Escrever para viver e viver para escrever. A inspiração é o meu objeto de desejo a cada amanhecer e assim minha alma fica fortalecida no encontro do silêncio e da natureza marítima. Leiam com bons olhos! Mail para contato: verarenner43@gmail.com Vera Lucia Renner
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Capa preta
domingo, 20 de janeiro de 2013
À deriva
Gosto de ser como o mar, uma
massa à deriva dos meus pensamentos deixando minha vida seguir em ondas que às
vezes podem ser mais volumosas e outras apenas marolas, chegando delicadamente
na beira da praia. Muitas vezes, com vento ao contrário da maré, a espuma se
enfuna numa brincadeira trágica, uma vez que a profundeza é mais forte e busca
seus respingos de volta.
Bom demais ter uma cabeça barulhenta como o oceano,
que indica vários desafios desde o começo do dia, não necessitando nenhum
estímulo externo para se sentir bem, para saber o que fazer e pensar. Esta
sensação de não estar presa é que me dá sustento para fincar meus objetivos de
acordo com o tempo a meu serviço, resultando em certo mal estar em relação às
invasões cotidianas de pessoas e de situações.
É com esta cachola cheia que me nutro para andar
por aí, trocando idéia com o vento, seguindo o vôo dos pássaros, reconhecendo
em cada esquina o buraco de ontem desviando somente no instinto. É com a minha
mente liberta do algoz do compartilhamento – que para mim já é palavrão – que
possuo todas as benesses de um dia de fazer nada e dias de muito fazer. Mas a
insistência não pára.
Aquietar o corpo e o espírito devia ser regra para
todos, uma vez que somente no encontro íntimo de cada um vamos nos
conhecer. Sem o duro embate com nossa própria alma não há como
crescer.
Não tenho paz com tanta
interferência invasiva.
sábado, 5 de janeiro de 2013
Voando no tempo
Estou sempre com a situação na
minha cabeça e, do nada, a figuração me aparece formatada em vários ângulos, e
quando eu penso que chegou a hora de viajar no tempo sem levantar suspeitas,
ela escorrega limosa numa seqüência de imagens coloridas. Muitas vezes no afã
de me agarrar a uma, me escapam todas.
Toda esta empreitada é porque eu
acredito que se pensar bastante, se fizer do meu coração um estojo e guardar
cuidadosamente as lembranças, o eco será meu prêmio, uma vez que o
universo se encarrega de fazer o leva e traz para o destino certo, conspirando
para um tráfego em perfeita conexão.
Para esta viagem no tempo inventei a tecelagem de
um tapete mágico, onde vou mediando os fios invisíveis da
saudade, contando uma história em pequenos pacotes arrematados com os
liames do tempo. Ali estão entrelaçados olhares e conversas sem nenhuma
intenção aparente, os tantos encontros inesperados, a farsa de se jogar
conversa fora e as muitas surpresas no caminho. Assim está formada a base
sólida da alcatifa que se mantém à medida que a distância aproxima.
Entre
uma trama e outra vou intercalando as letras e as músicas que expressam os
anseios que não tiveram oportunidade de se concretizar junto aos sorrisos
camuflados. Finalizando a peça ilusionista trancei uma grande franja com todas
as palavras que foram escritas enganchadas umas nas outras em perfeita
desordem, esperando serem decifradas.
Não se esqueça de mim.
sábado, 29 de dezembro de 2012
Tempero
Temos que ter agora uma vida sem sal e de
preferência uma comida que se ressalte o sabor através de especiarias ou dele
próprio.
Então, vão se mexendo para inventar
o que mudar no alimento para que tenha bela figuração na mesa sem
aquele personagem agregado que agora é vilão. Simples assim, por decreto, como
se estivéssemos em uma república das antigas onde todas as ordens eram
impostas. O sódio está condenado.
Fiquei
então imaginando que estamos fadados a viver na doçura, flutuar em nuvens de
chantilly, mergulhar em caldas macias e fartar nossa gulodice em doses
catástróficas de chocolate. Mas, o delírio não se confirma, pois o açúcar
também está condenado e execrado das nossas mesas, sobrando o assunto para
nossa imaginação.
