O oceano se alevantou
altaneiro e bradou aos seus comparsas que o espetáculo iria acontecer por estes
dias: que ficassem alertas. O fundo abissal se agrupou, rugiu e, com espasmos
incontidos, se revirou e instalou a urgência oceânica da massa lavrada por
espesso tapete de calcário.
Tomei o rumo da praia, embaixo
de uma chuva fina, observando que o mar derramava em lágrimas o conteúdo
escavado durante a fúria de suas correntezas que, acintosamente, removeram relíquias
geológicas em seu poder. Meus pés gelaram na areia afinada pelas ondas
gigantes, que determinaram que acelerasse a passada, abrisse os olhos e
aguçasse os sentidos, porque o oceano havia realizado um inventário que ninguém
pediu. Vomitou alguns arquivos marítimos que devem estar por aí: atrás das
espumas, escondidos na areia ou enterrados em um flanco de cômoro desabado.
Acredito que chegou o dia de
receber recados marinhos e, talvez, as peças arremetidas por ele se destinem ao
meu acervo de tesouros. Esta esperança se confirmou em seguida quando, aqui e
ali, encontrei lindas conchas as quais fui arrecadando com avidez.
Com esmero analisei a
trajetória da vida extensa de todas elas e como se consagraram nobremente no
profundo planeta de sal. Parte delas ficou enterrada, resguardando sua cor
original, outras tomaram tanta surra entre pau e pedra que empalideceram,
algumas ostras secaram, se amontoando umas às outras pela eternidade. Finalizando meu empenho, encontrei pequenos
faunos que se acotovelaram na craca, formando condomínios hoje calcificados. Pranteando
o encontro, arranjei os sobreviventes pós-vida no Aquário do Mar Morto.

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