terça-feira, 12 de maio de 2020

O nome e o apelido



Eu tenho um interlocutor cujo amor pela palavra e a intimidade com que tece em renda perfeita seus escritos nos aproximou. Devo este acontecimento aos cabos invisíveis da atualidade que junta todo mundo numa mesma bolha também ficando difícil até separar o joio do trigo. Mas, convenhamos, com o nome próprio que ele porta não ficou complicado constatar que um “Filho do Campeão” só poderia dar saltos de afinidade, generosidade e empatia. Esta última, aliás, acontece através de apenas um olhar ou, não tão amiúde, quando se tem uma base de educação das antigas ou ainda, como é o caso, o gosto por escrever.

Eu me dirijo a ele pelo nome próprio que no significado geral dos dicionários também se denomina “Filho da Nuvem” o que achei de certa maneira uma alcunha mais que perfeita para denominar este personagem que apenas conheço pelas páginas trocadas e pela voz. Lembro que ao alternarmos textos paira sobre nós nuvens de duvidas, interrogação sobre um tema ou outro, troca de significados e por fim  autorização para o fim do debate, sempre profícuo.

Pois ora veja, em uma conversa rápida trocando informações nem tão importantes sobre a vida que passa o Filho do Campeão (ou da Nuvem) resolve que devo mudar o modo de tratamento, eliminando o nome próprio e utilizando o apelido, gracioso, é verdade, porém, de algum modo desvirtuando o real significado do seu belo nome que tem a historia na origem. Fiquei honrada com a oferta, mas também relutante porque talvez houvesse uma quebra na pompa e circunstância dos primeiros parágrafos que se esvairiam como pó de ouro no ar.

Então comecei a imaginar se de ora em diante as conversas se adequassem ao “modo” apelido, de ambas as partes, porque a quebra do protocolo deve ser igualitária e por este motivo lhe revelaria o meu. De criança, e que não é nada sonoro, diga-se. Pensei muito no assunto e por todos os inícios de conversa que projetei na mente não havia jeito de enredar algo que combinasse com os apelidos. Ambos gostamos de palavras mais eruditas, mais inusitadas e que o ser comum de hoje não faz a menor ideia de onde elas vêm. Esta é a graça.  Nossas letras que ora andam separadas ora achamos por bem misturar não terão uma bela combinação na assinatura. Sinto muito “Filho do Campeão”. Pedido negado.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Novas práticas



Eu já havia decidido bem no fundo da minha alma - provavelmente sem ter completa consciência - que este ano seria diferente para mim, havia um impulso forte para mudar mesmo não sabendo ao certo do que eu precisava e muito menos ter conhecimento do necessário a fazer e o que a intuição me apontava. A partir da vida que andou nos últimos tempos os estalos foram acontecendo um após o outro até eu não ter mais ouvidos para ouvir. O silêncio que é o meu mestre acabou sendo atacado vilmente quebrando as minhas barreiras naturais. O barulho me foi apresentado como um aviso.

Dirigi-me voluntariamente a um grande vazio e com os ouvidos no vácuo tive condições de observar com cuidado o que a Vida andava querendo me mostrar e que até este momento exato eu não conseguia perceber e muito menos organizar. Pensei nela como quando se faz uma mudança de casa colocando os objetos em caixas separadas, embaladas adequadamente e devidamente etiquetadas para que tenhamos o norte do conteúdo. É fácil, muito fácil esquecer um ou outro objeto no momento em que eles saem da nossa vista e estes nos surpreenderão em menor ou maior grau ao serem redescobertos.

Foi assim que este momento se apresentou para mim. Vazio de tudo. Alegrei-me e agradeci por ter conseguido zerar a minha mente e colocar em modo de espera minhas decisões de ora em diante.

Ao me debruçar sobre a premência de estabelecer diretrizes que me protejam mais no dia a dia me vi tomada por uma preguiça gigante e uma vontade de deixar estar. A inércia veio cochichar que talvez esta fosse a melhor opção para este momento. Deste modo resolvi deixar tudo o que recolhi da minha mente barulhenta fechada a sete chaves aproveitando apenas o silencio e o vazio reinstalado como companheiros fiéis. Devo aos dois novos aliados a acomodação voluntaria e sem esforço da nova pratica de viver e conviver  nos caixilhos que a duras penas consegui esvaziar.

domingo, 10 de maio de 2020

Minha mãe






É sempre o inesperado quem me acolhe ao lembrar minha Mãe e quase sempre é algo que vejo em mim, o que não é difícil uma vez que estou envelhecendo e meus traços vão tomando um contorno muito semelhante a ela como uma condição atávica. 