Então, comida boa mesmo é aquele acepipe minúsculo
acondicionado no meio de uma folha de alface com um ramo de hortelã lhe
seguindo as curvas, suspeitas, porque de pronto, não se reconhece sua origem. A
iguaria vem salpicada de um vermelho açafrão rodeada por um fio tênue de
qualquer coisa viscosa agridoce que cola no céu da boca. O prato é sempre
branco e enorme causando impacto visual que imediatamente estabelece um diálogo
com o estômago mandando dizer que está saciado. Estratégia.
Pensando
nisso fui para a cozinha fazer um tempero de salada que eu inventei e resolvi
levar um pouquinho para minha vizinha. Quando abri a porta para levar o
resultado da minha obra, ela estava com a mão no alto para bater na minha
porta, me levando uma sobremesa, daquelas bem das antigas,
igualzinha a que minha avó fazia. Sintonias.
O
sal da vida.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
O fim do mundo
Estou
bem sentada aqui esperando o fim do mundo depois de amanhã. Resolvi que não vou
fazer nada diferente, ou melhor, na manicure, não vou pintar minhas
unhas, porque ao virar pó não quero ter em meu corpo nada que se configure
estabelecido, muito menos o meu esmalte que sempre é vermelho.
Imagina, 20 pontinhos grenás permeando as poucas cinzas que eu
presumo que ficarão amontoadas num cantinho. Mesmo assim, espero que meu pó
seja de cor desmaiada, chic e um pouco cintilante. Mania de não querer parecer despercebida.
Fico na expectativa de uma viagem deliciosa esta,
de final dos tempos, onde tudo o que existe irá sucumbir
e se tornar apenas uma nuvem etérea vagando no cosmos, como se fosse uma
civilização tão baldia que o único destino cabível é planar no
inútil. Acho que, preferentemente, não haverá cor porque todos os
fins são desmaiados, estonados e tristes.
Imagina
o vácuo atmosférico sem o humano vilipendiando o planeta Terra, bagunçando o
coreto do clima e da água e à mercê dos poderes antropofágicos de nações,
políticos e etnias. De qualquer forma, me parece que nosso astro não irá
conseguir se abduzir em luz no dia 21. Muita cangalha, muito ferro, muito
cimento, muito plástico, muito silicone – principalmente – sem condições de
derretimento. Nem o mea culpa vai salvar o
planeta. Em minha visão, melhor que o mundo como está não se acabe, porque não
vai haver espaço no céu para acolher a tralha desconjuntada.
Em contrapartida, esta expectativa de fim do mundo andava me alegrando porque não consigo mais ser colorida como antigamente. Um coração chumbado.
domingo, 2 de dezembro de 2012
O sujeito
Sempre que ele me liga já sai gritando, bradando
algumas palavras de ordem, em seguida debocha, reclama do sinal e depois
pergunta onde estou, obviamente não escuta e finaliza dizendo a que veio
esta ligação. Uma voz granulada e estridente que tem o poder de me
abstrair de onde estou, como se fosse um foguete da Nasa me lançando
ao cosmos, me tirando do fundo da cama, doente, simplesmente amolada
ou até morta. Também não importa para ele onde estou porque urge desgarrar-se
do mico que lhe foi entregue a domicilio e pousá-lo em outros ombros. Desta
vez, lançou o dardo ensandecido na minha omoplata.
O
encontro do mim para consigo fica na casa do eu falo e eu respondo, ao mesmo
tempo embaralhando as palavras ao colocar a vírgula onde é o ponto, a
interrogação na resposta e a exclamação na pergunta. Uma pontuação entrevada
uma vez que confunde todas as rimas entrelaçando expressões que vão da acusação
ao elogio, em fracionados segundos milimetricamente calculados.
Meneia a cabeça, ajeita os óculos e continua com
dedo em riste ditando a contra-ordem e eu ali, pasma, sem saber para que lado
fugir. Fugir sim, porque com este conteúdo jorrado sobre o meu intelecto sequer
consigo impelir para um filtro que possa destrinchar a proposta.
