Os ventos uivantes dos últimos tempos estão em plena atividade, fazendo de conta que não perceberam que o relógio do tempo andou para a frente e que já não é mais hora de enregelar os ossinhos dos idosos, tirar da caminhada quem necessita respirar, esconder os botões de rosa na brotação tardia e varrer todo dia as sementes – deitadas ontem mesmo – em solo fértil capinado com capricho, para germinar deixando o trono da Primavera vazio.
Impulsiva e contrariada, andei pela casa abrindo algumas frestas – já na madrugada –, aguardando que os ares do frio penetrem por elas, indo se acomodar nos meus ombros e nas minhas costas, me impelindo a dobrar meus cobertores sobre meu corpo. Estarei de tocaia, porque assim que a invasão acontecer vou fazer funcionar meu fogão a lenha, a estufa no banheiro, um lampião na despensa e o gato e o cachorro escondidos embaixo da mesma cadeira.
Esta ação intempestiva vai neutralizar os desejos inconsequentes do inverno, que se compraz espalhando os confortos e as delícias da estação fria, quando todos, cansados do torrão solar do verão, correm afoitos para abrir seus baús e retirar seus agasalhos, suas botas e seus gorros. Os campos se enfeitam com a geada e a neve; as brincadeiras lúdicas resfriam o corpo e a mente.
Acho que o inverno foi acometido de uma falha geológica que foi disparada pelo clima, o qual não analisou as consequências, deixando de lado a população que mora embaixo da terra e que, em seu momento mágico de se transformar em alegria e cor, foi barrada já na valeta do campo, aqui em frente. Acredito que deixarei minha casa com as frestas, janelas e portas abertas na esperança que ele se recuse a cumprir ordens da geografia.

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