quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Capa preta


Sempre que eu me permito penso nele. Aquele amor que eu colori por dentro com todo o cuidado como se fosse para sempre me aquecer, uma vez que o amor guardado a sete chaves possui uma quentura infinita nas  abas da discrição. Uma preciosidade deve ser guardada no cantinho do coração e eu cumpro com este compromisso sempre que posso.
Desta feita, não estou podendo, porque é muito divertido espiar este vivo avesso coberto com o sigiloso manto negro. Ademais, ando solta, à deriva, mente alhures, irresponsável.
E lá vou eu a lembrar das tantas alegorias secretas que permearam aquele romance que não aconteceu. Que bom, pois agora me permito a elocubrar o que teria sido, com toda a pompa e circunstância do imaginado.

E os “se” invadem a tela afoitamente porque da dúvida foi construída uma estória e dela eu me alimento até hoje, com muita alegria, porque o prazer de inventar é muitíssimo engraçado.
A fábula começa quando eu lembro que sempre que ele adentrava o cenário meus olhos se enchiam de animação e termina com o inusitado convite acompanhado por um olhar azul, antes da cerimônia.

Recusei a aventura e me instalei no possível. Boba boba.


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domingo, 20 de janeiro de 2013

À deriva



 

Gosto de ser como o mar, uma massa à deriva dos meus pensamentos deixando minha vida seguir em ondas que às vezes podem ser mais volumosas e outras apenas marolas, chegando delicadamente na beira da praia. Muitas vezes, com vento ao contrário da maré, a espuma se enfuna numa brincadeira trágica, uma vez que a profundeza é mais forte e busca seus respingos de volta.

Bom demais ter uma cabeça barulhenta como o oceano, que indica vários desafios desde o começo do dia, não necessitando nenhum estímulo externo para se sentir bem, para saber o que fazer e pensar. Esta sensação de não estar presa é que me dá sustento para fincar meus objetivos de acordo com o tempo a meu serviço, resultando em certo mal estar em relação às invasões cotidianas de pessoas e de situações.

É com esta cachola cheia que me nutro para andar por aí, trocando idéia com o vento, seguindo o vôo dos pássaros, reconhecendo em cada esquina o buraco de ontem desviando somente no instinto. É com a minha mente liberta do algoz do compartilhamento – que para mim já é palavrão – que possuo todas as benesses de um dia de fazer nada e dias de muito fazer. Mas a insistência não pára.

Aquietar o corpo e o espírito devia ser regra para todos, uma vez que somente no encontro íntimo de cada um vamos nos conhecer.  Sem o duro embate com nossa própria alma não há como crescer.

Não tenho paz com tanta interferência invasiva.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Voando no tempo




Estou sempre com a situação na minha cabeça e, do nada, a figuração me aparece formatada em vários ângulos, e quando eu penso que chegou a hora de viajar no tempo sem levantar suspeitas, ela escorrega limosa numa seqüência de imagens coloridas. Muitas vezes no afã de me agarrar a uma, me escapam todas.

Toda esta empreitada é porque eu acredito que se pensar bastante, se fizer do meu coração um estojo e guardar cuidadosamente as lembranças, o eco será meu prêmio, uma vez que o universo se encarrega de fazer o leva e traz para o destino certo, conspirando para um tráfego em perfeita conexão.

Para esta viagem no tempo inventei a tecelagem de um tapete mágico, onde vou mediando os fios invisíveis da saudade, contando uma história em pequenos pacotes arrematados com os liames do tempo. Ali estão entrelaçados olhares e conversas sem nenhuma intenção aparente, os tantos encontros inesperados, a farsa de se jogar conversa fora e as muitas surpresas no caminho. Assim está formada a base sólida da alcatifa que se mantém à medida que a distância aproxima.

Entre uma trama e outra vou intercalando as letras e as músicas que expressam os anseios que não tiveram oportunidade de se concretizar junto aos sorrisos camuflados. Finalizando a peça ilusionista trancei uma grande franja com todas as palavras que foram escritas enganchadas umas nas outras em perfeita desordem, esperando serem decifradas.

Não se esqueça de mim.


sábado, 29 de dezembro de 2012

Tempero


Temos que ter agora uma vida sem sal e de preferência uma comida que se ressalte o sabor através de especiarias ou dele próprio.