Depois
do falatório a língua começa a soltar em outros certeiros brados vinculados a
forma de execução, a estratégia e tudo o mais que não é da conta do decujo
proponente.Um pavão. Conversa de doido.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Conversa
Já me preocupei muito com conversas, sendo um tema que deixa a minha
verve e o meu pensamento suspensos como se fossem ganchos grilhados na pele
pendurados em pau de arara. Minha impressão é de sempre lá estar a catar a
melhor resposta, o aparte mais
surpreendente ou, pior, errar o colóquio, uma vez que estou tomada
de pavor. E não é só o pavor que me acomete e sim uma preguiça feroz de
participar, de ficar atenta, de dar tratos à bola e a massa cinzenta para
juntar todos os cacos verborrágicos que me atravessam tal qual flechas
predatórias do assunto.
Haja assunto nestes dias de hoje e, mesmo assim,
quase sempre descambam para o mesmo tema, ditado pelas grandes mídias. Replicar
se transformou em verbo imperativo seja o que isso signifique nos dias de hoje
e a massa segue uníssona, com voz forte a derrapar em teus ouvidos.
Conversa sempre me pega em pendular burrice porque nunca sei como agir. Será
que devo expressar o que eu realmente penso do assunto ou devo me calar e
aguardar o que vem de lá para novamente rebater calada o que não faz
sentido ou o que não me enriquece. Vai daí que sem querer eu descobri o segredo
da conversa.
É aquela forma de se chegar perto do outro com um
sorriso emoldurando a simples frase que até pode começar “como o dia está
lindo” e melhor ainda se esta for dirigida a quem não tem o alfabeto na ponta
da língua.
Na
busca da interlocução atemporal vou seguindo com um bate papo sem compromisso a
respeito das chuvas fortes da noite anterior, esticando a prosa para
comentar o que a cachorrada de rua anda aprontando e deste jeito bem natural
vou construindo a fala perfeita. No final do dia a mente está preenchida
de conceitos e receitas de viver em conversas bobas.
domingo, 5 de agosto de 2012
Pijama de seda
Ele me olhava sedutor, atirava em mim as bolinhas brancas das quais eu me
furtava de rebater, mas era como um ímã, pois quanto mais ele me atraía com seu
azul cobalto, mais eu dava voltas no entorno e queria escapar.
Dava dó de vê-lo pendurado e descarnado.
Resolvi então que acharia funções deliciosas para
ele em mim, a começar por poder envergá-lo após o banho de domingo, já bem
tarde, e depois a parada obrigatória na rede e a vista do mar
flanando evasiva.
Arrumada como uma andarilha do descanso, vou
repousar na maciez do tecido, perambular por entre prateleiras revendo
objetos, lustrando capas dos livros já velhas, ajeitando aqui e ali o lugar de
descansar.
Vou escalar bolinha por bolinha e chegar até a
altura dos ombros, ajeitar a gola generosa e aconchegante e dar uma espiada no
tempo esticando a mão para fora da longa manga, para sentir de que lado o vento
sopra, recolhendo em seguida e dando meia volta com prazer à tarefa de
fazer nada.
Na descida, uma soneca no bolso do casaco e em
seguida resolvo me divertir escorregando bolinhas abaixo chegando até a barra
da calça que ajeito para não tropeçar.
Após esta
viagem, volto a mim preguiçosa, avoada e impotente para rejeitar os
pensamentos sem destino que vem me assaltar, me assombram e se vão. Melhor deixar pra lá e vestir aquele pijama de seda!
domingo, 29 de julho de 2012
Cartas para minha neta
Desde bem pequena eu tinha meu canto de estudos, de leitura e de escuta.
Escutava os sons da casa, variados em lamentos e ordens, em tic-tac de tesouras
podando sei lá o quê no jardim e mais a algazarra da natureza. Dava para ouvir
os bichos cabeludos se ondulando pela grama quando era época de se
aventurarem por ali. Coitados, seifados em seguida pelas mãos
exímias de nosso jardineiro.
Também havia a música doce da voz da minha avó me chamando para café da tarde.
