Nos últimos tempos, Vanisa
intuiu que existe em seu espírito uma energia diferente, um impulso alegre
desde que o dia começa até quando termina. Quase sempre, ao trilhar os caminhos
lúdicos que a levam até a aldeia, sente um leve arfar no coração e, lá
chegando, observa o brilho dos aldeões na sua passagem, mesmo que eles se
mantenham distantes. Ela não se aproxima, mas oferece a todos um largo sorriso,
uma simpatia inerente à sua figura e seus grandes olhos azuis distribuem
silenciosamente o afeto resguardado, pressentindo que, pressente, que em algum
momento, as coisas poderão ter outro tom, mesmo que agora pareçam avançar lentamente.
O dia estava morno, com uma
densa maresia cobrindo os montes, levando-a a buscar um xale tricotado pelas
artesãs, suas vizinhas, o que a confortou termicamente e também acolheu sua
alma ainda fria. Mesmo andando com calma, por qualquer motivo apressou o passo
ao passar pelo caminho que possui densa vegetação na sua borda por ser um lugar
mais isolado e longe do mar. Depois de dar os primeiros passos tropeçou em uma garrafa
vazia com feição muito antiga, talvez datada de uma era anterior àquela em que
estava vivendo.
Tomou nas mãos o que parecia
ser uma relíquia marítima, examinando detidamente seus contornos, se admirando-se
de que, internamente, ela possuía uma transparência que refletia uma luz verde
clara mesmo não portando nenhuma tampa. Cautelosa, sentou-se em uma pedra cheia
de limo que estava na beira do caminho, com a intenção de entender e
interpretar o achado.
Vanisa sentiu um pulsar
estranho em todo o corpo quando resolveu focar seus sentidos, seus olhos e seu
coração naquele objeto com aparência estranha: afinal, ele havia migrado do
fundo do mar para se colocar à vista neste caminho deserto e mais oculto da
vila. Sentindo uma vertigem a Princesa
do Mar interpretou o conteúdo da garrafa como sendo um vácuo que renovava sua
alma antiga, e a branda sinergia da natureza
marítima, à qual havia sido guindada por seus ancestrais.

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