Então,  vão se mexendo para inventar o  que mudar no alimento para que tenha bela figuração na mesa sem aquele personagem agregado que agora é vilão. Simples assim, por decreto, como se estivéssemos em uma república das antigas onde todas as ordens eram impostas. O sódio está condenado.

Fiquei então imaginando que estamos fadados a viver na doçura, flutuar em nuvens de chantilly, mergulhar em caldas macias e fartar nossa gulodice em doses catástróficas de chocolate. Mas, o delírio não se confirma, pois o açúcar também está condenado e execrado das nossas mesas, sobrando o assunto para nossa imaginação.

Então, comida boa mesmo é aquele acepipe minúsculo acondicionado no meio de uma folha de alface com um ramo de hortelã lhe seguindo as curvas, suspeitas, porque de pronto, não se reconhece sua origem. A iguaria vem salpicada de um vermelho açafrão rodeada por um fio tênue de qualquer coisa viscosa agridoce que cola no céu da boca. O prato é sempre branco e enorme causando impacto visual que imediatamente estabelece um diálogo com o estômago mandando dizer que está saciado. Estratégia.

Pensando nisso fui para a cozinha fazer um tempero de salada que eu inventei e resolvi levar um pouquinho para minha vizinha. Quando abri a porta para levar o resultado da minha obra, ela estava com a mão no alto para bater na minha porta,  me levando uma sobremesa, daquelas bem das antigas, igualzinha a que minha avó fazia. Sintonias.

O sal da vida.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O fim do mundo





Estou bem sentada aqui esperando o fim do mundo depois de amanhã. Resolvi que não vou fazer nada diferente, ou melhor, na manicure,  não vou pintar minhas unhas, porque ao virar pó não quero ter em meu corpo nada que se configure estabelecido, muito menos o meu esmalte que sempre é vermelho. Imagina,  20 pontinhos grenás permeando as poucas cinzas que eu presumo que ficarão amontoadas num cantinho. Mesmo assim, espero que meu pó seja de cor desmaiada, chic e um pouco cintilante. Mania de não querer parecer despercebida.

Fico na expectativa de uma viagem deliciosa esta, de  final dos tempos, onde tudo o que existe  irá sucumbir e se tornar apenas uma nuvem etérea vagando no cosmos, como se fosse uma civilização tão baldia que o único destino cabível é planar no inútil.  Acho que, preferentemente, não haverá cor porque todos os fins são desmaiados, estonados e tristes.

Imagina o vácuo atmosférico sem o humano vilipendiando o planeta Terra, bagunçando o coreto do clima e da água e à mercê dos poderes antropofágicos de nações, políticos e etnias. De qualquer forma, me parece que nosso astro não irá conseguir se abduzir em luz no dia 21. Muita cangalha, muito ferro, muito cimento, muito plástico, muito silicone – principalmente – sem condições de derretimento. Nem  o mea culpa vai salvar o planeta. Em minha visão, melhor que o mundo como está não se acabe, porque não vai haver espaço no céu para acolher a tralha desconjuntada.

Em contrapartida,  esta expectativa de fim do mundo andava me alegrando porque não consigo mais ser colorida como antigamente. Um coração chumbado.


domingo, 2 de dezembro de 2012

O sujeito




Sempre que ele me liga já sai gritando, bradando algumas palavras de ordem, em seguida debocha, reclama do sinal e depois pergunta onde estou, obviamente não escuta e finaliza dizendo a que veio esta ligação. Uma voz granulada e estridente que tem o  poder de me abstrair de onde estou, como  se fosse um foguete da Nasa me lançando ao cosmos, me tirando do fundo da cama, doente, simplesmente  amolada ou até morta. Também não importa para ele onde estou porque urge desgarrar-se do mico que lhe foi entregue a domicilio e pousá-lo em outros ombros. Desta vez, lançou o dardo ensandecido na minha omoplata.

O encontro do mim para consigo fica na casa do eu falo e eu respondo, ao mesmo tempo embaralhando as palavras ao colocar a vírgula onde é o ponto, a interrogação na resposta e a exclamação na pergunta. Uma pontuação entrevada uma vez que confunde todas as rimas entrelaçando expressões que vão da acusação ao elogio, em fracionados segundos milimetricamente calculados.