De frente para minha janela de delírios, ela me aparecia com seus cabelos
azuis. Eu também irei tê-los, um dia. A presença dela nas minhas tardes em meio
a número e letras e uma solidão voluntária, soava como o sinal do
horário da Rádio Guaíba – que não existe mais, infelizmente: pontual. Ansiada
pelo chamado e folga nas letras, voava para a casa dela adentrando a cozinha
decorada em quadriculado branco e azul. Eu não lembro de falar nada..só de
sentir os cheiros de leite quente com café – eu já adorava café preto, mais as
torradas com margarina derretida. Minha avó era moderna, pois apesar de ser
Presidente de uma fábrica de banha, dizia que a margarina fazia bem à saúde. No
mais, ficava por ali ouvindo aquele diálogo caseiro e gentil que me encantava.
Pra variar, eu não dizia nada. Só sentia.
Não tenho, infelizmente, esta proximidade com minha neta que mora longe, e,
que, às vezes, ao estar aqui por perto não dá tempo de lhe
oferecer arroz com ovo que ambas adoramos, dormir juntas, ler gibis e alguns
livros e conversar conversas de criança e avó.
Mas a vida anda e graças a Deus ela já está familiarizada desde muito, com a
escrita e leituras, então, desta vez prometi escrever cartas em papéis
coloridos, letras desenhadas com emoção e conteúdo de amor, certamente. Ela
sorriu um riso azul que lhe é tão peculiar.
Eu vou escrever para
ela, que estou aqui, cravando letra por letra e imaginando o quanto ela poderá
entender da minha escrita. Talvez pouco ou nada. Talvez tudo.
Vou contar que fui ao mar, e minhas passadas foram recebidas pelas tatuíras que
sobem e descem por entre meus dedos, lépidas, talvez medrosas, ou quem sabe,
divertidas. Afinal aqui é o sul, e só faz calor poucos dias do ano. As tatuíras
se divertem com os humanos, quando eles não estão a caçá-las para tê-las como
isca.
Vou dizer que as ondas me trouxeram os peixes “pampinhas” tão ágeis e felizes
que praticamente voam nas ondas e na espuma.
O relato seguirá na perseguição dos sons de sapos coaxando tendo ao fundo os
gritos dos Quero-Queros e as marcas dos caracóis nas calçadas refletindo a luz
da lua.
Nas falas escritas direi que todo dia vejo um gatinho muito lindo saltitando
nos canteiros floridos perseguindo os pássaros, que as borboletas coloridas
correm por entre as flores e que pequenas joaninhas desfilam suas cores
delicadas nas capas dos meus livros e jornais deixados no chão, enquanto fico
ao sol.
E assim escreverei histórias reais e inventadas, para chegar bem perto da minha
neta.
O
carteiro será nosso cúmplice.
domingo, 17 de junho de 2012
Conexão
Cheguei ao domicilio escolhido pelo meu coração e por esta nova fase da minha
vida, que insiste em fazer as mudanças sem que eu possa contrapor, e muito
rapidamente me instalei arrumando o espaço para então, muito tempo depois, me
conectar. Engraçado, pois normalmente me grudo nas teclas antes mesmo de
guardar a comida e gelar o vinho. Desta vez foi diferente e impulsivamente
resolvi deitar o olhar para o mar, para a rua deserta, as garças na espera, os
quero-queros na espreita de gritos estridentes. Final de tarde e o enorme
prazer de simplesmente estar. Novamente.
Na escrivaninha fui fazer as conexões de meu computador e percebi que o havia esquecido. Simples assim. Levei tudo da maleta tecnológica, menos o cérebro. Uma espécie de torpor tomou conta de mim, gelei e comecei a fuçar em todas as bolsas, olhei mil vezes a mochila encarregada do transporte da minha vida online e nada. Esqueci mesmo.
Passado o primeiro susto resolvi então que seria muito legal ficar sem computador e, de certa forma, sem cérebro, sem meu HD externo e me fui a perambular pela casa desmiolada da rotina, uma vez que os rabichos da tecnologia me abandonaram. Minha cabeça viva falhou descaradamente deixando para trás meu dia a dia.
