Levantei o nariz e corri
cegamente para a beira do mar porque algo me dizia que eu deveria, hoje sem
falta, buscar junto ao meu vizinho o preenchimento de todas as palavras que
andam me faltando na cachola. Aparentemente, ao levantar-me da cama jorraram
para fora todas as minhas lembranças boas, meus amigos – poucos -, todos os
textos em que professei alegria mesmo fingindo, todas as vezes em que me manifestei
com otimismo, todas as vezes em que tentei acreditar e todas as lamentáveis
vezes em que jurei ir em frente, mesmo sabendo que não havia aonde ir.
Eu era a força motriz da
ciranda das múltiplas letras que se acotovelavam na ponta dos meus dedos
buscando um lugar estrito para se colar em qualquer ponta de internet, qualquer
farrapo de som aleatório, qualquer canto e que a voz fosse ouvida. Agachava-se
sempre o letreiro a qualquer diapasão, bem ou mal administrado.
Parece-me que talvez tenha
havido uma revolta do alfabeto que de uma hora para outra recebeu a ordem do
redemoinho e tratou de se misturar de tal maneira que os bons entendedores
jamais repetirão o que ali está posto. Para este vazio mental não tenho
alternativa a não ser colocar em modo secreto a
escrita de palavras que vão carregar a verdade e o sentido da vida. Por
enquanto, apenas o sentido que a mim pertence.

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