Ao andar pela casa vou tropeçando em quase tudo que lembra a casa dela porque alguns objetos fizeram parte da minha vida toda. Além disso o jeito de arrumar é muito parecido. Quase não possuo móveis modernos, os meus enfeites são as porcelanas e objetos que vieram desde a casa em que nasci passando pelas doações de tia e avós. A minha arrumação fica quase que sendo um santuário de lembranças e assim eu vou vivendo sempre de olho no que é belo, que tem tradição e me conforta, comprovando que eu não preciso de nada. 

Na aparência acontece a mesma coisa. Quando eu visto uma roupa colorida – que não é minha preferência – fica claro que fui empurrada para aquele figurino como se houvesse uma força maior. A mesma coisa acontece ao me olhar no espelho e ver em mim as rugas dela, o cabelo escasseando nas têmporas e branqueando em torno do rosto como assim foi em minha Mãe. Na manicure as mãos que se estendem na vaidade são distintas na cor do esmalte, e então começo a perceber nossas diferenças. 

Ao contrario de mim ela era contida, não tinha o riso fácil e falava baixo, acho que era porque o seu interior de artista brilhante puxava o seu melhor para dentro, guardando elementos para poder dispô-los em suas artes manuais. Hoje eu sei que suas gargalhadas migraram no entrelaçamento das tapeçarias que tecia constantemente deixando um rastro dos seus sentimentos alegres e coloridos pendurado na parede. 

O brilho do seu olhar estava refletido nas mil miçangas com que bordou ponto a ponto meus vestidos de baile e suas alegrias ficaram enfurnadas nas longas luvas de cetim que compunha o traje que escondia meu braço magrelo e sem traquejo social, porém, minha Mãe possuía glamour nato que assim me era conferido. Ainda escuto o rufar da maquina de costura que ela acelerava com os pés parecendo um trem antigo que ruidosamente lhe fazia companhia. 

Não tenho o dom que minha Mãe tinha para a costura e o bordado mas gosto de pensar que a minha intimidade com a escrita e meu despudor em demonstrar o que me vai dentro da alma costurando histórias através das letras vem deste talento dela.



sexta-feira, 8 de maio de 2020

Fique em casa



O espaço em que se vive, o lugar para onde se foge todo santo dia aceita sem reclamar a desatenção que recebe quando as demandas externas continuam a impulsionar os olhos de todos para uma tela - pequena ou grande – não importa. É assim que no dia a dia o lado de fora vence a batalha e acaba roubando a atenção levando consigo a alma, alma essa estropiada dos descaminhos do mundo, que se debate na controvérsia e se perde entre tantas verdades e mentiras abrangendo todas as ordens inversas e controversas.

Percebe-se que o Universo esta atento, e de um modo bem radical aponta a cegueira em que se vive, mesmo estando com os olhos abertos sem de qualquer modo enxergar. Deste jeito às avessas se estabelece a obrigação de deitar o olhar para a entrada da casa e eleger o capacho como o xerife e guardião de nossas boas práticas a partir de agora. Isto acontece como se nunca houvesse sido importante restringir o acesso do nocivo ao lar.

Como se fosse pela primeira vez o olhar é surpreendido pela montagem dos espaços de convivência que - por qualquer motivo - foram se adequando ao modelo atual de convivência dos núcleos familiares. A tecnologia hipervalorizada nos dias de hoje se instalou de tal modo na decoração da moradia demonstrando que ao entrar em casa, o lado de fora entra junto.

Agora confinados, as surpresas vão se revelando em todos os níveis. O olhar insistente para fora deixou escondido grande parte da rotina que se deve ter dentro de uma morada, seja ela grande ou pequena, de muitos ou poucos moradores. Com certa timidez as pessoas vão olhando para dentro de si mesmas e – mais importante – mirando o outro ocasionando descobertas que com certeza irão valorizar e consolidar as relações para sempre. Para o bem e para o mal. De qualquer modo fica muito claro que parar para pensar nunca foi tão importante.