Virei uma carcaça de carne sem
valor de mercado pois destituída de um cérebro moderno.
Senti um vazio imenso e um vácuo que foi preenchido por ficar mais tempo na cozinha, ler os rótulos dos vinhos, rever todas as etiquetas de produtos que eu comprei na corrida sem nem sequer olhar a validade e muito menos o preço. Dar um look naquela revista cheia de pó que me espera há semanas, pinçar aquele livro da quinta fila e revisitar minhas anotações de anos atrás e verificar que não lembro do que eu estava pensando ao sublinhar aquilo e, desta feita, anotei outras coisas.
De vez em quando eu lembrava do computador mas logo o esquecia tal a sedução das atrações offline. Tratei de colher umas flores e colocar no vaso, bati um papo desconexo com a vizinhança, mudei a posição dos tapetes, ajeitei as cortinas. Sentei, pensei no que mudar para quando o verão chegar. E o tempo foi andando leve, sem sustos e sem surpresas. E sem conexão.
Tudo que eu descrevi acima era o que GOSTARIA de ter feito.
Dei meia volta na hora....
domingo, 10 de junho de 2012
As ponteiras do dia
Inexorável o dia, todo dia, que aponta as orelhas sempre variando a situação de clima e geografia, pois ele, contumaz, nos afronta com sua largueza e luz, deitando sobre a gente mais uma chance de vida.
Acintoso, nos obrigar a rolar ao chão e escolher que alimento nos fará nos entregarmos à rotina, com prazer ou desprazer, uma alternativa nem sempre nossa.
A bebida quente ajuda o despertar e quase sempre nos acaricia deixando a mente alerta e tão otimista que, aparentemente, não haverá nada no mundo que vai nos tirar da animação.
A paisagem é outro aliado e cada um tem a sua determinada por onde escolheu habitar, nos cobrindo de alegria quase sempre. No mais, para tocar a tropa, tem que se ter coragem.
E lá se vai o dia a trote, uma sorte que ande sozinho os ponteiros porque muitas vezes o queremos fazer parar. Para o bem ou para o mal. Não importa, pois sobre eles não temos ingerência alguma.
E chega o fim, como tudo, do dito cujo DIA. Chegou mais uma vez a hora de apagar sem olhar para trás nem fazer balanços inúteis, sem versar sobre a futilidade que te enlaçou sorrateiramente e te levou para um campo minado. Sem reclamar da traição, do maldito e malfeito que te fez uma visita inesperada e que melhor foi deixar para lá.
De instante a instante em que as luzes baixam, a vivacidade fenece e tudo o mais fica para trás é também o tempo de dizer. Amém.
domingo, 3 de junho de 2012
Face a face
Já vai longe a divertida parolice que de tempos em tempos assolava meus dias
resultando em trunfos letrados jogados na vida. A mente fervilhava de conversas
desarrolhando a boca e buscando entre muitos os assuntos.
Não canso de rosnar sobre a mesma coisa mas também não esqueço de lembrar que tantos inícios se dão a partir da tagarelice alheia sendo uns mais produtivos e outros nem tanto.
Na busca constante de não deixar escapar palavras me vem à lembrança as conversas hilariantes em que a diversão era jogar fonemas para todo lado, restando depois um cansaço mental e uma serenidade que não me era peculiar, mas que em outrem, significava seu maior trunfo.
O rendilhado de frases afoito me jogava na frente do crítico interlocutor que airado se punha a me reescrever abalroando minhas palavras, se divertindo em ser eu. Travestido de marionete ousava pinotear entre vírgulas não tendo a coragem de se expor, entretanto. Covardemente se ocultava de mim e de si mesmo e com este jeito roto saiu do ar.
Para minha surpresa, eu o vi tal e qual, colorido,
sorridente a me esperar num canto de uma sanga. Impecável, de cachecol azul
marinho, paletó listrado e cabelos loiros muito bem apanhados para o lado, como
lhe era peculiar. Os olhos azuis, sempre zombeteiros, sorriam alegremente e
suas mãos acenavam em minha direção emanando muita alegria.
Acordei.
O Apagar - Contos do Coração
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