Meneia a cabeça, ajeita os óculos e continua com dedo em riste ditando a contra-ordem e eu ali, pasma, sem saber para que lado fugir. Fugir sim, porque com este conteúdo jorrado sobre o meu intelecto sequer consigo impelir para um filtro que possa destrinchar a proposta.

Depois do falatório a língua começa a soltar em outros certeiros brados vinculados a forma de execução, a estratégia e tudo o mais que não é da conta do decujo proponente.Um pavão. Conversa de doido.


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Conversa




 


Já me preocupei muito com conversas, sendo um tema que deixa a  minha verve e o meu pensamento suspensos como se fossem ganchos grilhados na pele pendurados em pau de arara. Minha impressão é de sempre lá estar a catar a melhor  resposta,  o aparte  mais surpreendente  ou, pior, errar o colóquio, uma vez que estou tomada de pavor. E não é só o pavor que me acomete e sim uma preguiça feroz de participar, de ficar atenta, de dar tratos à bola e a massa cinzenta para juntar todos os cacos verborrágicos que me atravessam tal qual flechas predatórias do assunto.

Haja assunto nestes dias de hoje e, mesmo assim, quase sempre descambam para o mesmo tema, ditado pelas grandes mídias. Replicar se transformou em verbo imperativo seja o que isso signifique nos dias de hoje e a massa segue uníssona, com voz forte a derrapar em teus ouvidos.

Conversa sempre me pega em pendular burrice porque nunca sei como agir. Será que devo expressar o que eu realmente penso do assunto ou devo me calar e aguardar o que vem de lá para novamente rebater calada o que não faz sentido ou o que não me enriquece. Vai daí que sem querer eu descobri o segredo da conversa.
 

É aquela forma de se chegar perto do outro com um sorriso emoldurando a simples frase que até pode começar “como o dia está lindo” e melhor ainda se esta for dirigida a quem não tem o alfabeto na ponta da língua.

Na busca da interlocução atemporal vou seguindo com um bate papo sem compromisso a respeito das chuvas fortes da noite anterior, esticando a prosa para comentar o que a cachorrada de rua anda aprontando e deste jeito bem natural vou construindo a fala perfeita. No final do dia a mente está preenchida de conceitos e receitas de viver em conversas bobas.


domingo, 5 de agosto de 2012

Pijama de seda








Ele me olhava sedutor, atirava em mim as bolinhas brancas das quais eu me furtava de rebater, mas era como um ímã, pois quanto mais ele me atraía com seu azul cobalto, mais eu dava voltas no entorno e queria escapar.

Dava dó de vê-lo pendurado e descarnado.

Resolvi então que acharia funções deliciosas para ele em mim, a começar por poder envergá-lo após o banho de domingo, já bem tarde, e depois a parada obrigatória na rede e a vista do mar flanando evasiva.

Arrumada como uma andarilha do descanso, vou repousar na maciez do tecido, perambular por entre prateleiras revendo objetos, lustrando capas dos livros já velhas, ajeitando aqui e ali o lugar de descansar.

Vou escalar bolinha por bolinha e chegar até a altura dos ombros, ajeitar a gola generosa e aconchegante e dar uma espiada no tempo esticando a mão para fora da longa manga, para sentir de que lado o vento sopra, recolhendo em seguida e dando meia volta com prazer à tarefa de fazer nada.

Na descida, uma soneca no bolso do casaco e em seguida resolvo me divertir escorregando bolinhas abaixo chegando até a barra da calça que ajeito para não tropeçar.

Após esta viagem, volto a mim preguiçosa, avoada e impotente para rejeitar os pensamentos sem destino que vem me assaltar, me assombram e se vão. Melhor deixar pra lá e vestir aquele pijama de seda!


domingo, 29 de julho de 2012

Cartas para minha neta



Desde bem pequena eu tinha meu canto de estudos, de leitura e de escuta.

Escutava os sons da casa, variados em lamentos e ordens, em tic-tac de tesouras podando sei lá o quê no jardim e mais a algazarra da natureza. Dava para ouvir os bichos cabeludos se ondulando pela grama quando era  época de se aventurarem  por ali. Coitados, seifados em seguida pelas mãos exímias de nosso jardineiro.