Os minutos que eram vividos como se não houvesse amanhã estão sendo redimensionados passando a ter um tempo de utilização verdadeiro porque são eles que marcam a alma que parou e se arrependeu da corrida para o nada. A natureza se revelou uma parceira dos sonhos e divagações uma vez que o azul do céu e do mar ressurge para muitos deixando as ruas desertas se tornarem verdadeiros retratos de um tempo.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Herói fajuto



Naquele momento tudo estava normalizado no trato da vida, das coisas, do entorno e mais um pouco, porém havia algo no ar, um peso que se esgueirava por entre todos somente perceptível a muito poucos. Sabe como é a superficialidade é sempre um porto seguro para a turba delirante porque aprofundar dá muito trabalho. Sabe-se que a manada segue tão junta, seguindo pela mesma trilha sem questionar, sem olhar enviesado, sem parar um poucadinho para escutar o que não está sendo dito e deste jeito engraçado – para dizer o mínimo – tudo vai indo de maneira monitorada às avessas tendo os cegos de plantão a prioridade da fala.

A apresentação vem enfeitada com a flor da retórica impressionando pelo conhecimento apesar de alguns poucos desconfiarem de um copia e cola tão corriqueiro nestes tempos bicudos de autoria, onde fica mais fácil se apropriar do pensamento do outro do que tecer um pensamento lógico que tenha como objetivo deitar entre muitos suas convicções, sem ofender, sem tergiversar, sem acusar. A escrita é mágica e a palavra é um meio imbatível de se acomodar o entendimento num universo de ambiguidades.

Na bossa do mentor de araque vão se acumulando controvérsias e ações ambíguas ficando difícil para espíritos mais perceptivos terem exata dimensão do assunto em questão. A par de tudo o desconforto prossegue no ar rarefeito do espaço. Os especialistas falsos tem em si uma figura bem apresentada, passo curto, sorriso leve na boca, olhos pequenos e verborragia latente. Se oculta com maestria das responsabilidades comuns ao grupo. Como o UNIVERSO não dorme no ponto, em algum momento sua retaguarda rota é exposta. Mais um Herói Fajuto.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Os invisíveis



O protagonista acha que a vida cansada pede trégua e vai ao encontro de Deus junto ao mar revolto imaginando agradecimentos e preces deste tempo contraditório em sua essência, onde se escuta de longe as vozes emboladas no discurso e as gentes no corre corre para lugar nenhum.

Em meio a tudo foi esquecida a lupa do discernimento em alguma prateleira que tanta falta faz para uns, mas para outros, não tanto. No redemoinho da oração do apressado aparece todo tipo de ensejo deixando alguns mais óbvios para mais tarde e desta maneira controversa caem no esquecimento, demonstrando que nem sempre a santa intenção opera a pleno.

De cara não se vê descrição adequada para pedir perdão por haver se encontrado com o egoísmo frente a frente e lhe dado balda e assim, esta pequena parte foi relegada e seguiu-se em frente o plano para dar uma limpada básica na alma que, de tanto se distrair com o irrelevante surge bem trancada para alguns.

Também não houve jeito de sorrir para quem estava acostumado a fechar a cara, ouvidos moucos se fizeram para o amigo que sussurrava um pedido de socorro, cegaram os olhos frente aos préstimos voluntários, braços se fecharam ao aconchego, caminhos foram desviados para não ajudar quem necessitava, sorrisos não foram abertos, a luz não se fez na escuridão da doença e os favores recebidos não obtiveram gratidão e deste jeito apressado a pauta para Deus ficou capenga. Deste jeito dá uma pinta que fica mais fácil descartar o que vem de trás para frente do que mudar ou pedir desculpas ao próximo e até para si mesmo ficando invisível o mais importante.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Final de um ano



Não dá mais para correr porque ele nos pegou em primeira mão. O final do ano nos alcança e na partida para o término não deixamos de olhar para trás, para ver retrospectivas, para fazer um balanço geral, para colocar as brigas no reformatório, para olhar no entorno do mundo - e também mais perto - tendo a certeza de que muito mal foi feito, a vida perdeu certo sentido de leveza e graça porque neste estancada geral e visão do balanço, a conta não fecha.

