sábado, 10 de outubro de 2026

Verônica e os Sentimentos - Contos de Ficção

 


Era um desses dias em que a chuva se espalhava, ora calma ora com rajadas que fazia o casebre de Verônica vibrar perigosamente, encontrando a Cyborg de prontidão para qualquer eventualidade: seja de recolher tudo em algum canto, para escapar de águas revoltas, ou retirar o mais importante e se abrigar em algum capão ao redor, que aliás, estavam se proliferando rapidamente em razão do movimento das dunas.

Ao tentar organizar o pequeno espaço de uma forma mais segura e sem espalhar tantas ferramentas como costuma fazer, reparou em uma caixa empoeirada, colocada embaixo da sua bancada de trabalho e ali esquecida, desde o primeiro dia em que foi jogada do camburão. Lembra de ter arrebanhado os estilhaços de suas ferragens não finalizadas, mas nunca imaginou que poderia haver algo ali que necessitasse ou que fizesse falta.

Sentou novamente frente ao janelão de frente para o mar para ficar de olho no movimento do clima, que neste dia estava duvidoso em sua segurança. Espalhou todo o conteúdo da caixa misteriosa separando alguns chips inúteis, algumas presilhas enferrujadas, fios desencapados e cabos partidos ao meio. Percebendo a inutilidade do lixo eletrônico em sua frente, foi separando cada um deles e colocando na lixeira ao seu lado.

Ao final da tarefa feita rapidamente, rolou entre os seus dedos uma peça pequena que deveria compor a engrenagem do pescoço causando certo pânico e que a levou a examinar se ali estava de fato faltando algo. Correu para verificar no Manual de Verônica as características de montagem da parte superior do corpo, não encontrando nada que a pudesse prejudicar.

Mais calma examinou a peça com cuidado quando percebeu que havia um entalhe muito bonito com uma inicial e o desenho de uma onda do mar. O trabalho havia sido feito com muito capricho deixando Verônica imaginar que, talvez, este pequeno rotor havia sido colocado em meio ao seu sistema pelo operário que trabalhou na sua composição.

Verônica alongou o olhar para o mar tentando imaginar qual teria sido a intenção de um operário cibernético internalizar uma centelha de afeto no seu sistema fabricado justamente para ser uma máquina insensível. Caminhou lentamente até a beira do mar - revolta naquele momento – mas não sentiu medo; ao contrário, sentiu seu chassi vibrar com a energia da fúria marinha o que a fez compreender, que em alguma parte dos seus circuitos, um desvio de engenharia contrariava a frieza com que foi construída

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