Também havia a música doce da voz da minha avó me chamando para café da tarde. De frente para minha janela de delírios, ela me aparecia com seus cabelos azuis. Eu também irei tê-los, um dia. A presença dela nas minhas tardes em meio a número e letras  e uma solidão voluntária, soava como o sinal do horário da Rádio Guaíba – que não existe mais, infelizmente: pontual. Ansiada pelo chamado e folga nas letras, voava para a casa dela adentrando a cozinha decorada em quadriculado branco e azul. Eu não lembro de falar nada..só de sentir os cheiros de leite quente com café – eu já adorava café preto, mais as torradas com margarina derretida. Minha avó era moderna, pois apesar de ser Presidente de uma fábrica de banha, dizia que a margarina fazia bem à saúde.  No mais, ficava por ali ouvindo aquele diálogo caseiro e gentil que me encantava. Pra variar, eu não dizia nada. Só sentia.

Não tenho, infelizmente, esta proximidade com minha neta que mora longe, e, que,  às vezes, ao estar aqui por perto não dá tempo de  lhe oferecer arroz com ovo que ambas adoramos, dormir juntas, ler gibis e alguns livros e conversar conversas de criança e avó.

Mas a vida anda e graças a Deus ela já está familiarizada desde muito, com a escrita e leituras, então, desta vez prometi escrever cartas em papéis coloridos, letras desenhadas com emoção e conteúdo de amor, certamente. Ela sorriu um riso azul que lhe é tão peculiar.

Eu vou escrever para ela, que estou aqui, cravando letra por letra e imaginando o quanto ela poderá entender da minha escrita. Talvez pouco ou nada. Talvez tudo.

Vou contar que fui ao mar, e minhas passadas foram recebidas pelas tatuíras que sobem e descem por entre meus dedos, lépidas, talvez medrosas, ou quem sabe, divertidas. Afinal aqui é o sul, e só faz calor poucos dias do ano. As tatuíras se divertem com os humanos, quando eles não estão a caçá-las para tê-las como isca.

Vou dizer que as ondas me trouxeram os peixes “pampinhas” tão ágeis e felizes que praticamente voam nas ondas e na espuma.

O relato seguirá na perseguição dos sons de sapos coaxando tendo ao fundo os gritos dos Quero-Queros e as marcas dos caracóis nas calçadas refletindo a luz da lua.

Nas falas escritas direi que todo dia vejo um gatinho muito lindo saltitando nos canteiros floridos perseguindo os pássaros, que as borboletas coloridas correm por entre as flores e que pequenas joaninhas desfilam suas cores delicadas nas capas dos meus livros e jornais deixados no chão, enquanto fico ao sol.

E assim escreverei histórias reais e inventadas, para chegar bem perto da minha neta.

O carteiro será nosso cúmplice.


domingo, 17 de junho de 2012

Conexão






Cheguei ao domicilio escolhido pelo meu coração e por esta nova fase da minha vida, que insiste em fazer as mudanças sem que eu possa contrapor, e muito rapidamente me instalei arrumando o espaço para então, muito tempo depois, me conectar. Engraçado, pois normalmente me grudo nas teclas antes mesmo de guardar a comida e gelar o vinho. Desta vez foi diferente e impulsivamente resolvi deitar o olhar para o mar, para a rua deserta, as garças na espera, os quero-queros na espreita de gritos estridentes. Final de tarde e o enorme prazer de simplesmente estar. Novamente.

Na escrivaninha fui fazer as conexões de meu computador e percebi que o havia esquecido. Simples assim. Levei tudo da maleta tecnológica, menos o cérebro. Uma espécie de torpor tomou conta de mim, gelei e comecei a fuçar em todas as bolsas, olhei mil vezes a mochila encarregada do transporte da minha vida online e nada. Esqueci mesmo. 

Passado o primeiro susto resolvi então que seria muito legal ficar sem computador e, de certa forma, sem cérebro, sem meu HD externo e me fui a perambular pela casa desmiolada da rotina, uma vez que os rabichos da tecnologia me abandonaram. Minha cabeça viva falhou descaradamente deixando para trás meu dia a dia. 

Virei uma carcaça de carne sem valor de mercado pois destituída de um cérebro moderno.