Melhor sentar um pouco, logo ali na virada final para ver o que estamos trazendo dentro do alforje. Este umbral do Ano Velho para o Ano Novo pode ter algum ponto sem nó, pode haver também uma magia secreta escondida junto à nossa bagagem de boas intenções. Vai que alguns ou todos os males feitos do mundo no ano passado acharam por bem pegar uma carona em nossas costas, se enfiaram na trama da mochila, se disfarçaram como do bem dentro de nossa bagagem mais pesada. A intuição falou mais alto e assim, antes de avançar no novo caminho, deixamos estes equipamentos mais doídos para trás.

Então fica decidido que levaremos apenas a bagagem de mão e que assim mais leves, sem a curva da coluna vertebral vergada de tanta desgraceira que tivemos que transportar, terá a chance de visualizar um ano que vem melhor, mais leve. A conferência do conteúdo da pequena maleta que na corrida e de última hora lembramos de enjambrar vai surpreendendo à medida que se faz a conferência dos itens. A surpresa se contabilizou porque dali nada havia de utilidade, nada de bens materiais, objetos úteis e inúteis, coleções supérfluas, bloco rabiscado, livro de cabeceira, porta retrato, fita ou laço, um grampo, uma carteira, um óculo, uma chave, um dinheiro, nada.

O que fluiu de dentro desta bolsa simplória, arranjada às pressas porque o trem do tempo não aguarda, foi, em primeiro lugar, um perfume não identificado no dia a dia, uma essência que ao ser inspirada encheu os pulmões de uma brisa que imediatamente oxigenou todas as fibras do cérebro, causando assim uma reação em cascata. A lida continuou surpreendendo porque o próximo embrulho tinha uma bela embalagem que de certo modo não podia ser vista a olho nu, porque eram palavras que se desenhavam no ar formando frases de solidariedade, de amor, de incentivo, de ajuda, de socorro, de alegria e de esperança. E deste jeito o alforje se projeta como sendo um saco de sentimentos, de desejos bons, de possibilidades de se fazer outro caminho, individual e coletivo para este Novo Ano que começa.

sábado, 14 de dezembro de 2019

Vou às compras



A ventania litorânea anda me empurrando para onde não quero ir nem me pagando, com rajadas tão extremadas que atrapalham as minhas escolhas e assim fico eu em círculos tentando minimizar os estragos no meu íntimo, é claro. A opção que se apresenta em dias assim reverte para tudo o que não é relevante, como andar por ai a caça do que não é necessário para preencher um espaço que existe ficticiamente na cabeça de uns e outros, mas não na minha.  Corredor nenhum irá me atrair, nem mesmo as magias propagadas em alto e bom som por todos os cantos. Resisto ao impulso de me unir à manada que perambula pelas ruas em blocos e decido que farei um percurso de compras dentro do circuito que me abriga das loucuras da época e da faina do tempo que parece andar um pouco furioso. A natureza também não anda a fim de mim e decide não me receber em seus braços, nem o sol, nem a praia nem o canto de grama de que me apoderei. Assim me lanço às compras de última hora.

Inicio na prateleira dos livros fazendo um recall nos títulos e ao organizar o organizado percebo que alguns títulos me soam como novos ou de certa forma, deslidos. Encantada com a aquisição, capricho na retirada do pó e de algumas traças e os levo para minha cabeceira. Pronto: a parte intelectual da loucura de obter já está estabelecida e a curiosidade de perpassar letra por letra de histórias que não lembro mais me deixa bem feliz.

O mesmo acontece ao abrir de par em par meu armário que exibe vestuário de primavera/verão e com surpresa ao examinar cabide por cabide dou-me conta de trajes que estavam fora da minha agenda diária. Fiquei pensando o motivo e percebi que a idade anda me deixando mais esperta para o figurino e assim, fui me esquecendo de roupas com elástico, golas altas, jaquetas apertadas, calças cigarrete e cintos torturantes. Tratei de dar um belo destino ao rol de peças que destoavam do meu ânimo e passei para frente – no capricho – meus vestidos longos, meus shorts customizados, minhas blusas fartas complementando o meu novo look com as pashminas de todas as cores que resistirão bravamente aos ventinhos de verão por aqui. Mais uma compra realizada com sucesso, assopra meu senso de organização.

