincero é bom demais e voltar atrás é
desdizer de quem somos, do que pensamos e dizemos.
Não deveria haver perdão.
Feito o mal, siga e faça o bem. Assim serás perdoado pelo universo.
Tenho pra mim que ninguém se arrepende de nada. Voltar atrás só em último caso
e vamos nos dando conta que um pé na acusação e outro na redenção, é o normal.
Redimir-se vale nossa alma, ela sim, maculada por ter passado dos limites com o
outro, jaz ofendida. Ferimos a nós mesmos ao fazer a desavença. E somos nós que
purgamos nosso pecado. O que mais vale na situação conflituosa é perdoar si
mesmo, por sermos tão imperfeitos e tão soberbos.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
De vez em quando o mundo anda para trás
.
Às vezes me parece que o mundo anda para trás de tantas surpresas que tenho. As
certezas se vão como se nunca tivessem existido e os pensamentos zombam da
realidade brincando de não ser.
Vivemos com convicções que nos dão colorido e alegria e de repente a
impossibilidade de enxergar o verdadeiro, nos leva a repensar o que existe
atrás da cortina da vida.
Acreditar é uma mola propulsora para tudo o que queremos construir e julgar
destrói até possibilidades. E como conviver com este mundo multifacetado de personalidades
dúbias?
As certezas já não proporcionam segurança e o que nos comanda é a dúvida.
Chegou o limite da razão e o mais certo é recolher-se em si buscando o mundo
antigo com valores que atualmente não existem mais.
Mundo de tantos nomes e tão pouco conteúdo.
Tantas palavras e muito medo.
Tantas atitudes e conseqüentes desistências.
Tanta exposição e nenhuma sinceridade.
Tanta mentira e tanto disfarce
Tão pouca alma e compaixão.
Tantos amigos e pouca companhia.
Tanto assédio irresponsável.
Andar um pouco para trás e resgatar a dignidade de uma amizade, de um contato,
preservar o estreitamento de laços mais humanos, não descartando oportunidades
nem pessoas.
Vou ficar um pouco atrás da cortina deste mundo que andou ao contrário.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Hoje acordei com cem anos
Um despertar diferente me leva a crer que fiquei com cem anos da noite para o dia. Percebo o pensamento, outrora célere, parado. Nada dentro da cabeça, todos os nervos embaçados numa farra desordenada e alegre de neurônios em férias. Sensação estranha e boa, afinal. Parece que terminou o tempo de pensar. Agora é flutuar. Nem sei meu nome.
Meus ossos são gravetos arqueados e doloridos e as passadas, leves. Bom não ter vigor. Vigor cansa.
Meu dia de cem anos começa sem tarefas a cumprir. Sem pesos a carregar e sem novidades a lembrar. O mundo parece só meu e de tanto viver, nada devo a ninguém.
De mansinho um ou outro lembrete da vida começa a se derramar e não vem de dentro de mim. Vem de fora, de uma folha de papel jogada ao qual tropeço. Pareço um embrulho roto arrastando a vida que ficou para trás.
O mundo, vazio de futuro, parece comigo. Uma velha cansada. Minha alma jaz ao meu lado, prostrada e cinza, suplicante para voltar ao corpo.
Entretanto, o tempo não parou como eu pressentia. Queria apreciar o nada. Queria enxergar o velho. Queria me enxergar.
E só consigo ver o caminho passado com tantos afazeres empilhados e aprumados que me custa acreditar que aquela fui eu. Cada vez mais jovem, ocupada e tarefeira, pois na lembrança nada me segurou no cumprimento da rotina. E a viagem de volta continua, agora bem rápida.
Engraçado como velho anda rápido para trás!!!!!
Com avidez, a mente abre todas as gavetas e a realidade transborda de dentro delas tal qual lingeries de seda macias, coloridas e jovens.
E, agora lembrei, meu dia de cem anos vai acabar. Como o feriado.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Mentes no chão
Andar a
toa, dizem, faz bem para a alma que flutua, um pouco cambaleante de prazer, ao
sentir a atmosfera se enroscando pelo corpo físico.
O nosso olhar se transforma em grandes caleidoscópios na busca de cada detalhe
do caminho. No zigue-zague, palmas dos pés e pensamentos se unem para viajar na
realidade. Muitas das nossas passadas não deixam marcas, mas nos
surpreenderíamos se as pudéssemos ver.
Se houvesse o registro da turbulência da mente marcando o chão, teríamos
imagens com exatidão emocional.
Em preto e branco os pensamentos funestos, nas passadas embaralhadas a
lembrança da agonia. Passinhos fortuitos e alegres acompanham como um raio, a
lembrança do melhor. Macios, adentrando o chão, a mente envolvida em
perspectivas carinhosas ou de pura ilusão amorosa.
E a passada se desenvolve cada vez mais complexa formando a teia da nossa vida.
