terça-feira, 19 de maio de 2026

A Ressaca dos Sobreviventes

 


O oceano se alevantou altaneiro e bradou aos seus comparsas que o espetáculo iria acontecer por estes dias: que ficassem alertas. O fundo abissal se agrupou, rugiu e, com espasmos incontidos, se revirou e instalou a urgência oceânica da massa lavrada por espesso tapete de calcário.

Tomei o rumo da praia, embaixo de uma chuva fina, observando que o mar derramava em lágrimas o conteúdo escavado durante a fúria de suas correntezas que, acintosamente, removeram relíquias geológicas em seu poder. Meus pés gelaram na areia afinada pelas ondas gigantes, que determinaram que acelerasse a passada, abrisse os olhos e aguçasse os sentidos, porque o oceano havia realizado um inventário que ninguém pediu. Vomitou alguns arquivos marítimos que devem estar por aí: atrás das espumas, escondidos na areia ou enterrados em um flanco de cômoro desabado.

Acredito que chegou o dia de receber recados marinhos e, talvez, as peças arremetidas por ele se destinem ao meu acervo de tesouros. Esta esperança se confirmou em seguida quando, aqui e ali, encontrei lindas conchas as quais fui arrecadando com avidez.

Com esmero analisei a trajetória da vida extensa de todas elas e como se consagraram nobremente no profundo planeta de sal. Parte delas ficou enterrada, resguardando sua cor original, outras tomaram tanta surra entre pau e pedra que empalideceram, algumas ostras secaram, se amontoando umas às outras pela eternidade.  Finalizando meu empenho, encontrei pequenos faunos que se acotovelaram na craca, formando condomínios hoje calcificados. Pranteando o encontro, arranjei os sobreviventes pós-vida no Aquário do Mar Morto.

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