O chalé de Verônica estava
mais sombrio internamente porque a Cyborg resolveu organizar a casa e fechá-la
por um tempo, ao sentir a necessidade de outros ares, mesmo que fossem ares de
cidade. Pretendia colocar seu mecanismo em ordem e – mais recentemente – os sentimentos,
que estavam aflorando em seu coração de forma inusitada e intempestiva e que
ela, por enquanto, não sabia como lidar e muito menos se comportar.
Já havia algum tempo que Verônica
havia descoberto um pequeno botão na nuca que a colocava em modo de sono, sem medo
de ser surpreendida uma vez que o controle de despertar estava muito bem
azeitado. Este ponto era importante para lhe dar segurança ao se esconder em qualquer
lugar do caminho. Tomou a estrada com o cérebro fervendo de inquietações porque
partia de um lugar seguro, criado por ela, quando se encontrava em pedaços.
Alcançou a rua em solene silêncio,
tanto das suas peças costuradas com mil parafusos e cabos, quanto a sua voz,
que ultimamente soava menos gutural do que há algum tempo atrás. Ao erguer seu
olhar digital para o horizonte encontrou um panorama totalmente diverso do que
estava acostumada: de sua bancada era sempre o mar que a espreitava. Sacudiu a
cabeça afastando tais pensamentos que não deveriam fazer parte agora da sua
jornada. Estava focada em descobrir como o mundo composto de cimento, luz
artificial, solidão entre muitos e valores fracos estava se comportando.
Ao entrar na cidade percebeu
em toda a estrutura uma agitação vinda de uma brisa cinzenta e de um odor acre,
deixando suas dobradiças com mais dificuldade de movimento. Encontrou, em
seguida, um beco com uma construção antiga parecendo ter sido um caminho importante
nessa estrutura geográfica. O coração sintético de Verônica, mesmo sob uma
camada de metal e lógica, estremeceu levemente. O lugar em que havia se
refugiado fazia parte do corredor da fábrica de robôs na qual ela havia sido
fabricada. Verônica entendeu que este caminho de volta surgiu dentro dela para
que ela tivesse a certeza de suas escolhas. Uma vida simples, perto do mar,
convivendo em uma aldeia que ela considera a joia da sua vida.

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