Deixada para trás.
domingo, 30 de agosto de 2009
Amigos..amigos..e que tais
Todo mundo quer ter amigos e deus nos livre se você for do
tipo solitário e pensador, ou, pior ainda, não andar com a manada. Sim, porque
ter uma turma de amigos significa seguir a manada. Pisar em ovos, cuidar para
falar o que não vai agradar a todos, não colocar seu pensamento como
alternativa em qualquer situação.
Se for assim, serás aceito.
Não tem voz quem quiser digredir do enunciado e está morto
quem tem vontade e pensamentos próprios e ousar enunciá-los.
Exagerei na entrada pra chamar atenção de como são insólitas
as relações humanas e ainda mais, no que se refere a amizade.
Sempre digo que uma amizade não se conquista como tantas
outras coisas. A amizade acontece, como o amor. E não acontece de repente
também. Ao reparar numa pessoa que agrada teu intelecto as vibrações e a
energia da aproximação começam a rodear o espírito dos interlocutores e então
se inicia a teia do mais nobre sentimento. O da amizade.
Dentre muitos, poucos
terão importância.
sábado, 15 de agosto de 2009
O funeral
Morrer é solene e a morte é imperativa. Não tem nada mais definitivo e mais incerto em nossa vida.
Sempre, sem acreditarmos que a hora vai chegar, aparece o velório daquela pessoa querida, parente, pai ou mãe e vais te ver diante da cerimônia, em que a despedida é a última.
É para nunca mais.
A cena, muitas vezes é insólita, pois entramos no túnel do tempo. A vida tratou de dar um soprão em todas as pessoas da cidade natal e de repente todas elas, do teu passado, retornam, como gentis fantasmas sorridentes te espreitando, te olhando, para confirmar se você é você mesma.
É neste momento que o funeral se torna uma cerimônia linda, única, entremeada de abraços e como vais, há quanto tempo, enquanto a alma do morto paira sorridente sobre o grupo, pois foi desta terra nascido e por ali viveu sendo respeitado e querido...apenas o destino o levou para outros cantos, mas sua alma mora ali, naquela cidade. É para ela que ele quer voltar.
As raízes afloram nesta hora, todos entram nos trilhos do passado e aproveitam a viagem que vai se tornando íntima e lúdica. As primas e primos, parentes e amigos que há muito não se vêem e que precisaram de reforço ocular para ter certeza de quem é este ou aquele, agora identificados, soltam a conversa.
O funeral vira uma grande e emotiva reunião onde todos se conhecem e se estranham porque já foram íntimos, e há muito, não o são.
Amigos de infância que juntos, têm as melhores recordações de criança parecem querer voltar no tempo, já começam a sorrir e se falar do mesmo jeito de 40 anos atrás ou mais.
O passado impera na cerimônia.
A alma do velado continua serena, pois afinal, em sua despedida, todos estão reunidos. Que honra.
E ele parte. Agora, para sempre. Regressa à sua terra.
À beira do túmulo, agora fechado e cheio de vivas flores e homenagens o grupo se alvoroça, é chegada a hora de voltar ao agora. Em círculos, as pessoas se misturam, andam erráticas e não sabem como se sai de lá.
A viagem de volta ao passado tem que terminar ali. Abraços de um e outro e quando se vê, se está abraçando e se despedindo pela terceira vez a mesma criatura e o grupo se alterna em círculos cada vez mais fechado e mais difícil de dissolver.
Enfim, se rompe o laço. Não tem jeito. É hora de voltar a viver a vida.
Até a morte.
Depois...é tarde!
A desvairada rotina nos suga da cama e nos joga no mundo tal como rolha de champagne arremessada em desvario.
Este é o inicio da vespertina manhã de nossas vidas.
Sem pensar, vamos aos apontamentos do dia e qual robôs, damos conta de tarefa após tarefa. Tudo no lugar, momento e timbre.
E vamos vivendo a hora, dia, mês e ano seguintes. Nada mais é agora.Tudo é depois. Nos tornamos almas penadas do tempo. Sonhando e fazendo o que ainda nem chegou.
E a vida de hoje, onde será que nós a fomos colocar? Ela não tem espaço nem para emoção porque também resolvemos não chorar agora. Choro depois, em casa, e o choro é engolido porque agora também não dá tempo e lá vamos nós a fazer bolhas na alma.
Não temos mais tempo para observar os amores em volta, querendo te laçar. Parece que uma aventura romântica está fora de lugar nesta rotina. Tantos impedimentos na mente mas o pensamento, voa livre! Será?
Não há escusas para repelir o prazer e alegria que um encontro – mesmo fortuito – pode proporcionar. Mas, todas as leis de boa conduta imperam no teu cérebro e evento após evento, rejeitamos o amoroso, sem trégua nem remorso.
Nosso coração jaz morto, coitado, de tanto ser açoitado pela dona sem compaixão.
Só mesmo a doidera de uma vida em saltos para não enxergar as paixões acontecendo, e você, deixando-as de lado.
Dizem que a vida é uma dádiva divina. E dela não aproveitam os pobres mortais. Por viverem o amanhã. Urgente é o nosso tempo.