Senti um vazio imenso e um vácuo que foi preenchido por ficar mais tempo na cozinha, ler os rótulos dos vinhos, rever todas as etiquetas de produtos que eu comprei na corrida sem nem sequer olhar a validade e muito menos o preço. Dar um look naquela revista cheia de pó que me espera há semanas, pinçar aquele livro da quinta fila e revisitar minhas anotações de anos atrás e verificar que não lembro do que eu estava pensando ao sublinhar aquilo e, desta feita, anotei outras coisas. 

De vez em quando eu lembrava do computador mas logo o esquecia tal a sedução das atrações offline. Tratei de colher umas flores e colocar no vaso, bati um papo desconexo com a vizinhança, mudei a posição dos tapetes, ajeitei as cortinas. Sentei, pensei no que mudar para quando o verão chegar. E o tempo foi andando leve, sem sustos e sem surpresas. E sem conexão. 

Tudo que eu descrevi acima era o que GOSTARIA de ter feito.

Dei meia volta na hora....


domingo, 10 de junho de 2012

As ponteiras do dia



Inexorável o dia, todo dia, que aponta as orelhas sempre variando a situação de clima e geografia, pois ele, contumaz, nos afronta com sua largueza e luz, deitando sobre a gente mais uma chance de vida.

Acintoso, nos obrigar a rolar ao chão e escolher que alimento nos fará nos entregarmos à rotina, com prazer ou desprazer, uma alternativa nem sempre nossa. 

A bebida quente ajuda o despertar e quase sempre nos acaricia deixando a mente alerta e tão otimista que, aparentemente, não haverá nada no mundo que vai nos tirar da animação. 

A paisagem é outro aliado e cada um tem a sua determinada por onde escolheu habitar, nos cobrindo de alegria quase sempre. No mais, para tocar a tropa, tem que se ter coragem. 

E lá se vai o dia a trote, uma sorte que ande sozinho os ponteiros porque muitas vezes o queremos fazer parar. Para o bem ou para o mal. Não importa, pois sobre eles não temos ingerência alguma. 

E chega o fim, como tudo, do dito cujo DIA. Chegou mais uma vez a hora de apagar sem olhar para trás nem fazer balanços inúteis, sem versar sobre a futilidade que te enlaçou sorrateiramente e te levou para um campo minado. Sem reclamar da traição, do maldito e malfeito que te fez uma visita inesperada e que melhor foi deixar para lá. 

De instante a instante em que as luzes baixam, a vivacidade fenece e tudo o mais fica para trás é também o tempo de dizer. Amém.


domingo, 3 de junho de 2012

Face a face



Já vai longe a divertida parolice que de tempos em tempos assolava meus dias resultando em trunfos letrados jogados na vida. A mente fervilhava de conversas desarrolhando a boca e buscando entre muitos os assuntos.
 

Não canso de rosnar sobre a mesma coisa mas também não esqueço de lembrar que tantos inícios se dão a partir da tagarelice alheia sendo uns mais produtivos e outros nem tanto. 

Na busca constante de não deixar escapar palavras me vem à lembrança as conversas hilariantes em que a diversão era jogar fonemas para todo lado, restando depois um cansaço mental e uma serenidade que não me era peculiar, mas que em outrem, significava seu maior trunfo. 

O rendilhado de frases  afoito me jogava na frente do crítico interlocutor que airado se punha a me reescrever abalroando minhas palavras, se divertindo em ser eu. Travestido de marionete ousava pinotear entre vírgulas não tendo a coragem de se expor, entretanto. Covardemente se ocultava de mim e de si mesmo  e com este jeito roto saiu do ar. 

Para minha surpresa, eu o vi tal e qual, colorido, sorridente a me esperar num canto de uma sanga. Impecável, de cachecol azul marinho, paletó listrado e cabelos loiros muito bem apanhados para o lado, como lhe era peculiar. Os olhos azuis, sempre zombeteiros, sorriam alegremente e suas mãos acenavam em minha direção emanando muita alegria.

Acordei. 





O Apagar - Contos do Coração

  “Eu apaguei pouca coisa de mim porque sempre imagino que servirão para reescrever outro capítulo da história, corrigir o que me parecer se...