Assim com muita atenção fui analisando o entorno para ver se havia algo que precisasse ser renovado dentro da minha cabeça. Parece mentira, mas me dei conta que as composições que estabeleci no organograma da casa estavam funcionando muito bem e me aguardando para a rotina do dia e o descanso da noite. Encerrei minhas compras imaginarias. Até o próximo Natal!

sábado, 9 de novembro de 2019

Entre aspas



Quando arrumo a casa costumo dar uma geral na vida porque é certo que em algum canto vou encontrar uma história, um fato ou determinada situação que surge enredada em letras no papel, objetos antigos e esquecidos formando uma caixa de surpresas a cada encontro meu que, dizendo bem a verdade é frequente. Parece que eu tenho em mim uma faina contumaz em revirar o arrumado. Tudo está no seu lugar, porém, tenho muita curiosidade em descobrir o que se passa por detrás da traquitana embalada, das folhas dos livros, das caixas - grandes e pequenas - que adornam o lugar. Amo caixas.

O enredo vai se formando à medida que o som de clássicos vai de um tom a outro, parecendo ritmar a minha tarefa de destrinchar o que aparece e, mais ainda, o que está oculto, esquecido ou camuflado. Vou me deparando com tantas folhas amareladas pelo tempo e escritas em um tempo que parece que nem existiu que fico em duvida do destino dar a tal alfarrábio. Às vezes, fui eu quem escreveu, em outras, escreveram para mim e outras tantas não sei o autor. Pararam ali em algum momento que o assunto me foi relevante.

Neste dia em que a paciência se aboletou por aqui parecendo não querer dar o fora antes que eu fuçasse com determinação o meu lado avesso, pressenti que havia sido cooptada a buscar – além dos recantos arranjados – as surpresas da arrumação. Não demorou muito para encontrar uma caixa antiga, cheia de bilhetes rápidos em papel colorido e de várias texturas com a minha escrita em que havia uma variação muito forte na letra corrida e com composição aleatória.

Fui abrindo devagar cada bilhete e surgiu um caleidoscópio de múltiplas decepções que me acometeram nos últimos anos. Eles não estavam amarelados pelo tempo, não continham traças, rescindia certo perfume de papel novo e delicado e a dobradura era recente. Todos iniciavam com aspas e descrevia determinado abatimento ao me dar conta da indisponibilidade de coadjuvantes de um bom pedaço da minha vida que eu acabava de deixar para trás.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Quem diria



Já faz um tempo que minhas passadas pela realidade se revezam por um caminho aleatório procurando desvios que não toldem os ares em demasia e que me aponte com leveza os fatos, ocorrências e o que mais se atravessar em minha frente. Não quero me dar ao trabalho de torcer o nariz para o descaso de qualquer um e então marcho com meus pés alados por entre tudo o que percebo em âmbito geral. Ando determinada a enxergar tudo por um canudo.

A lente diminuta a que me permito fazer observações deixa de fora o excesso da grande maioria de flechadas com ponta envenenada que circula por ai sem destino, apenas aguardando um alvo desavisado. Assim é o modo escolhido para enfrentar as ocasiões em que meu coração se aperta muito e me dou conta que se tudo chegou até ali deste jeito arrevesado, talvez pouco ou nada se possa fazer. Dizem as – más – línguas que nunca é tarde para passar uma borracha na parte podre que se apresenta e seguir com a cara à banda na tentativa de redimir-se em seguida. Pelo sim pelo não prefiro a discrição e a parcimônia ao organizar fortes aldravas frente à desdita.

Porém, não posso deixar de observar com discreta euforia o aumento da temperatura da minha alma com a possibilidade de desanimar o destrato que vem de fora para me abater, se fortalecendo de tal forma que acabo me sentindo um ser praticamente transparente e inócuo frente ao inimigo rasteiro que - como urubu em carniça - fica assombrando a mente com assuntos do pior calibre. Quem diria! O patamar do desprezo curador estava logo ali, depois daquela curva do destino.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Ao fim e ao cabo



Acabei soltando o cabo da sombrinha porque, na hora, além de sua serventia ser imprestável naquele momento, imaginei que talvez fosse interessante se eu assim o fizesse com todo meu entorno que aborrece. Seria algo como estas ventanias litorâneas e chuvaradas intermitentes se evadissem de dentro de mim, porque do jeito que a coisa vai o exterior está se adonando da alma  introvertida que, sem forças, se deixa levar com a maré alta pelos recônditos da maré cinzenta, fugindo do alaranjando nascer do sol como o Diabo foge da cruz, parecendo até que é de propósito igualar o espirito ao tempo.