Onde você estiver, não se esqueça de mim...
domingo, 19 de julho de 2009
Ahhhh..maluquices ciclísticas
Sou ciclista e fundista, isto é, esportista amadora que faz longas
distâncias. Em minhas andanças pela Porto Alegre Rural, tenho muito tempo pra
pensar, muita paisagem para adentrar e muita idéia maluca pra trocar com
alguém, ou simplesmente para tê-las como fonte, pra qualquer coisa, até pra
escrever.
Depois de horas em estradinha de chão batido, o clima bucólico da paisagem
começa a me deixar leve – na realidade mais do que eu gostaria – risonha, sem
grandes motivos, neurônios esvoaçantes e o corpo todo se movimentando não
deixando nem um feixe de músculo de fora dessa dor, morro acima e abaixo.
O movimento rural tem um tempo de contar horas muito próprio e as feições
circulantes, parecem todas iguais, de uma tal masmorrice que é de assombrar. A
conversa dos peões é tão arrastada que se confunde com o zumbido de muitos
insetos da mata. O ritmo e a energia que ali pulsa com certeza é 220 wolts.
O filmezinho não pára e as pernas obedecem a cadência do esforço dobrado em
meio a buracos, areias e pedras. Velhos Chevetes inacreditáveis, ao passar,
levantam leve poeira que me envolve em fina camada vermelha, brilhando ao sol
de inverno que me olha de esguelha.
As rodas da bike com seu ruído característico, chiam, reclamam e rebolam na
terra fôfa, mas vão em frente. Meus pensamentos, bom, meus pensamentos não
existem mais. Apenas delírios envolvidos na endorfina, arquitetando sonhos
entre as taperas bem formadas do caminho, e outras, nem tanto.
Me dou conta, afinal, que não sei onde vai dar esta estrada. Entrei nela sem
querer, pensando em aventurar, em mudar a rotina. As taperas abandonadas
cobertas de hera, com seus telhados cheios de brotos de coloridas flores
silvestres se confundem com o campo de tanto tempo que ali estão. Acho que a
parada no tempo as fez se enterrarem ali para viver.
É um convite.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
A graça da morte
Meu avô João Pedro morreu dormindo. Velho,
ainda forte, viveu o domingo como todo mundo fala que é pra viver: como se
fosse o último.
Eu, zanzinava na balbúrdia de choros e lamentações, pensando
nesta morte serena e percebi em mim mesma um suave sorriso..de inveja. Tem
graça maior ??? O corpo cessa de produzir seus fluídos e o leve arfar do velho
já não existe.
Pensei no dia do meu avô, com a rotina domingueira cumprida à
risca, chinelos arrastando e seu pensamento voando nas senilidades habituais.
A casa toda, agora me lembro, parecia obedecer um ritmo
diferente, com leve cadência de quem tem toda vida pela frente e não precisa se
apressar. Eu acho que minha avó Araci pressentiu, porque com um olhar e risinho
de canto, sorria e abanava a cabeça ao observá-lo com curiosidade, neste dia.
Tão acostumada em lhe seguir os passos, foi velar o sono do
meu avô, por um instante, e sentiu, mais do que percebeu, que ele não
respirava. A sua tez, morena, forte, sem rugas, estava desanuviada de qualquer
de pensamento. A boca, descansava frouxa, um pouco entreaberta. Suas mãos,
outrora fortes e vigorosas, restavam murchas, ao longo do corpo. A respiração
se fora, a vida abandonava a matéria, mansamente.
Delicada, sorrindo um pouco, meneou a cabeça bem junto do
morto e disse: velho safado.
Talco sempre lembra criança ou velho
As partículas diáfanas se misturavam com o vapor do chuveiro
quente e os bebês saiam envoltos em suas fraldas de tecido cheias de bichinhos
e as vovós com seus vestidinhos floridos de verão. O talco iluminava a pele de
velhos e jovens. Sem distinção e sem vergonha.
Nem sei bem porque o talco ficou fora de moda. E foi para uma
moda nada bacana, por exemplo, para evitar frieiras. Pó Pelotense..quem não
conhece??
De qualquer forma a fama do produto caiu e eu fico pensando
que pode ser porque o clima está virado, nossas peles se ressecam com tudo, com
o vento, com a chuva, com o frio, com o calor, com o suor em demasia! Enfim, as
intempéries do mundo moderno acabaram com a magia de se polvilhar os corpos
maduros ou tenros com talco.
E veio a era do creme, sepultando para sempre, no meu
entender, o Talco.
Vanisa Encontra o Farol - Contos do Mar
O dia estava nascendo com rompantes de luz, mas apenas um feixe muito claro atingiu diretamente a morada de Vanisa, que estava havia muito...
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Na primeira vez me chamou a atenção um pé de sapato solitário perdido na beira do mar. Era de homem, e devia estar no fundo do oceano al...
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Descobri que estou sempre de malas prontas, não importando a viagem. Ao meu alcance, a bolsa do dia a dia que carrega em si as esperanças...











