quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Vanisa e Seus Ancestrais - Contos do Mar

 


Nos últimos tempos, Vanisa intuiu que existe em seu espírito uma energia diferente, um impulso alegre desde que o dia começa até quando termina. Quase sempre, ao trilhar os caminhos lúdicos que a levam até a aldeia, sente um leve arfar no coração e, lá chegando, observa o brilho dos aldeões na sua passagem, mesmo que eles se mantenham distantes. Ela não se aproxima, mas oferece a todos um largo sorriso, uma simpatia inerente à sua figura e seus grandes olhos azuis distribuem silenciosamente o afeto resguardado, pressentindo que, pressente, que em algum momento, as coisas poderão ter outro tom, mesmo que agora pareçam avançar lentamente.

O dia estava morno, com uma densa maresia cobrindo os montes, levando-a a buscar um xale tricotado pelas artesãs, suas vizinhas, o que a confortou termicamente e também acolheu sua alma ainda fria. Mesmo andando com calma, por qualquer motivo apressou o passo ao passar pelo caminho que possui densa vegetação na sua borda por ser um lugar mais isolado e longe do mar. Depois de dar os primeiros passos tropeçou em uma garrafa vazia com feição muito antiga, talvez datada de uma era anterior àquela em que estava vivendo.

Tomou nas mãos o que parecia ser uma relíquia marítima, examinando detidamente seus contornos, se admirando-se de que, internamente, ela possuía uma transparência que refletia uma luz verde clara mesmo não portando nenhuma tampa. Cautelosa, sentou-se em uma pedra cheia de limo que estava na beira do caminho, com a intenção de entender e interpretar o achado.

Vanisa sentiu um pulsar estranho em todo o corpo quando resolveu focar seus sentidos, seus olhos e seu coração naquele objeto com aparência estranha: afinal, ele havia migrado do fundo do mar para se colocar à vista neste caminho deserto e mais oculto da vila.  Sentindo uma vertigem a Princesa do Mar interpretou o conteúdo da garrafa como sendo um vácuo que renovava sua alma antiga,  e a branda sinergia da natureza marítima, à qual havia sido guindada por seus ancestrais.

 

 

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