Aproveito o frenesi da natureza e me lanço ao meu próprio e antes mesmo de listar as intempéries me confundo muito com o que é e o que parece ser. Por ali desejo deslizar como se eu fosse uma sombra, ou, talvez até seja, mas não tenha percebido. Na procura de identificar meu status no mundo tive a inusitada surpresa de perceber que de certo modo vago por aí como se eu fosse outra, ou pior, como se desaparecida estivesse. Acredito que vou aceitar imediatamente esta condição porque, obviamente, dá menos trabalho viver.

Às favas estar presa em causas perdidas e embrulhadas com papel de seda por quem as quer ladeadas pelo esquecimento, passando assim o que era de influir para o lado de somenos importância. No atropelo de me socorrer de custas arrastadas e, assertivamente exonera-las de mim, me vejo com certo pudor, considerando que não se deve reclamar. Nem de nada nem de tudo.

Acredito que ficaria de bom tom utilizar uma ferramenta que muito me apraz, porém, nunca consegui utilizá-la com a prontidão exigida: a indiferença. Que notável atitude esta ao meu alcance imediato e que fere como ponta de faca o algoz sem derramar uma gota de sangue, e sem, pasme, que o dito perceba. Com muita facilidade exorto a mim mesma do palco com orgulho, vestindo aquela toga nova em folha que somente a mim pertence e deixo para trás quem de fato nada mais acrescenta. Concluir esta etapa com galhardia se assemelha a este tempo de ondas altas, aguaceiro e vento intermitente. Aleluia.

sábado, 5 de outubro de 2019

Caminhão do lixo



Agarrados e desgarrados lá se vão pendurados na caçamba que balança, mas não cai, socorrendo o planeta da mão humana que espalha o que estiver em seu alcance com tanta ênfase que uma rápida olhada no conteúdo resgatado dá certa ideia do que parece mas não é. Um mix de fazer inveja ao varejo aonde tem de tudo um pouco vão se amontoando num alegre feixe que se cria a partir do cantarolar estranho de quem recolhe.

Por ali se acumula parte do que foi uma estratégia de marketing, um pedaço de uma mente criativa, um volume de cores que pretensamente devem combinar no atraimento daquele produto, materiais – quase em sua maioria – feitos para durar para sempre, contrastando com a politica de que nada dure muito para fazer a roda girar. Uma roda que anda a toda velocidade nem dando tempo para pensar sobre.  A montoeira vai se erguendo a partir de tantas voltas pelos quarteirões em um balanço implacável de recolhimento do dito indesejável para uns e para outros nem tanto.

Na carona da caçamba colorida de verde de propósito se acumulam as cadeiras quebradas do verão passado, os guarda-sóis mofados, prateleira de antanho, as panelas sem serventia, as tralhas enferrujadas e as embalagens de alimentos de tele entrega porque o tempo não anda amigável e a fome não arrefece, em contrapartida da preguiça, que se estabelece com toda sua majestade.

Na carona desta história diária parece que os protagonistas da tarefa a levam a cabo em animada conversa e de salto em salto no paralelepípedo são atraídos pela natureza que está em seu entorno nestas paragens solitárias do inverno litorâneo. Assim se vão à jornada admirando a copa das árvores, as gaivotas que se metem para o lado de dentro do riacho se achando o máximo uma vez que não há nada a lhe espantar as asas e os bicos, os bem-te-vis que lotam os fios e gorjeiam sem parar. A natureza é tão pródiga por aqui que os arautos da limpeza podem dar-se ao luxo de, numa parada estratégica, descer do estribo e correr em desabalada carreira até o mar, jogando os sapatos,  camisa e  boné longe, mergulhando nas águas geladas da primavera. A corrida é em boa velocidade e a arrecadação dos pertences recolhidos em sua volta também. A galera colega aguarda na borda da caçamba o gari praieiro que sabe aproveitar o dia.

O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...